“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Risórios-de-santorini

Quando era pequena, era uma menina tímida, com covinhas na cara quando sorria e sempre agarrada à saia da Mãe. Com a idade, as covinhas foram desaparecendo e, agora, são quase imperceptíveis, como se pode ver na fotografia à direita.

Segundo o senhor Ulme, tenho razões para ficar preocupada. Já não sou tão adorável, como em criança, o que não me espanta, mas será que quando crescemos nos tornamos, infelizmente, menos humanos?

Estou seriamente preocupada com essa possibilidade.

“-Como é ela? […]

-Tem covinhas na cara.

-Os risórios-de-santorini. Saiba que é um músculo que nem todos os homens têm, um músculo devotado ao riso, só serve para isso. Quem tem covinhas tem risórios-de-santorini, quem não tem covinhas poderá ter ou não. […] estamos a falar de um músculo dedicado ao riso. Ora, como disse Samuel Lieber, o ser humano é o único animal que ri, apesar da taxa de desemprego. E se somos o único animal que ri, então os seres humanos com covinhas devem ser ainda mais humanos, e deve ser esse o motivo do fascínio que essas expressões nos provocam, esse desejo insano de nos apaixonarmos por quem tem esses acidentes na cara. “


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Bolo de iogurte marmoreado

Com as crianças ainda de férias, a alegria, as corridas, os mergulhos, as gargalhadas que só eles dão, continuam.

Continuam também os lanches junto da piscina.

Este bolo é rápido e simples de fazer.

120g de açúcar mascavado

50g de manteiga + 20 ml de azeite

4 ovos

1 iogurte natural

120g de farinha de trigo +100g de farinha integral

1 colher de chá de fermento

100g de chocolate em barra com 80% de cacau

1-Bater o açúcar com as gorduras até obter um creme liso.

2- Juntar os ovos, um a um, batendo sempre.

3- Adicionar o iogurte, a farinha e o fermento.

4- Retirar 1/3 da massa para outra tigela e envolver o chocolate derretido.

5- Colocar as duas massas (a clara e a escura) alternadamente, numa forma de bolo inglês, forrada com papel vegetal.

6- Deixar cozer 45 minutos a 180ºC e fazer o teste do palito, após esse tempo.

Não podia ser mais fácil e é sucesso garantido para um lanche entre mergulhos, com fruta ou duas colheres de iogurte grego.

No bolo da foto, decidi polvilhá-lo com sementes de cânhamo descascadas.

As sementes de cânhamo são muito ricas em proteínas e aminoácidos essenciais. Já as folhas e flores de cânhamo parecem ter outras propriedades que não aconselho…


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Nu

Joan Miró nasceu em Barcelona, em 1893, e descreve a Arte:

“O que importa é pôr a nossa alma a nu. Pintura ou poesia fazem-se como se faz amor: uma troca de sangue, um abraço total, sem nenhuma prudência, nenhuma protecção,…”

Alexandre O´Neill nasceu em Lisboa, em 1924, e creio que acreditava que só o humor nos pode salvar da mesquinhez do quotidiano. Talvez julgasse também que só o amor salva o ser humano da sua pequenez. Provavelmente, acreditava que o humor e o amor rimam muito para lá da fonética.

Em 1960, escreve “O amor é o amor”.

Descreve o sentimento de forma aparentemente infantil, mas na verdade caracteriza-o como sentimento absoluto: “o amor é o amor”. É para ser vivido em liberdade, “sem destino, sem medo, sem pudor”.

E como podemos reflectir sobre o que vem depois? Desconhecemos o futuro de um sentimento que ultrapassa o terreno humano e que toca o sonho – “Vamos ficar os dois/ a imaginar, a imaginar?…”

O amor é o amor

O amor é o amor — e depois?! 
Vamos ficar os dois 
a imaginar, a imaginar?… 

O meu peito contra o teu peito, 
cortando o mar, cortando o ar. 
Num leito 
há todo o espaço para amar! 

Na nossa carne estamos 
sem destino, sem medo, sem pudor 
e trocamos — somos um? somos dois? 
espírito e calor! 

O amor é o amor — e depois? 

Alexandre O’Neill, in Abandono Vigiado

Egon Schiele nasceu em 1890, na Áustria, e foi discípulo de Gustav Klimt. Explorou o corpo humano e, em 1917, pintou “O Abraço”.

Foi ousado e causou escândalo na sociedade vienense.

Também ele “pôs a alma a nu” ao pintar o amor.


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“A gosto”

Agosto inicia-se todos os anos vagaroso e desaparece com salto de lebre.

Não me conformo.

Desta vez, resolvi vivê-lo quase sem planos e demorei o mês inteiro para desacelerar.

No início de Setembro, prometo sempre voltar a respeitar o meu ritmo natural, mas já sei que em Outubro andarei, novamente, em alta rotação.

Desta vez, consegui estar na minha casa-ninho, na Figueira da Foz, e esquecer tarefas e outras responsabilidades por uns dias. Como parei, também sarei feridas de relações desavindas; amores desavindos com os outros e sobretudo comigo. São os que ferem mais.

Consegui focar-me, durante dias, exclusivamente na Beatriz e respirar o vento frio do Atlântico.

Consegui deitar-me no chão e olhar o céu.

Consegui passear em Coimbra com a Beatriz e mostrar-lhe a minha cidade-escola.

Fiquei muito feliz por perceber que o nosso país já não é o Portugal dos Pequenitos.

Consegui manter a calma e aceitar que o meu escritório se transformasse num famoso restaurante, por tempo indeterminado.

Consegui actualizar o álbum de retratos da Beatriz, enquanto as donas do restaurante me preparavam as mais coloridas refeições.

Não consegui que a Beatriz aceitasse o tédio e o aborrecimento como oportunidades para observar e descobrir o que a rodeia, mas não me dou por vencida.

Consegui rever amigos e jantar na Casa Havanesa, na Figueira da Foz, um lugar com muito significado para mim e onde se janta maravilhosamente.

Confirmei que a Terra Estreita é a minha praia preferida e consegui ler na toalha, pela primeira vez em oito anos.

Não estou a conseguir aceitar que o único mês “a gosto” do ano tenha terminado.

Bom reinício!


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Paisagens humanas

“Tenho sempre dificuldade em falar de um país somente pela sua paisagem, monumentos, gastronomia ou clima. Normalmente, a minha preferência recai sobre experiências humanas. Se conheci alguém interessante, se tive boas conversas, se fiz amigos, se trago histórias na mala. E, de facto, em vez de mostrar fotografias ou vídeos, é muito mais revelador partilhar um pensamento novo trazido de um país distante, tirar do bolso uma nova maneira de estar.”

Afonso Cruz refere o que traz da viagem; ou viagens, uma vez que já foi a mais de cinquenta países.

Eu fui ali à Noruega e trouxe experiências, “pensamento novo” e uma “nova maneira de estar”… para além de “histórias na mala”.

1- Se quisesse definir este país numa palavra, escolheria: silêncio.

Silêncio nas cidades, nos transportes públicos, nos quilómetros de neve.

Nesta fase da vida em que estou, foi o que mais estranhei, mas também o que mais apreciei.

Para os noruegueses, falar alto ou gritar, de maneira a incomodar terceiros, é uma forma rude de invadir o seu espaço. Não podia estar mais de acordo, embora seja um cuidado muito contrário à nossa cultura mediterrânica (basta cruzarmos a fronteira para conhecermos a verdadeira dimensão da estridência!).

Como as minhas costelas são todas mediterrânicas, embora me tenha agradado muito o sossego, julgo que, no quotidiano, os noruegueses são excessivamente contidos (em público). Um equilíbrio entre as nossas duas culturas seria, para mim, perfeito.

2- O individualismo existe, mas há um forte espírito comunitário: o cuidado com o outro, com o espaço e bem comuns é incrível, quer seja nos transportes públicos, nos jardins, nas esplanadas ou nos passeios. E, claro, o planeta é, indiscutivelmente, um espaço comum!

3- Na Noruega, é sempre um bom momento para ler um livro. Sempre. Trouxe essa ideia para a minha vida, sobretudo numa altura em que todas as pessoas massajam os telemóveis a cada segundo de espera (ou de ócio) e ler um livro em público se tornou um ato insólito e pretensioso.

Agora, leio ao sol e lembro-me muito de Natália Correia:

“Ó subalimentados do sonho!/ a poesia é para comer.”

4- Os transportes públicos são preferidos aos privados e são quentes, limpos, pontuais (11:59h, por exemplo, faz parte do horário e é escrupulosamente cumprido) e… silenciosos.

De facto, é um conforto termos como única preocupação absorver a paisagem, enquanto alguém conduz por nós.

5- As bibliotecas são centros culturais: são muito frequentadas, locais de encontro e tertúlia informal; há café, chá e almoço, poltronas, recantos, animadoras, bebés a gatinhar e não impera aqui a lei do silêncio.

Fico sempre a pensar nas nossas bibliotecas, injustamente abandonadas pela maior parte dos portugueses, mas com um potencial incrível.

6- Viajar com crianças obriga-nos a entrar num outro ritmo, Talvez no ritmo certo. Há sempre tempo para um lanche (ou dois ou três), para correr num parque, ter novas experiências, conversar com estranhos e reparar em pormenores.

7- Durante a viagem, a Beatriz confirmou que é uma menina todo-o-terreno, sempre pronta para novas experiências.

Ficou encantada com Bergen e está decidida a voltar aos 18 anos para estudar na cidade, tal como ouviu da menina francesa, universitária, que trabalhava no restaurante onde íamos jantar.

Eu juro aqui solenemente que não vou viajar com a minha filha para a Austrália; não vá ela ficar com a ideia de ir estudar para os antípodas. O meu coração tem certos limites…


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Viajante

As crises empobrecem-nos:

a carteira, os sonhos e o espírito.

Digital StillCamera
  Viajar leva-nos a outras geografias: do planeta e da nossa alma.

Observamos os outros e observamo-nos.

Regressamos e reencontramo-nos.

Portofino

Estas fotografias são do tempo em que fazíamos viagens anuais.

Digital StillCamera

São do tempo em que dizíamos:

-We have expensive taste, but no money.

Mas íamos e  descobríamos mercados locais inesperados.

Veneza mercado local

E roupa estendida na corda que nos recordava as nossas origens latinas.

Veneza roupa estendida

Agora, todos percebemos que nunca viveremos fora da “crise” que inventaram para nós e que o melhor é ir vivendo e viajando!

As memórias das viagens talvez sejam mesmo a melhor herança que deixaremos aos nossos filhos!

Assim, retomámos, aos poucos, o bom hábito, apesar da crise (já não nomeada), para que não nos esvaziem os sonhos!