“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Se eu fosse a ti

Segundo os últimos dados da DGS, o número de infectados continua a aumentar e, desta vez, o Alentejo não sai ileso. Não sei se é por isso, mas tenho sentido as pessoas muito mais tensas e com o modo conflituoso ativado.

Também pode ser porque voltei a trabalhar fora de casa, saí da minha doce bolha-lar, caminho pela rua e vejo mais seres taciturnos, irritadiços, impacientes e inquiridores.

Li que a pandemia irá prolongar-se no tempo e que os cuidados a que estamos obrigados agudiza os espíritos potencialmente neuróticos.

O vírus assusta-me, mas também tenho medo de ser atingida por esta neurose social.

Para já, noto que, contrariamente ao que eu julgava no início da pandemia, estamos a perder a empatia e o sentido de humor.

Será porque estamos literalmente amordaçados e deixámos de ver o sorriso do outro?

Será que a falta de abraços está a afectar irremediavelmente a nossa saúde mental?

Há muito tempo que não ouço uma gargalhada fora de minha casa. Gritos coléricos vindos da rua, infelizmente, tenho ouvido com alguma frequência.

Juan Vicente dá-nos instruções para atravessarmos o deserto do mundo.

E dá-nos uma chave: o humor.

Se perdermos essa habilidade, perderemos uma grande parte da nossa capacidade de resistir e uma das nossas características mais humanas.

Se Eu Fosse A Ti

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum “mas” a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.

Juan Vicente PiquerasInstruções para Atravessar o Deserto

Fotografias de mergulhos: IGNANT.


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O pânico é o abutre que se senta no teu peito

Não sei quando voltaremos a sair livremente.

Estamos presos nos concelhos, em casa e, sobretudo, num espaço psicológico de opressão, desconfiança e medo.

Alguns estão pior: ficaram confinados em espaços interiores de moralismo, intolerância, policiamento, agressão, condenação e delação. Sinto profunda piedade por estes últimos, mas tenho por hábito conservar uma distância muito superior a 3 metros de mentes tóxicas .

Não saberemos tão cedo se há motivos reais para “os vários aprisionamentos” a que temos sido sujeitos.

Julgo que só daqui a dez anos vislumbraremos alguma luz. Por agora, cada um tem as suas motivações, teorias e certezas.

Tem sido assim em todos os tumultos históricos: muito mais tarde, descobrimos parte da enorme encenação que nos contaram.

Neste milénio, recordo-me do que aconteceu durante a sanguinária invasão do Afeganistão (mais de 30 mil civis afegãos mortos – BBC) ou da obscena demolição do Iraque (e as armas de destruição maciça que nunca apareceram!?).

Vou vivendo com o cuidado e com a serenidade possível.

Tento não cometer muitos atos de desobediência civil (apesar da minha natureza insurrecta), mesmo quando vejo que muitas das medidas são de natureza política e aleatória.

Faço um esforço enorme para não me envolver demasiado na narrativa atual. Não tenho a pretensão de saber onde está a verdade, nesta altura em que todos são cientistas de bancada, mas já vivi o suficiente para não ser totalmente crédula.

Juan Vicente Piqueras escreveu “Instruções para sair do deserto”.

Os desertos que mais me preocupam são, sem dúvida, os interiores; esses que estão a crescer dentro de nós: os que nos impedem de empatizar e solidarizar; os que nos impelem a atacar e culpar ferozmente “os outros” por uma pandemia mundial.

Desses desertos temos de sair a todo o custo, distinguindo bem as “gaivotas dos abutres”.

De outra forma, perderemos a nossa humanidade, dividir-nos-emos, enfraquecer-nos-emos e só sobreviverão os necrófagos. Esses, impiedosos que são, não nos deixarão os ossos!

Para sair deste íntimo deserto
é preciso saber que não tem saída.

Esperar, caminhar, desesperar,
cultivar a paciência até perdê-la
quando todo tu sejas já pura paciência.

É preciso sentir que o deserto és tu mesmo,
recordar com irónica ternura
aqueles dias só agora felizes
em que tivemos fé nas miragens.

Já não há mais coração do que aquele que ardeu.

Não há maneira nem água nem amanhã
nem oriente nem ocidente. Não há estrelas
que te digam onde, que te indiquem
messias ou saídas que não existem

até que um dia encontres diante de ti

as tuas pegadas de outros anos e

compreendas que chegaste ao teu passado

que já estás onde estavas

que morrerás de sede

Olha na areia as sombras dos abutres que julgavas gaivotas”

A imagem é do blog sempre inspirador IGNANT.

O título do post é uma frase do livro O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, de Ana Margarida Carvalho.


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Reinventar

Depois de ter lido que a indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo e após ter refletido acerca das minhas compras impulsivas, desafiei-me a abster-me de comprar roupa durante dois meses.

A expressão é própria das dependências, mas o facto é que comprar roupa bonita é viciante: definitivamente, não é por necessidade que compramos o nosso sétimo casaco ou o quinto par de botas.

Cumpri o desafio. Espero que sejam apenas os primeiros dois meses, mas não avanço promessas.

Estive muitas vezes prestes a cair em tentação, confesso, mas mantive o foco nas minhas reais necessidades.

Continuo a visitar o Pinterest e a tentar combinar de forma diferente o que já tenho.

Fiz bainhas a algumas das minhas calças e dobrei outras para um ar mais moderninho.

As camisolas de lã de qualidade são sempre uma aposta segura e pode ser que compre uma (só uma!) nos saldos.

Enquanto isso, vou usando as que tenho, inspirada nesta simplicidade que nunca falha.

Este twin-set da Mango provocou-me muitas vezes…

Estes sobretudos fariam furor no meu roupeiro, mas vou passeando todos os outros que esperam a sua vez para se exibirem em Estremoz.

A esta cor de casaco talvez não resistisse…

Gosto da ideia de conjugar saias mais leves de Verão com camisolas de malha. Neste caso, só é preciso procurar no armário das roupas de Verão e seguir…

Os sapatos Oxford também podem voltar. Tenho dois pares no fundo do armário, tristonhos, há uns anos.

Votos de um Inverno muito sorridente!

Comprometo-me, agora, com muito mais seriedade, a manter os meus amigos bem mais perto do que no miserável ano que passou! Preciso muito deles para me manter equilibrada e firme nos meus desafios verdadeiramente importantes!


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Sapiens: tirano ou cuidador

 Yuval Noah Harari, professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu, em 2014, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade.

Em 2020,  surgiu a novela gráfica, como resultado da parceria entre o autor Yuval Harari, o escritor David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casaneve.

O livro narra a evolução do Homem desde a pré-história até à atualidade e explica de que modo este ultrapassou as restantes espécies e os outros membros da família sapiens.

Este salto para o topo do ecossistema foi tão precipitado que nem tivemos tempo para nos ajustar.

Talvez este nosso “novo-riquismo” hierárquico explique os nossos tiques tiranetes em relação às outras espécies.

Sempre me questionei acerca desta nossa sede pungente de domínio sobre a flora, a fauna e, surpreendentemente, até sobre os outros seres humanos. Este livro deu-me uma pista para a sofreguidão humana de esmagar o outro.

“Há pouco tempo, éramos animais insignificantes no meio da cadeia alimentar. Depois, de súbito, saltámos para o topo. Talvez demasiado depressa. Aos leões, às águias e aos tubarões, chegar gradualmente ao topo da pirâmide levou milhões de anos.”

“Este processo gradual permitiu que o ecossistema se autorregulasse, impedindo que os leões e os tubarões lançassem o caos. À medida que os leões se tornaram mais mortíferos, as gazelas tornaram-se mais rápidas, por exemplo.”

Mas a humanidade saltou tão rapidamente para o topo que o ecossistema não teve tempo de se ajustar.

Nem os próprios humanos.

Os outros animais, que estiveram durante milhares de anos no topo do ecossistema, exibem um aspecto físico imponente e cheio de dignidade; vejamos os casos do leão, do lobo, do tubarão ou da águia.

Já o sapiens

“Não há muito tempo, nós éramos os pés rapados da savana. Os nossos primeiros instrumentos foram usados para rapar os restos deixados por leões e hienas. Este facto ajuda-nos a compreender a nossa história e a nossa psicologia.”

Individualmente e enquanto espécie, já é tempo de nos tranquilizarmos com o “posto” conquistado.

Não sei se Yuval Harari estaria de acordo, mas julgo que somos uma espécie que deve a sua sobrevivência ao facto de termos sido (e sermos), mais do que déspotas, diligentes cuidadores.

Se pensarmos bem, nenhum de nós cá estaria se não nos tivessem zelado, nos primeiros tempos de vida.

Ao contrário dos outros animais, não caminhamos, não nos alimentamos sozinhos, nem temos capacidade de defesa, após dias, semanas ou meses de vida. De facto, ficamos em total dependência relativamente aos nossos progenitores (ou outros adultos) pelo menos uma década. Quero acreditar que não é por acaso que essa dependência, no início da vida, sucede entre os humanos…

Surpreendentemente, esquecemos essa dádiva e ignoramos a grandiosa lição de generosidade milenar que experienciámos: todos somos cuidadores ou fomos cuidados. Que paradoxo! Crescemos e tornamo-nos predadores vorazes e soberbos!

O livro de Yuval Noah Harari, de forma divertida, coloca em cima da mesa muitas questões científicas, mas também filosóficas. O autor, muito sabiamente, realça que “as questões éticas e filosóficas têm sempre um lugar central nos seus livros. Não vale a pena escrever História se nos esquecermos da dimensão ética.

Editora: ELSINORE.


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Tu

No último episódio de uma das minhas séries favoritas, Years and Years, a matriarca (interpretada pela fantástica Anne Reid) faz um discurso incrível no dia de Natal, para espanto e desconforto dos membros da família… e dos espectadores da série.

O tom pode ser interpretado como culpabilizante, mas talvez uma nonagenária já tenha o estatuto de nos apontar o indicador.

Eu considero o discurso responsabilizante.

Somos cidadãos e temos de activar o nosso modo interventivo, sob pena de que a nossa demissão alimente um sistema ainda mais corrupto e desumanizado. O nosso poder tem de ser exercido nas nossas decisões, escolhas e exigências diárias, assim como no processo eleitoral.

De outro modo, tudo pode acontecer:

“É tudo culpa vossa! Os bancos, o governo, a recessão, os políticos medíocres!

Vocês têm a culpa de tudo o que correu mal. A culpa é de cada um de nós…

Podemos ficar aqui todo o dia a culpar os outros. Culpamos a economia, culpamos a Europa, a oposição, a metereologia, os grandes acontecimentos da História; dizemos que tudo está fora de controlo e que estamos desprotegidos, pequenos e frágeis, mas nós é que somos os culpados. Porquê?

Vejam o caso da t-shirt que custa uma libra. Nós não lhe resistimos. Nenhum de nós lhe resiste. Achamos uma pechincha e compramos. Sabemos que não tem qualidade, mas serve. O dono da loja ganha 5 míseros pence por ela. O pobre camponês, no campo, ganha 0,01 pence. Nós achamos que esta situação é correta, concordamos com ela, todos nós: damos o nosso dinheiro e participamos neste sistema durante toda a vida.

Tudo começou a correr muito mal, nos supermercados, quando substituiram as pessoas que nos atendiam por caixas automáticas. Não gostámos, mas não protestámos, não escrevemos no livro de reclamações, não mudámos de supermercado; conformámo-nos! Agora todas as pessoas que trabalhavam nas caixas foram despedidas e nós permitimos que isso acontecesse. Hoje, até gostamos, porque pagamos e não temos de olhar ninguém nos olhos, não temos de olhar para a pessoa que ganha menos do que nós.

Temos culpa, sim. Este é o mundo que construímos.

Parabéns!”

A avó alerta-nos ainda para os políticos polémicos, disruptivos e irracionais:

“Tenham cuidado! Livramo-nos de uma aberração política e acorda outra, imediatamente, dentro da caverna.

Cuidado com os políticos engraçadinhos, corruptos e palhaços. Riem-se e levam-nos ao inferno.”

É impossível ouvir estas palavras e não pensar em Trump ou Bolsonaro ou num outro Ventureiro aqui entre portas.

Os votos de Feliz Natal costumam ser ligeiros e delicados, mas este Natal não é como os outros.

Vou aproveitar a pausa e o isolamento profilático que me calhou para reflectir sobre o mundo que quero deixar, como presente, aos mais pequenos.

Temos vários exemplos de seres humanos que fizeram a diferença.

Acabei de ver Snowden, um homem que denunciou o sistema de escutas americano: o mesmo que invadiu tranquilamente os nossos computadores, leu os nossos emails e sms e accionou a câmara do nosso computador pessoal, sem necessidade de qualquer autorização prévia. Snowden está, desde 2013, refugiado na Rússia… mas a lei americana foi alterada, em consequência da sua acção.

Definitivamente, não somos todos feitos da massa dos heróis, mas o meu objectivo de vida é, pelo menos, distanciar-me dos vermes e deixar clara a minha repugnância por quem os segue.

Preciso de biografias inspiradoras, ainda que estas sejam frequentemente silenciadas, em nome de uma ideia de segurança, de saúde e de bem-estar comum que nos pregam.

Se não é essa a inspiração que nos guia, não sei bem por que razão andamos a celebrar todos os anos o nascimento de um homem absolutamente excepcional.

Feliz Natal!


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Ficção

A melhor ficção actual está nos livros, mas também nas séries de televisão.

Resisti muito a esta evidência, presa aos meus preconceitos intelectuais.

Não vi muitas séries, nem pretendo ver, porque o tempo não é elástico e não posso correr o risco de ficar sem disponibilidade para a leitura, mas já descobri três incríveis.

1- Chernobyl

Uma série dividida em cinco partes, baseada no terrível acidente nuclear de Chernobyl de 1986, com todos os meandros políticos e pessoais chocantes que (nem) imaginamos. Tão perfeita a todos os níveis que fiquei com a sensação de estar a assistir a um incrível documentário.

2- Years and Years

Com Emma Thompson. Não é preciso dizer mais, mas ver a Emma Thompson como André Ventura, em versão “à solta”, revista e aumentada… e Primeiro Ministro é aterrador. Só a Emma Thomson para fazer esta figura terrivelmente sublime!

Assistimos, em poucos episódios, ao passar dos anos nas próximas décadas.

Tudo o que nos ameaça e preocupa, hoje, concretiza-se e vive-se numa distopia (in)esperada:

  • as alterações climáticas levam mesmo a chuvas diluviais e à subida da orla costeira de muitas cidades europeias, há desalojados de todas as condições sociais e de todos os países; procuram entrar na Grã-Bretanha muitos refugiados políticos desesperados; assistimos a ataques terroristas com armas químicas; temos direito a uma pandemia mais mortífera do que a que vivemos actualmente; a vitória de partidos de extrema direita leva à eliminação de direitos básicos nas democracias que conhecemos, os homossexuais são perseguidos; os jovens desenvolvem bizarras obsessões cibernéticas, …

Esta série é um alerta poderoso para o que nos pode acontecer, no futuro, se não agirmos, no presente.

3- A Casa de Papel

Quem é que nunca sonhou em roubar um banco, dar um estalo ao capitalismo e ainda ter dinheiro para viver no paraíso, sem prejudicar outro comum mortal?

Mais do que o assalto perfeito à Casa da Moeda de Espanha, este bando assina um manifesto político. Adrenalina, humor, intervenção e sensualidade em doses bem altas.

Vi outras séries com interesse:

  • Ozark: uma série formalmente irrepreensível; retrata a vida de uma família comum que se envolve com um cartel de droga mexicano. Violenta e viciante, conta com as atrizes Laura Linney e Lisa Emery.
  • Normal People: a série que eu deveria ter visto quando tinha vinte anos.
  • Dietland: e se deixássemos de questionar o nosso corpo? E se fossem os homens a aparecer objectificados nas capas das revistas? E se as mulheres deixassem de ter medo de andar, na rua, sozinhas à noite? Para isso era preciso que acontecesse uma revolução! Acontece, nesta série. O feminismo continua a ser um movimento pacífico, mas há um grupo armado de feministas que espalha o terror entre os homens abusadores.


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Casa de Outono

Estamos novamente confinados em casa.

Volto a olhar para as minhas paredes e renova-se a vontade de reformular e aconchegar o lar.

Entre o estilo boémio e o minimalismo escandinavo, sempre preferi o colorido mediterrâneo.

Mas, enfim, com a idade começo a depurar-me e a necessitar da organização nórdica na minha vida. Pelo menos em casa…

Continuo a gostar da cozinha com prateleiras, mas agora privilegio a possibilidade de arrumar/esconder e deixar as bancadas livres para os imprevistos culinários. É muito mais prático que estes aconteçam sem terem de pedir licença às mil coisinhas que por lá estacionam.

Não sei se há uma explicação psicológica, mas o meu lado étnico e folclórico está, definitivamente, a empalidecer e só consigo pensar em branco para o meu escritório. Tudo neste palácio estremocense demora a tomar forma mas, depois de uns quantos contactos com um novo carpinteiro e muitas visitas virtuais ao IKEA, talvez leve mesmo a depuração branca a outro nível.

A sala de estar pode ser uma toca menos branca mas, ainda assim, monocromática.

Também pode ser branca…

Os pormenores das velharias e dos livros são para manter, claro, bem espalhados pela casa.

Os quartos ainda precisam duma cara de Outono.

E estas casas de banho incríveis?

Só têm de estar muito quentes.

O aquecimento em casas seculares é um problema grave e estou a pensar seriamente em soluções radicais. Não necessariamente brancas, embora estas caldeiras sejam incríveis.

Ainda não retirei toda a mobília de Verão do terraço e é mesmo o momento mais triste do Outono. Estou a pensar deixar uma cadeira e espreguiçar-me ao sol com uma manta quente para apanhar vitamina D… e limpar a mente de maus humores.

As imagens foram roubadas a vários sites, mas dado o allure do momento, tenho andado muito pelo blog My Scandinavian Home.


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Menos

A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo.

A primeira é a petrolífera.

Fiquei com a minha consciência ecológica muito inquieta, ao ler esta notícia.

“Uma t-shirt produzida a partir de algodão convencional gasta 2700 litros de água, o equivalente ao consumo médio por pessoa durante dois anos e meio.”

Como faço a separação do lixo, consumo pouca carne, privilegio alimentos de produção local e já não faço viagens diárias de carro, habituei-me a pensar que não é por minha causa que os recursos anuais da Terra se esgotam cada vez mais cedo. Nada mais errado.

Há um consumo desmedido de roupa no mundo ocidental: as colecções de fast fashion são lançadas de 15 em 15 dias (o factor novidade incrementa as compras!), o que implica emissões descomunais de gases, consumo de água e outros recursos naturais (e humanos) astronómicos!

Estranhamente, só quando comecei a ter de organizar o meu quarto de vestir é que vi o disparate de roupa e calçado que tinha espalhado em vários armários. Demorei semanas a seleccionar e doei montanhas de peças.

Acumulei, durante anos, sem pensar, e o facto de comprar muito em outlet aliviava-me a consciência.

O advérbio “muito” arruina qualquer equação…

Obviamente que comprar mais do que o razoável, para além de ser um sinal da minha vaidade, também reflecte um desajuste em relação às minhas verdadeiras necessidades, ou pior, uma fuga das minhas reais necessidades.

Há uns meses, senti necessidade de fazer uma pausa.

Coincidiu com esta paragem global que fomos obrigados a fazer, mas a verdade é que, apesar de todos os perigos exteriores, interrompi o ritmo frenético em que andava e foquei-me no que preciso para ser feliz.

Definitivamente, não preciso de tanta roupa…

Acabei de lançar um desafio a mim própria: não comprar qualquer peça de roupa ou acessório (para mim ou para a Beatriz) durante dois meses. Pode parecer pouco para quem é contido, mas para mim é uma mega aventura.

É verdade que andamos semi-confinados e o apelo das lojas físicas não é evidente, mas ainda assim o desafio é muito válido. As compras online impuseram-se, por aqui, desde Março…

O outro desafio consiste em ser suficientemente criativa e reinterpretar a roupa que já tenho. É mais do que suficiente. A minha Mãe que o diga…

Tenho andado mais pelo Pinterest do que por lojas online e estas imagens são da minha nova diva, Emanuelle Alt, a quem não falta roupa… Espero, no entanto, que me inspire a reinventar, com pormenores como os cintos ou combinações mais improváveis.

Uma inspiração da editora da Vogue parisiense para me levar a consumir menos? Não deixa de ser irónico, mas tanta incoerência pode ser que resulte.

Quero ser mais livre, mais equilibrada e ter mais dinheiro para fazer o que realmente gosto: organizar a minha casa, conviver com os que amo e passear com a Beatriz.

Para já, pretendo fazê-lo num raio geográfico apertado, mas este bicho não há-de infernizar-nos para sempre.

Ficam as dicas de Emanuelle Alt, válidas para ser designer de moda… ou para viver melhor:

1- Be funny!

2- Be creative!

3- Be on time!

4- Work hard!


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Galdéria

«Se a Língua Portuguesa fosse uma personagem, o que seria? Uma cortesã, uma concubina, uma galdéria?
Uma galdéria, disso não tenho dúvida. Andou por todas as camas: a galega, a castelhana, a francesa… E saiu delas mais fresca que nunca.»

Fernando Venâncio responde com graça à pergunta provocatória da jornalista Joana Marques, sobre as diferentes influências que a língua portuguesa sofreu.

A nossa língua começou a sua “odisseia” pelos anos 600 e teve um percurso rico e incrível.

No entanto, o que eu não sabia é que o Português, como língua diferente do Galego, começa a tomar corpo apenas por volta de 1400; até aí falávamos… Galego.

Fiquei surpreendida, porque sempre li que falávamos “galaico-português”, antes desse ano. Julgava que a nossa lírica trovadoresca estava escrita em “galaico-português”. É verdade que nunca tinha pensado profundamente na denominação e associei-a à área geográfica que abrangia: as margens norte e sul do Rio Minho.

Fernando Venâncio acrescenta:

« [o galaico-português] é uma história mal contada. Uma história à nossa medida, para nos tranquilizar. A língua em que a lírica chamada «galaico-portuguesa» foi escrita foi, sem sombra de dúvida, o galego. Por esta razão simples: o português ainda não existia, e só seria criado, como tenho vindo a lembrar, no século de Quatrocentos. Quando, em 1290, um ensaísta catalão enumera as grandes línguas poéticas da altura, fala no “galego”. E importaria recordar que as expressões “língua portuguesa” e “português” só aparecem, entre nós, nos anos de 1430, quando as correspondentes castelhanas já circulavam dois séculos antes. Só que, no momento em que essa lírica regressa à luz do dia, ao longo de Oitocentos, ninguém em Portugal admitiria que se dissesse estar em “galego”. O que não seria nada do outro mundo, visto quase todos os seus autores serem galegos. É então, isto por 1880, que se inventa a etiqueta “galaico-português” e, de caminho, se inventa o “galego-português” como idioma. A grande filóloga Carolina Michaëlis de Vasconcelos ainda tenta chamar ”galego” à língua das cantigas, mas acaba por render-se às susceptibilidades portuguesas.»

A língua portuguesa não pára de surpreender-me, quer enquanto instrumento de trabalho, quer de prazer.

Não me ofende que tenha derivado do Galego (que por sua vez derivou do latim vulgar, que por sua vez derivou do indoeuropeu,…). Não sou tão pudica que me melindre com o facto de ela ter dormido prazenteiramente, mais tarde, com o latim erudito, com o francês, com o inglês e com as línguas índigenas dos novos continentes.

Não sou purista ao ponto de não me encantar com o Português adocicado dos youtubers brasileiros que a Beatriz me apresenta. Apesar da estridência que regra geral os acompanha, ouço uma língua com um vocabulário mais rico e rebuscado do que aquele que nós usamos e confirmo que ninguém é dono da língua. Muito menos nós, portugueses: somos apenas 10 milhões de falantes perante os 240 milhões que se deitam todos os dias com esta bela galdéria.

Definitivamente, é melhor abrirmos a cabeça e iniciarmos uma relação poliamorosa!

Fotografias do francês Laurent Castellani, um fotógrafo que sofre de agorafobia e que nos proporciona grandes viagens através da sua obra.


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Poder

Há uma forma infalível de dominar um povo: instigar o medo.

Há outra maneira subterrânea de controlo: suscitar a culpa.

Não sei se é devido à nossa longa tradição católica, mas os governantes portugueses, ao longo da História, mostraram-se peritos em agrilhoarem-nos, explorando estes dois poderosos sentimentos.

Recentemente, em 2008, quando o mundo sofreu uma crise financeira internacional, iniciada nos Estados Unidos (e secundada na Europa), os nossos governantes tiveram o desplante de nos culpar. Ouvimos vezes sem conta o célebre chavão: “vivemos acima das nossas possibilidades!”

Foram negócios planetários ruinosos, mas o povo lusitano, que nunca viveu no luxo, viu-se de repente com o ônus da culpa, pela falta de crédito que assolou o mundo.

Como consequência da “nossa culpa”, veio o castigo e o medo de que o nosso país fosse à falência: sistema bancário, segurança social e os ordenados dos funcionários públicos estavam em perigo (disseram-nos…).

Como sempre fomos uns grandes comensais, libertinos ociosos (e outros mimos que foram ditos pelo nosso tão amigo ex-Presidente do Eurogrupo), ordenaram-nos que “apertássemos o cinto”, e sem sermos “piegas” disse o ilustre Passos Coelho. Os “senhores que mandam nisto tudo” estavam zangados connosco, com o nosso despesismo e enviaram-nos os engravatados do FMI. Emprestaram-nos dinheiro, pela terceira vez em democracia, mas fizeram-nos pagá-lo com muito desemprego e mais pobreza.

Em 2019, chegou a pandemia e o medo foi, novamente, alardeado.

Com o medo a dominar-nos há vários meses, o Primeiro-Ministro lembrou-se de que nos faltava a culpa.

A segunda vaga, absolutamente esperada em qualquer pandemia, é culpa dos portugueses: somos nós que somos desleixados e precisamos de um “abanão”.

O Primeiro-Ministro disse que precisamos de um “abanão” ou reguadas por mau-comportamento? Será outro conselho da sua perspicaz vizinha?

Um governante é eleito para tomar decisões, com base nas mais recentes vigilâncias epidemiológicas, não para justificar as medidas que considera necessárias com paternalismos desrespeitosos.

A segunda vaga era esperada desde Março. É, portanto, uma afronta acusar os portugueses (que têm sido, no geral, muito cumpridores), quando o próprio não robusteceu o Sistema Nacional de Saúde, não investiu em testes, não autorizou a redução do número de alunos por turma, não testou com regularidade os funcionários dos lares de idosos,… só para citar algumas medidas muito básicas que qualquer leigo, como eu, entende como indispensáveis.

Convém acrescentar que niguém tem culpa de adoecer. Contrair o vírus não é sinónimo de negligência (nem um castigo divino, ao jeito medieval); é apenas o risco a que se sujeita quem trabalha e… consequência de uma segunda vaga pandémica!

O poder seduz, embriaga e corrompe.

Os contextos de crise são especialmente perigosos e já potenciaram distopias muito reais.

Distopias demasiado próximas no tempo que inspiraram as ficcionadas.

Reler 1984, de George Orwell, talvez seja conveniente, neste momento.

A singular ideia de António Costa, de tornar obrigatória a instalação da aplicação StayAwayCovid, recordou-me esta obra-prima e esta associação é, por si só, arrepiante.

Perdi a minha inocência, enquanto cidadã, quando comecei a estudar História. Ler as distopias 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo , de Aldous Huxley e até A História de uma Serva, de Margaret Atwood, são os verdadeiros “abanões” de que precisamos.

Ainda bem que perdi essa candura civil, porque quem nos governa precisa de seres lúcidos e conscientes:

Artigo 21.º da Constituição: “Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.”

A distopia torna-se perigosamente real quando é a própria autoridade pública que nos “ofende”.

Fernanda Câncio, no dia 17 de outubro, refletiu sobre esta e outras questões.


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Doce pássaro

Geraldo Eustáquio de Sousa ou Letízia Lanz é uma lição de vida.

Sabemos tão pouco…

Temos menos de um século para aprender alguma coisa desta complexidade louca que nos rodeia e nos habita.

Declaro-me, por conseguinte, sem tempo para ouvir os enfadonhos (tão chatos!) que pensam que sabem tudo; os arrogantes e os seus primos paternalistas podem seguir sem parar. Os medrosos teóricos que gostam de apontar o dedo também escusam de se demorar por aqui; chegam-me os meus medos. Ai, e moralistas… distância. Até os moralistas Covid muito bem intencionados. Já não consigo!

Só quero ouvir e ler quem me traz lições por aquilo que é, faz e persegue.

Só quero os que me incitam a ser feliz.

Agora.

Sem mais adiamentos.

A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos

Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança
e sorrir e cantar e brincar e dançar
e vestir-se com todas as cores
e entregar-se a todos os amores
experimentando a vida em todos os seus sabores
sem preconceito ou pudor

Tempo de entusiasmo e de coragem
em que todo desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda a disposição de tentar algo novo,
de novo e de novo, e quantas vezes for preciso

Essa idade, tão fugaz na vida da gente,
chama-se presente,
e tem apenas a duração do instante que passa …
… doce pássaro do aqui e agora
que quando se dá por ele já partiu para nunca mais!