“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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O amor bate na aorta

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O AMOR BATE NA AORTA

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme do Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca,
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…

Carlos Drummond de Andrade

 

 


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Utopia portuguesa

Depois de ter lido sobre a utopia de Robert Owen, em Inglaterra, fiquei muito curiosa relativamente à utopia realizada por José Ferreira Pinto Basto (Porto, 1774 – Lisboa, 1839).

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Em Portugal, no século XIX, as circunstâncias históricas, políticas e económicas eram completamente diversas das inglesas. A industrialização tardou a chegar ao nosso país: a nossa actividade industrial era  predominantemente tradicional (ferrarias, tecelagem de lã, saboarias, indústria de seda, olaria, ourivesaria, chapéus, tapetes), e estava inserida num quadro rural.

Na primeira metade do século XIX, destacavam-se como centros industriais apenas Lisboa, Porto… e Ílhavo! A fábrica da Vista Alegre foi fundada em 1824 e veio a tornar-se a mais importante fábrica de porcelanas da Península Ibérica.

ilustradores-internacionais-prato-redondo-serge-bloch Vista Alegre

Quem era Ferreira Pinto Basto?

Era um grande proprietário de Cabeceiras de Basto e um comerciante de relevo no Porto. Era um homem viajado e esclarecido que conhecia a realidade da sociedade inglesa, nomeadamente no que concerne ao movimento industrial, e, mais concretamente, às experiências de Robert Owen em New Lanark.

Em relação à fábrica da Vista Alegre, foi necessário construir uma povoação para servir uma fábrica numa área em que não existia população; o que comprova que “o fundador teria em mente qualquer coisa realmente grande, inovadora, diferente”.

Na verdade, o espaço físico desta povoação foi sendo organizado de uma forma que claramente se assemelhava ao modelo das aldeias cooperativas preconizadas por Robert Owen.

No centro, existia um enorme terreiro à volta do qual foram construídas as instalações fabris, as oficinas, o teatro, a casa das merendas, a escola, a casa da administração e a primeira fase das casas dos operários.

Os primeiros habitantes da povoação foram vidreiros e ceramistas contratados pela fábrica e de proveniências muito diversificadas. Embora um grande número tivesse vindo da Marinha Grande, havia também pessoas de Lisboa, Oliveira de Azeméis, Porto, Coimbra, Valença, Viseu, Ovar e Castelo Branco.

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Entre 1826 e 1839, trabalhavam na fábrica entre cento e cinquenta a duzentas pessoas.

O bairro operário construído devia contar inicialmente com cerca de cinquenta casas unifamiliares. Os filhos dos trabalhadores casavam entre si, dando assim origem a uma comunidade muito especial.

“A reforçar o carácter filantrópico desta comunidade, quer Augusto, quer o seu irmão Alberto Ferreira Pinto Basto, foram padrinhos de diversas crianças, embora se fizessem representar na cerimónia. Esta família nunca deixou de figurar no cume da árvore hierárquica.”

Por outro lado, os cuidados de higiene e saúde foram uma preocupação desde a fundação.

Tentava-se evitar, a todo o custo, a propagação de doenças contagiosas, criando-se simultaneamente hábitos de higiene que melhoravam significativamente a qualidade de vida dos habitantes.

Não se pode esquecer que o século XIX foi a época das últimas grandes vagas de epidemias que dizimaram populações, sobretudo as mais desfavorecidas. A propagação era muito rápida, sobretudo por causa da mobilidade de soldados, marinheiros, feirantes e mendigos. A cólera era uma doença extremamente agressiva e devastadora, responsável por um elevado índice de mortalidade. Os seus efeitos eram potenciados pelas deficientes condições higiénicas das ruas e das casas, a utilização de água imprópria, ou a má alimentação. O mesmo sucedia relativamente à febre tifóide, à tuberculose e à varíola. A sífilis, embora muito raramente mortal, estava também muito generalizada no Portugal do século XIX. Esta doença era quase sempre associada à prostituição. Na verdade, o alcoolismo, o deficiente regime alimentar, a falta de educação física, a sífilis e a prostituição eram considerados, por muitos autores, os responsáveis pelo “definhamento da raça lusitana”.

Este contexto justificava quer as medidas de higiene quer as que visavam mudar os comportamentos. Era proibido andar descalço nas instalações da fábrica, as casas tinham de ser limpas pelo menos uma vez por semana e pintadas uma vez por ano. Era expressamente proibido ter animais em casa ou atirar lixo para as ruas. Os quintais deviam manter-se cuidados. Quanto aos comportamentos, os alcoolizados eram castigados, bem como os que “faltassem ao respeito” a uma senhora.

A qualidade da alimentação era fomentada através da cooperativa, onde se vendiam, a preços baixos, os produtos da quinta.

Ao longo dos anos, as condições de vida dos operários iam melhorando substancialmente, estando sempre muito à frente das vividas no seu tempo.

“Para distração dos habitantes, criou-se uma banda de música, também um teatro, onde representavam operários da fábrica que levaram a cena numerosas comédias e operetas, começando os principiantes por recitar poesias e monólogos.”

Outra aposta que me impressionou foi a que foi feita no âmbito da educação.
Em 1826, foi estabelecido, por José Ferreira Pinto Basto, um colégio com internato, com o objectivo de educar e formar, do ponto de vista profissional, mas onde também se ensinava a ler, escrever, aritmética, desenho, doutrina cristã e música aos aprendizes de ambos os sexos.

Na escola da Vista Alegre, era dada especial atenção ao ensino das artes decorativas – desenho, escultura e a pintura –, cultivando-se também o gosto pela música, canto e declamação.

Era ainda feito um recolhimento de órfãos. Relativamente a estes, os contratos de admissão de aprendizes referem as responsabilidades que a administração da Vista Alegre assumia com o seu sustento, bem como com a sua educação: “serem à minha custa vestidos, mandados ensinar a ler, escrever, e contar, comer, cama e isto todos os anos da sua aprendizagem” .

Convém lembrar que, em 1878, 82,4% da população mantinha-se analfabeta. Nessa altura, os alunos das escolas primárias do país, apesar de apresentarem uma proveniência social heterogénea, tinham predominância urbana e pertenciam geralmente às classes abastadas”. É neste quadro que temos de olhar a acção visionária de José Ferreira Pinto Basto!

Segundo Olga de Azevedo Almeida, “[…] a Vista Alegre pode considerar-se uma utopia realizada. Ela foi um espaço onde se conjugaram os interesses do seu mentor com uma clara melhoria de condições de vida para a totalidade dos seus habitantes. Uma solução foi encontrada e aceite por uma comunidade para problemas concretos. A Vista Alegre foi assim concebida para ser uma comunidade auto-suficiente, com uma quinta agrícola, uma cooperativa, uma corporação de bombeiros, uma cantina, uma escola, uma creche, um museu, uma equipa de futebol, uma banda de música. À semelhança de New Lanark, a Vista Alegre tornou-se um local de interesse turístico contando com cerca de 1100 visitantes em 1923.
Tinha companhia de teatro, moeda própria, uma capela, uma santa padroeira e até um exército! Não foi um sonho, nem um projecto, foi uma utopia realizada, pois resultou numa sociedade claramente melhor do que a do seu tempo.”

Esta utopia realizada impressionou-me muito.

No entanto, espanta-me o silêncio à volta de uma experiência desta dimensão no nosso país, e perturba-me como não há seguidores deste homem incrível: onde estão as pessoas capazes de conjugar o lucro com a evidente melhoria das condições de vida dos seus trabalhadores?

E, pasme-se, estamos a falar de uma iniciativa privada inovadora do século XIX, de pessoas que não deixaram de ser humanas e não deixaram de ver os outros como humanos… enquanto enriqueciam como qualquer empresário do século XXI!

Todos estes dados constam da tese de Olga Maria de Azevedo Almeida, Utopias Realizadas.

As imagens são da Vista Alegre, claro!

 

 


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Frascos

“A morning sky,

a particular perfume that you had once loved and that brings subtle memories with it,

a line from a forgotten poem that you had come across again…

I tell you, that it is on things like theses that our lives depend.”

Oscar Wilde

Escolher um perfume é muito mais do que escolher um aroma de que se gosta.

Quando tinha vinte anos, escolhia perfumes que me agradavam pelas suas notas olfativas, sem me preocupar se aquele aroma chocava ou não com a minha palpitação.

Dolce e Gabbana web

Dolce-and-Gabbana-Spring-2014-Ad

Dolce & Gabanna impunha-se na minha rotina diária e eu impunha-me na vida adulta e fortalecia-me, vibrando, plena de cores.

Dolce e Gabbana pub 2018

Cheirava a uma donna, enquanto os verdes vinte corriam vagarosos e tão cheios de luz.

Dolce e Gabbana ad 2018

Usei outros frascos, como Paris de YSL e Champs-Élysées de Guerlain.

Todos tão inebriantes e inspiradores das minhas aspirações a mulher poderosa, independente e viajada!

Aos 30 anos, fui conquistando o que procurava e fiz-me acompanhar de aromas mais sóbrios.

Continuei, todavia, fiel à mesma casa italiana, mas optei pelos One e Dolce.

Dolce e Gabbana 2014

Dolce e Gabbana 2015

Dolce e Gabbana 2015 ad

O perfume que escolhemos é a testemunha mais insuspeita das nossas escolhas diária e gosto de pensar que também as condiciona.

O perfume não é só um líquido; é também uma fantasia que nos acompanha.

É por isso que os anúncios de perfumes são sempre vibrantes!

Agora, numa nova fase da minha vida, abandonei os folhos, os estampados e tanto froufrou e iniciei uma forma de estar mais focada e minimalista.

O meu perfume acompanhou-me nesta nova jornada e fui para Zadig &Voltaire.

zadigvoltaire ad

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Gosto sempre de ter um número dois, para ir descansando do perfume favorito, mas desta vez o aroma e a fantasia proporcionada pelo marketing das marcas não estão a conjugar-se.

O novo perfume Zadig & Voltaire chama-se “Girls can do it”. Uma ideia excelente para uma feminista como eu… se eu fosse uma girl!

A casa Channel também me falhou com Gabrielle; gosto muito da actriz do anúncio, a Kristen Stewart, mas é uma miúda!

Ando, assim, tristonha, em viagens olfativas infrutíferas pelas perfumarias…

Afinal, um perfume é um companheiro que se leva para a cama e que nos veste fora dela.

Como respondia Marilyn Monroe à questão “O que usa para dormir?”:

_”Apenas duas gotas de Channel nº5!”

 

 


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A soma dos teus passos

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Preocupações naturais

Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.

José Miguel Silva

Imagens: IGNANT

 


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Persistir

O mês de janeiro é o mês de renovação, mês dos “ses”, do “talvez”, do “é possível”.

Devia ser um mês optimista.

Para mim, sempre foi um mês difícil, tristonho e cinzento: está um frio que não se aguenta e não há luz.

É um mês recolhido e contemplativo.

Ora toda a gente sabe que isto de contemplar muito o interior tem o seu preço, ficamos meditabundas a chinelar pela casa.

Carta a um filho

Como ninguém nos quer nesse estado em que nos dá para questionar e nada produzir, enchem-nos de néon, vibrações, barulhos e afazeres inúteis.

A estridência continua com notícias e polémicas fabricadas todos os dias para nos entreterem.

Este poema de Rudyard Kipling é para repetir baixinho e manter no pensamento durante todo o ano de 2019.

SE

“Se fores capaz de não perder a cabeça quando todos à tua volta

Perdem a deles e te culpam por isso,

Se fores capaz de  confiar em ti mesmo mesmo quando os outros duvidam,

Mas aceitando perguntar a ti mesmo se não terão um bocadinho de razão;

 

Se fores capaz de esperar sem deixar que a espera te canse,

Ou sendo alvo de calúnia te recusares a caluniar,

Ou sendo odiado não te deixares levar pelo ódio,

Sem te tornares sobranceiro, nem te perderes em palavras ocas;

 

Se fores capaz de sonhar, sem deixar que os sonhos te escravizem,

Se fores capaz de pensar, mas não cruzares os braços;

Se fores capaz de viver o Triunfo e a Desgraça

Tratando-os, a ambos, como os impostores que são;

 

Se fores capaz de suportar ver a verdade das tuas palavras

Deturpada por velhacos para a transformarem em armadilhas para os tolos;

Ou vendo as coisas a que dedicaste a vida, feitas em pedaços,

Te vergares para as reconstruíres com ferramentas já gastas;

 

Se fores capaz de juntar numa mão cheia todos os teus ganhos

E arriscá-los num “cara ou coroa”,

Perder e começar do zero

Sem nunca soltar um lamento;

 

Se fores capaz de obrigar o teu coração, o teu espírito e o teu corpo

A servirem a tua vontade mesmo depois de exaustos,

E assim manteres-te de pé quando já nada resta dentro de ti

Excepto a força que lhes diz: “Aguentem!”;

 

Se fores capaz de falar às multidões sem perder a virtude,

Caminhar com reis sem deixares de ser simples,

Se nem os teus inimigos, nem os teus amigos mais queridos te conseguem magoar,

Se todos os homens contam contigo, mas nenhum dispõe de ti;

 

Se és capaz de preencher o fugaz minuto

Com sessenta segundos vividos plenamente,

Tua é a Terra e tudo o que nela existe;

E – o que mais importa – serás um Homem, meu filho!”.

Mauro Evangelista ilustrou o poema de Rudyard Kipling e o livro já vive cá em casa há anos.

Carta a um filho capa

Não sei se alguma vez lerei o poema à Beatriz.

Penso que, quando tiver idade para entendê-lo, não vai estar muito disponível para ouvi-lo dito pela mãe.

Pode ser que um dia lho deixe em cima da cama…

 

 


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Uma utopia realizada

Na senda da utopia, li a tese de Olga Maria de Azevedo Almeida, Utopias Realizadas acerca de dois homens que concretizaram as suas utopias sociais: Robert Owen, no País de Gales, e José Ferreira Pinto Basto, em Portugal.

Foram utopias “paternalistas”, mas provaram que é possível concretizar utopias e melhorar substancialmente a vida de uma comunidade.

Uma utopia paternalista parte de um indivíduo “benevolente e exterior” ao grupo (social ou profissional) que idealiza uma forma de melhorar a vida de uma comunidade que considera infeliz. “O termo paternalista não tem de ser pejorativo, uma vez que o consentimento para estas utopias existirem é essencial”.

Na verdade, no contexto do século XIX, não sei se seria possível criar uma utopia mais igualitária…

Aliás, será possível, em qualquer altura da história da humanidade realizar uma utopia igualitária e universal?

Talvez a redação da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, em 1948, seja o mais próximo que conseguimos estar dessa ideia.

Precisamente devido a essa consciência da nossa impotência, fiquei tão impressionada com estes dois utopistas, Robert Owen e José Ferreira Pinto Basto.

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Em que contexto agiu Robert Owen?

Em plena Revolução Industrial, no séc. XIX, quando surgiu uma nova classe social, no Reino Unido, o proletariado.

Constituída por trabalhadores fabris e com baixo nível de vida, esta classe transformou-se num problema social: ignorância, trabalho infantil, miséria, alcoolismo, falta de higiene e doenças formaram um cocktail de revolta social difícil de resolver.

Foi neste cenário que Robert Owen surgiu com ideias que “viriam a ser apelidadas de socialismo utópico (proporcionando o mote a Karl Marx e Engels nos seus estudos fundadores de uma nova visão sobre o mundo, marcado por diferentes relações de trabalho)”.

Em 1800, Owen tem a oportunidade de gerir a unidade industrial mais famosa da década (que pertencia ao sogro), New Lanark. Robert Owen pretendia produzir, naquela comunidade fabril,  “um regime humanitário e gerar maior produtividade, bem como maior lucro que, teoricamente, todos podiam partilhar”.

Conseguiu?

Em parte.

A verdade é que, em New Lanark, havia assistência médica, crédito por conta do salário seguinte, medidas de combate à dependência do álcool (sem castigos), medidas de higiene nas habitações dos trabalhadores, atividades desportivas e culturais para os trabalhadores, refeitórios públicos e investiu-se na educação: era gratuita para as crianças até aos dez anos (e havia aulas à noite, após os dez anos, que era a idade em que começavam a trabalhar na fábrica), infantários, tutorias dos mais velhos e era proibido, sob qualquer pretexto, bater nas crianças.

Parece pouco aos nossos olhos, mas se recordarmos que, no século XIX, dois terços das crianças eram totalmente analfabetas, talvez tenhamos outro olhar sobre esta comunidade.

Robert Owen tentou expandir a sua utopia social e sonhava com muitas outras aldeias (para além de New Lanark) de 500 a 1500 habitantes.

Propagandeou o modelo de New Lanark como um exemplo a seguir, pois apresentava soluções para uma gestão lucrativa e para a prevenção de situações de insustentabilidade social. Impelia-o  “a necessidade de corrigir o caminho da ganância desmesurada provocada pelos lucros do período industrial, de forma a atingir alguma justiça social”.

Incrivelmente (ou não!), mesmo com provas dadas no terreno, o modelo de aldeia de Owen foi rejeitado pelo clero e pelos políticos. Consideravam que este modelo proporcionaria uma vida tão boa aos pobres que iria levá-los a recusar trabalho para se dedicarem ao ócio proporcionado pelos confortos considerados excessivos para as classes trabalhadoras. Owen começou a ser visto, pelas classes dirigentes, como um agitador social.

No extremo oposto, havia também quem acusasse Owen de confundir educação com doutrinação e de se dirigir aos trabalhadores em tom demasiado paternalista.

Pessoalmente, impressionou-me o facto deste homem ter concretizado, com sucesso e entusiasmo por parte dos visados, a sua utopia e ter melhorado, sem dúvida, as condições de vida de muitas famílias.

Neste momento da minha vida, considero incrível como há/houve seres humanos maduros e com formação que não perderam a fé na humanidade e continuaram a acreditar na possibilidade do mundo vir a ser um sítio melhor.

Tanto Owen, como os filósofos Fourier e Saint-Simon, socialistas utópicos, foram pioneiros na criação de um novo tipo de sociedade e acreditaram poder resolver problemas do mundo (com os quais ainda hoje nos deparamos!), através da aplicação dos seus modelos a nível mundial.

Estes homens deixaram-nos, igualmente, heranças não só no campo das ideias;

concretamente, foi graças a eles que ficou delineado o modelo urbano que viria a surgir como socialismo utópico e foi, assim, que se desenharam cidades “cujos edifícios deviam satisfazer o interesse público, dando ênfase às questões estéticas, por se acreditar que cidades bonitas produziriam bons cidadãos e, por consequência, sociedades mais perfeitas”! Não podia estar mais de acordo com esta ideia!

Em Portugal, um dos precursores do socialismo utópico, Francisco Solano Constâncio, conheceu as ideias de Robert Owen e, quando regressou a Lisboa, em 1799  (onde exerceu Medicina até 1807) foi responsável pela introdução e propagação da vacinação no nosso país.

A tese de Olga Maria de Azevedo Almeida está aqui e lê-se num fôlego de esperança no Mundo. Todas as citações deste post pertencem a esta obra.

Em breve, escreverei acerca do nosso utópico José Ferreira Pinto Basto.

A imagem é do livro que vou ler de seguida.


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Consertos

O início do ano é uma excelente altura para levar a cabo os pequenos consertos domésticos: um botão descosido, um quadro que nunca foi pendurado, um bule partido ou… a porta do coração.

The Passing Train Marianne Stokes

Consertar a porta de um coração

Pode um carpinteiro consertar a porta de um coração? Não é pergunta que se faça, sobretudo num texto que pretende fingir-se poema; mas é nele que poderia ser encontrada uma resposta para a perplexidade dos sentimentos, anteriormente tímidos e recolhidos, que olham agora o escancarado exterior e tentam reconhecer o espaço aberto, a vegetação luxuriante e solar no imo da qual ainda receiam aventurar-se.

Egito Gonçalves, O Mapa do Tesouro

O quadro é de Marianne Stokes, austríaca, 1855–1927: uma mulher com uma vida incrível (em qualquer época), cheia de viagens, arte, amor e amigos.