“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Se eu fosse a ti

Segundo os últimos dados da DGS, o número de infectados continua a aumentar e, desta vez, o Alentejo não sai ileso. Não sei se é por isso, mas tenho sentido as pessoas muito mais tensas e com o modo conflituoso ativado.

Também pode ser porque voltei a trabalhar fora de casa, saí da minha doce bolha-lar, caminho pela rua e vejo mais seres taciturnos, irritadiços, impacientes e inquiridores.

Li que a pandemia irá prolongar-se no tempo e que os cuidados a que estamos obrigados agudiza os espíritos potencialmente neuróticos.

O vírus assusta-me, mas também tenho medo de ser atingida por esta neurose social.

Para já, noto que, contrariamente ao que eu julgava no início da pandemia, estamos a perder a empatia e o sentido de humor.

Será porque estamos literalmente amordaçados e deixámos de ver o sorriso do outro?

Será que a falta de abraços está a afectar irremediavelmente a nossa saúde mental?

Há muito tempo que não ouço uma gargalhada fora de minha casa. Gritos coléricos vindos da rua, infelizmente, tenho ouvido com alguma frequência.

Juan Vicente dá-nos instruções para atravessarmos o deserto do mundo.

E dá-nos uma chave: o humor.

Se perdermos essa habilidade, perderemos uma grande parte da nossa capacidade de resistir e uma das nossas características mais humanas.

Se Eu Fosse A Ti

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum “mas” a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.

Juan Vicente PiquerasInstruções para Atravessar o Deserto

Fotografias de mergulhos: IGNANT.


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Casa de Outono

Estamos novamente confinados em casa.

Volto a olhar para as minhas paredes e renova-se a vontade de reformular e aconchegar o lar.

Entre o estilo boémio e o minimalismo escandinavo, sempre preferi o colorido mediterrâneo.

Mas, enfim, com a idade começo a depurar-me e a necessitar da organização nórdica na minha vida. Pelo menos em casa…

Continuo a gostar da cozinha com prateleiras, mas agora privilegio a possibilidade de arrumar/esconder e deixar as bancadas livres para os imprevistos culinários. É muito mais prático que estes aconteçam sem terem de pedir licença às mil coisinhas que por lá estacionam.

Não sei se há uma explicação psicológica, mas o meu lado étnico e folclórico está, definitivamente, a empalidecer e só consigo pensar em branco para o meu escritório. Tudo neste palácio estremocense demora a tomar forma mas, depois de uns quantos contactos com um novo carpinteiro e muitas visitas virtuais ao IKEA, talvez leve mesmo a depuração branca a outro nível.

A sala de estar pode ser uma toca menos branca mas, ainda assim, monocromática.

Também pode ser branca…

Os pormenores das velharias e dos livros são para manter, claro, bem espalhados pela casa.

Os quartos ainda precisam duma cara de Outono.

E estas casas de banho incríveis?

Só têm de estar muito quentes.

O aquecimento em casas seculares é um problema grave e estou a pensar seriamente em soluções radicais. Não necessariamente brancas, embora estas caldeiras sejam incríveis.

Ainda não retirei toda a mobília de Verão do terraço e é mesmo o momento mais triste do Outono. Estou a pensar deixar uma cadeira e espreguiçar-me ao sol com uma manta quente para apanhar vitamina D… e limpar a mente de maus humores.

As imagens foram roubadas a vários sites, mas dado o allure do momento, tenho andado muito pelo blog My Scandinavian Home.


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Menos

A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo.

A primeira é a petrolífera.

Fiquei com a minha consciência ecológica muito inquieta, ao ler esta notícia.

“Uma t-shirt produzida a partir de algodão convencional gasta 2700 litros de água, o equivalente ao consumo médio por pessoa durante dois anos e meio.”

Como faço a separação do lixo, consumo pouca carne, privilegio alimentos de produção local e já não faço viagens diárias de carro, habituei-me a pensar que não é por minha causa que os recursos anuais da Terra se esgotam cada vez mais cedo. Nada mais errado.

Há um consumo desmedido de roupa no mundo ocidental: as colecções de fast fashion são lançadas de 15 em 15 dias (o factor novidade incrementa as compras!), o que implica emissões descomunais de gases, consumo de água e outros recursos naturais (e humanos) astronómicos!

Estranhamente, só quando comecei a ter de organizar o meu quarto de vestir é que vi o disparate de roupa e calçado que tinha espalhado em vários armários. Demorei semanas a seleccionar e doei montanhas de peças.

Acumulei, durante anos, sem pensar, e o facto de comprar muito em outlet aliviava-me a consciência.

O advérbio “muito” arruina qualquer equação…

Obviamente que comprar mais do que o razoável, para além de ser um sinal da minha vaidade, também reflecte um desajuste em relação às minhas verdadeiras necessidades, ou pior, uma fuga das minhas reais necessidades.

Há uns meses, senti necessidade de fazer uma pausa.

Coincidiu com esta paragem global que fomos obrigados a fazer, mas a verdade é que, apesar de todos os perigos exteriores, interrompi o ritmo frenético em que andava e foquei-me no que preciso para ser feliz.

Definitivamente, não preciso de tanta roupa…

Acabei de lançar um desafio a mim própria: não comprar qualquer peça de roupa ou acessório (para mim ou para a Beatriz) durante dois meses. Pode parecer pouco para quem é contido, mas para mim é uma mega aventura.

É verdade que andamos semi-confinados e o apelo das lojas físicas não é evidente, mas ainda assim o desafio é muito válido. As compras online impuseram-se, por aqui, desde Março…

O outro desafio consiste em ser suficientemente criativa e reinterpretar a roupa que já tenho. É mais do que suficiente. A minha Mãe que o diga…

Tenho andado mais pelo Pinterest do que por lojas online e estas imagens são da minha nova diva, Emanuelle Alt, a quem não falta roupa… Espero, no entanto, que me inspire a reinventar, com pormenores como os cintos ou combinações mais improváveis.

Uma inspiração da editora da Vogue parisiense para me levar a consumir menos? Não deixa de ser irónico, mas tanta incoerência pode ser que resulte.

Quero ser mais livre, mais equilibrada e ter mais dinheiro para fazer o que realmente gosto: organizar a minha casa, conviver com os que amo e passear com a Beatriz.

Para já, pretendo fazê-lo num raio geográfico apertado, mas este bicho não há-de infernizar-nos para sempre.

Ficam as dicas de Emanuelle Alt, válidas para ser designer de moda… ou para viver melhor:

1- Be funny!

2- Be creative!

3- Be on time!

4- Work hard!


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Galdéria

«Se a Língua Portuguesa fosse uma personagem, o que seria? Uma cortesã, uma concubina, uma galdéria?
Uma galdéria, disso não tenho dúvida. Andou por todas as camas: a galega, a castelhana, a francesa… E saiu delas mais fresca que nunca.»

Fernando Venâncio responde com graça à pergunta provocatória da jornalista Joana Marques, sobre as diferentes influências que a língua portuguesa sofreu.

A nossa língua começou a sua “odisseia” pelos anos 600 e teve um percurso rico e incrível.

No entanto, o que eu não sabia é que o Português, como língua diferente do Galego, começa a tomar corpo apenas por volta de 1400; até aí falávamos… Galego.

Fiquei surpreendida, porque sempre li que falávamos “galaico-português”, antes desse ano. Julgava que a nossa lírica trovadoresca estava escrita em “galaico-português”. É verdade que nunca tinha pensado profundamente na denominação e associei-a à área geográfica que abrangia: as margens norte e sul do Rio Minho.

Fernando Venâncio acrescenta:

« [o galaico-português] é uma história mal contada. Uma história à nossa medida, para nos tranquilizar. A língua em que a lírica chamada «galaico-portuguesa» foi escrita foi, sem sombra de dúvida, o galego. Por esta razão simples: o português ainda não existia, e só seria criado, como tenho vindo a lembrar, no século de Quatrocentos. Quando, em 1290, um ensaísta catalão enumera as grandes línguas poéticas da altura, fala no “galego”. E importaria recordar que as expressões “língua portuguesa” e “português” só aparecem, entre nós, nos anos de 1430, quando as correspondentes castelhanas já circulavam dois séculos antes. Só que, no momento em que essa lírica regressa à luz do dia, ao longo de Oitocentos, ninguém em Portugal admitiria que se dissesse estar em “galego”. O que não seria nada do outro mundo, visto quase todos os seus autores serem galegos. É então, isto por 1880, que se inventa a etiqueta “galaico-português” e, de caminho, se inventa o “galego-português” como idioma. A grande filóloga Carolina Michaëlis de Vasconcelos ainda tenta chamar ”galego” à língua das cantigas, mas acaba por render-se às susceptibilidades portuguesas.»

A língua portuguesa não pára de surpreender-me, quer enquanto instrumento de trabalho, quer de prazer.

Não me ofende que tenha derivado do Galego (que por sua vez derivou do latim vulgar, que por sua vez derivou do indoeuropeu,…). Não sou tão pudica que me melindre com o facto de ela ter dormido prazenteiramente, mais tarde, com o latim erudito, com o francês, com o inglês e com as línguas índigenas dos novos continentes.

Não sou purista ao ponto de não me encantar com o Português adocicado dos youtubers brasileiros que a Beatriz me apresenta. Apesar da estridência que regra geral os acompanha, ouço uma língua com um vocabulário mais rico e rebuscado do que aquele que nós usamos e confirmo que ninguém é dono da língua. Muito menos nós, portugueses: somos apenas 10 milhões de falantes perante os 240 milhões que se deitam todos os dias com esta bela galdéria.

Definitivamente, é melhor abrirmos a cabeça e iniciarmos uma relação poliamorosa!

Fotografias do francês Laurent Castellani, um fotógrafo que sofre de agorafobia e que nos proporciona grandes viagens através da sua obra.


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Poder

Há uma forma infalível de dominar um povo: instigar o medo.

Há outra maneira subterrânea de controlo: suscitar a culpa.

Não sei se é devido à nossa longa tradição católica, mas os governantes portugueses, ao longo da História, mostraram-se peritos em agrilhoarem-nos, explorando estes dois poderosos sentimentos.

Recentemente, em 2008, quando o mundo sofreu uma crise financeira internacional, iniciada nos Estados Unidos (e secundada na Europa), os nossos governantes tiveram o desplante de nos culpar. Ouvimos vezes sem conta o célebre chavão: “vivemos acima das nossas possibilidades!”

Foram negócios planetários ruinosos, mas o povo lusitano, que nunca viveu no luxo, viu-se de repente com o ônus da culpa, pela falta de crédito que assolou o mundo.

Como consequência da “nossa culpa”, veio o castigo e o medo de que o nosso país fosse à falência: sistema bancário, segurança social e os ordenados dos funcionários públicos estavam em perigo (disseram-nos…).

Como sempre fomos uns grandes comensais, libertinos ociosos (e outros mimos que foram ditos pelo nosso tão amigo ex-Presidente do Eurogrupo), ordenaram-nos que “apertássemos o cinto”, e sem sermos “piegas” disse o ilustre Passos Coelho. Os “senhores que mandam nisto tudo” estavam zangados connosco, com o nosso despesismo e enviaram-nos os engravatados do FMI. Emprestaram-nos dinheiro, pela terceira vez em democracia, mas fizeram-nos pagá-lo com muito desemprego e mais pobreza.

Em 2019, chegou a pandemia e o medo foi, novamente, alardeado.

Com o medo a dominar-nos há vários meses, o Primeiro-Ministro lembrou-se de que nos faltava a culpa.

A segunda vaga, absolutamente esperada em qualquer pandemia, é culpa dos portugueses: somos nós que somos desleixados e precisamos de um “abanão”.

O Primeiro-Ministro disse que precisamos de um “abanão” ou reguadas por mau-comportamento? Será outro conselho da sua perspicaz vizinha?

Um governante é eleito para tomar decisões, com base nas mais recentes vigilâncias epidemiológicas, não para justificar as medidas que considera necessárias com paternalismos desrespeitosos.

A segunda vaga era esperada desde Março. É, portanto, uma afronta acusar os portugueses (que têm sido, no geral, muito cumpridores), quando o próprio não robusteceu o Sistema Nacional de Saúde, não investiu em testes, não autorizou a redução do número de alunos por turma, não testou com regularidade os funcionários dos lares de idosos,… só para citar algumas medidas muito básicas que qualquer leigo, como eu, entende como indispensáveis.

Convém acrescentar que niguém tem culpa de adoecer. Contrair o vírus não é sinónimo de negligência (nem um castigo divino, ao jeito medieval); é apenas o risco a que se sujeita quem trabalha e… consequência de uma segunda vaga pandémica!

O poder seduz, embriaga e corrompe.

Os contextos de crise são especialmente perigosos e já potenciaram distopias muito reais.

Distopias demasiado próximas no tempo que inspiraram as ficcionadas.

Reler 1984, de George Orwell, talvez seja conveniente, neste momento.

A singular ideia de António Costa, de tornar obrigatória a instalação da aplicação StayAwayCovid, recordou-me esta obra-prima e esta associação é, por si só, arrepiante.

Perdi a minha inocência, enquanto cidadã, quando comecei a estudar História. Ler as distopias 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo , de Aldous Huxley e até A História de uma Serva, de Margaret Atwood, são os verdadeiros “abanões” de que precisamos.

Ainda bem que perdi essa candura civil, porque quem nos governa precisa de seres lúcidos e conscientes:

Artigo 21.º da Constituição: “Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.”

A distopia torna-se perigosamente real quando é a própria autoridade pública que nos “ofende”.

Fernanda Câncio, no dia 17 de outubro, refletiu sobre esta e outras questões.


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Doce pássaro

Geraldo Eustáquio de Sousa ou Letízia Lanz é uma lição de vida.

Sabemos tão pouco…

Temos menos de um século para aprender alguma coisa desta complexidade louca que nos rodeia e nos habita.

Declaro-me, por conseguinte, sem tempo para ouvir os enfadonhos (tão chatos!) que pensam que sabem tudo; os arrogantes e os seus primos paternalistas podem seguir sem parar. Os medrosos teóricos que gostam de apontar o dedo também escusam de se demorar por aqui; chegam-me os meus medos. Ai, e moralistas… distância. Até os moralistas Covid muito bem intencionados. Já não consigo!

Só quero ouvir e ler quem me traz lições por aquilo que é, faz e persegue.

Só quero os que me incitam a ser feliz.

Agora.

Sem mais adiamentos.

A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos

Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança
e sorrir e cantar e brincar e dançar
e vestir-se com todas as cores
e entregar-se a todos os amores
experimentando a vida em todos os seus sabores
sem preconceito ou pudor

Tempo de entusiasmo e de coragem
em que todo desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda a disposição de tentar algo novo,
de novo e de novo, e quantas vezes for preciso

Essa idade, tão fugaz na vida da gente,
chama-se presente,
e tem apenas a duração do instante que passa …
… doce pássaro do aqui e agora
que quando se dá por ele já partiu para nunca mais!


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Golias

No meu programa de eleição, “Original é a Cultura” – SIC, debateu-se o poder da informação verdadeira, difícil de encontrar, e o perigo da informação falsa, que nos bombardeia diariamente.

A quem interessa esta circulação de fake news?

Nada é inocente neste mundo digital.

A questão é: como escapar a esta avalanche de informação que torna tão difícil destrinçar o verdadeiro do falso?

Vemos essa questão de forma gritante durante esta pandemia. Ninguém nos diz a verdadeira dimensão da pandemia, circulam números díspares, a própria Graça Freitas nos confunde,

Na verdade, é impossível desenlear a verdade quando todos os blocos noticiosos transformam tragédias em reality-shows. Morte, violência e sexo são garantias de audiências.

Por outro lado, a era da informação atualizada ao minuto obriga a que as fontes não sejam confirmadas e que nos sirvam a versão fast-food do jornalismo.

O que podemos nós, David, contra este Golias desinformativo que nos manipula e que já fez estragos na América, com a eleição de Trump e, no Reino Unido, na votação a favor do Brexit?

Cristina Ovídio recomenda este documentário: “Nada é Privado: O Escândalo da Cambridge Analytica”.

Aprendi, confirmei o que já sabia mas, sobretudo, fiquei em choque com a dimensão daquilo que eu não conseguia imaginar.

Desconhecia que, atualmente, os dados que introduzimos descontraidamente no Facebook estão cotados e são mais valiosos do que o petróleo. Obviamente que são vendidos e bem pagos:

Os nossos rastros digitais estão a ser extraídos para uma indústria de trilhões de dólares por ano. Nós somos o produto.

Estavamos tão encantados com a conetividade que não lemos os termos e condições.”

Como somos incessantemente rastreados, são-nos apresentados conteúdos de acordo com o nosso perfil digital. O objetivo desta jogada pode ser muito diversificado e não é só de caráter comercial (como eu julgava), mas também é político e/ou ideológico.

Neste documentário, denuncia-se como a Cambridge Analytica atuou em várias campanhas eleitorais e como o Facebook lhe vendeu dados de 87 milhões de usuários.

Um negógio ultra-secreto que Mark Zurkerberg só admitiu quando as provas já eram demasiado evidentes.

Negócios escuros e ilícitos que demonstram que não é por acaso que as empresas mais ricas do mundo são as de tecnologia: Facebook, Google, Amazon e Tesla.

A Cambridge Analytica foi também uma empresa bilionária e líder mundial durante 15 anos, até que encerrou a atividade, de forma a ocultar informação e dificultar a investigação do Parlamento Britânico.

Trabalhou nas campanhas de vários políticos republicanos, na campanha de Trump e na campanha do Brexit. Usou informações pessoais (compradas a Mark Zurkerberg e sem autorização dos usuários, claro) e accionou os famosos psicográficos (testes de personalidade elaborados por equipas de psicólogos e que possibilitam prever comportamentos – permitem, evidentemente, alterá-los, ao agir a montante). Desta forma ilegal, a empresa ajudou os seus clientes a obter os resultados, para nós, absolutamente imprevisíveis: o Brexit concretizou-se e, cereja em cima do bolo, Trump ganhou as eleições.

Os alvos deste tipo de empresas que se apresentam como “modificadoras de comportamentos” são os “persuasíveis”; são estes que vão ser sujeitos a fake-news personalizadas em todas as plataformas digitais a que se ligam.

Os “persuasíveis” são os eleitores que encaixam no perfil de indecisos ou são pessoas com pouca formação ou socialmente fragilizados ou jovens, etc.

Há números que nos fazem pensar que umas mentirinhas espalhadas por aí não são assim tão inofensivas: o diretor da campanha digital de 2016 de Trump admitiu ter publicado 5,9 milhoes de anúncios no Facebook; Hillary publicou 66 000. Claro que o diretor da campanha de Donal Trump foi promovido a chefe de campanha para as presidenciais de 2020, ou seja, o crime compensa e vai repetir-se.

Inofensivo também não é o vice-presidente da Cambridge Analytica. Partilha a assustadora ideia de Breitbart: “Se quiseres mudar uma sociedade nos seus fundamentos tens de destruí-la primeiro. Só depois de destruí-la em pedaços é que podes remodelar os pedaços segundo a tua visão de uma nova sociedade”.

São pessoas que estão claramente em guerra e não têm contemplações.

Não são inofensivas nem se podem substimar, pois subverteram, por diversas vezes, regimes democráticos e alcançaram o seu objetivo, surpreendendo o mundo.

Estas empresas treinaram, inclusivamente, militares para estes aprenderem a influenciar o comportamento dos inimigos, em contexto de guerra. Por exemplo, no Afeganistão, o militar podia destruir uma aldeia, mas aprendeu técnicas para persuadir os habitantes para que se juntassem a ele, convencendo-os, por exemplo, de que os talibans iriam destruir a sua aldeia…

Na política e na guerra, fica clara a ideia de que a verdade não é um valor e que os fins dos clientes destas empresas justificam claramente os meios.

No documentário, o Facebook não é poupado e são explicitados os seus truques: os mesmos usados pelos casinos e que passam por aproveitar os instintos básicos para cativar as pessoas. O medo e a raiva são dois deles, mas os anunciantes são livres para explorar toda a emotividade da audiência. Esta rede social é descrita como um “gangster digital” totalmente impune.

A jornalista Carole Cadwalladr conseguiu reunir muita informação e explica, neste vídeo, como o Parlamento Britânico investigou durante 18 meses as ligações de Mark Zurkerberg à Cambridge Analytica, durante a campanha do Brexit, e como não consegue condená-lo, pois ele encontra-se, providencialmente, fora do alcance da lei britânica.

Ainda no programa “Original é a Cultura”, Dulce Maria Cardoso sugere o documentário “After Truth“.

Este documentário desmascara a dorma como as fake news são usadas, conscientemente, como armas para promover ou destruir um candidato partidário; são denominadas, de forma assustadora, como uma “arma de guerra para reconduzir a História”. Por vezes, as fake news chegam até às grandes cadeias de televisão americanas. É verdade que acabam por ser desmentidas, mas o estrago já está feito. Há episódios tão bizarros que parecem mesmo ficção.

Todas as manobras políticas desmascaradas aproximam-se da série House of Cards, série que eu deixei de seguir porque a considerei, ingenuamente, muito artificial e exagerada.

Estes dois documentários alertaram-me para a manipulação a que estamos sujeitos e renovaram-me a vontade de fechar a minha conta no Facebook.


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Um íntimo deserto

Juan Vicente Piqueras indica-nos o humor nas suas Instruções para atravessar o deserto.

Para além de humor, precisamos de coragem e lucidez para manter o foco. É tão fácil o desvaire…

“Para atravessar este íntimo deserto
é preciso coragem, tempo, vontade
de não perder a vida preparando
uma viagem que jamais faremos,
um camelo leal, um companheiro
igual, um mapa vão,
um turbante, uma bússola,
dez caixas de bombons (souvenir do Ocidente)
e uma jilaba azul… que mais? Um livro
que faça as vezes de Corão, de Bíblia,
de Tora e Tao,
e tenha as páginas em branco ou esteja escrito
numa língua que ninguém compreenda.
Faz falta uma certa confiança na sede,
um olhar límpido e um caderno
de notas que os dias
são compridos, lentos, e as noites tristes,
e não há tenda nem tribo
nem deus que ajudem em tanta solidão.
Para atravessar este íntimo deserto
faz falta querer, ter de, decidir
começar a andar e não olhar para trás,
não recuar, não ter outro remédio.”

astrid-verhoef-inscapes-tree

IGNANT


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Bolinho da saúde

Neste nova harmonia entre a restrição e o prazer, confesso a minha maior fraqueza: o açúcar.

Esta atração pelo doce é um impulso que permitiu a nossa sobrevivência: fez-nos procurar a fruta, rica em fibras e vitaminas.

Eu devo ter sido a australopiteca sorridente, empoleirada na figueira ou no pessegueiro, enquanto os meus companheiros roíam as pernitas de codorniz.

Continuo a gostar de fruta, claro, mas com os séculos o meu paladar sofisticou-se…

Há um mês que ñão como doces processados, o que é uma grande vitória, tendo em conta o material genético de que sou feita, mas não deixei de me deliciar com uma fatia de bolo.

Tenho procurado é que esse bolo seja nutricionalmente mais interessante do que os industriais… e que seja apreciado pelas formigas cá de casa.

Este é o bolinho da saúde que consegue enganar os mais gulosos.

Já fiz dezenas de variações e é sempre um sucesso.

Bolo de cacau

  • 200g de açúcar mascavado (ou de coco ou amarelo; se for açúcar branco podem ser 180g)
  • 5 ovos
  • 50g de azeite
  • 50g de manteiga (uso magra) ou óleo de coco
  • 100 ml de creme de soja (ou leite vegetal ou mesmo iogurte)
  • 50 g de farinha de trigo integral
  • 50 g de flocos de aveia triturados como farinha
  • 50 g de farinha de trigo norma (ou fécula de batata ou farinha Maisena)
  • 50g de nozes trituradas (ou outro fruto seco)
  • 40 g de cacau puro em pó (ou chocolate em pó)
  • 1 colher de chá de essência de baunilha
  • 1 colher de chá de fermento em pó
  • 1/2 colher de chá de bicarbonato de sódio
  • 1 pitada de flor de sal

1- Colocar no liquidificador o açúcar, os ovos, o azeite, a manteiga, o creme de soja, as nozes, o cacau, a baunilha e o sal e triturar bem até obter um creme homogéneo.

2- Verter a mistura numa taça e envolver bem as farinhas (previamente misturadas com o fermento e o bicarbonato).

3- Levar ao forno previamente aquecido a 180ºC em forma untada ou revestida com papel vegetal.

Apesar de ser aborrecido juntar tantos ingredientes diferentes, a confecção do bolo é tão fácil que compensa as medições.


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“A cidade ainda ali estava”

O livro Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago nunca foi tão actual.

Resumidamente, relata-nos o horror de uma cidade assolada por casos de cegueira inesperada e contagiosa.

Dado o nosso contexto desde Março, facilmente a intriga se tornou tristemente verosímil. Ao lermos o livro, partilhamos o medo que se apodera dos habitantes, as precipitações políticas, a perda de direitos fundamentais e o caos que se instala. Temos de lhes juntar uma componente extra de terror, pânico e fome.

Por outras palavras, o livro relata uma Covid-19 hiperbolizada.

Torna-se chocante assistirmos à degradação total da condição humana. Fica provado que, perante a escassez de alimentos e o caos, é muito fácil perdermos a nossa humanidade. Demasiado fácil.

No livro, a cegueira que atinge as personagens é, obviamente, uma metáfora que vai sendo descodificada ao longo da acção e que se torna clara na última página:

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer
a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso
que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

O livro termina com a misteriosa frase:

“A cidade ainda ali estava”.

Na altura, não percebi esta frase que encerra a obra, mas Saramago, nesta entrevista a Ana Sousa Dias, explica-a:

A cidade continua presente e expectante, em pausa.

Mas será que os homens, depois da “cegueira física” ser curada, voltam mais sábios? Será que se questionam sobre a forma como estavam organizados,?Será que vão alterar alguma coisa?

Neste momento que nós vivemos, é mesmo esta a questão: o mundo paralisou de medo e por decreto. Aos poucos, regressámos e parece que o pior já passou, mas será que aprendemos alguma coisa?

Ingenuamente, em Abril e Maio, pensei que sim, mas sinto que nos perdemos desse rumo mais generoso: estamos tensos, pouco empáticos e muito auto-centrados… como sempre fomos.

Acredito que a nossa vida é construída de detalhes que se acumulam e não tanto de grandes gestos. Há novos pormenores do nosso quotidiano que estão a marcar-nos. O distanciamento, a ausência da pele e do calor do outro é um deles, mas a máscara também está a deixar consequências.

O uso constante da máscara pode proteger-nos, mas retira-nos a individualidade e cega-nos.

Somos, agora, seres que se cruzam mas não se reconhecem.

Somos casos de que os jornalistas, à noite, falam, mas perdemos a identidade. A identidade é o que nos resta quando tudo se dissipa.

Aprendemos, desde bebés, a reconhecer o outro através da face. Se esta é engolida por uma máscara, ignoramo-lo e desprezamos, inconscientemente, a sua peculiaridade, necessidades e emoções.

Toda a situação pandémica está a ganhar novos contornos bizarros e cruéis de filme de segunda categoria.

Mais uma vez, talvez nos salve a literatura.

Como nos diz Saramago,

“A cidade/ o mundo ainda ali está.”

E, nós, que fazemos?


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Redondezas

Aceitar a modificação progressiva do corpo é difícil e é um percurso.

Depois de ter saído vitoriosa da grande missão que foi confiada ao meu corpo: criar, dar à luz e alimentar em exclusivo um ser humano até aos seis meses, apaziguei-me com as falhas estéticas do meu corpo.

Estava de parabéns: aquele corpo baixo e estreito tinha concluído a mais divina gesta, concretizou a gestação, e continuou elegante e invencível.

Entretanto, passaram-se mais nove anos e o metabolismo abrandou, a energia para o desporto caiu a pique, as hormonas trairam-me e a minha estrutura corporal modificou-se.

O corpo magro deixou de ser magro, ganhou seis quilos, arredondou-se e eu estranhei-me.

Comecei, insensata e ingratamente, a desdenhar um corpo que luta todos os dias para que eu me movimente, trabalhe, tenha prazer e viva, há mais de quatro décadas, cheia de saúde.

Não faz qualquer sentido estar nesta rejeição.

É muito fácil apontar culpados: estamos sujeitos a uma colossal pressão mediática e a referências estéticas (irreais e/ou minoritárias) que diariamente dinamitam a nossa auto-estima.

Hoje, gritam-nos que ser gordo é ser feio e a “gordofobia” não é um mito urbano.

Tenho oscilado muito e sei que tenho de aceitar algumas mudanças, mas busco ainda o equilíbrio entre viver em restrição alimentar constante e um potencial desleixo alimentar; um desleixo que não aceito nas restantes vertentes da minha vida.

A entrevista a Isabel do Carmo, fundadora da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, da Sociedade Portuguesa de Diabetologia e fundadora da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, entre muitas outras funções (coordenadora do Estudo de Prevalência da Anorexia Nervosa nos Distritos de Lisboa e Setúbal, diretora do Serviço de Endocrinologia do hospital de Snta Maria,…) é muito esclarecedora.

Por exempo, a celulite que me indigna e que vou combatento com bravura, permitiu-nos a todas chegar saudáveis ao século XXI:

Aquela redondez das ancas e das coxas é saudável. É saudável porque retém os ácidos gordos que estão a circular no sangue. Aquela gordura puxa-os e retém-nos. É bom que eles fiquem ali e não andem a passear no sangue.

Se os ácidos gordos andarem a circular com excesso no sangue, a dada altura aderem à superfície das artérias, como a ferrugem dos canos da água — aderem à parede, a parede inflama-se e ao longo dos anos isto pode diminuir a passagem do sangue, que é o que dá origem aos enfartes do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. Portanto, é bom que a gordura não seja excessiva no sangue, sobretudo as que têm uma densidade mais baixa, que aderem mais facilmente à parede das artérias. As mulheres com as suas ancas e coxas puxam essa gordura e fixam-na ali. Mas depois chamam-lhe celulite, bochechinhas, e outras coisas assim. E não gostam. Muitas vezes é excessivo e é compreensível que não gostem. Mas antes ali do que noutras partes do corpo.”

Isabel do Carmo refere ainda mitos alimentares convenientes à indústria alimentar tal como a “intolerância à lactose ou ao glúten”, os benefícios da soja e os suplementos alimentares, os alimentos que nos dão energia, o excesso de proteínas (em detrimentos de hidratos de carbono de qualidade) nesta entrevista e no seu livro Alimentação: mitos e factos – Uma perspectiva científica.

Em relação às modelos XL, alerta-nos para a importância da diversidade entrar na nossa visão. Não se está a promover a obesidade, está-se a lutar contra a estigmatização e a dizer que os corpos volumosos existem.

Faço o mea culpa; gosto tanto de fotografia, mas invariavelmente escolho modelos que podem ter rostos invulgares mas que são magros.

Também eu vou tentar mudar e, para já, alterar as pessoas que sigo no Instagram e tornar os meus padrões de beleza cada vez mais vastos e diversificados.

A Mafalda Fonseca é esta mulher sexy e poderosa que devia estar em vários outdoors do mundo. Tenho aprendido muito nos stories do seu Instagram My Favourite Milkshake, inclusivamente acerca de gordofobia, que é um tema a que eu não era sensível.

Recomendo também este artigo de Ana Luísa Bernardino para quem, como eu até há bem pouco tempo, são sabe o que é a gordofobia.