“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Se eu fosse a ti

Segundo os últimos dados da DGS, o número de infectados continua a aumentar e, desta vez, o Alentejo não sai ileso. Não sei se é por isso, mas tenho sentido as pessoas muito mais tensas e com o modo conflituoso ativado.

Também pode ser porque voltei a trabalhar fora de casa, saí da minha doce bolha-lar, caminho pela rua e vejo mais seres taciturnos, irritadiços, impacientes e inquiridores.

Li que a pandemia irá prolongar-se no tempo e que os cuidados a que estamos obrigados agudiza os espíritos potencialmente neuróticos.

O vírus assusta-me, mas também tenho medo de ser atingida por esta neurose social.

Para já, noto que, contrariamente ao que eu julgava no início da pandemia, estamos a perder a empatia e o sentido de humor.

Será porque estamos literalmente amordaçados e deixámos de ver o sorriso do outro?

Será que a falta de abraços está a afectar irremediavelmente a nossa saúde mental?

Há muito tempo que não ouço uma gargalhada fora de minha casa. Gritos coléricos vindos da rua, infelizmente, tenho ouvido com alguma frequência.

Juan Vicente dá-nos instruções para atravessarmos o deserto do mundo.

E dá-nos uma chave: o humor.

Se perdermos essa habilidade, perderemos uma grande parte da nossa capacidade de resistir e uma das nossas características mais humanas.

Se Eu Fosse A Ti

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum “mas” a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.

Juan Vicente PiquerasInstruções para Atravessar o Deserto

Fotografias de mergulhos: IGNANT.


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“A cidade ainda ali estava”

O livro Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago nunca foi tão actual.

Resumidamente, relata-nos o horror de uma cidade assolada por casos de cegueira inesperada e contagiosa.

Dado o nosso contexto desde Março, facilmente a intriga se tornou tristemente verosímil. Ao lermos o livro, partilhamos o medo que se apodera dos habitantes, as precipitações políticas, a perda de direitos fundamentais e o caos que se instala. Temos de lhes juntar uma componente extra de terror, pânico e fome.

Por outras palavras, o livro relata uma Covid-19 hiperbolizada.

Torna-se chocante assistirmos à degradação total da condição humana. Fica provado que, perante a escassez de alimentos e o caos, é muito fácil perdermos a nossa humanidade. Demasiado fácil.

No livro, a cegueira que atinge as personagens é, obviamente, uma metáfora que vai sendo descodificada ao longo da acção e que se torna clara na última página:

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer
a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso
que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

O livro termina com a misteriosa frase:

“A cidade ainda ali estava”.

Na altura, não percebi esta frase que encerra a obra, mas Saramago, nesta entrevista a Ana Sousa Dias, explica-a:

A cidade continua presente e expectante, em pausa.

Mas será que os homens, depois da “cegueira física” ser curada, voltam mais sábios? Será que se questionam sobre a forma como estavam organizados,?Será que vão alterar alguma coisa?

Neste momento que nós vivemos, é mesmo esta a questão: o mundo paralisou de medo e por decreto. Aos poucos, regressámos e parece que o pior já passou, mas será que aprendemos alguma coisa?

Ingenuamente, em Abril e Maio, pensei que sim, mas sinto que nos perdemos desse rumo mais generoso: estamos tensos, pouco empáticos e muito auto-centrados… como sempre fomos.

Acredito que a nossa vida é construída de detalhes que se acumulam e não tanto de grandes gestos. Há novos pormenores do nosso quotidiano que estão a marcar-nos. O distanciamento, a ausência da pele e do calor do outro é um deles, mas a máscara também está a deixar consequências.

O uso constante da máscara pode proteger-nos, mas retira-nos a individualidade e cega-nos.

Somos, agora, seres que se cruzam mas não se reconhecem.

Somos casos de que os jornalistas, à noite, falam, mas perdemos a identidade. A identidade é o que nos resta quando tudo se dissipa.

Aprendemos, desde bebés, a reconhecer o outro através da face. Se esta é engolida por uma máscara, ignoramo-lo e desprezamos, inconscientemente, a sua peculiaridade, necessidades e emoções.

Toda a situação pandémica está a ganhar novos contornos bizarros e cruéis de filme de segunda categoria.

Mais uma vez, talvez nos salve a literatura.

Como nos diz Saramago,

“A cidade/ o mundo ainda ali está.”

E, nós, que fazemos?


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Redondezas

Aceitar a modificação progressiva do corpo é difícil e é um percurso.

Depois de ter saído vitoriosa da grande missão que foi confiada ao meu corpo: criar, dar à luz e alimentar em exclusivo um ser humano até aos seis meses, apaziguei-me com as falhas estéticas do meu corpo.

Estava de parabéns: aquele corpo baixo e estreito tinha concluído a mais divina gesta, concretizou a gestação, e continuou elegante e invencível.

Entretanto, passaram-se mais nove anos e o metabolismo abrandou, a energia para o desporto caiu a pique, as hormonas trairam-me e a minha estrutura corporal modificou-se.

O corpo magro deixou de ser magro, ganhou seis quilos, arredondou-se e eu estranhei-me.

Comecei, insensata e ingratamente, a desdenhar um corpo que luta todos os dias para que eu me movimente, trabalhe, tenha prazer e viva, há mais de quatro décadas, cheia de saúde.

Não faz qualquer sentido estar nesta rejeição.

É muito fácil apontar culpados: estamos sujeitos a uma colossal pressão mediática e a referências estéticas (irreais e/ou minoritárias) que diariamente dinamitam a nossa auto-estima.

Hoje, gritam-nos que ser gordo é ser feio e a “gordofobia” não é um mito urbano.

Tenho oscilado muito e sei que tenho de aceitar algumas mudanças, mas busco ainda o equilíbrio entre viver em restrição alimentar constante e um potencial desleixo alimentar; um desleixo que não aceito nas restantes vertentes da minha vida.

A entrevista a Isabel do Carmo, fundadora da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, da Sociedade Portuguesa de Diabetologia e fundadora da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, entre muitas outras funções (coordenadora do Estudo de Prevalência da Anorexia Nervosa nos Distritos de Lisboa e Setúbal, diretora do Serviço de Endocrinologia do hospital de Snta Maria,…) é muito esclarecedora.

Por exempo, a celulite que me indigna e que vou combatento com bravura, permitiu-nos a todas chegar saudáveis ao século XXI:

Aquela redondez das ancas e das coxas é saudável. É saudável porque retém os ácidos gordos que estão a circular no sangue. Aquela gordura puxa-os e retém-nos. É bom que eles fiquem ali e não andem a passear no sangue.

Se os ácidos gordos andarem a circular com excesso no sangue, a dada altura aderem à superfície das artérias, como a ferrugem dos canos da água — aderem à parede, a parede inflama-se e ao longo dos anos isto pode diminuir a passagem do sangue, que é o que dá origem aos enfartes do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. Portanto, é bom que a gordura não seja excessiva no sangue, sobretudo as que têm uma densidade mais baixa, que aderem mais facilmente à parede das artérias. As mulheres com as suas ancas e coxas puxam essa gordura e fixam-na ali. Mas depois chamam-lhe celulite, bochechinhas, e outras coisas assim. E não gostam. Muitas vezes é excessivo e é compreensível que não gostem. Mas antes ali do que noutras partes do corpo.”

Isabel do Carmo refere ainda mitos alimentares convenientes à indústria alimentar tal como a “intolerância à lactose ou ao glúten”, os benefícios da soja e os suplementos alimentares, os alimentos que nos dão energia, o excesso de proteínas (em detrimentos de hidratos de carbono de qualidade) nesta entrevista e no seu livro Alimentação: mitos e factos – Uma perspectiva científica.

Em relação às modelos XL, alerta-nos para a importância da diversidade entrar na nossa visão. Não se está a promover a obesidade, está-se a lutar contra a estigmatização e a dizer que os corpos volumosos existem.

Faço o mea culpa; gosto tanto de fotografia, mas invariavelmente escolho modelos que podem ter rostos invulgares mas que são magros.

Também eu vou tentar mudar e, para já, alterar as pessoas que sigo no Instagram e tornar os meus padrões de beleza cada vez mais vastos e diversificados.

A Mafalda Fonseca é esta mulher sexy e poderosa que devia estar em vários outdoors do mundo. Tenho aprendido muito nos stories do seu Instagram My Favourite Milkshake, inclusivamente acerca de gordofobia, que é um tema a que eu não era sensível.

Recomendo também este artigo de Ana Luísa Bernardino para quem, como eu até há bem pouco tempo, são sabe o que é a gordofobia.


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Encontrar

Foi um Verão feliz.

Fomos agraciados com a Leonor e retemperámo-nos longe de notícias assoladoras.

Esta praia é perfeita para o reencontro.

Penso muito nela durante todo o ano.

Recordo-a, seguindo a dicotomia de que Sophia fala: praia/mundo, num poema que me é recorrente e com o qual mantenho uma relação circular: quando leio o poema, lembro-me desta praia e, quando piso esta areia, ouço a Sophia.

Eu me perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia, agiota, fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar

Gosto de beber café numa esplanada e observar uma praça movimentada, mas na praia prefiro estar sozinha com os “meus”.

Estamos despidos e expostos, longe da “sordidez do mundo”.

É o tempo de encontrar a nossa pele, sempre escondida por baixo de roupas e máscaras (agora até literais).

A praia da Murtinheira, na Figueira da Foz, é nossa: a praia da infância, das longas caminhadas confidentes e dos dias bons.

Uma praia com poucos apreciadores, mesmo em pleno Agosto, ao meio-dia: a água gela os ossos, o nevoeiro custa a levantar e as ondas são traiçoeiras e, geralmente, furiosas.

É a praia dos amantes de Geologia, mas não é o spot dos sunsets.

Ao longo destas falésias do Cabo Mondego, observa-se “o maior afloramento do Jurássico da Europa; concretamente, na praia da Murtinheira encontra-se o estratotipo da passagem Aaleniano-Bajociano”.

Na minha profunda ignorância, pressinto mundos ancestrais nestas falésias – passearam por aqui dinossauros – mas contento-me em explorar as grutas, na maré baixa.

Chegou Setembro e, agora, terei de ser, novamente, “polícia, agiota, fariseu ou cocote”, mas tatuo a mensagem de sobrevivência:

“nunca um navio da costa se afastou sem me levar”.


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Leonor

Foi um Verão muito feliz!

Aconteceu-nos a dádiva com que todos somos agraciados e que tendemos a esquecer, durante a vida: o nascimento.

A Leonor, tão pequenina, nasceu e manifestou logo os seus super-poderes: fez-me acreditar que o mundo ainda tem salvação.

Se nascemos tão belos e puros, isso só pode significar que viemos em missão de paz e havemos, mais cedo do que tarde, de retomá-la e expandi-la.

O poeta Jorge de Sousa Braga sabe bem o que se passou nestes últimos meses na vida da Leonor e escreveu um diário poético.

Diário de Bordo

Mãe
hoje abriu-se uma janela pela primeira vez
mas tudo o que pudeste ver foi um pequeno lago de águas
adormecidas,
rodeado por margens de areia brilhante
um pequeno lago alimentado por inúmeros afluentes

Mãe
passou uma semana e o meu minúsculo coração agita já as águas desse
lago
Estou agarrado à margem vejo ao longe uma pequena bóia
mas o medo impede-me de me afastar

Mãe
porque é que andas tão enjoada?
Passas a vida a correr para o quarto de banho
Não toleras o cheiro a fritos nem o after-shave do pai
Espero que não enjoes do cheiro a jasmim

Por favor não me confundam com um girino
Embora não tenha nada contra as rãs
e muito menos contra as libélulas que povoam os outros lagos

Mãe
estou a ficar velho
disseram-me que já deixei de ser embrião
Mediram-me a translucência da nuca
e eu aproveitei para realizar algumas pequenas acrobacias

Hoje fiquei finalmente a saber que tinha ventrículos pulmões
estômago e uma série de coisas mais
incluindo uns grandes lábios que quase pareciam bolsas escrotais
E eu que pensava que aquilo que tinha entre as pernas era uma rosa

Mãe
Porque é que meu coração bate tão acelerado?
Por mais que tente não consigo sincronizá-lo com o teu

Mãe
Só conheço a cor do crepúsculo
Estou morto por conhecer as outras cores do arco-íris

Mãe
Hoje surprendi-te quando te olhavas nua ao espelho
as mãos sobre o púbis segurando a barriga enorme

Mãe
Às vezes os dias são um pouco monótonos
de forma que me entretive a fazer nós com o cordão umbilical

Mãe
Estás com umas olheiras enormes
Pelos vistos não te deixei dormir
Passei a noite toda a deambular pelos recantos mais sinuosos do teu
útero
a ver se descobria alguma água-marinha

Mãe
Podias ter colocado alguns peixinhos no líquido amniótico
Já agora um beta e alguns escalares
E porque não alguns nenúfares?

[…]

Mãe
O que está a acontecer?
O teu útero começou a contrair-se
e as contracções vão-se tornando cada vez mais frequentes

Mãe
O que é que eu fiz
para me expulsares assim desta maneira?

Mãe
A distância entre mim e ti
não se mede em centímetros mas em lilases 

Jorge de Sousa Braga é poeta e médico, especializado em Ginecologia e Obstetrícia; portanto, reúne todos os conhecimentos científicos para relatar os sonhos do bebé quando este ainda nada na barriga da mãe.

Pela fotografia da Leonor, sei bem que a sobrinha mais linda do mundo ainda sonha com jasmim, peixinhos e escalares riscados.

Mas estou certa de que irá deslumbrar-se muito em breve com as cores do arco-íris.

Quanto a mim, vou tentar honrá-la e manter o foco na missão que me permitiu nascer: expandir a paz.


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Sal da pele

Jorge de Sena deixou-nos um poema para Agosto.

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

As fotografias de Agosto são de Katja Kremenic.

Boas férias!


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Queda

Café Orfeu

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.

Manuel António Pina

Este sorriso é da modelo brasileira Mahany Pery, fotografada pelo fotógrafo Michael Willian (também brasileiro).


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Roseiras e doces

Cora Coralina é o pseudónimo da escritora brasileira Ana Lins de Guimarães Peixoto (1889-1985).

Foi poeta e contista, teve seis filhos e, depois de enviuvar, tornou-se doceira. Além de fazer os seus doces, Aninha, como lhe chamavam, escreveu a maioria de seus versos entre o açúcar e o fogão.

Cora começou a escrever aos catorze anos (mais ou menos a altura em que deixou a escola), mas publicou o seu primeiro livro aos 76 anos.

Esta história impressionou-me, mas ainda mais este poema que parece ter sido escrito para esta Aninha que o copiou para aqui.

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Quantas Anas haveria dentro de Cora (pseudónimo que resultou da adaptação da palavra “coração”)?

Tantas que viveu até aos 96 anos!

As ilustrações são da canadiana Annya Marttinen, que me foi apresentada pela minha querida amiga Carmen, companheira de leituras e desventuras.


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Papéis

Fiz muitas viagens de carro com os meus pais.

Pelo nosso país e por Espanha.

Os tempos eram outros, assim como as prioridades. O dinheiro não proporcionava périplos pelas capitais do mundo, mas o Verão não passava sem a mala do carro se fechar à força e sem a madrugada nos ver partir.

Apercebi-me, mais tarde, de que o destino não era o mais importante.

Lembro-me de que não me aborrecia com aquele embalo lento e morno, com a paisagem a mudar do lado da janela, e com a cara ensonada do meu irmão do outro.

Nada de mal nos podia acontecer com o meu pai a conduzir e com a minha mãe com o mapa no colo. Do meu lugar, via as rugas nos cantos dos olhos do meu pai e acreditava que ele estava sempre a sorrir. Geralmente, estava.

Conversávamos, sonhávamos, crescíamos e dormitávamos. As viagens duravam dias inteiros, com paragens em que comíamos com aquela fome que não voltei a sentir.

Nunca atravessámos a Europa, mas não interessava.

Instalar a difícil caravana ou ocupar uma casa desconhecida era já uma aventura.

Agora vou eu no lugar da frente e vejo a paisagem aberta.

Aproveito as horas de viagem para conversas sem pressa.

O lado atraente da viagem é também ter disponível aquele bloco de tempo sólido pela frente. Numa altura em que tudo é corrido, é como se entrássemos numa outra dimensão da nossa existência, uma dimensão dos contos mágicos.

Sinto sempre sol, quando recordo as viagens com a Beatriz, mas também deve ter chovido.

Ouvimos música, mas eu não estou autorizada a cantar, porque já tenho uma pré-adolescente no carro. Pode ser também porque sou terrivelmente desafinada. No fundo do meu peito também bate um coração e acabo por cantar baixinho.

A vida é feita de viagens e é bom que tenhamos ao nosso lado a melhor companhia. Quanto a mim, quero usufruir o “durante” sem pressa de chegar.

As pessoas distinguem-se entre as que querem que os quilómetros se prolonguem e as que querem que os quilómetros se encurtem.

Lembro-me perfeitamente do momento em que percebi que já não podia namorar com uma pessoa. Estávamos no carro e eu comecei a sentir uma urgência em chegar à cidade para onde nos dirigíamos. Percebi então que aquele nunca seria o meu companheiro de viagem. São, por vezes, estes momentos, aparentemente tão simples, que definem a conjugação eterna (ou a separação) de duas almas.

Tínhamos uma viagem marcada para o outro lado do mundo.

Não fui.

José Luís Peixoto escreveu magnificamente sobre as viagens que nos ficam, enquanto filhos e enquanto pais. Foi ao lê-lo que me lembrei das minhas e que me consciencializei de que já desempenhei os dois papéis. Também vou ficar na memória da minha filha e essa é a maior honra e a maior responsabilidade.

Esta crónica.

“Falta pouco, respondia o meu pai. E continuávamos a falar de algum assunto que, agora, gostava de poder retomar. Esse era um tempo muito bom, era um tempo perfeito. Sentado, com o peito atravessado pelo cinto de segurança, não sei se dava o valor devido a essas horas em que a paisagem me parecia demasiado monótona, sobretudo quando confrontada com tudo o que imaginava acerca do lugar para onde nos dirigíamos. Eu era pequeno ou distraído, não creio que tenhamos chegado a falar sobre isso, mas acredito que o meu pai valorizava esse tempo, esses quilómetros que partilhávamos no carro.

Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Por isso, sobreponho a minha memória com o que vejo em espelhos visíveis e invisíveis, e acredito que sou capaz de perceber melhor o significado do seu rosto durante essas viagens, a maneira como dizia certas palavras e como contava certas histórias. Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Essa é uma constatação profunda dentro de mim, como se o meu pai me olhasse ainda desde esse interior. Em breve, terei a idade que ele nunca chegou a ter. Quanto falta para chegarmos?

Falta pouco, respondo eu com a voz do meu pai. Percebo agora que também ele sabia exatamente quanto tempo faltava para chegarmos, mas também ele preferia que não nos fixássemos apenas no destino, apenas na hora e no lugar onde chegaríamos. A impaciência era desnecessária. Tarde ou cedo, haveríamos de chegar. Essa era uma certeza. Enquanto estávamos ali tínhamos a viagem, tínhamos tudo.”

As fotografias cinematográficas são da dupla Damien e Leila de Blinkk.


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Biscoitos de limão, chia e nozes

Apesar do desconfinamento, continuamos com cuidado e, por enquanto, evitamos as viagens.

Fizemos estes biscoitos e enviámos para as pessoas de quem temos mais saudades.

Apesar do ar simplório e saudável, são saborosos e crocantes.

Ingredientes:

200g de flocos de aveia triturados como farinha

100g de farinha de trigo

100g de farinha de trigo integral

2 colheres de chá de fermento em pó

120g de açúcar mascavado

4 colheres de sopa de sementes de chia

raspa de 2 limões

4 colheres de sopa de sumo de limão

1 pitada de flor de sal

120ml de natas de soja light (ou outro leite vegetal)

4 colheres de sopa de azeite

nozes a gosto

1- Misturar os ingredientes secos (farinhas, fermento, sementes e sal).

2- Juntar a bebida vegetal, o azeite, a raspa e o sumo de limão.

3-Envolver até se formar uma massa bem moldável.

4-Deixar repousar 25 minutos.

5-Fazer bolinhas e achatá-las com as nozes (ou apenas com os dentes de um garfo, se não se pretender usar frutos secos).

6- Levar ao forno, durante 15 minutos a 180ºC, em tabuleiro forrado de papel vegetal.

Seguiram embalados e aqueceram os estômagos dos nossos corações espalhados pelo país.