“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Será?

Será  Amor?

Ainda que Mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.
Carlos Drummond de Andrade, in ‘As Impurezas do Branco’
Lapetitesardine


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Super-Homem

Os grandes amores acompanham-nos durante toda a vida.
Pelo menos os amores musicais…
Gilberto Gil escreveu uma definição de homem e cantou-a com Caetano. Dois homens que sabem como é maravilhoso sermos diferentes e complementares! :
“Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher”


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Amigos perdidos

São assim os poetas…

Carlos Drummod de Andrade descreveu-me, em 1945:

Alguns amores passaram,

mas a vida não se perdeu,

o coração continua aqui

e mantenho-me nua na praia,

a apanhar o vento frio e o calor do Céu.

É para lá que olho.

Os amigos são a maior dádiva deste meu percurso louco, e são, simultaneamente, a maior causa de dor. São tão excepcionais, mas desaparecem.

As minhas perdas acontecem abrupta e tragicamente. Fico sozinha no mundo.

Mas “o coração continua”

“nu na areia, no vento…”

Consolo na praia

Vamos, não chores.

A infância está perdida.

A mocidade está perdida.

Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.

O segundo amor passou.

O terceiro amor passou.

Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.

Não tentaste qualquer viagem.

Não possuis casa, navio, terra.

Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,

em voz mansa, te golpearam.

Nunca, nunca cicatrizam.

Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.

À sombra do mundo errado

murmuraste um protesto tímido.

Mas virão outros.

Tudo somado, devias

precipitar-te, de vez, nas águas.

Estás nu na areia, no vento…

Dorme, meu filho.

(Declamado pelo Drummond, aqui.)

Imagens de amigas despidas, como sempre devem estar as amigas, do blog IGNANT.


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Suspirar

É difícil continuar focada com a acumulação do cansaço de um ano de trabalho.

Ando com visão seletiva e só retenho imagens destas.

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Que posso eu fazer?

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Anseio por mergulhar no silêncio.

Mergulhar é encontrar um silêncio profundo, como se fizéssemos uma pausa na vida ou experimentássemos um minuto extra oferecido pelos deuses marinhos.

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Esta mulher fabulosa e estes fatos de banho de sonho foram roubados ao blog HWTF.

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A última imagem é da superbronzeada Jules; eu estou verde de inveja, literalmente!


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Pequeninas coisas

Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina, in Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde

Ilustração: Xuan Loc Xuan.


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Maçãs

Do que mais gosto do Verão é da variedade de fruta que temos ao nosso dispor! Nesta altura, ficam umas tristes maçãs na fruteira que têm de ser aproveitadas.

Bolo de maçã

Massa:

50g de manteiga amolecida + 25g de azeite

100g de farinha com fermento + 75g de farinha de trigo integral

50g de açúcar mascavado

1 ovo

75 ml de água

3 maçãs descascadas e partidas

Cobertura:

40g de açúcar mascavado

1 colher de chá de canela

20g de manteiga

1- Pré-aquecer o forno a 180ºC e untar uma forma de cerca de 20 cm de diâmetro e forrá-la com papel vegetal.

2- Misturar a farinha com a manteiga numa taça e trabalhar com a ponta dos dedos até obter uma massa granulosa.

3- Juntar o açúcar e misturar bem.

4- Incorporar o ovo e a água até que esteja uma massa cremosa.

5-Espalhar a massa no fundo da forma e colocar as maçãs sobre a massa.

6- Pincelar com a cobertura e levar ao forno, durante 35 minutos.

A receita original, com tudo a que temos direito, resulta num bolo mais voluptuoso que está no meu blog de receitas (e não só!) favorito, Flagrante Delícia, de Leonor de Sousa Bastos.


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Gente

Este poema custa-me, mas quando não afogo a lucidez em tinta cor-de-rosa é esta tristeza que sinto com o peso do mundo.

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Adolfo Casais Monteiro escreveu Europa em 1945:

IV

Eu falo das casas e dos homens,

dos vivos e dos mortos:

do que passa e não volta nunca mais…

Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,

ah, não me venha com teorias!

eu vejo a desolação e a fome,

as angústias sem nome,

os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,

uma insignificante parcela de tragédia.

Eu, se visse, não acreditava.

Se visse, dava em louco ou em profeta,

dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,

— mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.

Olho num pasmo sem limites,

e fico sem palavras,

na dor de serem homens que fizeram tudo isto:

esta  pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,

esta lama de sangue e alma,

de coisa e ser,

e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,

se o ódio sequer servirá para alguma coisa…

Deixai-me chorar — e chorai!

As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,

de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,

e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,

por um segundo seremos os mortos e os torturados,

os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,

seremos a terra podre de tanto cadáver,

seremos o sangue das árvores,

o ventre doloroso das casas saqueadas,

— sim, por um momento seremos a dor de tudo isto…

Eu não sei porque me caem lágrimas,

porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,

eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,

eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,

eu que estou na minha casa sossegada,

eu que não tenho guerra à porta,

— eu porque tremo e soluço?

Quem chora em mim, dizei — quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:

As ruas são ruas com gente e automóveis,

Não há sereias a gritar  pavores irreprimíveis,

e a miséria é a mesma miséria que já havia…

E se tudo é igual aos dias antigos,

Apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,

eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,

sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,

sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,

uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada…