“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Se eu fosse a ti

Segundo os últimos dados da DGS, o número de infectados continua a aumentar e, desta vez, o Alentejo não sai ileso. Não sei se é por isso, mas tenho sentido as pessoas muito mais tensas e com o modo conflituoso ativado.

Também pode ser porque voltei a trabalhar fora de casa, saí da minha doce bolha-lar, caminho pela rua e vejo mais seres taciturnos, irritadiços, impacientes e inquiridores.

Li que a pandemia irá prolongar-se no tempo e que os cuidados a que estamos obrigados agudiza os espíritos potencialmente neuróticos.

O vírus assusta-me, mas também tenho medo de ser atingida por esta neurose social.

Para já, noto que, contrariamente ao que eu julgava no início da pandemia, estamos a perder a empatia e o sentido de humor.

Será porque estamos literalmente amordaçados e deixámos de ver o sorriso do outro?

Será que a falta de abraços está a afectar irremediavelmente a nossa saúde mental?

Há muito tempo que não ouço uma gargalhada fora de minha casa. Gritos coléricos vindos da rua, infelizmente, tenho ouvido com alguma frequência.

Juan Vicente dá-nos instruções para atravessarmos o deserto do mundo.

E dá-nos uma chave: o humor.

Se perdermos essa habilidade, perderemos uma grande parte da nossa capacidade de resistir e uma das nossas características mais humanas.

Se Eu Fosse A Ti

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum “mas” a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.

Juan Vicente PiquerasInstruções para Atravessar o Deserto

Fotografias de mergulhos: IGNANT.


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Certezas

A voragem dos dias provoca tamanho sorvedouro na minha vida que me cercam partículas, num raio mínimo de 1 km.

Deito-me e levanto-me na poeira.

À noite, pesam-me os sedimentos que não encontraram o seu lugar.

Chamam-lhe insónia.

A escuridão mais assustadora é a que encontro no peito quando fecho os olhos.

A intensidade do amor e a luz dos livros são a minha única possibilidade de redenção.

Perfilei, aleatoriamente, os livros que me esperam na prateleira de cima do escritório e tranquilizo-me com Afonso Cruz.

Ainda vou ser muito feliz.

“Por vezes, os livros que não são lidos podem assumir um ar acusador. Muitos leitores sentem alguma culpa quando olham para as pilhas de livros por ler. No meu caso, considero estes livros uma possibilidade de ser livre: não tenho apenas um livro para ler, tenho muitos, e isso permite-me escolher o próximo[…]. No fundo, concordo com Jules Renard quando escreveu em Notas sobre el Oficio de Escribir: «Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz».”

Também foi por causa de Afonso Cruz e desta entrevista incrível a Bernardo Mendonça que ouvi, depois de tantos anos, esta música de Chico.

Sobre a rotina, precisamente.

E esta! Para os corações mais sensíveis ouvirem em noites de insónia!

Ou talvez não.

Os corações sensíveis terão mais dificuldade em conciliar o sono e podem despertar a sua “llorona”.


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Consolação

Na série de entrevistas “Os Filhos da Madrugada”, de Anabela Mota Ribeiro, Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D.Maria II, proporcionou-me 20 minutos valiosos.

A propósito do título do seu espetáculo “By Heart”, discorre sobre a importância de decorarmos poemas ou textos. Recorre ao étimo latino da palavra decorar (cor, cordis: coração; ou seja, guardar palavras no coração) e explica que a memória pode ser o único gesto de resistência contra o totalitalismo político ou contra o totalitarismo humano. A este último nenhum humano pode fugir; ou não estivéssemos a falar da doença e da morte.

Nesse sentido, decorar um poema poderá ser o “nosso património, a nossa consolação”, a única “garantia de civilização mesmo nos tempos mais bárbaros e desolados”.

No site do Teatro Nacional D. Maria, li a seguinte citação de George Steiner:

“Assim que 10 pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver”. Em última análise, By Heart é uma recruta para a resistência que só termina quando os 10 guerrilheiros souberem o poema de cor.

Acrescenta Tiago Rodrigues que recitar um verso poderá ser mesmo a nossa melhor despedida da vida.

Sempre me preocupei com a ideia de chegar ao fim e pensar: foi só isto?

Ando há anos a querer viver com vontade, adrenalina, tragos e fulgor.

No entanto, ultimamente tento filtrar a vida de modo a coar o sofrimento porque, na minha ânsia de viver, a dor é um contratempo incómodo.

Continuo neste precário equilíbrio entre entregar/ proteger o coração.

Viver com o coração encouraçado preserva-nos, mas mantém-nos aquém.

Os poemas de Cláudia R. Sampaio são sempre transformadores.

Epitáfio de Domingo

Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua
à légua mais distante da minha vida,
diz que compreendi.
Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento

Diz que fui ar azul sobre campos de secura
estrada recta ao infinito,
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
e que, quando me viram, me ergui animal

Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e a boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura

Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém
Que fui o halo frio que preenchi com esta pena
pela minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio

Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu fui eu

Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
– quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?

Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia
e tu sabes
que essas saudades que vais tendo
são as minhas.

Imagem: IGNANT.


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Desafio-te

Depois de períodos espinhosos, uma pandemia ou uma guerra, já assistimos, no passado, a uma retoma material e espiritual por parte dos povos:

Os loucos anos vinte do século XX são um exemplo desse fenómeno social.

Em Portugal, especificamente, vivemos uma loucura discreta.

Afinal, logo em 1928, houve um verdadeiro insano que assumiu a pasta das Finanças e, em 1932, o mesmo demente assumiu o país e queimou o que restava da alegria.

No entanto, os anos vinte ainda permitiram a nossa explosão modernista.

A minha admiração pelo Modernismo Português remonta ao ensino secundário e universitário.

Trata-se de uma geração de ruptura e desafio, o que seduz qualquer jovem.

Ainda hoje me fascinam: persigo filmes, exposições, biografias e documentários desta época.

Acho até que me apaixonei, aos dezoito anos, por esta fotografia de Santa Rita-Pintor.

Santa-Rita Pintor foi um dos organizadores da revista Orpheu e era o dinamizador da revista Portugal Futurista. Só existiu o número 1 desta última revista, uma vez que todos os exemplares foram apreendidos à porta da tipografia, devido ao seu teor “subversivo e obsceno”.

Nada pode ser mais inebriante do que este tipo de pormenores.

Quanto ao pintor Amadeo de Souza Cardoso, saltou de Manhufe para Paris, com a paleta debaixo do braço.

Aguardo, ansiosamente, pela estreia do filme sobre Amadeo de Souza Cardoso de Vicente Alves do Ó. Acredito que seja este ano.

A estreia do filme tem sido adiada por causa da pandemia.

Amadeo de Souza Cardoso morreu de gripe espanhola. Infelizes coincidências.

A obra de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Sá Carneiro ou de Amadeo jorrou em rompantes criativos, aparentemente sem esforço e com uma originalidade genial e chocante para a época.

Sá Carneiro e Fernando Pessoa eram, socialmente, mais contidos.

Almada era extravagante e Amadeo era… pintor.

Muito me fascina a sua figura.

Decidido e sobranceiro.

Estes génios fitam-nos e interpelam-nos: E, tu, o que fazes?

Não queriam discípulos; queriam soldados para a sua revolução cultural.

São inspiradores!

Ainda hoje procuram soldados para esta batalha!

Eu alistei-me na sua milícia pacífica.


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Nuvens em pé

Finalmente, estamos a recuperar o espaço público.

Que bom que é ver os outros, sentir, cheirar, tocar, concordar, discordar, intervir, ouvir, observar, seguir, calar, e guardar tudo no fim.

Sempre precisei de silêncio e solidão e não tinha consciência de que me fazia falta a sensação de “fazer parte de”.

Basta sair de casa, observar ou ouvir uma conversa para que os outros me acrescentem.

Integro ou rejeito a diferença, mas reflito e cresço.

Talvez o sentido de comunidade também se desenvolva assim e nem precise de intervenções públicas estrepitosas.

Perante a forçada ausência do novo, devo uma parte da minha sanidade mental aos podcasts que fui/vou ouvindo, nomeadamente “O Poema ensina a Cair”, da autoria de Raquel Marinho.

Um dos últimos que ouvi teve como convidado Vicente Alves do Ó. Foram duas horas de conversa que me acompanharam e acenderam vários dias. Para além da obra, o realizador é um excelente contador de histórias e, através dele, conheci a poeta Cláudia R. Sampaio.

As redes sociais são enjoativas, mas gosto da ideia de comunidade virtual: ao longo destes meses, fui reunindo à minha volta vários nomes que me preenchem, de forma sublime, o pensamento.

Este poema da Cláudia R. Sampaio ainda me ilumina os dias.

Tragam-me um homem que me levante

com os olhos

que em mim deposite o fim da tragédia

com a graça de um balão acabado de encher

tragam-me um homem que venha em baldes,

solto e líquido para se misturar em mim

com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se

leve, leve, um principiante de pássaro

tragam-me um homem que me ame em círculos

que me ame em medos, que me ame em risos

que me ame em autocarros de roda no precipício

e me devolva as olheiras em gratidão de

estarmos vivos

um homem homem, um homem criança

um homem mulher

um homem florido de noites nos cabelos

um homem aquático em lume e inteiro

um homem casa, um homem inverno

um homem com boca de crepúsculo inclinado

de coração prefácio à espera de ser escrito

tragam-me um homem que me queira em mim

que eu erga em hemisférios e espalhe e cante

um homem mundo onde me possa perder

e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos

atirando-me à ilusão de sermos duas

novíssimas nuvens em pé.

in Ver no Escuro, Tinta da China.

O fotógrafo Vitorino Coragem tirou estas fotografias à poeta e eu trouxe-as daqui.


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Olho lírico

Sobrevivemos a um ano de teletrabalho e de isolamento.

Um ano inédito a convivermos ininterruptamente connosco, com o stress do trabalho, da vida doméstica, do medo, da saturação e do desânimo.

O teletrabalho, nos moldes excepcionais em que o vivemos, é duro, mas protegeu-nos de doenças e de outros desconfortos diários.

Não conhece, no entanto, a prerrogativa “fim de expediente”: como estamos em casa, os outros pressupõem que permaneceremos 24 horas disponíveis.

Até acredito que há pessoas que se aborrecem e se entretêm a trabalhar.

Não é o meu caso.

Desconfio que, quando desconfinarmos totalmente, as empresas e instituições esquecerão as vantagens do trabalho à distância e vão obrigar os trabalhadores a suportar reuniões enfadonhas e tarefas intermináveis que poderiam ser realizadas no conforto do lar.

Surgirão mudanças, no mundo laboral, depois da pandemia?

Preocupa-me o que tenho visto, embora já tenha lido perspectivas muito optimistas.

Para já, sempre que surgem reivindicações, estas são encaradas como inoportunas.

Que burguesia é esta que tem trabalho e tempo para reivindicar!?

Outra burguesa aqui se apresenta… outra que não sabe que as únicas ambições permitidas, hoje, são saúde e “pão na mesa”.

Como eu desejo que o “desconfinamento a conta-gotas” traga sonhos diluviais e inconvenientes!

Se vierem aí os loucos anos 20, “inebriantes, criativos, tumultuosos”, estou já disponível para viver cada minuto!

Aguardo.

Para já, sou uma telefuncionária, apagada, mortinha por deixar escapar o “olho lírico” para bem longe de casa.

Estou em contagem decrescente, mas ainda numa desoladora sintonia com o funcionário de António Ramos Rosa, na sua “vida às avessas a arder num quarto só”.

O Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa

A fotógrafa Trisha Ward interpretou desta forma os tempos que andamos a viver: “The Art of Waiting” deu o mote ao editorial que eu trouxe daqui.


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A Montanha de Livros mais Alta do Mundo

Com dez anos, a Beatriz lê sozinha, durante a meia-hora que instituí, cá em casa, de leitura diária silenciosa.

No entanto, continuo a trazer livros da biblioteca para uma amorosa leitura a duas, antes de adormecermos.

É a melhor forma de nos despedirmos do dia: abraçadas, no meio das mais belas aventuras.

Entre biografias, livros de aventuras e reflexões, por vezes, voltamos aos livros com ilustrações e histórias simples.

Como este, com a história do Lucas.

Lucas sabia, desde bebé, que tinha um destino: voar.

Passava os dia à janela, com os olhos perdidos nos pássaros.

Tentava, a todo o custo, realizar o seu sonho. Apelou até para divindades, como o Pai Natal. Sem sucesso!

Na frustração em que vivia, nem se entusiasmou quando a mãe lhe explicou que havia outras formas de voar.

Quando lhe ofereceram um livro, foi avançando, hesitante,… até que se entusiasmou.

Tal foi o entusiasmo que a situação se descontrolou.

Insanamente.

Só quem nunca entrou no mundo da ficção e da poesia é que não compreende esta insanidade que, quando temos sorte (e o livro certo), se apodera do nosso espírito.

Felizmente, o Lucas aprendeu a controlar os voos e a desfrutar a viagem.

Da escritora Rocio Bonilla e editado, em Portugal, pela Jacarandá.


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A casa do amanhã

Quem nasceu em Democracia e Liberdade, como eu, nunca pensou que estas conquistas, relativamente recentes no nosso país, poderiam tornar-se tão frágeis e voláteis.

Vivemos em ininterruptos estados de calamidade/emergência e outros estados híbridos há meses.

Sucedem-se regimes de excepção que determinam, sem pudores, a “suspensão parcial do exercício de direitos, liberdades e garantias, prevendo-se, se necessário, o reforço dos poderes das autoridades administrativas civis e o apoio às mesmas por parte das Forças Armadas”, conforme consta do site da Assembleia da República.

Receio que quem realmente nos governa (e não me refiro ao séquito do Primeiro-Ministro) se habitue a esta submissão generalizada, ordeira (e tão conveniente) dos povos.

O pequeno comércio foi arruinado, a restauração familiar faliu, os produtores por conta própria foram cilindrados e os grandes distribuidores monopolizam e engordam. As grandes fortunas nunca estiveram tão prósperas, como em 2020/2021:

“Assim [o enriquecimento] aconteceu com os maiores milionários de todo o mundo, que se “aguentaram bastante bem” neste novo normal e viram as suas fortunas engordar 27,5% entre abril e julho, escreve o jornal “The Guardian“.

Isso é o mesmo que dizer que pouco mais de duas mil pessoas arrecadam atualmente 8,7 biliões de euros nos seus cofres e até enriqueceram em pleno pico da pandemia, de acordo com um relatório do banco suíço UBS.”

Coincidências?!

Concomitantemente, o cidadão comum definha: só em Portugal 100 mil pessoas ficaram desempregados, as doenças mentais aumentaram e as outras, terrivelmente mortíferas (oncológicas e cardíacas), têm sido negligenciadas.

A par disto, os pequenos prazeres quotidianos são proibidos.

Beber um café, conversar com um amigo na rua, ler numa esplanada, dar um passeio pela cidade ao fim-de-semana, comprar um livro na livraria, oferecer um sorriso destapado, abraçar os amigos, beijar os amantes,… são actos subversivos e criminosos.

Pessoalmente, sou afortunada e, por isso, sinto o dever cívico de manifestar a minha preocupação relativamente àquilo que vai para além da sobrevivência básica; como humanos, temos de ansiar, em todas as circunstâncias, por mais do que isso…

Na verdade, nem é o confinamento per si que me perturba.

O clima de proibição e o incentivo à delação, em pleno século XXI, é que me desconcertam e retiram o ânimo.

Também por isso, neste segundo confinamento, precisei de manter-me ativa.

Fui melhorando a minha casa e coloquei em prática alguns projetos adiados.

Entretive as mãos com tinta branca, reactivei a aparelhagem abandonada, coloquei os pensamentos em ordem e fui descobrindo vários poadcasts que não conhecia.

A Beleza das Pequenas Coisas de Bernardo Mendonça é um deles, com convidados tão excepcionais como Maria do Rosário Pedreira, valter hugo mãe, Dulce Maria Cardoso, João Tordo,…

Nos últimos dias, ouvi ainda o podcast “O Poema ensina a cair” de Raquel Marinho, com convidados como Eunice Muñoz, Capicua, Rui Vieira Nery ou Alexandre Quintanilha. Ouvir a Raquel Marinho dizer, com frequência: “A Poesia é a distância mais curta entre duas pessoas” restitui-me a fé nos humanos.

O episódio com Alexandre Quintanilha também foi terapêutico e profundamente comovente, sobretudo no momento em que ele partilhou este poema do libanês Khalil Gibran. Tal como Quintanilha, li muitas vezes Khalil Gibran, quando tinha vinte anos.

O poema “As Crianças” ganhou um novo sentido, agora que sou mãe há precisamente uma década.

Os vossos filhos [são] setas vivas projectadas

As crianças

E uma mulher que trazia

um menino ao colo disse:

-Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:

-Os vossos filhos

não são vossos filhos:

são filhos e filhas da própria Vida.

Vêm por vosso meio

mas não de vós;

e apesar de estarem convosco,

não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor,

mas não os vossos pensamentos

porque eles têm os seus.

Podeis acolher os seus corpos

mas não as suas almas:

porque as suas almas

habitam a casa do amanhã

que não podeis visitar,

nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles,

mas não tenteis fazê-los como vós.

Porque a vida não vai para trás,

nem se detém com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos

as setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,

e retêm-vos com o seu poder para que as setas

possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro

seja de Alegria.

Porque assim como Ele gosta da seta que voa,

também gosta do arco que fica.”

No dia das fotografias, nevou.

Corremos para a rua, esquecemo-nos da máscara em casa, brincámos no Rossio e comemos neve.

Foi o último dia em que me senti livre, dentro da cidade.

(A versão do poema de Khalil Gibran foi retirada dos cadernos de Poesia mais-que perfeita. Há várias décadas circulavam por Coimbra, pelas mãos de alguns estudantes, estas pequenas antologias; são da editora “A Mar Arte”, e a minha edição é de 1994. A coleção chamava-se “O Reino dos Loucos” e eu, sem noção de como era privilegiada, feliz e livre, era uma delas.)


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Ciclopes

Julio Cortázar (1914 – 1984), escritor argentino, é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo. Mestre no conto e na narrativa curta, a sua obra é apenas comparável a nomes como os de Edgar Allan Poe, Tchékhov ou Borges.

Não me lembro de ter lido algum texto de Cortázar.

De quantas vidas precisaríamos para conseguirmos ler todos os livros que desejamos?

Na página digital da livraria Bertrand, entrou-me Cortázar pelos olhos diretamente para o coração.

“Toco a tua boca.

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

in ‘Rayuela’, disponível aqui: bit.ly/rayuela-

Encontrei este excerto AQUI.

Os ciclopes são do fotógrafo espanhol Cayetano González, um adepto da luz natural, neste mundo tão cheio de filtros…


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Sapiens de ficção

A cusquice permite organizar grupos de 150 indivíduos com relativa facilidade.

Resta saber como é que passámos de tribos com uma organização rudimentar para cidades e países modernos?

Yuval Harari, no seu livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, responde a essa intrigante questão:

“Como foi possível ao homo sapiens ultrapassar o limite de 150 indivíduos?

Como é que o homo sapiens conseguiu fundar cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios com centenas de milhões de súbditos?

Graças à ficção!

Nunca tinha pensado nisso, mas faz muito sentido.

O segredo do nosso sucesso gregário reside na mitologia: um grande número de desconhecidos cooperam bem, se acreditarem nos mesmos mitos!

Não usamos a linguagem apenas para descrever o que se passa à nossa volta, mas também para inventar o que se passa à nossa volta. As ficções cercam-nos, nas suas formas mais saudáveis e artísticas.

Infelizmente, também nos perseguem nas suas formas mais perversas.

Quantas narrativas foram criadas por génios para nosso prazer?

Quantas narrativas foram/são inventadas para nos manipular, dominar, oprimir ou aniquilar?

São questões que continuam actuais.

“Toda a cooperação humana de larga escala depende de mitos partilhados que existem só no imaginário colectivo. Vale para uma tribo pré-histórica, uma cidade antiga, uma igreja medieval ou um estado moderno.

As ficções são instrumentos estruturantes nas religiões, nos estados ou até dos sistemas judiciais, mas é conveniente que não percamos a noção de que são meros instrumentos; não poderemos permitir que nos escravizem. Não teremos, no entanto, já passado essa linha vermelha?

Quantas vezes se confunde a realidade com as ficções que criámos?

Nem tudo é ficção, a realidade existe.

Quando alguém morre na guerra, morre realmente, mas muitas vezes em nome de uma ficção que nos venderam: a defesa de um país, de um povo, ou de um valor moral nobre propagandeado para justificar a violência armada ou opressora (democracia, liberdade, justiça, segurança, saúde,…).

“Como saber se o herói de uma história é real ou inventado?

Pergunta a ti mesmo: este herói pode sofrer?

Uma empresa, por exemplo, não sofre nem quando entra em falência: não tem uma mente, não consegue sentir dor, nem tristeza. Também uma nação não sofre, sequer quando perde uma guerra”, mas um ser humano pode morrer em nome de uma ficção que criaram para ele.

Um ser humano ferido na guerra sofre realmente.

Imagens e citações do livro Sapiens, uma Breve História da Humanidade.


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Calhandrice

Quando há mais de vinte anos cheguei ao Alentejo, aprendi muitas palavras novas. Recordo-me da palavra “calhandreira”.

No programa Visita Guiada, de Paula Moura Pinheiro, fiquei a saber que as calhandreiras eram as mulheres que tinham a ingrata função de recolher e despejar os calhandros dos mais ricos. Os calhandros eram os objectos que guardavam os dejectos, antes de haver saneamento básico nas cidades. Estas mulheres passavam o dia com os calhandros à cabeça a circular pelas ruas. Imagino que os momentos de convívio e conversa fossem os únicos momentos de alívio e refrigério. A partir daí, associou-se a palavra calhandeira a quem se entretém a conversar sobre a vida dos outros.

Segundo Yuval Harari, no seu livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, foram os momentos de complexidade comunicativa, sobretudo acerca dos outros, que nos distinguiram definitivamente dos demais primatas.

O homo sapiens é, por excelência, um animal social.

“A troca de informações sobre leões, bisontes e rios foi muito útil, mas a informação mais importante que os humanos trocaram entre si não foi sobre leões ou bisontes – foi sobre eles próprios.”

“A cooperação social é a chave da nossa sobrevivência e reprodução. Para caçar bisontes ou construir bombas, temos de confiar uns nos outros.

É importante as pessoas saberem quem, no seu círculo, odeia quem, quem está com quem, quem é honesto, quem é vigarista.”

“Para seguir o estado das relações de umas poucas dúzias de pessoas é preciso obter e processar uma quantidade avassaladora de informação. Num grupo de 50 indivíduos, há 1225 relações de um para um, além de um sem número de combinações sociais complexas! Os chimpanzés mal conseguem manter unidos grupos de 50 indivíduos.”

Os chimpanzés são curiosos e gostam de saber as novidades do grupo, mas têm de vê-las, não conseguem espalhá-las. Como sabemos, para os sapiens é muito fácil: basta falar nas costas uns dos outros!

Não consigo digerir bem este desprezível hábito humano, mas agora consigo compreendê-lo melhor.

“A cusquice é uma atividade maldosa, mas verdadeiramente essencial à cooperação de massas.

Como a cusquice, regra geral, se centra nas transgressões, ajuda a implementar normas sociais e a manter a coesão.”

Ajudou na evolução, mas esta é, sem dúvida, a razão principal pelo qual a abomino: quem cusca tem quase sempre a pretensão de possuir uma superioridade moral e, por conseguinte, ambiciona forçar os outros a seguirem o seu padrão social!

“Mas até a cusquice tem os seus limites. Cusque-se muito ou pouco, a maioria das pessoas não conhece a vida pessoal de mais de 150 pessoas. É por isso que o limite crítico de capacidade das organizações humanas ronda este número mágico: 150. Abaixo do limite de 150, as comunidades, as empresas, as redes sociais e as unidades militares conseguem funcionar graças ao tráfico de informações e boatos. Não há necessidade de escalões, cargos ou regulamentos para manter a ordem. Ultrapassando o limite de 150 indivíduos, as coisas deixam de funcionar assim.”

“Então como foi possível ao homo sapiens ultrapassar o limite de 150? Como conseguiu fundar cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios com centenas de milhões de súbditos?”.

Graças a algo muito mais poderoso, mas também muito mais perigoso!

Já conto!

Entretanto, nas noites de segunda-feira, na RTP1, começou o documentário Deus Cérebro, de António José de Almeida, sobre este enigmático órgão.

Aprendi que o fogo permitiu que passássemos a cozinhar os alimentos e que tivéssemos, finalmente, o aporte calórico necessário para sustentar o nosso inesgotável cérebro. Concomitantemente, o controlo do fogo permitiu longos serões à volta da fogueira: tínhamos conforto e alimento para contar as nossas façanhas de caça, “tecer alianças, ajustar contas, coscuvilhar, dançar e cantar. A cooperação afirmou-se como um pilar crucial para o desenvolvimento da mente humana.”

Quanto maior o grupo social dos primatas maior é a dimensão da cabeça!

É o conceito de “cérebro social”, que se relaciona com a complexa relação que as pessoas estabelecem umas com as outras.

Neste documentário, os cientistas destacam ainda o sexto sentido.

Não são impressões ou melindres; é a incrível capacidade que o nosso cérebro tem de simular e antever o futuro para assim se preparar e nos proteger. A verdadeira inteligência, segundo vários cientistas, reside na nossa (maior) capacidade de antever o futuro e na nossa capacidade de nos relacionarmos. Mais do que a tão reconhecida inteligência cognitiva, o que nos permite brilhar e elevar-nos é a inteligência emocional. Seríamos todos mais felizes se a valorizássemos desde o berço!

Imagem e citações do livro Sapiens, uma Breve História da Humanidade.