“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Os outros

Ler entrevistas é aprender com os outros.

Durante muito anos, ouvi devotamente o “Pessoal e Transmissível”, de Carlos Vaz Marques, na TSF.

Mais recentemente, tenho lido as entrevistas de Anabela Mota Ribeiro, recentes e mais antigas.

É enriquecedor perceber que há pessoas que cresceram mais do que nós.

Ana Luísa Amaral é escritora e professora na Faculdade de Letras do Porto.

Entrevistada por Anabela Mota Ribeiro, faz uma distinção entre transgressão e subversão, a propósito da vida e da escritora Emily Dickinson.

“Continuo profundamente fascinada com Dickinson. As suas indisciplinas, e são muitas, não são feitas via transgressão. Não rompe, não fractura abertamente. Subverte. A subversão é construir uma versão sob a versão existente e fazer com que essa versão existente se esboroe. É a implosão, é a explosão dentro. Essa ideia de corrosão faz-se sentido.”

Há momentos para transgredir, mas tento que a minha vida seja marcada pela subversão.

ignant

Esta imagem subversiva é do blog IGNANT.

 

 


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Ratos

Depois do amor, talvez a emoção primária da humanidade seja o medo.

Ainda acredito nesta sequência, mas receio que estejamos a assistir à ascensão do medo.

Por uma questão de sobrevivência, receamos todos os perigos que nos possam levar à morte.

O medo da morte foi profundamente explorado pelas religiões ao longo dos séculos e a Igreja Católica não foi excepção. De tal forma, que associou o natural medo da morte ao medo da vida: se viveres demais, se não (te) temeres, sofrerás as penas do Inferno. Se fores penitente, nunca morrerás; o Paraíso esperar-te-á.

Felizmente, esta premissa católica já foi desmentida por vários Papas (uns mais enfaticamente do que outros) e escusamos de recear o fogo eterno.

Os medos, no entanto, rodeiam-nos: alguns são herdados, muitos são diariamente inventados e empolados pelos governos (mais ou menos laicos) e pela comunicação social, para que a rebeldia seja dominada e o nosso pensamento e a ação paralisem.

O medo torna-nos ratos.

E os ratos desprezam-se e esmagam-se.

É uma das emoção que tento combater todos os dias.

Não sou uma pessoa corajosa – sou, na melhor das hipóteses, uma corajosa acidental.

Somente quando me enfureço perco o medo; se fosse personagem de um filme seria a figurante meia louca que avança pelo campo de batalha sozinha, apenas porque está tão indignada que encolerizou. Não há heroísmo no acto.

Este poema de O´Neill é triste e, infelizmente, premonitório.

Talvez seja por tudo isso que já não é necessária a imagem católica do Inferno.

Chegam-nos os medos (e medinhos) quotidianos…

 

O Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidosO medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a delesVai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiadosAh o medo vai ter tudo
tudo(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O’Neill, in Abandono Viciado

ignant-photography-daniel-coburn-becoming-a-spector

Imagem do fotógrafo Daniel Coburn, “Becaming a spector”.

 


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Queixar

ignant-24hours-daniel-gebhardt-de-koekkoek

Queixas de um Utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.
.
Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.

 

José Miguel Silva, in Ulisses Já Não Mora Aqui

ignant-daniel-gebhardt-de-koekkoek
Que subidinha danada!
Mais uma utente descontente!
(Imagens do blog IGNANT!)


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Amor feiinho

A propósito do texto de Oliverio Girondo, lembrei-me deste poema da brasileira Adélia Prado.

No Brasil, o “feiinho” perde o “i”; ficará mais bonitinho?

AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

 

Mariana miserável amor feiinho

Os feiinhos da imagem são da Mariana, a Miserável.


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Padrão

Michael Puett é professor catedrático de “História Chinesa” na Universidade de Harvard, onde dirige o Departamento de Estudos Religiosos.

Nesta palestra, coloca em causa a nossa forma de viver moderna e esclarecida.

Quantas vezes  não ouvimos e dissemos que o importante é sermos fiéis a nós próprios, encontrarmo-nos e amarmos as nossas qualidades e defeitos? Eu não paro de dizer isso.

Puett apresenta outra perspectiva acerca desta questão que me tem dado que pensar.

Já há mais de dois mil anos que vários filósofos chineses dizem que nós não nascemos com a tal identidade que andamos, no mundo ocidental, tão furiosamente à procura.

Aliás, dizem que nós somos, mal nascemos, exteriormente e interiormente, uma enorme confusão, “a mess”,  e relacionamo-nos, de imediato, com outros seres em total desordem, os outros humanos.

Reagimos, desde bebés, por padrões, sem a possibilidade de escolha que muitas vezes pensamos que temos.

Como?

Na infância, aprendemos a reagir em espelho: se nos sorriem, sorrimos; se forem rudes connosco, respondemos com agressividade.

Estes são só dois exemplos de padrões básicos que muitas vezes nos condicionam a vida: habitualmente já nem é preciso serem muito rudes connosco, porque o nosso sistema de resposta é tão automático que reagimos, desde logo, com agressividade a um mero esgar antipático. Ou seja, não estamos a reagir àquela situação específica, mas a um acumulado e a deixar o padrão funcionar.

Este nosso comportamento por padrão explica o motivo pelo qual tendemos a repetir o mesmo erro ao longo da vida: ou somos sistematicamente pouco exigentes nas relações amorosas ou deixamos que um chefe nos humilhe; ou reagimos de forma particularmente agressiva quando somos contrariados ou estamos em stress constante…

Geralmente, justificamo-nos dizendo que temos uma personalidade passiva, reactiva, mais dominadora,…

Michael Puett explica, assim, a origem da maior parte dos nossos comportamentos, recorrendo à  nossa tendência interna para repetirmos padrões que interiorizámos na infância e adolescência, sobretudo.

Acrescenta que esta tendência para nos aceitarmos é perigosa e não vai deixar-nos ser melhores pessoas e mais felizes.

A resposta passa, então, por quebrar o padrão.

Como?

Os chineses quebram-no através de rituais.

O ritual é extremamente importante nesta cultura ancestral, pois surge como uma oportunidade para interromper a vida diária, com as suas tensões, e introduzir um elemento novo.

Há até um ritual muito curioso que consiste na troca de papéis familiares: o pai assume o papel do filho e o filho o papel do pai.

Repete-se o ritual até se interiorizar a nova dinâmica.

Puett sugere que tentemos fazer o mesmo.

O professor dá um exemplo que aqui em casa (mea culpa!) acontece com frequência.

No final do dia, estamos cansados e sem paciência e é muito fácil rastilhar uma discussão. Ninguém tem muita consciência de que está a reagir já respondendo ao padrão habitual e respondemos (eu respondo, na verdade!) de forma menos simpática porque estou rabugenta e com tarefas por fazer.

Criar um ritual pode ajudar e é simples. Fazer algo inesperado como apagar as luzes e colocar velas na mesa, música ambiente, quebra o padrão e potencia algo novo.

Já experimentei e cada um levou o seu prato para jantar na mesa da rua à luz das estrelas.

No Inverno, não sei se terei a mesma presença de espírito, mas fica o registo positivo.

Na minha vida profissional, observo diariamente que os adolescentes mais problemáticos respondem a padrões. Uns dias melhor, outros nem tanto, tento quebrar o padrão e reagir de forma inesperada. Não ripostar a uma provocação e, posteriormente, num outro momento da aula, colocar-lhe a mão no ombro, transmitir-lhe uma mensagem de calma, uma advertência individual e/ou um reforço positivo costuma fazer milagres.

Claro que só é bem sucedida quando eu consigo quebrar o meu padrão e não reajo com impulsividade a uma agressão.

Quebrar padrões exige muita autoconsciência, autodomínio e autodisciplina: três palavras que preciso de trabalhar e treinar muito.

O livro de Michael Puett tem este sugestivo nome e vai ser o meu guia.

O caminho da vida Michael Puett

 

 

 


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Importa?

Ouvi Oliverio Girondo, no programa Literatuta Aqui, dito por Pedro Lamares.

Só cumprimentei o escritor, mas ficou-me a vontade de voar com ele!

Nasceu em 1891, em Buenos Aires.

Não era fisicamente atraente, mas um homem que escreve assim não precisa.

Katharina-Jung_Photography_07

Em total coerência com a transcrição, Girondo casa com a escritora Norah Lange.

“Não me importa nada que as mulheres tenham seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Não dou nenhuma importância ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que ganharia o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas isso sim – e nisso sou irredutível — não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendam seduzir-me!

Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.

Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognóstico reservado?

Maria Luísa era uma verdadeira pluma!

Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar até à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…

Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. “Maria Luísa! Maria Luísa!”… e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.

Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.

Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!

Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?

Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando. “

Katharina-Jung_Photography_09

As fotografias são da fotógrafa alemã Katharina Jung, uma mulher alada, sem dúvida.

Descobri-a no IGNANT.


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Tarte de espinafre e courgette

O Alentejo continua quente e eu continuo sem querer iniciar o hábito das sopas que cheiram a Inverno e dias escuros.

A Beatriz não gosta de saladas e eu encontrei um belo embuste para obrigá-la a comer verdes.

Invento tartes.

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Ingredientes:

-1 embalagem de base de pizza (é a massa pré-cozinhada com menos gordura adicionada);

-1 alho-francês;

-duas mãos cheias de espinafres;

-meia courgette;

-4 fatias de fiambre;

-4 ovos;

-1 dl de natas de soja;

-uma mão-cheia de queijo ralado;

-sal e pimenta.

1-Forrar uma tarteira com a massa.

2-Cortar os legumes e saltear numa frigideira com uma colher de chá de azeite.

3-Bater os ovos com as natas, sal e pimenta.

4-Adicionar aos legumes salteados e ao fiambre.

5-Polvilhar com o queijo e pincelar as margens da massa com azeite.

6-Levar ao forno a 190ºC por 35 minutos.