“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


4 comentários

Se eu fosse a ti

Segundo os últimos dados da DGS, o número de infectados continua a aumentar e, desta vez, o Alentejo não sai ileso. Não sei se é por isso, mas tenho sentido as pessoas muito mais tensas e com o modo conflituoso ativado.

Também pode ser porque voltei a trabalhar fora de casa, saí da minha doce bolha-lar, caminho pela rua e vejo mais seres taciturnos, irritadiços, impacientes e inquiridores.

Li que a pandemia irá prolongar-se no tempo e que os cuidados a que estamos obrigados agudiza os espíritos potencialmente neuróticos.

O vírus assusta-me, mas também tenho medo de ser atingida por esta neurose social.

Para já, noto que, contrariamente ao que eu julgava no início da pandemia, estamos a perder a empatia e o sentido de humor.

Será porque estamos literalmente amordaçados e deixámos de ver o sorriso do outro?

Será que a falta de abraços está a afectar irremediavelmente a nossa saúde mental?

Há muito tempo que não ouço uma gargalhada fora de minha casa. Gritos coléricos vindos da rua, infelizmente, tenho ouvido com alguma frequência.

Juan Vicente dá-nos instruções para atravessarmos o deserto do mundo.

E dá-nos uma chave: o humor.

Se perdermos essa habilidade, perderemos uma grande parte da nossa capacidade de resistir e uma das nossas características mais humanas.

Se Eu Fosse A Ti

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum “mas” a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.

Juan Vicente PiquerasInstruções para Atravessar o Deserto

Fotografias de mergulhos: IGNANT.


Deixe um comentário

Florir

Durante anos, trouxe flores para dentro de casa.

Achava poética a ideia das flores, tão efémeras, morrerem acompanhadas e contempladas.

Faziam-me bem as cores do campo em casa.

Cheguei a exagerar nas mimosas, completamente inebriada pela minha tonalidade de amarelo preferida.

A Beatriz cresceu e, nem sei bem a razão, perdi o hábito.

Talvez saiba porquê: o meu quintal está totalmente selvagem, numa autogestão que me surpreende com orégãos e espinafres, mas também com urtigas, folhas secas e ervas daninhas.

Quando vi a imagem desta cozinha, percebi que tinha de mudar.

Eu quero estas cores, de novo, na minha vida!

A ideia da prateleira com flores e livros na cabeceira da cama já está anotada.

Será que os meus gatos não irão delirar com a ideia de uma ponte florida?

Estas plantas parecem sobreviver a um cão.

Pelo menos nos minutos que demorou a tirar a fotografia…

O próximo passo é tratar do meu terraço e do meu quintal; só assim terei um fornecedor esplendoroso e gratuito de flores.

Tenho de encontrar motivação para enfrentar o monstro verde.

O meu subconsciente é retorcido.

Há poucos anos, só fui arrancar as ervas do quintal quando fui atingida por um surto de inveja pela Anita, ao ler o livro Anita e o Jardim. Achei que eu, Ana, não era menos do que aquela menina rosadinha e dinâmica e pus mãos à obra.

Agora, espero que estas fotografias de sonho resultem, mas tenho de admitir que os sentimentos que me deixam verde por dentro são bem mais eficazes.

As fotografias são Laugh at you.


Deixe um comentário

Autocaravanismo (para totós) na Costa del Sol

Dez dias numa autocaravana faz-me pouco mais do que totó no caravanismo, mas já tenho estatuto para tecer considerações e adiantar dicas.

Confirmo que é uma sensação intensa de liberdade partir sem planos, fazer o roteiro no dia a dia, avançar ou parar consoante a disposição e a paisagem e não ter de pensar que há uma reserva feita, um hotel para procurar ou uma tenda para montar ao fim do dia. É o compromisso ideal entre rebeldia e conforto, que a pessoa já não tem costas para a insurreição total e dormir no chão da praia.

A minha ideia inicial era ir avançando, sem compromisso, pela Costa del Sol até encontrar a praia onde me apetecesse ficar.

Houve noites com esta vista e em que adormeci a ouvir o mar, o que retempera qualquer coração inquieto. Desconfio, seriamente, que os meus neurónios têm a forma de algas.

Não tive qualquer problema em pernoitar junto de um miradouro ou perto da praia. Pelo que li, pode-se fazê-lo, desde que não haja sinalização específica a proibir autocaravanas e não se coloque qualquer equipamento (cadeiras, mesas ou toldos) fora da carrinha. Também nunca me senti em perigo, mas segui muito a minha intuição em relação aos lugares e posso ter tido sorte de iniciante.

Nas cidades, como Sevilha, Ronda e Málaga, não foi fácil encontrar paisagens magníficas onde fosse permitido (e seguro!) passar a noite e, nesse caso, os parques pagos foram a opção. Zero romantismo, mas total segurança.

Estas manhãs foram menos bucólicas e ficou claro que as autocaravanas não são feitas para explorar cidades, por razões de volumetria óbvias.

Visitar cidades não fazia parte do meu objetivo inicial, mas fiquei com muita vontade de voltar a Málaga e visitar a Fundação Picasso.

A Costa del Sol começa em Tarifa, uma cidade histórica, mas talvez por este passado ser demasiado sangrento, não me senti especialmente atraída pela cidade. No entanto, a paisagem da estrada que liga Algeciras a Tarifa é de cortar a respiração e fiquei emocionada ao avistar África (Ceuta vê-se perfeitamente).

Confirmei que Tarifa não me era favorável. Fui multada por mau estacionamento e aprendi que uma autocaravana não é propriamente discreta para infringir regras de trânsito.

A influência árabe na cidade é evidente na decoração, na arquitetura e na gastronomia.

Continuo sem perceber como continuamos a viver este apagamento da evidente e secular presença árabe nos costumes, língua e tradições dos povos ibéricos. Parece que nunca nos libertámos totalmente da prática de “terra queimada” praticada durante a reconquista cristã.

A variedade e qualidade do pão de Tarifa impressionou-me; é o resultado da convivência de várias técnicas culturais e práticas ancestrais.

Entretanto, segui pela Costa del Sol e apareceram-me algumas praias pequenas e menos frequentadas; a minha intenção, desde o início da viagem, era evitar os aglomerados de Marbella ou Torremolinos.

A água do Mediterrâneo é transparente e tépida e, fugindo destas cidades-empreendimento, há surpresas muito boas, mas nada como a que me esperava um pouco mais a Este.

Nerja – terminou a busca!

Senti-me imediatamente confortável na cidade, talvez porque passei muitas tardes neste cenário quando era pré-adolescente: foi em Nerja que se filmou o “Verão Azul”. A cidade não é cara, os hotéis são poucos e discretos e as referências ao capitão Chanquete, ao Piraña e ao resto do grupo seduziram-me.

Balcón de Europa – Nerja

As praias não estão super-lotadas e têm chuveiros de água doce, o que é essencial para o autocaravanista asseado.

Na verdade, a casa de banho foi a minha grande desilusão na autocaravana. O depósito de água limpa é minúsculo: 2 banhos rápidos esgotam a reserva e nem sobra uma gota para o lavatório ou para o lava-louças. É verdade que em qualquer torneira (paga ou gratuita) se enche o depósito, mas a ideia idílica de estar autonomamente estacionado por dois dias não é real. O depósito das águas negras também é problemático: minúsculo, pouco perfumado e esvaziá-lo já não é tão fácil, embora as cidades tenham áreas de serviço para autocaravanas – ASA (com locais específicos para os diferentes resíduos). Em SOS, pode-se esvaziá-lo numa casa de banho, mas não é a melhor solução.

Nerja revelou-se o destino da viagem, mas ainda houve outra surpresa.

No regresso a Portugal, passei por Ronda.

Puente Nuevo, do século XVIII, galga a garganta do Tejo

Uma cidade vertical (literalmente) com origem árabe e que, mais tarde, se notabilizou pelas lides tauromáquicas (o aspecto que me desagradou…).

É tão incrível o facto vertiginoso de ter sido construída no cimo de um desfiladeiro e tão encantatória que conquistou artistas como Orson Welles e Ernest Hemingway. Orson Welles morreu nos E.U.A. mas pediu que as suas cinzas repousassem em Ronda.

A cidade antiga, com arquitetura muçulmana e o palácio de Abbel Mallek, filho do rei de Marrocos

Também foi em Ronda que encontrei o melhor café expresso. Apeteceu-me tanto beijar a senhora, depois de 8 dias de uma triste água suja!

Quanto à experiência caravanista, de facto o aluguer não é barato, sobretudo na época alta, mas a cozinha equipada foi uma inesperada vantagem que contribuiu para economizar nas refeições: é muito prático usá-la e muito cómodo, porque não obriga a sair e a procurar um restaurante diariamente.

A noção de privacidade e higiene alterou-se, ao longo dos dias, mas aconteceram muitos episódios cómicos que, desconfio, não serão só fruto da inexperiência; as circunstâncias são muito diferentes daquelas a que estou habituada na minha casa grande!

O inconveniente de conduzir um furgão-caracol que é alugado é que temos de ter sorte com a empresa em quem confiámos uma fiança. Não foi o caso: Autocaravanas Badajoz nunca mais!

O balanço é, no entanto, muito positivo, sobretudo porque o objetivo era desintoxicar de wi-fi, esquecer testes, notícias e certificados Covid, horários e check-lists, partir sem ideias pré-definidas, respirar e descobrir a melhor praia da Costa del Sol.

Fica um lembrete: para a próxima, optarei por um modelo mais simples e mais pequeno que permita alguma agilidade na cidade (e uma empresa honesta!).

Málaga ficou já no roteiro de 2022!


3 comentários

Sentimental

Uma carência de serotonina, uma crise de meia idade ou a ressaca de tantos meses de tensão global pandémica levaram-me a um estado meditativo solitário. Foi profundo e com o tempo certo, vejo agora, mas estas inquietações da alma parecem-me sempre prolongadas.

Sinto uma revolta natural contra este tipo de desassossego que perdura.

Talvez seja porque a melancolia crónica me derruba e me obriga à introespecção improdutiva.

Insanamente, continuo a medir os meus dias pelos actos e tarefas que equacionei e não pelos progressos mentais ou emocionais que resolvi. Na verdade, estes últimos são muito mais determinantes para o meu bem-estar do que os primeiros, mas desenrolam-se de uma forma lenta, discreta e, frequentemente, imperceptível.

Felizmente, o corpo e a mente têm sempre a capacidade de me obrigar à pausa e assim aconteceu.

Respeitar-me, retomar a psicoterapia, dar e receber amor em todas as suas formas e usufruir da arte humana e natural sempre foram os responsáveis pela minha salvação. Desta vez, também me resgataram.

Regressei à leitura prazerosa com Ferrante e Jávier Marias, voltei a emocionar-me com as palavras da Cláudia Lucas Chéu e com este vídeo de Roger Wolfe (entrevistado pela Raquel Marinho), entusiasmei-me com o teatro, prestei culto a programas como o da Gabriela Moita, oportunamente intitulado “Impaciência do Coração“, dormi, abracei, viajei e voltei a sentir-me livre, como já não acontecia desde 2019.

A poesia ajuda-me a conhecer-me melhor, ensina-me a conviver com a minha natureza sentimental (como refere Roger Wolfe), orienta-me de forma a aceitar a angústia inevitável das almas inquietas que, imprudentemente, chega como uma onda que gela. Durante a vaga gelada, terei de aprender a não me debater de imediato, pois a reacção frontal contra uma força inexpugnável conduz a um esgotamento inútil.

Serei paciente e aproveitarei a maré posterior para boiar até à baía onde tenho pé.

Sou afortunada.

Na costa, há sempre a possibilidade de abarcar a beleza extraodinária da minha vida e do mundo.

Bom recomeço!


2 comentários

Certezas

A voragem dos dias provoca tamanho sorvedouro na minha vida que me cercam partículas, num raio mínimo de 1 km.

Deito-me e levanto-me na poeira.

À noite, pesam-me os sedimentos que não encontraram o seu lugar.

Chamam-lhe insónia.

A escuridão mais assustadora é a que encontro no peito quando fecho os olhos.

A intensidade do amor e a luz dos livros são a minha única possibilidade de redenção.

Perfilei, aleatoriamente, os livros que me esperam na prateleira de cima do escritório e tranquilizo-me com Afonso Cruz.

Ainda vou ser muito feliz.

“Por vezes, os livros que não são lidos podem assumir um ar acusador. Muitos leitores sentem alguma culpa quando olham para as pilhas de livros por ler. No meu caso, considero estes livros uma possibilidade de ser livre: não tenho apenas um livro para ler, tenho muitos, e isso permite-me escolher o próximo[…]. No fundo, concordo com Jules Renard quando escreveu em Notas sobre el Oficio de Escribir: «Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz».”

Também foi por causa de Afonso Cruz e desta entrevista incrível a Bernardo Mendonça que ouvi, depois de tantos anos, esta música de Chico.

Sobre a rotina, precisamente.

E esta! Para os corações mais sensíveis ouvirem em noites de insónia!

Ou talvez não.

Os corações sensíveis terão mais dificuldade em conciliar o sono e podem despertar a sua “llorona”.


2 comentários

Consolação

Na série de entrevistas “Os Filhos da Madrugada”, de Anabela Mota Ribeiro, Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D.Maria II, proporcionou-me 20 minutos valiosos.

A propósito do título do seu espetáculo “By Heart”, discorre sobre a importância de decorarmos poemas ou textos. Recorre ao étimo latino da palavra decorar (cor, cordis: coração; ou seja, guardar palavras no coração) e explica que a memória pode ser o único gesto de resistência contra o totalitalismo político ou contra o totalitarismo humano. A este último nenhum humano pode fugir; ou não estivéssemos a falar da doença e da morte.

Nesse sentido, decorar um poema poderá ser o “nosso património, a nossa consolação”, a única “garantia de civilização mesmo nos tempos mais bárbaros e desolados”.

No site do Teatro Nacional D. Maria, li a seguinte citação de George Steiner:

“Assim que 10 pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver”. Em última análise, By Heart é uma recruta para a resistência que só termina quando os 10 guerrilheiros souberem o poema de cor.

Acrescenta Tiago Rodrigues que recitar um verso poderá ser mesmo a nossa melhor despedida da vida.

Sempre me preocupei com a ideia de chegar ao fim e pensar: foi só isto?

Ando há anos a querer viver com vontade, adrenalina, tragos e fulgor.

No entanto, ultimamente tento filtrar a vida de modo a coar o sofrimento porque, na minha ânsia de viver, a dor é um contratempo incómodo.

Continuo neste precário equilíbrio entre entregar/ proteger o coração.

Viver com o coração encouraçado preserva-nos, mas mantém-nos aquém.

Os poemas de Cláudia R. Sampaio são sempre transformadores.

Epitáfio de Domingo

Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua
à légua mais distante da minha vida,
diz que compreendi.
Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento

Diz que fui ar azul sobre campos de secura
estrada recta ao infinito,
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
e que, quando me viram, me ergui animal

Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e a boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura

Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém
Que fui o halo frio que preenchi com esta pena
pela minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio

Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu fui eu

Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
– quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?

Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia
e tu sabes
que essas saudades que vais tendo
são as minhas.

Imagem: IGNANT.


2 comentários

Desafio-te

Depois de períodos espinhosos, uma pandemia ou uma guerra, já assistimos, no passado, a uma retoma material e espiritual por parte dos povos:

Os loucos anos vinte do século XX são um exemplo desse fenómeno social.

Em Portugal, especificamente, vivemos uma loucura discreta.

Afinal, logo em 1928, houve um verdadeiro insano que assumiu a pasta das Finanças e, em 1932, o mesmo demente assumiu o país e queimou o que restava da alegria.

No entanto, os anos vinte ainda permitiram a nossa explosão modernista.

A minha admiração pelo Modernismo Português remonta ao ensino secundário e universitário.

Trata-se de uma geração de ruptura e desafio, o que seduz qualquer jovem.

Ainda hoje me fascinam: persigo filmes, exposições, biografias e documentários desta época.

Acho até que me apaixonei, aos dezoito anos, por esta fotografia de Santa Rita-Pintor.

Santa-Rita Pintor foi um dos organizadores da revista Orpheu e era o dinamizador da revista Portugal Futurista. Só existiu o número 1 desta última revista, uma vez que todos os exemplares foram apreendidos à porta da tipografia, devido ao seu teor “subversivo e obsceno”.

Nada pode ser mais inebriante do que este tipo de pormenores.

Quanto ao pintor Amadeo de Souza Cardoso, saltou de Manhufe para Paris, com a paleta debaixo do braço.

Aguardo, ansiosamente, pela estreia do filme sobre Amadeo de Souza Cardoso de Vicente Alves do Ó. Acredito que seja este ano.

A estreia do filme tem sido adiada por causa da pandemia.

Amadeo de Souza Cardoso morreu de gripe espanhola. Infelizes coincidências.

A obra de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Sá Carneiro ou de Amadeo jorrou em rompantes criativos, aparentemente sem esforço e com uma originalidade genial e chocante para a época.

Sá Carneiro e Fernando Pessoa eram, socialmente, mais contidos.

Almada era extravagante e Amadeo era… pintor.

Muito me fascina a sua figura.

Decidido e sobranceiro.

Estes génios fitam-nos e interpelam-nos: E, tu, o que fazes?

Não queriam discípulos; queriam soldados para a sua revolução cultural.

São inspiradores!

Ainda hoje procuram soldados para esta batalha!

Eu alistei-me na sua milícia pacífica.


Deixe um comentário

Nuvens em pé

Finalmente, estamos a recuperar o espaço público.

Que bom que é ver os outros, sentir, cheirar, tocar, concordar, discordar, intervir, ouvir, observar, seguir, calar, e guardar tudo no fim.

Sempre precisei de silêncio e solidão e não tinha consciência de que me fazia falta a sensação de “fazer parte de”.

Basta sair de casa, observar ou ouvir uma conversa para que os outros me acrescentem.

Integro ou rejeito a diferença, mas reflito e cresço.

Talvez o sentido de comunidade também se desenvolva assim e nem precise de intervenções públicas estrepitosas.

Perante a forçada ausência do novo, devo uma parte da minha sanidade mental aos podcasts que fui/vou ouvindo, nomeadamente “O Poema ensina a Cair”, da autoria de Raquel Marinho.

Um dos últimos que ouvi teve como convidado Vicente Alves do Ó. Foram duas horas de conversa que me acompanharam e acenderam vários dias. Para além da obra, o realizador é um excelente contador de histórias e, através dele, conheci a poeta Cláudia R. Sampaio.

As redes sociais são enjoativas, mas gosto da ideia de comunidade virtual: ao longo destes meses, fui reunindo à minha volta vários nomes que me preenchem, de forma sublime, o pensamento.

Este poema da Cláudia R. Sampaio ainda me ilumina os dias.

Tragam-me um homem que me levante

com os olhos

que em mim deposite o fim da tragédia

com a graça de um balão acabado de encher

tragam-me um homem que venha em baldes,

solto e líquido para se misturar em mim

com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se

leve, leve, um principiante de pássaro

tragam-me um homem que me ame em círculos

que me ame em medos, que me ame em risos

que me ame em autocarros de roda no precipício

e me devolva as olheiras em gratidão de

estarmos vivos

um homem homem, um homem criança

um homem mulher

um homem florido de noites nos cabelos

um homem aquático em lume e inteiro

um homem casa, um homem inverno

um homem com boca de crepúsculo inclinado

de coração prefácio à espera de ser escrito

tragam-me um homem que me queira em mim

que eu erga em hemisférios e espalhe e cante

um homem mundo onde me possa perder

e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos

atirando-me à ilusão de sermos duas

novíssimas nuvens em pé.

in Ver no Escuro, Tinta da China.

O fotógrafo Vitorino Coragem tirou estas fotografias à poeta e eu trouxe-as daqui.


2 comentários

Olho lírico

Sobrevivemos a um ano de teletrabalho e de isolamento.

Um ano inédito a convivermos ininterruptamente connosco, com o stress do trabalho, da vida doméstica, do medo, da saturação e do desânimo.

O teletrabalho, nos moldes excepcionais em que o vivemos, é duro, mas protegeu-nos de doenças e de outros desconfortos diários.

Não conhece, no entanto, a prerrogativa “fim de expediente”: como estamos em casa, os outros pressupõem que permaneceremos 24 horas disponíveis.

Até acredito que há pessoas que se aborrecem e se entretêm a trabalhar.

Não é o meu caso.

Desconfio que, quando desconfinarmos totalmente, as empresas e instituições esquecerão as vantagens do trabalho à distância e vão obrigar os trabalhadores a suportar reuniões enfadonhas e tarefas intermináveis que poderiam ser realizadas no conforto do lar.

Surgirão mudanças, no mundo laboral, depois da pandemia?

Preocupa-me o que tenho visto, embora já tenha lido perspectivas muito optimistas.

Para já, sempre que surgem reivindicações, estas são encaradas como inoportunas.

Que burguesia é esta que tem trabalho e tempo para reivindicar!?

Outra burguesa aqui se apresenta… outra que não sabe que as únicas ambições permitidas, hoje, são saúde e “pão na mesa”.

Como eu desejo que o “desconfinamento a conta-gotas” traga sonhos diluviais e inconvenientes!

Se vierem aí os loucos anos 20, “inebriantes, criativos, tumultuosos”, estou já disponível para viver cada minuto!

Aguardo.

Para já, sou uma telefuncionária, apagada, mortinha por deixar escapar o “olho lírico” para bem longe de casa.

Estou em contagem decrescente, mas ainda numa desoladora sintonia com o funcionário de António Ramos Rosa, na sua “vida às avessas a arder num quarto só”.

O Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa

A fotógrafa Trisha Ward interpretou desta forma os tempos que andamos a viver: “The Art of Waiting” deu o mote ao editorial que eu trouxe daqui.


Deixe um comentário

A Montanha de Livros mais Alta do Mundo

Com dez anos, a Beatriz lê sozinha, durante a meia-hora que instituí, cá em casa, de leitura diária silenciosa.

No entanto, continuo a trazer livros da biblioteca para uma amorosa leitura a duas, antes de adormecermos.

É a melhor forma de nos despedirmos do dia: abraçadas, no meio das mais belas aventuras.

Entre biografias, livros de aventuras e reflexões, por vezes, voltamos aos livros com ilustrações e histórias simples.

Como este, com a história do Lucas.

Lucas sabia, desde bebé, que tinha um destino: voar.

Passava os dia à janela, com os olhos perdidos nos pássaros.

Tentava, a todo o custo, realizar o seu sonho. Apelou até para divindades, como o Pai Natal. Sem sucesso!

Na frustração em que vivia, nem se entusiasmou quando a mãe lhe explicou que havia outras formas de voar.

Quando lhe ofereceram um livro, foi avançando, hesitante,… até que se entusiasmou.

Tal foi o entusiasmo que a situação se descontrolou.

Insanamente.

Só quem nunca entrou no mundo da ficção e da poesia é que não compreende esta insanidade que, quando temos sorte (e o livro certo), se apodera do nosso espírito.

Felizmente, o Lucas aprendeu a controlar os voos e a desfrutar a viagem.

Da escritora Rocio Bonilla e editado, em Portugal, pela Jacarandá.


4 comentários

A casa do amanhã

Quem nasceu em Democracia e Liberdade, como eu, nunca pensou que estas conquistas, relativamente recentes no nosso país, poderiam tornar-se tão frágeis e voláteis.

Vivemos em ininterruptos estados de calamidade/emergência e outros estados híbridos há meses.

Sucedem-se regimes de excepção que determinam, sem pudores, a “suspensão parcial do exercício de direitos, liberdades e garantias, prevendo-se, se necessário, o reforço dos poderes das autoridades administrativas civis e o apoio às mesmas por parte das Forças Armadas”, conforme consta do site da Assembleia da República.

Receio que quem realmente nos governa (e não me refiro ao séquito do Primeiro-Ministro) se habitue a esta submissão generalizada, ordeira (e tão conveniente) dos povos.

O pequeno comércio foi arruinado, a restauração familiar faliu, os produtores por conta própria foram cilindrados e os grandes distribuidores monopolizam e engordam. As grandes fortunas nunca estiveram tão prósperas, como em 2020/2021:

“Assim [o enriquecimento] aconteceu com os maiores milionários de todo o mundo, que se “aguentaram bastante bem” neste novo normal e viram as suas fortunas engordar 27,5% entre abril e julho, escreve o jornal “The Guardian“.

Isso é o mesmo que dizer que pouco mais de duas mil pessoas arrecadam atualmente 8,7 biliões de euros nos seus cofres e até enriqueceram em pleno pico da pandemia, de acordo com um relatório do banco suíço UBS.”

Coincidências?!

Concomitantemente, o cidadão comum definha: só em Portugal 100 mil pessoas ficaram desempregados, as doenças mentais aumentaram e as outras, terrivelmente mortíferas (oncológicas e cardíacas), têm sido negligenciadas.

A par disto, os pequenos prazeres quotidianos são proibidos.

Beber um café, conversar com um amigo na rua, ler numa esplanada, dar um passeio pela cidade ao fim-de-semana, comprar um livro na livraria, oferecer um sorriso destapado, abraçar os amigos, beijar os amantes,… são actos subversivos e criminosos.

Pessoalmente, sou afortunada e, por isso, sinto o dever cívico de manifestar a minha preocupação relativamente àquilo que vai para além da sobrevivência básica; como humanos, temos de ansiar, em todas as circunstâncias, por mais do que isso…

Na verdade, nem é o confinamento per si que me perturba.

O clima de proibição e o incentivo à delação, em pleno século XXI, é que me desconcertam e retiram o ânimo.

Também por isso, neste segundo confinamento, precisei de manter-me ativa.

Fui melhorando a minha casa e coloquei em prática alguns projetos adiados.

Entretive as mãos com tinta branca, reactivei a aparelhagem abandonada, coloquei os pensamentos em ordem e fui descobrindo vários poadcasts que não conhecia.

A Beleza das Pequenas Coisas de Bernardo Mendonça é um deles, com convidados tão excepcionais como Maria do Rosário Pedreira, valter hugo mãe, Dulce Maria Cardoso, João Tordo,…

Nos últimos dias, ouvi ainda o podcast “O Poema ensina a cair” de Raquel Marinho, com convidados como Eunice Muñoz, Capicua, Rui Vieira Nery ou Alexandre Quintanilha. Ouvir a Raquel Marinho dizer, com frequência: “A Poesia é a distância mais curta entre duas pessoas” restitui-me a fé nos humanos.

O episódio com Alexandre Quintanilha também foi terapêutico e profundamente comovente, sobretudo no momento em que ele partilhou este poema do libanês Khalil Gibran. Tal como Quintanilha, li muitas vezes Khalil Gibran, quando tinha vinte anos.

O poema “As Crianças” ganhou um novo sentido, agora que sou mãe há precisamente uma década.

Os vossos filhos [são] setas vivas projectadas

As crianças

E uma mulher que trazia

um menino ao colo disse:

-Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:

-Os vossos filhos

não são vossos filhos:

são filhos e filhas da própria Vida.

Vêm por vosso meio

mas não de vós;

e apesar de estarem convosco,

não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor,

mas não os vossos pensamentos

porque eles têm os seus.

Podeis acolher os seus corpos

mas não as suas almas:

porque as suas almas

habitam a casa do amanhã

que não podeis visitar,

nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles,

mas não tenteis fazê-los como vós.

Porque a vida não vai para trás,

nem se detém com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos

as setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,

e retêm-vos com o seu poder para que as setas

possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro

seja de Alegria.

Porque assim como Ele gosta da seta que voa,

também gosta do arco que fica.”

No dia das fotografias, nevou.

Corremos para a rua, esquecemo-nos da máscara em casa, brincámos no Rossio e comemos neve.

Foi o último dia em que me senti livre, dentro da cidade.

(A versão do poema de Khalil Gibran foi retirada dos cadernos de Poesia mais-que perfeita. Há várias décadas circulavam por Coimbra, pelas mãos de alguns estudantes, estas pequenas antologias; são da editora “A Mar Arte”, e a minha edição é de 1994. A coleção chamava-se “O Reino dos Loucos” e eu, sem noção de como era privilegiada, feliz e livre, era uma delas.)