Frasco de Memórias

“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Se eu fosse a ti

Segundo os últimos dados da DGS, o número de infectados continua a aumentar e, desta vez, o Alentejo não sai ileso. Não sei se é por isso, mas tenho sentido as pessoas muito mais tensas e com o modo conflituoso ativado.

Também pode ser porque voltei a trabalhar fora de casa, saí da minha doce bolha-lar, caminho pela rua e vejo mais seres taciturnos, irritadiços, impacientes e inquiridores.

Li que a pandemia irá prolongar-se no tempo e que os cuidados a que estamos obrigados agudiza os espíritos potencialmente neuróticos.

O vírus assusta-me, mas também tenho medo de ser atingida por esta neurose social.

Para já, noto que, contrariamente ao que eu julgava no início da pandemia, estamos a perder a empatia e o sentido de humor.

Será porque estamos literalmente amordaçados e deixámos de ver o sorriso do outro?

Será que a falta de abraços está a afectar irremediavelmente a nossa saúde mental?

Há muito tempo que não ouço uma gargalhada fora de minha casa. Gritos coléricos vindos da rua, infelizmente, tenho ouvido com alguma frequência.

Juan Vicente dá-nos instruções para atravessarmos o deserto do mundo.

E dá-nos uma chave: o humor.

Se perdermos essa habilidade, perderemos uma grande parte da nossa capacidade de resistir e uma das nossas características mais humanas.

Se Eu Fosse A Ti

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum “mas” a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.

Juan Vicente PiquerasInstruções para Atravessar o Deserto

Fotografias de mergulhos: IGNANT.


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Roseiras e doces

Cora Coralina é o pseudónimo da escritora brasileira Ana Lins de Guimarães Peixoto (1889-1985).

Foi poeta e contista, teve seis filhos e, depois de enviuvar, tornou-se doceira. Além de fazer os seus doces, Aninha, como lhe chamavam, escreveu a maioria de seus versos entre o açúcar e o fogão.

Cora começou a escrever aos catorze anos (mais ou menos a altura em que deixou a escola), mas publicou o seu primeiro livro aos 76 anos.

Esta história impressionou-me, mas ainda mais este poema que parece ter sido escrito para esta Aninha que o copiou para aqui.

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Quantas Anas haveria dentro de Cora (pseudónimo que resultou da adaptação da palavra “coração”)?

Tantas que viveu até aos 96 anos!

As ilustrações são da canadiana Annya Marttinen, que me foi apresentada pela minha querida amiga Carmen, companheira de leituras e desventuras.


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Papéis

Fiz muitas viagens de carro com os meus pais.

Pelo nosso país e por Espanha.

Os tempos eram outros, assim como as prioridades. O dinheiro não proporcionava périplos pelas capitais do mundo, mas o Verão não passava sem a mala do carro se fechar à força e sem a madrugada nos ver partir.

Apercebi-me, mais tarde, de que o destino não era o mais importante.

Lembro-me de que não me aborrecia com aquele embalo lento e morno, com a paisagem a mudar do lado da janela, e com a cara ensonada do meu irmão do outro.

Nada de mal nos podia acontecer com o meu pai a conduzir e com a minha mãe com o mapa no colo. Do meu lugar, via as rugas nos cantos dos olhos do meu pai e acreditava que ele estava sempre a sorrir. Geralmente, estava.

Conversávamos, sonhávamos, crescíamos e dormitávamos. As viagens duravam dias inteiros, com paragens em que comíamos com aquela fome que não voltei a sentir.

Nunca atravessámos a Europa, mas não interessava.

Instalar a difícil caravana ou ocupar uma casa desconhecida era já uma aventura.

Agora vou eu no lugar da frente e vejo a paisagem aberta.

Aproveito as horas de viagem para conversas sem pressa.

O lado atraente da viagem é também ter disponível aquele bloco de tempo sólido pela frente. Numa altura em que tudo é corrido, é como se entrássemos numa outra dimensão da nossa existência, uma dimensão dos contos mágicos.

Sinto sempre sol, quando recordo as viagens com a Beatriz, mas também deve ter chovido.

Ouvimos música, mas eu não estou autorizada a cantar, porque já tenho uma pré-adolescente no carro. Pode ser também porque sou terrivelmente desafinada. No fundo do meu peito também bate um coração e acabo por cantar baixinho.

A vida é feita de viagens e é bom que tenhamos ao nosso lado a melhor companhia. Quanto a mim, quero usufruir o “durante” sem pressa de chegar.

As pessoas distinguem-se entre as que querem que os quilómetros se prolonguem e as que querem que os quilómetros se encurtem.

Lembro-me perfeitamente do momento em que percebi que já não podia namorar com uma pessoa. Estávamos no carro e eu comecei a sentir uma urgência em chegar à cidade para onde nos dirigíamos. Percebi então que aquele nunca seria o meu companheiro de viagem. São, por vezes, estes momentos, aparentemente tão simples, que definem a conjugação eterna (ou a separação) de duas almas.

Tínhamos uma viagem marcada para o outro lado do mundo.

Não fui.

José Luís Peixoto escreveu magnificamente sobre as viagens que nos ficam, enquanto filhos e enquanto pais. Foi ao lê-lo que me lembrei das minhas e que me consciencializei de que já desempenhei os dois papéis. Também vou ficar na memória da minha filha e essa é a maior honra e a maior responsabilidade.

Esta crónica.

“Falta pouco, respondia o meu pai. E continuávamos a falar de algum assunto que, agora, gostava de poder retomar. Esse era um tempo muito bom, era um tempo perfeito. Sentado, com o peito atravessado pelo cinto de segurança, não sei se dava o valor devido a essas horas em que a paisagem me parecia demasiado monótona, sobretudo quando confrontada com tudo o que imaginava acerca do lugar para onde nos dirigíamos. Eu era pequeno ou distraído, não creio que tenhamos chegado a falar sobre isso, mas acredito que o meu pai valorizava esse tempo, esses quilómetros que partilhávamos no carro.

Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Por isso, sobreponho a minha memória com o que vejo em espelhos visíveis e invisíveis, e acredito que sou capaz de perceber melhor o significado do seu rosto durante essas viagens, a maneira como dizia certas palavras e como contava certas histórias. Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Essa é uma constatação profunda dentro de mim, como se o meu pai me olhasse ainda desde esse interior. Em breve, terei a idade que ele nunca chegou a ter. Quanto falta para chegarmos?

Falta pouco, respondo eu com a voz do meu pai. Percebo agora que também ele sabia exatamente quanto tempo faltava para chegarmos, mas também ele preferia que não nos fixássemos apenas no destino, apenas na hora e no lugar onde chegaríamos. A impaciência era desnecessária. Tarde ou cedo, haveríamos de chegar. Essa era uma certeza. Enquanto estávamos ali tínhamos a viagem, tínhamos tudo.”

As fotografias cinematográficas são da dupla Damien e Leila de Blinkk.


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Biscoitos de limão, chia e nozes

Apesar do desconfinamento, continuamos com cuidado e, por enquanto, evitamos as viagens.

Fizemos estes biscoitos e enviámos para as pessoas de quem temos mais saudades.

Apesar do ar simplório e saudável, são saborosos e crocantes.

Ingredientes:

200g de flocos de aveia triturados como farinha

100g de farinha de trigo

100g de farinha de trigo integral

2 colheres de chá de fermento em pó

120g de açúcar mascavado

4 colheres de sopa de sementes de chia

raspa de 2 limões

4 colheres de sopa de sumo de limão

1 pitada de flor de sal

120ml de natas de soja light (ou outro leite vegetal)

4 colheres de sopa de azeite

nozes a gosto

1- Misturar os ingredientes secos (farinhas, fermento, sementes e sal).

2- Juntar a bebida vegetal, o azeite, a raspa e o sumo de limão.

3-Envolver até se formar uma massa bem moldável.

4-Deixar repousar 25 minutos.

5-Fazer bolinhas e achatá-las com as nozes (ou apenas com os dentes de um garfo, se não se pretender usar frutos secos).

6- Levar ao forno, durante 15 minutos a 180ºC, em tabuleiro forrado de papel vegetal.

Seguiram embalados e aqueceram os estômagos dos nossos corações espalhados pelo país.


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Lancinante

Lancinante:

– do latim lancinans, -antis

– particípio presente do verbo lancino, -are: despedaçar, rasgar, ferir.

adjetivo de dois géneros.

Por vezes, os meus adolescentes confidenciam-me desgostos de amor.

Apesar da avalanche de informação a que estamos, hoje, todos sujeitos, o analfabetismo afectivo é transversal a todas as gerações.

De qualquer forma, gerir emoções aos 16 anos é, sem dúvida, avassalador.

Eu não sou sábia, mas vivo com o coração, leio, ouço e quero-lhes bem. Talvez eles intuam isso.

Invariavelmente, os que me procuram são os elos mais frágeis da relação: estão em crise e toleram da outra parte um desamor que já não é aceitável.

Ouço-os, agradeço-lhes o voto de confiança e peço-lhes para, durante a vida, não permitirem ser rejeitados duas vezes pela mesma pessoa. Se o outro nos diz “não” (ou demonstra esta rejeição através de actos) é a “deixa” para abandonarmos aquele palco. Dilacerados… mas é o momento de sairmos.

Ter a capacidade de amar parece-lhes, nestas alturas, uma maldição, mas asseguro-lhes que é um privilégio de poucos. “Mutilado” é o adjetivo que define o ser humano que nunca amou ridiculamente ou nunca chorou por alguém.

Confirmo-lhes que ser abandonado provoca dores lancinantes; dores que nos trespassam o corpo e nos despedaçam em farrapos de despeito, rancor, incompreensão, revolta, fel e vertigem.

A cultura trágico-amorosa que nos envolve, quer nos noticiários, filmes, séries, músicas, quer na literatura, continua a deformar-nos diariamente.

Infelizmente, o culto de aceitar o sofrimento e a humilhação como uma fatalidade amorosa está longe de ser varrida do discurso que nos rodeia.

A literatura também mina um coração fragilizado.

Quer aos 15, quer aos 50 anos, há poucos poemas que ajudem a sobreviver ao ferimento com dignidade. São até perigosos os poemas que cantam a rejeição: alimentam esperanças, vinganças, autocomiserações e fantasias.

Há, de facto, poucas ajudas para encarar esta inevitabilidade da vida:

vamos cruzar-nos com pessoas incríveis e outras que nem por isso. As “nem por isso” é preferível que nos deixem depressa. Também vamos encontrar pessoas apaixonantes e outras apaixonadas (por nós). Estas pessoas, desafortunadamente, nem sempre vão coincidir aos nossos olhos. Forçar só vai trazer sofrimento.

É assim o mistério da Vida. Temos encontros e desencontros e, geralmente, aprendemos sempre. Muitas vezes, aprendemos a não repetir o erro. Já não é pouco.

Se tudo correr bem, a partir dos 40 anos, a nossa autoestima e amadurecimento ajudar-nos-ão a aguentar o embate. Triste consolo para quem tem 16 anos. Nunca o refiro ou corro o risco de parecer uma anciã.

José Carlos Barros é dos poucos poetas que pode ajudar, nestas desditosas situações.

Nasceu, em Boticas, em 1963.

Escreveu o poema que devemos declamar 100 vezes, no silêncio e solidão da ressaca, quando, literalmente, acabam connosco.

Depois da declamação, como sabemos, é aguentar.

Ter um coração que sente tem reveses, mas viver sem o sentir é pior.

Chorar copiosamente durante 10 dias também ajuda.

Ou apagar o número do telemóvel, respeitar o necessário distanciamento higiénico e fazer o luto. É um processo lento e querer apressá-lo é um sintoma de uma sociedade doente que não nos dá tempo e dissimula o sofrimento e a morte.

NÃO INVENTES

Não venhas cá com merdas. Não inventes. 

Não olhes nos meus olhos. Sai apenas. 

E poupa-me aos discursos eloquentes

e às farsas do adeus. Não faças cenas. 

Não digas que lamentas ou que a vida

às vezes é assim: que tudo esquece; 

que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.

Repito, meu amor: desaparece. 

E leva o que quiseres de tudo quanto

um dia suspeitámos partilhar:

os livros, as esculturas em pau-santo,

os discos, os retratos, o bilhar. 

Não deixes endereços. Por favor:

eu quero é que te fodas, meu amor. 

José Carlos Barros, in O Uso dos Venenos, ed. Língua Morta

Fotografias de Charlotte Lapalus, descoberta no site IGNANT.

Nota: escrevi este texto antes do que aconteceu à Beatriz Lebre. Tive o privilégio de receber o seu sorriso, durante vários meses, nas minhas aulas. Fiquei incrédula, revoltada, e em choque com o que lhe aconteceu.

Hesitei, sem saber se deveria publicar o que escrevi há um mês. Optei por avançar, porque é a altura de chamar a atenção para a necessidade de educar os nossos jovens para a gestão dos afectos. Não chega conversarem com uma professora bem intencionada. Falta um trabalho de fundo.

Como sabemos, sem meios nada é possível. Continuamos com um psicólogo para centenas de alunos. Pensar que, nestas condições, se faz alguma coisa é uma ingenuidade ou uma perversidade. Há que investir seriamente na formação emocional dos jovens. Só profissionais qualificados podem formar crianças e diagnosticar possíveis patologias.

Hoje, como sabemos, já é tarde para corrigir esta lacuna!


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Bolachas de passas e aveia

Voltámos a fazer bolachas, a fim de evitarmos os ataques disparatados às bolachas de pacote.

Ingredientes:

200g de flocos de aveia triturados como farinha

100g de farinha de trigo

100g de farinha de trigo integral

2 colheres de chá de fermento em pó

100g de amêndoas trituradas como farinha

160g de açúcar mascavado

120g de passas (80g trituradas e 40g inteiras)

1 colher de sopa de essência de baunilha

6 colheres de sopa de azeite ou de óleo de coco

1- Juntar as farinhas (de aveia, trigo e amêndoa), o açúcar e o fermento.

2- Adicionar o puré de passas, a baunilha e o azeite.

3- Envolver até ter uma massa moldável e adicionar as passas inteiras.

4- Esticar com o rolo da massa e cortar as formas pretendidas.

5-Dispor num tabuleiro forrado com papel vegetal.

6-Levar a forno quente a 180ºC, durante 20 minutos.

As bolachas da imagem foram feitas para a minha Mãe.

Como não são muito doces, polvilhei-as com Canderel para ficarem com um aspecto mais apetitoso e enganarem uma Avó gulosa!


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Bolo de laranja com cacau

A Beatriz continua a fazer os bolos cá em casa.

Entrámos agora no perigoso mundo dos recheios e coberturas.

Este bolo de laranja é mesmo maravilhoso.

Ingredientes:

4 ovos

2 laranjas grandes (sumo, polpa e raspa)

2 chávenas de farinha de trigo com fermento

1 chávena de açúcar amarelo

Este bolo tem poucos ingredientes e não exige balança, duas vantagens muito práticas que permitem que uma criança o faça quase sozinha. A única dificuldade é separar as gemas das claras: a Beatriz ainda não é exímia nessa operação.

Preparação:

1- Bater quatro gemas com o açúcar;

2- Juntar o sumo, a polpa e a raspa das laranjas, intercalando com a farinha.

3- Envolver as claras (batidas em castelo) ao preparado anterior e colocar numa forma coberta com papel vegetal untado com manteiga.

4- Levar ao forno aquecido a 180ºC, durante 25 minutos ou até o bolo estar cozido.

A cobertura resultou de uma invenção inspirada nos brigadeiros, mas ficou muito boa.

4 colheres de sopa de leite condensado

6 colheres de sopa de cacau puro

1 colher de sopa de manteiga

4 quadrados de chocolate de leite (impulso do último momento e que é opcional)

Derreti a manteiga e misturei o cacau em pó; de seguida, misturei o leite condensado, envolvi bem todos os ingredientes e coloquei em lume muito brando até começar a ferver. Nunca parei de mexer, pois pega-se com facilidade. No final, juntei o chocolate que acaba por derreter na mistura.


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Renascer

2020 constará dos livros de História.

Espero que escrevam que fomos resilientes, corajosos e solidários.

Neste lento e prudente desconfinamento, parece que já nem sei como vestir-me.

Sonhava com um Verão com aquele cheiro doce a dunas e saturado de cores solares.

Mas este Verão vai ser diferente.

Enquanto a Natureza rejubila com os dias mais longos, o sentimento geral dos humanos é de apreensão.

Por aqui, talvez venha a ser a roupa sóbria a vestir esta estação.

Pode ser que ainda vá a um cetim mais festivo, se entretanto o mood do universo mudar e o tal do “bicho” nos der uma trégua.

De outra forma, venha o algodão e o linho.

Ou venha um top assim de uma só manga, mas de outra cor que ficará a matar com qualquer saia de linho.

O básico vestido preto vai, certamente, passear a uma esplanada. De facto, para manter a minha estabilidade mental, faz-me muita falta a esplanada. Andei instável, durante estas semanas de toupeira.

Passo tranquilamente o dia em casa, se poder ir beber café e apanhar 10 minutos de sol.

As esplanadas, como são ao ar livre, parecem-me uma opção muito segura para apanhar ar entre horas de confinamento.

Havemos de celebrar, em breve, despidos de máscaras. Os modelitos já estão escolhidos e têm interferências de várias estações, para se adaptarem melhor ao momento em que finalmente o Covid 19 seja apenas uma triste memória da nossa história individual e colectiva.

Como não me apetece andar a passear pelas colecções de Verão, fui ao Pinterest. Desconfio que vou andar muito contida nos meus impulsos consumistas…


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Repensar a casa

Ao passar tanto tempo confinada, apercebo-me de que a casa precisa de muita atenção e de modificações.

Tenho alguns projetos de carpintaria adiados, porque em Estremoz os carpinteiros são um caso sério; parece impossível, mas estou há mais de três anos à espera de um carpinteiro. O segundo carpinteiro que contactei veio cá, depois de um ano de insistência, e palpita-me que agora vai desaparecer mais dois anos.

Para além disso, tenho uma grande dificuldade de visão de conjunto, portanto, os espaços grandes assustam-me e não consigo torná-los acolhedores. Será por que sou uma pessoa fisicamente pequena?

Quando vivíamos na casa pequenina, a decoração foi tão fácil. Em poucos meses, ficou uma casinha de bonecas mimosa e acolhedora.

Nesta casa grande, é tudo mais difícil.

O blog Forma Plural, da muito inspiradora Helka, dá-me muitas ideias e foi através dos seus posts que fui até ao site Domino.

Confirmei algumas ideias:

Faltam-me mais prateleiras nas paredes da cozinha.

Queria fazer uma prateleira de memórias passadas (e futuras) ligadas ao vinho: garrafas vazias que ficaram na minha história e outras garrafas, cheias, que construirão a minha memória futura.

O meu escritório-biblioteca está tão a meio que parece uma sala multiusos. E é! Aqui acontece de tudo, mas está na hora de dar-lhe uma orientação.

A secretária já está feita (pelo carpinteiro que entretanto desapareceu), assim como algumas prateleiras, mas ainda não as pintei de branco.

A zona de lazer continua a meio.

Falta ainda decorar um dos quartos da casa.

É um closet com cama, para dizer a verdade, mas tem de ficar mais bonitinho para acolher os nossos hóspedes.

O patamar também precisa de ficar bem mais acolhedor.

Todas as imagens foram retiradas do blog Forma Plural e do blog Domino.


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Bolo de cacau puro

A Beatriz autonomizou-se como pasteleira e eu sou uma cobaia cada vez mais feliz.

Este bolo de cacau é pouco elaborado e o resultado é garantido: é o bolo ideal para uma criança fazer quase sozinha.

A receita que se segue resulta da adaptação de uma receita velhinha da Avó Silvana que fazia muito sucesso nos almoços de família.

Ingredientes:

350g de farinha de trigo com fermento

300g de açúcar

2dl de óleo vegetal

150g de cacau puro (a Avó Silvana usava Suchard Express)

5 ovos médios

1 chávena de água quente para misturar no final

1- Batem-se os ovos com o açúcar, o óleo e o chocolate até a mistura estar homogénea.

2- Junta-se a farinha, mas sem bater em excesso.

3- Lentamente, acrescenta-se a água quente.

4- Coloca-se numa forma untada e vai a forno quente, 180ºC, durante 40 minutos.

Para nós a receita termina aqui, mas a Avó Silvana ainda colocava a seguinte calda bem quente por cima do bolo. De facto, faz a diferença entre um bolo bom e um bolo extraordinário, mas eu não me permito fazê-la.

Não consigo abstrair-me das calorias que sobrecarregam assim o bolo e que iriam sobrecarregar-me para sempre o sobrolho, no momento em que saltasse para cima da balança, …

Ingredientes para a calda:

1 colher de sopa de manteiga;

2 colheres de sopa de chocolate em pó;

6 colheres de sopa de açúcar;

6 colheres de sopa de leite

Dissolvem-se e fervem-se estes ingredientes, antes de colocar a gulosa calda por cima do bolo ainda quente.

Claro que, antes de saber como se fazia o famoso bolo de chocolate da Avó Silvana, procurava as partes humedecidas do bolo, para assim me deliciar.

Moral da história: há sobremesas que é preferível desconhecermos como se fazem, sob pena de não conseguirmos reproduzi-las com a mesma leveza.