“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Se eu fosse a ti

Segundo os últimos dados da DGS, o número de infectados continua a aumentar e, desta vez, o Alentejo não sai ileso. Não sei se é por isso, mas tenho sentido as pessoas muito mais tensas e com o modo conflituoso ativado.

Também pode ser porque voltei a trabalhar fora de casa, saí da minha doce bolha-lar, caminho pela rua e vejo mais seres taciturnos, irritadiços, impacientes e inquiridores.

Li que a pandemia irá prolongar-se no tempo e que os cuidados a que estamos obrigados agudiza os espíritos potencialmente neuróticos.

O vírus assusta-me, mas também tenho medo de ser atingida por esta neurose social.

Para já, noto que, contrariamente ao que eu julgava no início da pandemia, estamos a perder a empatia e o sentido de humor.

Será porque estamos literalmente amordaçados e deixámos de ver o sorriso do outro?

Será que a falta de abraços está a afectar irremediavelmente a nossa saúde mental?

Há muito tempo que não ouço uma gargalhada fora de minha casa. Gritos coléricos vindos da rua, infelizmente, tenho ouvido com alguma frequência.

Juan Vicente dá-nos instruções para atravessarmos o deserto do mundo.

E dá-nos uma chave: o humor.

Se perdermos essa habilidade, perderemos uma grande parte da nossa capacidade de resistir e uma das nossas características mais humanas.

Se Eu Fosse A Ti

Se eu fosse a ti amava-me, telefonava,
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum “mas” a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.

Juan Vicente PiquerasInstruções para Atravessar o Deserto

Fotografias de mergulhos: IGNANT.


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Labaredem-se

Prometeu foi um importante “benfeitor da humanidade”:

roubou algumas sementes de fogo à roda do Sol e levou-as para Terra, escondidas num caule de férula.

Zeus puniu-nos com uma terrível criatura forjada para o efeito, Pandora.

Prometeu não ficou muito melhor: foi preso com grilhões de aço no cimo do Cáucaso e uma águia devorou-lhe o fígado que se ia renovando incessantemente.

O mito podia terminar aqui, mas não é verdade.

Héracles passou pelo Cáucaso e trepassou com uma flecha a águia de Prometeu.

Nós ficámos com a Pandora e a maldita caixa, mas já não nos tiraram o fogo.

É desse fogo que nascem as metáforas.

Como esta da Cláudia R. Sampaio.

Resta-nos honrar Prometeu e os Poetas:

labaredemo-nos, então!

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre


Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha


Sempre me recusei a arder como os outros


Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!


Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio


E no fim são todos cinza

(O mito de Prometeu foi retirado do fascinante Dicionário da Mitologia, de Pierre Grimal)


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Sementes

Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.”

(final do poema “O Minotauro”, de Sophia de Mello Breyner)

Atravessámos quase dois anos de pandemia e não aprendemos o que é realmente importante.

Houve palmas para os médicos e enfermeiros, mas não se melhoraram as condições de trabalho destas profissões. Reconheceu-se o papel do sector cultural, durante os confinamentos, mas continua a precariedade no sector. Realçou-se o desempenho dos professores, mas prolifera a desvalorização social e política da profissão.

Não evoluiremos, enquanto não percebermos que a saúde, a justiça, a arte e o conhecimento são os verdadeiros pilares de um povo. Já que não brilhamos com euros ou dólares nos bolsos, poderíamos apostar na luminescência espiritual…

Vivemos na vertigem da rapidez e da mudança; só interessa o que flui ou telinta.

A comunicação seguiu a tendência e privilegia o emoji e a imagem.

A palavra, que nos distingue enquanto espécie, exige tempo e concentração e não temos nem um, nem outra.

Para contrariar esta perversidade, é primordial ensinar a fruir o tempo livre, assim como é essencial treinar a capacidade de concentração e educar para a empatia e para a gestão das emoções.

Ser professor é uma nobre profissão: é ao professor que compete a reponsabilidade de recolocar o foco da sociedade na palavra. Os professores são, por princípio, os guardiões da palavra (falada e escrita).

O início dos séculos e dos milénios são sempre conturbados e, no início do nosso, criou-se alguma confusão em relação à função do professor.

Criou-se o jargão retórico de que o professor do século XXI devia ser jovial, sintético e multimédia.

O discurso e o diálogo ficavam, definitivamente, no século XX.

Felizmente, acima das modas barrocas, está a nossa ancestralidade cultural e a palavra está connosco desde o início; é a ela que instintivamente recorremos quando tudo é incerto e rui.

Está provado que, perante a avalanche tecnológica, a solidão aumenta proporcionalmente, assim como a depressão. Não aprendemos a escutar, mas temos uma necessidade premente de sermos ouvidos.

Educar para a escuta ativa, para a reflexão e para a palavra: são estes os verdadeiros lemas desta professora do século XXI. A multimédia é apenas uma excelente ferramenta para chegar a este fim.

Eugénio de Andrade fala nos guardiões de sementes:

“Que fizeste das palavras?
Que contas darás dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e do sol dos cavalos?
Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?”

O Original é a Cultura regressou e o episódio da rentrée foi precisamente dedicado aos professores.

Fotografia de Brian Oldham.


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Mar nas veias

Mundo redondo, tenho o mar nas veias.

E no mar há sereias.”

Miguel Torga, transmontano, é mais conhecido pelas temáticas telúricas, mas é um poeta da Natureza e, como tal, sensível ao mar.

A ideia de ter o mar nas veias e toda a sua flora e fauna é muito tranquilizante.

Significa que o mar caminha comigo para onde quer que eu vá.

É uma ideia muito apaziguadora, sobretudo porque passo grande parte do ano tão longe deste universo.

Quanto à mais bela sereia do mar, cujo aquário transportei durante nove meses, está sempre comigo.

Também na costa, há plantas aromáticas e foi com elas que recuperei a disponibilidade para as flores, num caloroso almoço familiar.

Neste fim de semana, voltei à minha cidade e estou a tentar repor o meu stock de amizade, abraços, teatro e maresia.

Para passar o resto do ano a flutuar… ou a voar.


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Florir

Durante anos, trouxe flores para dentro de casa.

Achava poética a ideia das flores, tão efémeras, morrerem acompanhadas e contempladas.

Faziam-me bem as cores do campo em casa.

Cheguei a exagerar nas mimosas, completamente inebriada pela minha tonalidade de amarelo preferida.

A Beatriz cresceu e, nem sei bem a razão, perdi o hábito.

Talvez saiba porquê: o meu quintal está totalmente selvagem, numa autogestão que me surpreende com orégãos e espinafres, mas também com urtigas, folhas secas e ervas daninhas.

Quando vi a imagem desta cozinha, percebi que tinha de mudar.

Eu quero estas cores, de novo, na minha vida!

A ideia da prateleira com flores e livros na cabeceira da cama já está anotada.

Será que os meus gatos não irão delirar com a ideia de uma ponte florida?

Estas plantas parecem sobreviver a um cão.

Pelo menos nos minutos que demorou a tirar a fotografia…

O próximo passo é tratar do meu terraço e do meu quintal; só assim terei um fornecedor esplendoroso e gratuito de flores.

Tenho de encontrar motivação para enfrentar o monstro verde.

O meu subconsciente é retorcido.

Há poucos anos, só fui arrancar as ervas do quintal quando fui atingida por um surto de inveja pela Anita, ao ler o livro Anita e o Jardim. Achei que eu, Ana, não era menos do que aquela menina rosadinha e dinâmica e pus mãos à obra.

Agora, espero que estas fotografias de sonho resultem, mas tenho de admitir que os sentimentos que me deixam verde por dentro são bem mais eficazes.

As fotografias são Laugh at you.


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Autocaravanismo (para totós) na Costa del Sol

Dez dias numa autocaravana faz-me pouco mais do que totó no caravanismo, mas já tenho estatuto para tecer considerações e adiantar dicas.

Confirmo que é uma sensação intensa de liberdade partir sem planos, fazer o roteiro no dia a dia, avançar ou parar consoante a disposição e a paisagem e não ter de pensar que há uma reserva feita, um hotel para procurar ou uma tenda para montar ao fim do dia. É o compromisso ideal entre rebeldia e conforto, que a pessoa já não tem costas para a insurreição total e dormir no chão da praia.

A minha ideia inicial era ir avançando, sem compromisso, pela Costa del Sol até encontrar a praia onde me apetecesse ficar.

Houve noites com esta vista e em que adormeci a ouvir o mar, o que retempera qualquer coração inquieto. Desconfio, seriamente, que os meus neurónios têm a forma de algas.

Não tive qualquer problema em pernoitar junto de um miradouro ou perto da praia. Pelo que li, pode-se fazê-lo, desde que não haja sinalização específica a proibir autocaravanas e não se coloque qualquer equipamento (cadeiras, mesas ou toldos) fora da carrinha. Também nunca me senti em perigo, mas segui muito a minha intuição em relação aos lugares e posso ter tido sorte de iniciante.

Nas cidades, como Sevilha, Ronda e Málaga, não foi fácil encontrar paisagens magníficas onde fosse permitido (e seguro!) passar a noite e, nesse caso, os parques pagos foram a opção. Zero romantismo, mas total segurança.

Estas manhãs foram menos bucólicas e ficou claro que as autocaravanas não são feitas para explorar cidades, por razões de volumetria óbvias.

Visitar cidades não fazia parte do meu objetivo inicial, mas fiquei com muita vontade de voltar a Málaga e visitar a Fundação Picasso.

A Costa del Sol começa em Tarifa, uma cidade histórica, mas talvez por este passado ser demasiado sangrento, não me senti especialmente atraída pela cidade. No entanto, a paisagem da estrada que liga Algeciras a Tarifa é de cortar a respiração e fiquei emocionada ao avistar África (Ceuta vê-se perfeitamente).

Confirmei que Tarifa não me era favorável. Fui multada por mau estacionamento e aprendi que uma autocaravana não é propriamente discreta para infringir regras de trânsito.

A influência árabe na cidade é evidente na decoração, na arquitetura e na gastronomia.

Continuo sem perceber como continuamos a viver este apagamento da evidente e secular presença árabe nos costumes, língua e tradições dos povos ibéricos. Parece que nunca nos libertámos totalmente da prática de “terra queimada” praticada durante a reconquista cristã.

A variedade e qualidade do pão de Tarifa impressionou-me; é o resultado da convivência de várias técnicas culturais e práticas ancestrais.

Entretanto, segui pela Costa del Sol e apareceram-me algumas praias pequenas e menos frequentadas; a minha intenção, desde o início da viagem, era evitar os aglomerados de Marbella ou Torremolinos.

A água do Mediterrâneo é transparente e tépida e, fugindo destas cidades-empreendimento, há surpresas muito boas, mas nada como a que me esperava um pouco mais a Este.

Nerja – terminou a busca!

Senti-me imediatamente confortável na cidade, talvez porque passei muitas tardes neste cenário quando era pré-adolescente: foi em Nerja que se filmou o “Verão Azul”. A cidade não é cara, os hotéis são poucos e discretos e as referências ao capitão Chanquete, ao Piraña e ao resto do grupo seduziram-me.

Balcón de Europa – Nerja

As praias não estão super-lotadas e têm chuveiros de água doce, o que é essencial para o autocaravanista asseado.

Na verdade, a casa de banho foi a minha grande desilusão na autocaravana. O depósito de água limpa é minúsculo: 2 banhos rápidos esgotam a reserva e nem sobra uma gota para o lavatório ou para o lava-louças. É verdade que em qualquer torneira (paga ou gratuita) se enche o depósito, mas a ideia idílica de estar autonomamente estacionado por dois dias não é real. O depósito das águas negras também é problemático: minúsculo, pouco perfumado e esvaziá-lo já não é tão fácil, embora as cidades tenham áreas de serviço para autocaravanas – ASA (com locais específicos para os diferentes resíduos). Em SOS, pode-se esvaziá-lo numa casa de banho, mas não é a melhor solução.

Nerja revelou-se o destino da viagem, mas ainda houve outra surpresa.

No regresso a Portugal, passei por Ronda.

Puente Nuevo, do século XVIII, galga a garganta do Tejo

Uma cidade vertical (literalmente) com origem árabe e que, mais tarde, se notabilizou pelas lides tauromáquicas (o aspecto que me desagradou…).

É tão incrível o facto vertiginoso de ter sido construída no cimo de um desfiladeiro e tão encantatória que conquistou artistas como Orson Welles e Ernest Hemingway. Orson Welles morreu nos E.U.A. mas pediu que as suas cinzas repousassem em Ronda.

A cidade antiga, com arquitetura muçulmana e o palácio de Abbel Mallek, filho do rei de Marrocos

Também foi em Ronda que encontrei o melhor café expresso. Apeteceu-me tanto beijar a senhora, depois de 8 dias de uma triste água suja!

Quanto à experiência caravanista, de facto o aluguer não é barato, sobretudo na época alta, mas a cozinha equipada foi uma inesperada vantagem que contribuiu para economizar nas refeições: é muito prático usá-la e muito cómodo, porque não obriga a sair e a procurar um restaurante diariamente.

A noção de privacidade e higiene alterou-se, ao longo dos dias, mas aconteceram muitos episódios cómicos que, desconfio, não serão só fruto da inexperiência; as circunstâncias são muito diferentes daquelas a que estou habituada na minha casa grande!

O inconveniente de conduzir um furgão-caracol que é alugado é que temos de ter sorte com a empresa em quem confiámos uma fiança. Não foi o caso: Autocaravanas Badajoz nunca mais!

O balanço é, no entanto, muito positivo, sobretudo porque o objetivo era desintoxicar de wi-fi, esquecer testes, notícias e certificados Covid, horários e check-lists, partir sem ideias pré-definidas, respirar e descobrir a melhor praia da Costa del Sol.

Fica um lembrete: para a próxima, optarei por um modelo mais simples e mais pequeno que permita alguma agilidade na cidade (e uma empresa honesta!).

Málaga ficou já no roteiro de 2022!


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Sentimental

Uma carência de serotonina, uma crise de meia idade ou a ressaca de tantos meses de tensão global pandémica levaram-me a um estado meditativo solitário. Foi profundo e com o tempo certo, vejo agora, mas estas inquietações da alma parecem-me sempre prolongadas.

Sinto uma revolta natural contra este tipo de desassossego que perdura.

Talvez seja porque a melancolia crónica me derruba e me obriga à introespecção improdutiva.

Insanamente, continuo a medir os meus dias pelos actos e tarefas que equacionei e não pelos progressos mentais ou emocionais que resolvi. Na verdade, estes últimos são muito mais determinantes para o meu bem-estar do que os primeiros, mas desenrolam-se de uma forma lenta, discreta e, frequentemente, imperceptível.

Felizmente, o corpo e a mente têm sempre a capacidade de me obrigar à pausa e assim aconteceu.

Respeitar-me, retomar a psicoterapia, dar e receber amor em todas as suas formas e usufruir da arte humana e natural sempre foram os responsáveis pela minha salvação. Desta vez, também me resgataram.

Regressei à leitura prazerosa com Ferrante e Jávier Marias, voltei a emocionar-me com as palavras da Cláudia Lucas Chéu e com este vídeo de Roger Wolfe (entrevistado pela Raquel Marinho), entusiasmei-me com o teatro, prestei culto a programas como o da Gabriela Moita, oportunamente intitulado “Impaciência do Coração“, dormi, abracei, viajei e voltei a sentir-me livre, como já não acontecia desde 2019.

A poesia ajuda-me a conhecer-me melhor, ensina-me a conviver com a minha natureza sentimental (como refere Roger Wolfe), orienta-me de forma a aceitar a angústia inevitável das almas inquietas que, imprudentemente, chega como uma onda que gela. Durante a vaga gelada, terei de aprender a não me debater de imediato, pois a reacção frontal contra uma força inexpugnável conduz a um esgotamento inútil.

Serei paciente e aproveitarei a maré posterior para boiar até à baía onde tenho pé.

Sou afortunada.

Na costa, há sempre a possibilidade de abarcar a beleza extraodinária da minha vida e do mundo.

Bom recomeço!


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Certezas

A voragem dos dias provoca tamanho sorvedouro na minha vida que me cercam partículas, num raio mínimo de 1 km.

Deito-me e levanto-me na poeira.

À noite, pesam-me os sedimentos que não encontraram o seu lugar.

Chamam-lhe insónia.

A escuridão mais assustadora é a que encontro no peito quando fecho os olhos.

A intensidade do amor e a luz dos livros são a minha única possibilidade de redenção.

Perfilei, aleatoriamente, os livros que me esperam na prateleira de cima do escritório e tranquilizo-me com Afonso Cruz.

Ainda vou ser muito feliz.

“Por vezes, os livros que não são lidos podem assumir um ar acusador. Muitos leitores sentem alguma culpa quando olham para as pilhas de livros por ler. No meu caso, considero estes livros uma possibilidade de ser livre: não tenho apenas um livro para ler, tenho muitos, e isso permite-me escolher o próximo[…]. No fundo, concordo com Jules Renard quando escreveu em Notas sobre el Oficio de Escribir: «Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz».”

Também foi por causa de Afonso Cruz e desta entrevista incrível a Bernardo Mendonça que ouvi, depois de tantos anos, esta música de Chico.

Sobre a rotina, precisamente.

E esta! Para os corações mais sensíveis ouvirem em noites de insónia!

Ou talvez não.

Os corações sensíveis terão mais dificuldade em conciliar o sono e podem despertar a sua “llorona”.


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Consolação

Na série de entrevistas “Os Filhos da Madrugada”, de Anabela Mota Ribeiro, Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D.Maria II, proporcionou-me 20 minutos valiosos.

A propósito do título do seu espetáculo “By Heart”, discorre sobre a importância de decorarmos poemas ou textos. Recorre ao étimo latino da palavra decorar (cor, cordis: coração; ou seja, guardar palavras no coração) e explica que a memória pode ser o único gesto de resistência contra o totalitalismo político ou contra o totalitarismo humano. A este último nenhum humano pode fugir; ou não estivéssemos a falar da doença e da morte.

Nesse sentido, decorar um poema poderá ser o “nosso património, a nossa consolação”, a única “garantia de civilização mesmo nos tempos mais bárbaros e desolados”.

No site do Teatro Nacional D. Maria, li a seguinte citação de George Steiner:

“Assim que 10 pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver”. Em última análise, By Heart é uma recruta para a resistência que só termina quando os 10 guerrilheiros souberem o poema de cor.

Acrescenta Tiago Rodrigues que recitar um verso poderá ser mesmo a nossa melhor despedida da vida.

Sempre me preocupei com a ideia de chegar ao fim e pensar: foi só isto?

Ando há anos a querer viver com vontade, adrenalina, tragos e fulgor.

No entanto, ultimamente tento filtrar a vida de modo a coar o sofrimento porque, na minha ânsia de viver, a dor é um contratempo incómodo.

Continuo neste precário equilíbrio entre entregar/ proteger o coração.

Viver com o coração encouraçado preserva-nos, mas mantém-nos aquém.

Os poemas de Cláudia R. Sampaio são sempre transformadores.

Epitáfio de Domingo

Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua
à légua mais distante da minha vida,
diz que compreendi.
Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento

Diz que fui ar azul sobre campos de secura
estrada recta ao infinito,
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
e que, quando me viram, me ergui animal

Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e a boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura

Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém
Que fui o halo frio que preenchi com esta pena
pela minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio

Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu fui eu

Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
– quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?

Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia
e tu sabes
que essas saudades que vais tendo
são as minhas.

Imagem: IGNANT.


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Desafio-te

Depois de períodos espinhosos, uma pandemia ou uma guerra, já assistimos, no passado, a uma retoma material e espiritual por parte dos povos:

Os loucos anos vinte do século XX são um exemplo desse fenómeno social.

Em Portugal, especificamente, vivemos uma loucura discreta.

Afinal, logo em 1928, houve um verdadeiro insano que assumiu a pasta das Finanças e, em 1932, o mesmo demente assumiu o país e queimou o que restava da alegria.

No entanto, os anos vinte ainda permitiram a nossa explosão modernista.

A minha admiração pelo Modernismo Português remonta ao ensino secundário e universitário.

Trata-se de uma geração de ruptura e desafio, o que seduz qualquer jovem.

Ainda hoje me fascinam: persigo filmes, exposições, biografias e documentários desta época.

Acho até que me apaixonei, aos dezoito anos, por esta fotografia de Santa Rita-Pintor.

Santa-Rita Pintor foi um dos organizadores da revista Orpheu e era o dinamizador da revista Portugal Futurista. Só existiu o número 1 desta última revista, uma vez que todos os exemplares foram apreendidos à porta da tipografia, devido ao seu teor “subversivo e obsceno”.

Nada pode ser mais inebriante do que este tipo de pormenores.

Quanto ao pintor Amadeo de Souza Cardoso, saltou de Manhufe para Paris, com a paleta debaixo do braço.

Aguardo, ansiosamente, pela estreia do filme sobre Amadeo de Souza Cardoso de Vicente Alves do Ó. Acredito que seja este ano.

A estreia do filme tem sido adiada por causa da pandemia.

Amadeo de Souza Cardoso morreu de gripe espanhola. Infelizes coincidências.

A obra de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Sá Carneiro ou de Amadeo jorrou em rompantes criativos, aparentemente sem esforço e com uma originalidade genial e chocante para a época.

Sá Carneiro e Fernando Pessoa eram, socialmente, mais contidos.

Almada era extravagante e Amadeo era… pintor.

Muito me fascina a sua figura.

Decidido e sobranceiro.

Estes génios fitam-nos e interpelam-nos: E, tu, o que fazes?

Não queriam discípulos; queriam soldados para a sua revolução cultural.

São inspiradores!

Ainda hoje procuram soldados para esta batalha!

Eu alistei-me na sua milícia pacífica.


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Nuvens em pé

Finalmente, estamos a recuperar o espaço público.

Que bom que é ver os outros, sentir, cheirar, tocar, concordar, discordar, intervir, ouvir, observar, seguir, calar, e guardar tudo no fim.

Sempre precisei de silêncio e solidão e não tinha consciência de que me fazia falta a sensação de “fazer parte de”.

Basta sair de casa, observar ou ouvir uma conversa para que os outros me acrescentem.

Integro ou rejeito a diferença, mas reflito e cresço.

Talvez o sentido de comunidade também se desenvolva assim e nem precise de intervenções públicas estrepitosas.

Perante a forçada ausência do novo, devo uma parte da minha sanidade mental aos podcasts que fui/vou ouvindo, nomeadamente “O Poema ensina a Cair”, da autoria de Raquel Marinho.

Um dos últimos que ouvi teve como convidado Vicente Alves do Ó. Foram duas horas de conversa que me acompanharam e acenderam vários dias. Para além da obra, o realizador é um excelente contador de histórias e, através dele, conheci a poeta Cláudia R. Sampaio.

As redes sociais são enjoativas, mas gosto da ideia de comunidade virtual: ao longo destes meses, fui reunindo à minha volta vários nomes que me preenchem, de forma sublime, o pensamento.

Este poema da Cláudia R. Sampaio ainda me ilumina os dias.

Tragam-me um homem que me levante

com os olhos

que em mim deposite o fim da tragédia

com a graça de um balão acabado de encher

tragam-me um homem que venha em baldes,

solto e líquido para se misturar em mim

com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se

leve, leve, um principiante de pássaro

tragam-me um homem que me ame em círculos

que me ame em medos, que me ame em risos

que me ame em autocarros de roda no precipício

e me devolva as olheiras em gratidão de

estarmos vivos

um homem homem, um homem criança

um homem mulher

um homem florido de noites nos cabelos

um homem aquático em lume e inteiro

um homem casa, um homem inverno

um homem com boca de crepúsculo inclinado

de coração prefácio à espera de ser escrito

tragam-me um homem que me queira em mim

que eu erga em hemisférios e espalhe e cante

um homem mundo onde me possa perder

e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos

atirando-me à ilusão de sermos duas

novíssimas nuvens em pé.

in Ver no Escuro, Tinta da China.

O fotógrafo Vitorino Coragem tirou estas fotografias à poeta e eu trouxe-as daqui.