“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Alternativas

Numa escola do Alentejo, assisti a uma iniciativa louvável, ao longo da qual se convidaram vários profissionais, a fim de partilharem as suas experiências académicas e de trabalho, com jovens de quinze anos.

Numa das intervenções, uma pediatra enfatizou a importância de manter o foco na hora de escolher o futuro.

Descreveu o seu duro percurso académico e tudo aquilo de que teve de abdicar para se licenciar. É uma profissional realizada, mas realçou a necessidade de reflectir sobre o que se gosta e de alargar o leque de opções.

Salientou que teria sido muito feliz como educadora de infância, porque do que fundamentalmente gostava, enquanto médica, era do contacto com as crianças. Pensava, actualmente, que teria vivido o início da juventude menos pressionada e isolada, se tivesse feito essa escolha.

Foi um discurso humilde e consciencioso e fez-me pensar sobre as minhas escolhas.

No final do ensino básico, percebi que gostava muito de ler e de escrever e que teria de seguir Humanidades.

Jenny Kroik

Apesar de tímida, gostava muito de pessoas e de partilhar descobertas.

Estavam reunidas as características essenciais para, um dia mais tarde, ser professora.

Na minha ingenuidade, depois de ver vinte vezes O Clube dos Poetas Mortos, não fazia ideia das dificuldades.

Depois de muita persistência da minha parte, da minha família e de amigos, consegui exercer e, finalmente, pertencer à carreira docente.

Hoje, tal como há vinte anos,  continuo sem saber o que vai acontecer no mês de Setembro; continuo sem estabilidade geográfica.

A dispersão das últimas duas décadas teve custos elevados, no meu equilíbrio financeiro e, principalmente, no emocional, assim como na manutenção dos afectos.

Obviamente que também foi devido a esse périplo que conheci o meu país;

aprendi muito com pessoas diferentes e tenho legitimidade para afirmar que os professores são, na sua maioria, esforçados, responsáveis, bem intencionados e muito generosos. Sobretudo no interior do país, fazem, de facto, a diferença na vida das crianças. Apenas uma ínfima parte está esgotada e não tem a resistência ou a resiliência que esta profissão, cada vez mais, exige.

Gosto de ser professora, mas reparo que, a cada ano que passa, chego ao fim do dia mais cansada.

São trinta alunos numa sala e é impossível manter o contacto (mais do que visual!) com todos.

O “Programa de Português” é alienado: exigente, infindável e inesgotável, ignora que os alunos (que nunca leram um livro para além da colecção Uma Aventura) precisam de tempo para analisar, assimilar, e para aprenderem a apreciar um texto literário.

O “Programa e Metas Curriculares de Português” de 2014 sugere quatro aulas para leccionar Fernão Lopes, duas para História Trágico-Marítima, oito para António Vieira e seis para Amor de Perdição, por exemplo. Contextualização histórico-cultural incluída!

Apesar da demência ministerial, travo uma luta diária para conseguir trazer todos os alunos comigo e sinto, com frequência, que o problema está muito para além da escola.

O final do dia é, por todos estes motivos, muitas vezes, marcado pela exaustão e frustração.

lady at subway Jenny Kroik

Entretanto, o outro motivo que me fez optar por esta profissão, a literatura, vai ficando  sequestrada.

À noite, raramente consigo ler mais do que uma página sem confundir as letras.

selfie Jenny Kroik

Volto à questão levantada pela pediatra:

não poderia ter feito outra escolha que me fizesse feliz e preenchesse os requisitos iniciais: a literatura e a partilha com os outros?

Até que ponto não estaria no lugar certo a trabalhar numa livraria ou numa biblioteca?

Jenny Kroik livraria

É uma questão existencial que me atormenta.

A persistência na profissão, como a maior parte das grandes decisões da minha vida, é, sem dúvida, mais emocional do que racional.

Quando penso numa alternativa mais serena para a minha vida, abalam-me os sorrisos dos cento e quinze alunos deste ano e os sorrisos que me acompanharam nas últimas duas décadas.

Para mim, a escola é um lugar de Conhecimento, mas principalmente de Afectos; acredito que não há aprendizagem efectiva, se esta não tiver um contexto afectivo.

E volta o lado emocional a toldar-me o pensamento…

Não sei se estou bem.

Haverá o lugar certo?

Imagens: Jenny Kroik.

 


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F***it…

A Teresa é minha amiga, é minha prima do coração e é uma blog hunter.

Tem um talento invulgar para descobrir blogs imperdíveis que eu não conheço e que nunca viria a conhecer na vida.

Este blog seduziu-me logo através do nome F***it… Going to New York!

Há dias em que estas duas primeiras palavras me sacodem o espírito mais do que eu gostaria de admitir.

É a vida!

São os outros!

Somos nós!

F***it… Going to New York!  faz-me querer emigrar para esta cidade silenciosa e limpa, que só existe nesta plataforma.

FIGTNY Edifício branco

FIGTNY_white dress

Na minha cidade, a indumentária ainda muda de cor consoante o estado de espírito, mas nesta Nova Iorque depurada a roupa transforma-se ao ritmo da arquitectura.

FIGTNY Edifício cinza

FIGTNY_Grey dress 2018

FIGTNY_white and grey

Com cores, texturas e formas que ajudam a manter o foco!

FIGTNY Edifício branco e preto

FIGTNY_black dress

FIGTNY_ Black dress 2018

FIGTNY_bigblackdress

Todas as imagens FIGTNY.COM

 

 


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Géneros

Há tantos géneros quanto seres humanos no nosso planeta.

Seria tudo mais fácil, mas bem mais aborrecido, se apenas oscilássemos entre dois pólos.

Acredito que há uma escala entre o feminino e o masculino e cada um de nós se situa num ponto.

O mesmo se passa com a orientação sexual.

Kinsey disse que a escala é de 0 a 6 e que ninguém está verdadeiramente nas extremidades, ou seja, ninguém é, indubitavelmente, homossexual ou heterossexual.

Somos mais fluídos do que aquilo que durante séculos se definiu de forma simplista.

No ano passado, a National Geographic dedicou uma edição ao género, igualdade e fluidez de género: entrevistaram crianças de 9 anos para perceberem de que forma elas se sentem limitadas (ou mais livres) devido ao seu género.

O vídeo com as entrevistas é incrível.

2017-01-cover National Geographic

A menina da capa nasceu menino há 9 anos e a sua maior alegria, desde que se assumiu menina, é não ter mais de fingir ser menino.

Ora o que se pretende, no futuro, é que ninguém tenha de fingir num assunto tão íntimo como a identidade e a sexualidade e que os tabus dos últimos séculos se desfaçam.

Pessoalmente, não tenho dúvidas de que uma sociedade resolvida intimamente vai ser uma sociedade mais bondosa e empática.

 

 

 

 


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A ordem criminosa do mundo

Em 2008, a TVE exibiu um documentário acerca da desordem do nosso mundo, intitulado “A Ordem Criminosa do Mundo”.

Entre outros intervenientes, participaram Eduardo Galeano, escritor latino-americano (morreu em 2015), e Jean Ziegler, professor de Sociologia e antigo relator das Nações Unidas.

Dez anos depois, infelizmente, o documentário continua actual: o mundo mudou, como sabemos. Piorou.

É duro ver como estes dois homens descrevem o mundo, sobretudo porque, para além de terem um discurso que une exemplarmente a forma e o conteúdo, reflectem limpidez na análise que fazem.

Os donos do mundo

“Os verdadeiros donos do mundo hoje são invisíveis. Não estão submetidos a nenhum controlo social, sindical, parlamentar. São homens nas sombras que procuram o governo do mundo. Atrás dos Estados, atrás das organizações internacionais, há um governo oligárquico, de muito poucas pessoas, mas que exercem uma influência e um controlo social sobre a humanidade, como jamais Papa algum, Imperador ou Rei tiveram.” – Jean Ziegler

“O atual sistema universal de poder converteu o mundo num manicómio e num matadouro.” – Eduardo Galeano

A globalização

“No processo de criação do mercado globalizado, da unificação do mundo sob a lei do lucro máximo, um dos tipos de capital emancipou-se: o capital financeiro, virtual e líquido, que toma corpo nas Bolsas e que domina o capital comercial, industrial e o capital social, em todas as suas formas.” – Jean Ziegler

O capital financeiro percorre o planeta 24 horas por dia com um único objectivo: obter o lucro máximo. A globalização é uma grande mentira. Os donos do grande capital que dirigem o mecanismo da globalização dizem: Vamos criar economias unificadas pelo mundo inteiro e assim todos poderão desfrutar de riqueza e de progresso. O que existe, na verdade, é uma economia de arquipélagos [de riqueza] que a globalização criou.”Jean Ziegler

“Há três organizações muito poderosas que regulam os acontecimentos económicos: Banco Mundial, FMI e Organização Mundial do Comércio; são os bombeiros piromaníacos. Elas são, fundamentalmente, organizações mercenárias da oligarquia do capital financeiro invisível mundial.” – Jean Ziegler

“Todos os dias neste planeta, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), 100 mil pessoas morrem de fome ou por causa das suas consequências imediatas. No ano passado, a cada 5 segundos, uma criança com menos de 10 anos morria de fome. Tudo isto acontece num planeta que, segundo a FAO, poderia alimentar 12 biliões de seres humanos [somos 7 biliões], ou seja, quase o dobro da população mundial. Nesta matança quotidiana, não há fatalidade alguma.”Jean Ziegler

O dicionário

“Hoje às torturas chamam-se “procedimento legal”, à traição chama-se “realismo”, ao oportunismo chama-se “pragmatismo”, ao imperialismo chama-se “globalização” e às vítimas do imperialismo, “países em vias de desenvolvimento”. O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem, ou não sabemos o que dizem” – Eduardo Galeano

[A propósito de Guantánamo] “Não se tortura para obter informações, isso é falso. Tortura-se para semear o medo e aí temos de reconhecer que a tortura é eficaz e, por isso, a tortura é agora objecto de publicidade incessante. A máquina de semear o medo utiliza a tortura para prevenir o delito da dignidade.” – Eduardo Galeano

O medo

“Vivemos na sociedade do medo. Quem não tem medo de perder o emprego, tem medo de não encontrar emprego, o que é um medo semelhante. Espalharam-se pânicos: o pânico de viver, o pânico de ser, o pânico de mudar, o pânico dos demónios que inventam para nos assustar.” – Eduardo Galeano

A emigração

“A Organização Mundial do Comércio assegura, em nome do capital financeiro, a total liberalização de circulação de mercadorias, capitais, patentes e serviços. As pessoas não aparecem no projecto da OMC, são atiradas para as vedações de arame farpado de Ceuta e morrem no Estreito de Gibraltar.”- Jean Ziegler

“Esta invasão dos invadidos, pessoas que do Sul marcham para Norte (o Norte que tantas vezes invadiu o Sul em guerras coloniais e nas guerras que eram coloniais mas diziam que não eram), são emigrantes que deambulam numa peregrinação inútil, procurando casa, trabalho, um destino. Este êxodo trágico dos desamparados é um êxodo de pessoas que aspiram a ser tratadas como o dinheiro. Para o dinheiro não há fronteiras. Os muros altos servem para que os privilegiados possam seguir sendo a minoria que manda e os outros se resignem a ser a maioria que obedece.” – Eduardo Galeano

O que fazer?

“Se hoje eu digo que faz falta uma rebelião, uma revolução, um desmoronamento, uma mudança total desta ordem mortífera e absurda do mundo, simplesmente estou a ser fiel à tradição mais íntima, mais sagrada da nossa civilização ocidental. O nosso dever primordial hoje deve ser reconquistar a mentalidade simbólica e dizer que a ordem mundial, tal como está, é criminosa. Ela é frontalmente contrária aos direitos do homem e aos textos fundacionais das nossas civilizações ocidentais.” – Jean Ziegler

“A primeira coisa que devemos fazer é olhar para a situação de frente e não considerar como normal e natural a destruição, por exemplo, de 36 milhões de pessoas por culpa da fome e da desnutrição. Temos de rejeitar como algo normal a destruição dos nossos semelhantes. De nenhum modo, devemos permitir que as grandes organizações de comunicação nos intimidem, nem as fábricas das teorias neoliberais das grandes corporações, pois todas as corporações se ocupam, primeiro, de controlar as consciências, de controlar, como podem, a imprensa e o debate público. E tratam de ocupar o debate público, para esvaziar os cérebros.” –  Jean Ziegler

 

 


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Não!

Vivemos na sociedade do “Sim”.

 

Os expeditos aprendem cedo a usar meias-palavras, a ludibriar, a prometer e a não cumprir, a mentir.

Os mais bondosos aprendem a violentar-se, a decepcionar-se e a dizer “Sim!”.

O “Sim!” parece ser a resposta, quando por todo o lado está espalhado o medo:

diz “Não” e és fraco, não serves; diz “Não”, perdes o emprego, diz “Não” e ficas sozinha para sempre.

Diz “Sim!” e a ordem fica restabelecida, com filas de submissos obedientes.

Este poema foi escrito, em 1956, por Vinicius de Moraes.

No vídeo, surge dito por Mário Viegas, um homem que sabia dizer “Não”.

O operário em construção

Era ele que erguia casas 
Onde antes só havia chão. 
Como um pássaro sem asas 
Ele subia com as casas 
Que lhe brotavam da mão. 
Mas tudo desconhecia 
De sua grande missão: 
Não sabia, por exemplo 
Que a casa de um homem é um templo 
Um templo sem religião 
Como tampouco sabia 
Que a casa que ele fazia 
Sendo a sua liberdade 
Era a sua escravidão. 

De fato, como podia 
Um operário em construção 
Compreender por que um tijolo 
Valia mais do que um pão? 
Tijolos ele empilhava 
Com pá, cimento e esquadria 
Quanto ao pão, ele o comia… 
Mas fosse comer tijolo! 
E assim o operário ia 
Com suor e com cimento 
Erguendo uma casa aqui 
Adiante um apartamento 
Além uma igreja, à frente 
Um quartel e uma prisão: 
Prisão de que sofreria 
Não fosse, eventualmente 
Um operário em construção. 

Mas ele desconhecia 
Esse fato extraordinário: 
Que o operário faz a coisa 
E a coisa faz o operário. 
De forma que, certo dia 
À mesa, ao cortar o pão 
O operário foi tomado 
De uma súbita emoção 
Ao constatar assombrado 
Que tudo naquela mesa 
– Garrafa, prato, facão – 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário, 
Um operário em construção. 
Olhou em torno: gamela 
Banco, enxerga, caldeirão 
Vidro, parede, janela 
Casa, cidade, nação! 
Tudo, tudo o que existia 
Era ele quem o fazia 
Ele, um humilde operário 
Um operário que sabia 
Exercer a profissão. 

Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto 
Aquele humilde operário 
Soube naquele momento! 
Naquela casa vazia 
Que ele mesmo levantara 
Um mundo novo nascia 
De que sequer suspeitava. 
O operário emocionado 
Olhou sua própria mão 
Sua rude mão de operário 
De operário em construção 
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão 
De que não havia no mundo 
Coisa que fosse mais bela. 

Foi dentro da compreensão 
Desse instante solitário 
Que, tal sua construção 
Cresceu também o operário. 
Cresceu em alto e profundo 
Em largo e no coração 
E como tudo que cresce 
Ele não cresceu em vão 
Pois além do que sabia 
– Exercer a profissão – 
O operário adquiriu 
Uma nova dimensão: 
A dimensão da poesia. 

E um fato novo se viu 
Que a todos admirava: 
O que o operário dizia 
Outro operário escutava. 

E foi assim que o operário 
Do edifício em construção 
Que sempre dizia sim 
Começou a dizer não. 
E aprendeu a notar coisas 
A que não dava atenção: 

Notou que sua marmita 
Era o prato do patrão 
Que sua cerveja preta 
Era o uísque do patrão 
Que seu macacão de zuarte 
Era o terno do patrão 
Que o casebre onde morava 
Era a mansão do patrão 
Que seus dois pés andarilhos 
Eram as rodas do patrão 
Que a dureza do seu dia 
Era a noite do patrão 
Que sua imensa fadiga 
Era amiga do patrão. 

E o operário disse: Não! 
E o operário fez-se forte 
Na sua resolução. 

Como era de se esperar 
As bocas da delação 
Começaram a dizer coisas 
Aos ouvidos do patrão. 
Mas o patrão não queria 
Nenhuma preocupação 
– “Convençam-no” do contrário – 
Disse ele sobre o operário 
E ao dizer isso sorria. 

Dia seguinte, o operário 
Ao sair da construção 
Viu-se súbito cercado 
Dos homens da delação 
E sofreu, por destinado 
Sua primeira agressão. 
Teve seu rosto cuspido 
Teve seu braço quebrado 
Mas quando foi perguntado 
O operário disse: Não! 

Em vão sofrera o operário 
Sua primeira agressão 
Muitas outras se seguiram 
Muitas outras seguirão. 
Porém, por imprescindível 
Ao edifício em construção 
Seu trabalho prosseguia 
E todo o seu sofrimento 
Misturava-se ao cimento 
Da construção que crescia. 

Sentindo que a violência 
Não dobraria o operário 
Um dia tentou o patrão 
Dobrá-lo de modo vário. 
De sorte que o foi levando 
Ao alto da construção 
E num momento de tempo 
Mostrou-lhe toda a região 
E apontando-a ao operário 
Fez-lhe esta declaração: 
– Dar-te-ei todo esse poder 
E a sua satisfação 
Porque a mim me foi entregue 
E dou-o a quem bem quiser. 
Dou-te tempo de lazer 
Dou-te tempo de mulher. 
Portanto, tudo o que vês 
Será teu se me adorares 
E, ainda mais, se abandonares 
O que te faz dizer não. 

Disse, e fitou o operário 
Que olhava e que refletia 
Mas o que via o operário 
O patrão nunca veria. 
O operário via as casas 
E dentro das estruturas 
Via coisas, objetos 
Produtos, manufaturas. 
Via tudo o que fazia 
O lucro do seu patrão 
E em cada coisa que via 
Misteriosamente havia 
A marca de sua mão. 
E o operário disse: Não! 

– Loucura! – gritou o patrão 
Não vês o que te dou eu? 
– Mentira! – disse o operário 
Não podes dar-me o que é meu. 

E um grande silêncio fez-se 
Dentro do seu coração 
Um silêncio de martírios 
Um silêncio de prisão. 
Um silêncio povoado 
De pedidos de perdão 
Um silêncio apavorado 
Com o medo em solidão. 

Um silêncio de torturas 
E gritos de maldição 
Um silêncio de fraturas 
A se arrastarem no chão. 
E o operário ouviu a voz 
De todos os seus irmãos 
Os seus irmãos que morreram 
Por outros que viverão. 
Uma esperança sincera 
Cresceu no seu coração 
E dentro da tarde mansa 
Agigantou-se a razão 
De um homem pobre e esquecido 
Razão porém que fizera 
Em operário construído 
O operário em construção.

O poema vem daqui.

 

 


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Árvores

“When we have learned how to listen to trees, then the brevity and the quickness and the childlike hastiness of our thoughts achieve an incomparable joy.”

Esta frase do Hermann Hesse recorda-me de que já não abraço uma árvore há muito tempo. Seis anos, precisamente. Quando a Beatriz era bebé levava-a no marsúpio e abraçávamos as árvores e acariciávamos as flores.

Agora defino destinos diários, sigo viagens vertiginosas e as árvores da cidade são apenas decorativas.

Quando vi a imagem deste quarto, pensei que seria feliz aqui.

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“A árvore sussurra à noite, quando estamos inquietos diante dos nossos próprios pensamentos infantis: as árvores têm pensamentos longos, uma respiração longa e tranquila, tal como têm uma vida mais longa do que a nossa.

Elas são mais sábias do que nós, enquanto nós não as  ouvirmos.

Mas quando aprendermos a ouvir as árvores, a brevidade e a rapidez e a pressa infantil dos nossos pensamentos alcançarão uma alegria incomparável. Quem aprendeu a escutar as árvores, já não quer ser uma árvore. Já não quer ser nada, excepto o que é.

Isso é estar em Casa.

Isso é a Felicidade.”

Trees: Reflections and Poems, 1984

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Conhecia o texto de Hermann Hesse, mas infelizmente não tenho o livro, nem encontro uma tradução à venda.

Encontrei o excerto no blog Brain Pickings.

So the tree rustles in the evening, when we stand uneasy before our own childish thoughts: Trees have long thoughts, long-breathing and restful, just as they have longer lives than ours. They are wiser than we are, as long as we do not listen to them. But when we have learned how to listen to trees, then the brevity and the quickness and the childlike hastiness of our thoughts achieve an incomparable joy. Whoever has learned how to listen to trees no longer wants to be a tree. He wants to be nothing except what he is. That is home. That is happiness.”

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As imagens da casa a fingir que é floresta são do blog French by Design.

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A lápis

Há pessoas que sabem tudo.

Ouvem um problema, opinam e convencem-se de que encontram a solução.

Como se a vida fosse um caderno de receitas e o comprimido que alivia um aliviasse todos…

Clarice Lispector esclarece esta presunção através da metáfora dos sapatos.

“Antes de julgar a minha vida ou o meu carácter, calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderá julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida.”

Ouvi-a, dita por Pedro Lamares, no programa da RTP 2,  Literatura Aqui.

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O programa “Literatura Aqui” vai já na quarta temporada e, como o nome indica, elogia a obra literária e o poder revolucionário da literatura.

Talvez a literatura nos alivie, mesmo quando nos mostra que as personagens ficcionadas são mais simples do que as personagens que vivem connosco e dentro de nós;

com os livros, tomamos consciência de que a realidade supera sempre a fantasia;

por outro lado, a leitura aumenta a nossa realidade e a nossa dimensão humana.

Acredito que quanto mais leio, mais humana me torno!

Ainda que fosse apenas essa a missão da literatura: ajudar-nos a  aumentar a nossa dimensão humana e perceber alguma coisa da Vida (o que já é muito), já era louvável a iniciativa “Poesia na Fábrica”:

em S.João da Madeira, a poesia chega, pontualmente, à fábrica Viarco:

as máquinas param e todos os trabalhadores escutam e lêem poesia: partilham, riem; por momentos diluem hierarquias e são livres; descobrem-se, unem-se, criam laços e cumplicidades.

Viarco_portugal_danielsommer 2018

É um gesto generoso, incentivado pela Câmara, e que devia ser repetido em todas as empresas e instituições do país: levar a poesia do trabalho para casa, da escola para casa, de casa para o mundo, … e vice-versa.

Talvez não chegássemos ao final do mês com mais dinheiro no bolso, mas chegaríamos, sem dúvida, mais lúcidos, mais felizes e mais ricos.

Os episódios “Literatura Aqui” estão todos disponíveis aqui.

Referi que o apresentador é o Pedro Lamares?

(Suspiro…)

Viarco_portugal_danielsommer

As fotografias da fábrica Viarco são do blog SLANTED.