“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Amanhecer

O psicólogo Daniel Rijo disse que a melhor prenda que podemos oferecer a um filho é deixá-lo passar um fim-de-semana em casa de um amigo.

Proporcionamos-lhe uma aprendizagem sobre a dinâmica de outra família e oferecemos-lhe um cenário de comparação que o faz reflectir sobre a sua própria dinâmica familiar.

Depois dessa experiência, um filho pode regressar mais exigente ou grato.

E a sua capacidade de auto-análise dispara.

Mesmo que, num primeiro momento, possa não ter muita noção disso.

Achei que fazia todo o sentido.

Sempre gostei muito do meu núcleo familiar; acho que fomos todos Família enquanto estivemos juntos.

E essa união solidificou-se, porque os meus pais nunca tiveram televisão na cozinha.

A hora da refeição era bem mais do que uma hora… e sempre muito conversada.

Achei estranhíssimo quando, na adolescência, passei o fim-de-semana com uns amigos e vi que todos engoliam o almoço em silêncio e, em meia-hora, cada um voltava aos seus afazeres como se aquele momento em conjunto fosse desconfortável.

Marisa  e Beatriz de manhã

Nós iniciámo-nos na partilha das manhãs.

Também entre as crianças pequenas há fenómenos inexplicáveis: a amizade é um coup-de-foudre que vive de cumplicidades, por vezes, pouco óbvias.

Apesar da diferença de 5 anos, estas duas meninas brincam como se se conhecessem desde sempre.

Para já, é a Marisa que vem até cá.

Eu sou completamente incapaz de passar a noite sem estes pés aqui por casa.

Pés de 3 anos

Vou tendo desculpa, porque aos três anos ainda não há muita capacidade de auto-análise…

 

 

 

 

 

 

 


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Luz

-Vamos acordar!

Olhos ensonados.

Despe.

Veste.

-Mãe, sabias que temos uma luzinha aqui dentro?

-Não! Onde?

-Aqui, ao pé das maminhas.

-No coração?

-Isso, no coração.

-Quem te disse?

-A minha professora. O Guilherme também tem. E é o mais pequenino.

 

A minha Luz ficou a brilhar com intensidade.

Ainda brilha.

 

A Beatriz entrou em Setembro para o Jardim-de-Infância.

Manter a Beatriz em casa durante três anos e meio foi uma decisão pouco pacífica, sem certezas absolutas, e muito exigente.

Foi preciso mobilizar muitos corações generosos.

Alentejanos e figueirenses.

 

Receei muito este primeiro contacto com a escola.

 

A escola pública era a minha primeira escolha, apesar de ter recebido excelentes referências da escola particular de Estremoz.

Mas já tinha tido uma péssima experiência na escola João de Deus.

Não encontrei nesse Jardim-Escola de referência uma única pessoa com a sensibilidade necessária para ver estrelas nos corações das crianças.

Confundiam rigor com falta de afecto.

Foi azar… talvez.

 

Quinta-feira é o único dia em que consigo ir buscar a Beatriz.

Grande sorriso da “professora mais bonita de Estremoz”, a professora Guida.

Aquele sorriso da Beatriz, com um pincel grande a inundar uma folha de azul.

-Espera um bocadinho, Mãe, estou a acabar uma pintura.

Última página do livro Beatriz

 

Luzinha interior a brilhar com mais força.

Tomei a decisão correta e a Beatriz está feliz.

Encontrei pelo caminho as pessoas certas.

Tive sorte… sem dúvida.

 

A imagem é do livro The Little Girl Who Lost Her Name.

Escrever o nome no site já é uma experiência, mas ficar com o livro tornou-se irresistível.

De David Cadjy Newby e Pedro Serapicos.