“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Desnorte

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Ser anónimo e estar longe dos que nos conhecem desde sempre pode ser libertador mas, a longo prazo, provoca-me um desnorte, que fico extremamente sensível a imagens que me abalam e transportam, como um raio, para esse vazio chamado saudade.

A minha prima apareceu-me assim.

 

Com o cheiro a tabaco, a pastilha elástica e a perfume.

E eu fiquei nesta saudade.

” [A saudade é] caracterizada por uma duplicidade contraditória:

é uma dor da ausência e um comprazimento da presença, pela memória.

É um estar em dois tempos e em dois sítios ao mesmo tempo, que também pode ser interpretado como uma recusa a escolher:

é um não querer assumir plenamente o presente e o não querer reconhecer o passado como pretérito. […]

é um sentimento complexo, mesclado, doce-amargo, pouco propício à acção, e não deve ter contribuído pouco para que a personalidade portuguesa apareça a observadores estrangeiros como desnorteante e paradoxal.

A saudade está ligada ao apego que se criou aos sítios, aos tempos e às pessoas que ficaram distantes.

E é uma característica do amor à portuguesa, que parece comprazer-se na distanciação.”

António José Saraiva, A Cultura em Portugal: Teoria e História

 

 

 

Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

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