“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Mistérios

José Saramago descodifica o mistério desta Primavera arrepiada, no livro O Ano da Morte de Ricardo Reis:

“Quem disser que a natureza é indiferente às dores e preocupações dos homens, não sabe de homens nem de natureza. Um desgosto, passageiro que seja, uma enxaqueca, ainda que das suportáveis, transtornam imediatamente o curso dos astros, perturbam a regularidade das marés, atrasam o nascimento da lua, e, sobretudo, põem em desalinho as correntes do ar, o sobe-e-desce das nuvens, basta que falte um só tostão aos escudos ajuntados para pagamento da letra em último dia, e logo os ventos se levantam, o céu abre-se em cataratas, é a natureza que toda se está compadecendo do aflito devedor.

Dirão os céticos, aqueles que fazem profissão de duvidar de tudo, mesmo sem provas contra ou a favor, que a proposição é indemonstrável, que uma andorinha, passando transviada, não fez a primavera, enganou-se na estação, e não reparam que doutra maneira não poderia ser entendido este contínuo mau tempo de há meses […]”.

 

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Imagem: La Petite Sardine

 


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Revestimento

No editorial da National Geographic de Abril, Susan Golbderg reconhece o passado da revista na reprodução de estereótipos:

“[…] até à década de 70, a National Geographic ignorava os negros que viviam nos Estados Unidos, raramente os reconhecendo para além de operários ou trabalhadores domésticos.

Ao mesmo tempo, apresentava nativos de outros lugares como exóticos, famosos e frequentemente desnudados, caçadores felizes, nobres selvagens e todo o tipo de estereótipos.”

O reconhecimento de um erro é sempre um acto de humildade notável, sobretudo vindo de uma revista que se retratou e tem agora como editora, pela primeira vez, uma mulher (e judia).

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Numa altura em que qualquer ideia ou facto, para ser válido, tem de ser cientificamente provado, li uma conclusão que devia ser injectada por via intravenosa a toda a população mundial.

“Quando os cientistas reconstituíram  o primeiro genoma humano completo, recolheram deliberadamente amostras de indivíduos que se auto-identificaram como pertencendo a raças diferentes.

Em Junho de 2000, quando os resultados foram anunciados, Craig Venter, pioneiro do sequenciamento de DNA, concluiu:

“O conceito de raça não tem fundamento genético ou científico”.

Nas últimas décadas, a investigação genética revelou duas verdades profundas sobre os seres humanos.

Em primeiro lugar, todos os seres humanos são parentes próximos. […]

Todos partilham a mesma colecção de genes, mas, à excepção dos gémeos idênticos, todos têm versões ligeiramente diferentes de alguns deles.

Estudos desta diversidade genética permitiram aos cientistas reconstruir uma espécie de árvore genealógica das populações humanas.

E esta revelou a segunda verdade profunda: de uma forma muito concreta, todas as pessoas hoje vivas são africanas.” (página 10, National Geographic, Abril 2018)

Esta evidência científica está consagrada na Constituição Portuguesa, mas tal facto só significa que se pretende uma sociedade melhor; não significa que estejamos especialmente empenhados em atingi-la ou que cumpramos a lei…

Nem significa, infelizmente, que os cidadãos já tenham, de facto, interiorizado o princípio subjacente à lei.

Não conheço os dados portugueses, mas nos Estados Unidos, os negros registam, por exemplo, maior mortalidade infantil e menor expectativa de vida do que os outros grupos: morrem mais do dobro de crianças negras do que, por exemplo, hispânicas, asiáticas ou brancas!

Entre nós, o racismo nem sempre é assumido, mas está presente no olhar desconfiado e até assustado que os brancos dirigem aos negros e, mais recentemente, aos muçulmanos.

Infelizmente, é uma desconfiança que reside na ignorância e no facto do nosso passado árabe e africano ter sido habilmente apagado da nossa História.

Por exemplo, os árabes viveram entre nós (na Península Ibérica) durante 800 anos. Achamos mesmo que só nos deixaram as palavras que começam por “al-” e sistemas de rega inovadores, como dizem os livros de História?

 

Imagem: IGNANT


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Conversar

Numa altura em que pouco se conversa; porque corremos loucamente; porque as redes sociais fingem que socializamos; porque somos individualistas e adoramos monologar cheios de certezas… andava com umas saudades loucas de uma boa conversa!

Agostinho da Silva disse, nas Conversas Vadias com o MEC (há 300 anos!), que uma conversa era sempre melhor do que um livro! Lembro-me de que, nessa entrevista, o jovem MEC enfureceu-se e o Agostinho da Silva termina a entrevista a dizer que o MEC é “mauista” num trocadilho com “maoísta”.

 

Ultimamente, tenho andado deliciada com o Curso de Cultura Geral, da Anabela Mota Ribeiro, agora numa pausa que espero que seja breve!

Uma das conversas de que mais gostei, da última temporada, teve como convidados: o gestor António Costa Pires; o sociólogo Rui Pena Pires e o ilustrador Pedro Vieira.

Apontei alguns pontos para reflexão, citados livremente dos intervenientes deste Curso:

1-A propósito da Ilíada, de Homero, o alicerce da literatura ocidental:

-Já na epopeia grega, há mais de 2000 anos, fica claro que, no final de uma guerra, não há vencedores nem vencidos;

-É evidente que o problema intemporal da Humanidade é a relação vida/morte.

-A vocação predadora do ser humano está presente nos clássicos; infelizmente, nós não aprendemos nada ao longo da História.

2-A propósito de Dostoiévski:

-Dostoiévski inventou o “homem derrotado pela vida”.

-Na verdade, o sentido último da vida é falhar cada vez melhor. O culto do êxito e do sucesso a todo o custo, de esmagar o outro, da competição desenfreada, destrói os próprios alicerces da civilização.

-Nós não olhamos para os que falham. Em Portugal, temos mais de dois milhões de pobres!

3-Ainda com Dostoiévski e Recordações da Casa dos Mortos:

-Na prisão, a cordialidade tácita que existe entre os homens desaparece.

-A selvajaria humana, o carácter predador da raça humana, a crueldade que está inscrita nos nossos genes vêm ao de cima; o núcleo do incomunicável (aquilo que não contamos mesmo a ninguém) transparece.

-Um regime totalitário descarrega toda a sua raiva nos presos políticos. Apaga-se a brasa da consciência humana, tal como já aparece descrito no livro Recordações da Casa dos Mortos.

Recordações da casa dos mortos

4-Referiu-se o conto “Encontro em Samarra”:

Novamente a relação vida/morte. Como escapar?

Havia um comerciante em Bagdade que mandou o seu servo comprar provisões ao mercado, e daí a pouco o servo voltou, pálido e trémulo, e disse: «Senhor, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher, no meio da multidão, e quando me voltei vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela olhou-me e fez um gesto ameaçador; por isso, empreste-me o seu cavalo, e sairei desta cidade, para escapar ao meu destino. Irei para Samarra, e aí a Morte não me encontrará». O comerciante emprestou-lhe o seu cavalo, o servo montou nele, enterrou-lhe as esporas nos flancos e partiu tão velozmente quanto o cavalo podia galopar. Então o comerciante foi ao mercado e viu-me, de pé, entre a multidão; aproximou-se de mim e disse: «Por que fizeste um gesto ameaçador ao meu servo quando o viste esta manhã?». «Não foi um gesto ameaçador», respondi, «foi apenas um sobressalto de surpresa. Fiquei espantada por vê-lo aqui, em Bagdade, pois eu tinha um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra». (todo copiado daqui!)

5-Falou-se de Norbert Elias e do futebol como um processo civilizacional!

-Um dos processos civilizacionais foi a a autocontenção de emoções. No entanto, o que possibilita a harmonia em sociedade tem um defeito: torna a vida do dia-a-dia uma chatice. O sociólogo alemão defendeu que o futebol consiste na busca da excitação que permite compensar, de forma controlada, este quotidiano aborrecido.

6-E viajou-se:

O Irão é um dos países mais estereotipados na civilização ocidental, mas é um dos países mais belos do mundo: tem 5000 anos de história.

Fiquei com vontade de ler A Conferência dos Pássaros.

a conferencia dos passaros

6– Por fim, o futuro e a esperança:

O ser humano tem de viver com mais decência e isso só se consegue com cultura, não num sentido restrito de definição de cultura e alta cultura, mas com produtos da mente humana que nos ajudem a controlar a força e a violência!

Este post é para ti, Teresa!

Eu fico a torcer por mais uma temporada de Curso de Cultura Geral!

Todos os episódios estão disponíveis aqui!

 

 


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Óbvio!

Há uma expressão muito usada na Figueira da Foz que até serve de chispe na nossa casa alentejana: o “obviamente”.

Usamo-la quando algo é tão evidente para nós que nos espanta que alguém coloque em causa a nossa evidência.

Penso, agora, que é uma expressão que pode reflectir a arrogância de quem pensa que as suas certezas são mais “certas” do que as dos outros…

No entanto, o que eu tenho verificado é que aquilo que é “óbvio” para mim não é, necessariamente, “óbvio” para o outro. Essa evidência faz parte do crescimento de todos nós, mas ultimamente tem-me frustrado e irritado, confesso.

Sobretudo quando se trata de questões em que estou absolutamente convencida de que tenho razão. Obviamente…

Três questões que me deixam extremamente perplexa:

1- Como é que o pai de uma menina não é imediatamente feminista?

É tão óbvio, não é?

Mas a maior parte dos homens com filhas não é feminista!

Não compreendo!

2- Como é que uma mulher europeia não se indigna com o facto de haver meninas pelo mundo que justificam o facto de sermos todas, em 2018, assumidamente feministas?

É tão óbvio, não é?

Lá por eu ter a sorte de viver numa sociedade que discute abertamente a igualdade de género, isso não significa que não me indigne com todas as formas de misoginia e hegemonia masculina que ainda se encontram no meu país, mas que pululam, de forma bem mais agressiva, em muitos outros países.

Obviamente, bastava haver uma menina no mundo a ver os seus direitos diminuídos por ter nascido mulher para eu ter a responsabilidade de ser feminista!

É óbvio, não é?

3- Ser Feminista é assumir que existe uma diferença entre homens e mulheres, mas não aceitar que haja uma hierarquia entre homens e mulheres.

1jhño[1]

Vale a pena ler este texto sobre a “Desigualdade de Género”, da Anabela Mota Ribeiro.

Portugal, Europa, sociedade ocidental em 2017: a desigualdade persiste, apesar das alterações significativas [relativamente ao Estado Novo]. Os salários não são os mesmos e as mulheres são desconsideradas, ainda que a igualdade esteja consagrada nos princípios constitucionais e as mudanças sejam abissais desde a instauração da democracia. ”

A realidade não acompanhou as leis, que são muito mais igualitárias do que a sua (não)-aplicação. Os homens aceitam e cultivam a desigualdade porque lhes convém!: ela favorece os que estão em posição privilegiada. Mesmo quando reconhecem que tal constitui uma injustiça. Muitas mulheres também não lutam por mais igualdade, por razões de hábito, culturais e de hegemonia masculina. Aquilo que Gramsci apontava na hegemonia das classes dominantes que fazia com que os seus valores fossem aceites e partilhados pelas classes não-dominantes. O que as mulheres deveriam fazer, que é exigir, pelo menos, a aplicação da lei, não o fazem ou por dependência física e/ou dependência psicológica, ou porque partilham os valores hegemónicos dos detentores do poder.”

Porque é que aceitamos, e perpetuamos, esta desigualdade?

“Temos todos maus instintos, maus impulsos. Um dos impulsos colectivos é discriminar contra quem podemos discriminar, proteger as nossas vantagens. É como se tivéssemos um recurso, resultado da malícia, que nos permite afirmar uma suposta supremacia. Há um egoísmo que está em todos e que se pode expressar de uma maneira muito fácil. A discriminação de género, como outras, não é inocente e tem uma profunda relação com outras discriminações; tem raiz num egoísmo puro e numa dinâmica de grupo. Mesmo que as pessoas acreditem que estão a fazer – só – uma discriminação cultural, de facto elas estão a perceber: é mais gente a concorrer pelas mesmas coisas que eu também quero. Como é que divido o mundo de modo a ficar do lado confortável da equação?”

 

 


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Mercearia

Ouvi na Antena 1 que o número de compras nos supermercados diminuiu relativamente ao ano anterior.

O moderador avançou com duas razões:

uma optimista – os portugueses passaram a almoçar mais vezes em restaurantes;

uma pessimista – há menos dinheiro e as famílias estão em contenção de gastos.

Gostava que a razão fosse mesmo a optimista e que os nossos restaurantes, por norma bons e baratos, voltassem a encher-se de sorrisos e conversas à hora das refeições.

Gostava que os nossos almoços voltassem a ser solarengos e com café na esplanada.

Gostava que regressássemos às lojas de bairro, a caminho de casa, para as nossas necessidades diárias.

Gostava que percebêssemos que todas as nossas transacções são actos políticos: escolher onde compramos e a quem entregamos o nosso dinheiro pode mudar o mundo ou, pelo menos, pode começar a mudança.

Este vídeo da Catarina Portas não é novidade, mas aponta a direção.

Se comprarmos a quem produz e vende em pequena escala, as probabilidades de obtermos um produto de qualidade aumenta significativamente.

Já para não falarmos da falta de humanidade que existe nas operações com os grandes retalhistas e da pressão que exercem sobre os produtores e distribuidores; assim como da sua capacidade aniquiladora dos mais pequenos, quer sejam produtores, distribuidores ou outros retalhistas.

Pessoalmente, cada vez gosto mais de comprar nos mercados e pequenas mercearias.

queijos Mercado de Estremoz

Para além da qualidade, do serviço ter uma cara, de se estabelecer uma relação de confiança e de cumplicidade, surpreendo-me muitas vezes com o preço dos produtos que, pensava eu, só podiam ser mais baratos nas grande superfícies.

Maria e Beatriz no mercado

Todos os sábados, vou ao mercado de Estremoz e à mercearia da D.Anabela na minha Praça.

E, sinceramente, não tenho saudades de hipermercados!

Mercado de Estremoz 2016

 


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Vocação

Vivemos numa época com muitos defeitos, mas com aspectos positivos: um deles é que nunca se questionou tanto, nunca se problematizou tanto acerca de modelos sociais vigentes e até há poucas décadas inquestionáveis.

Em jeito de provocação, registei algumas questões levantadas por Leadro Karnal, historiador e professor brasileiro que diz frases como estas neste vídeo.

dining area andy singer

1- O casamento é uma vocação muito específica, tal como tocar oboé.

2-Há sistemas que convivem bem com a traição, como a sociedade francesa.

3-A traição depende de uma gramática do casal e a sua definição é feita pelo casal.

4-Um casal pode ser feliz de muitas formas e infeliz de muitas formas.

5-Eu conheço dois casais muito felizes.

6-O casamento é uma proposta feminina, o noivo é um convidado especial.

7- 70% dos divórcios são da iniciativa das mulheres, porque são elas que têm um projecto de felicidade e, por isso, são elas que propõem o final do casamento, porque são elas que querem mais da relação.

8-As mulheres trabalham as emoções, desde a infância, de forma mais equilibrada do que os homens: choram sem medo e trocam afetos com outras mulheres.

Qualquer uma destas frases seria um excelente mote para uma longa discussão.

Imagem de Andy C Singer.