“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Óbvio!

4 comentários

Há uma expressão muito usada na Figueira da Foz que até serve de chispe na nossa casa alentejana: o “obviamente”.

Usamo-la quando algo é tão evidente para nós que nos espanta que alguém coloque em causa a nossa evidência.

Penso, agora, que é uma expressão que pode reflectir a arrogância de quem pensa que as suas certezas são mais “certas” do que as dos outros…

No entanto, o que eu tenho verificado é que aquilo que é “óbvio” para mim não é, necessariamente, “óbvio” para o outro. Essa evidência faz parte do crescimento de todos nós, mas ultimamente tem-me frustrado e irritado, confesso.

Sobretudo quando se trata de questões em que estou absolutamente convencida de que tenho razão. Obviamente…

Três questões que me deixam extremamente perplexa:

1- Como é que o pai de uma menina não é imediatamente feminista?

É tão óbvio, não é?

Mas a maior parte dos homens com filhas não é feminista!

Não compreendo!

2- Como é que uma mulher europeia não se indigna com o facto de haver meninas pelo mundo que justificam o facto de sermos todas, em 2018, assumidamente feministas?

É tão óbvio, não é?

Lá por eu ter a sorte de viver numa sociedade que discute abertamente a igualdade de género, isso não significa que não me indigne com todas as formas de misoginia e hegemonia masculina que ainda se encontram no meu país, mas que pululam, de forma bem mais agressiva, em muitos outros países.

Obviamente, bastava haver uma menina no mundo a ver os seus direitos diminuídos por ter nascido mulher para eu ter a responsabilidade de ser feminista!

É óbvio, não é?

3- Ser Feminista é assumir que existe uma diferença entre homens e mulheres, mas não aceitar que haja uma hierarquia entre homens e mulheres.

1jhño[1]

Vale a pena ler este texto sobre a “Desigualdade de Género”, da Anabela Mota Ribeiro.

Portugal, Europa, sociedade ocidental em 2017: a desigualdade persiste, apesar das alterações significativas [relativamente ao Estado Novo]. Os salários não são os mesmos e as mulheres são desconsideradas, ainda que a igualdade esteja consagrada nos princípios constitucionais e as mudanças sejam abissais desde a instauração da democracia. ”

A realidade não acompanhou as leis, que são muito mais igualitárias do que a sua (não)-aplicação. Os homens aceitam e cultivam a desigualdade porque lhes convém!: ela favorece os que estão em posição privilegiada. Mesmo quando reconhecem que tal constitui uma injustiça. Muitas mulheres também não lutam por mais igualdade, por razões de hábito, culturais e de hegemonia masculina. Aquilo que Gramsci apontava na hegemonia das classes dominantes que fazia com que os seus valores fossem aceites e partilhados pelas classes não-dominantes. O que as mulheres deveriam fazer, que é exigir, pelo menos, a aplicação da lei, não o fazem ou por dependência física e/ou dependência psicológica, ou porque partilham os valores hegemónicos dos detentores do poder.”

Porque é que aceitamos, e perpetuamos, esta desigualdade?

“Temos todos maus instintos, maus impulsos. Um dos impulsos colectivos é discriminar contra quem podemos discriminar, proteger as nossas vantagens. É como se tivéssemos um recurso, resultado da malícia, que nos permite afirmar uma suposta supremacia. Há um egoísmo que está em todos e que se pode expressar de uma maneira muito fácil. A discriminação de género, como outras, não é inocente e tem uma profunda relação com outras discriminações; tem raiz num egoísmo puro e numa dinâmica de grupo. Mesmo que as pessoas acreditem que estão a fazer – só – uma discriminação cultural, de facto elas estão a perceber: é mais gente a concorrer pelas mesmas coisas que eu também quero. Como é que divido o mundo de modo a ficar do lado confortável da equação?”

 

 

Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

4 thoughts on “Óbvio!

  1. Nossa, preciso pensar porque movimentou um mundo inteiro cá dentro dessa que vos escreve. O Brasil atual não discute ideias e o óbvio por aqui é a coisa menos óbvia que possa imaginar. Uma gente conservadora paira no ar e tem uma força abismal.
    Eu nunca disse que sou feminista, mas eu sou mulher e não aceito tantas coisas. Todos os dias algo acontece e eu preciso respirar fundo ou vociferar com as sombras. Coisa de homem, justifica um. Aqui não é lugar para mulher, diz o outro. Uma mulher sozinha na rua a essa hora?, questiona o motorista do aplicativo. Você não se comporta como uma cama. Ou ainda, a beleza da primeira-dama compensa não haver mulheres no atual governo. Eu faço chá e escrevo desaforos. Mas muitas de nós, na versão rupiniquim acham tudo isso óbvio. Eu bufo.
    Ainda a pensar sobre seu post. E cedo.

    Bacio

    • Oh, Lunna, como eu percebo! Há muitas situações quotidianas que nos tiram do sério! Alguns desses exemplos são tão recorrentes que aprendemos a encolher os ombros; mas estão errados! Há todo um caminho a percorrer e juntas será mais fácil!
      Também eu “bufo” 🙂
      Bacio!

  2. Ser Feminista é assumir que existe uma diferença entre homens e mulheres, mas não aceitar que haja uma hierarquia entre homens e mulheres.

    (1) Se não há hierarquia, então porque é que escreve por duas vezes “homens e mulheres” e nunca escreve “mulheres e homens”? Porque é que põe sempre os homens à frente das mulheres?

    (2) Não é preciso assumir que existe uma diferença entre homens e mulheres. De facto, muitas diferenças são mais aparentes que reais, mais culturais que inatas. Muitos seres humanos, se vestidos de forma indistinta, não se percebe se são homens ou mulheres. Hoje em dia, ao contrário do que acontecia quando eu era jovem, pretende-se enfatizar as diferenças (não há roupa unissexo à venda nas lojas, as mulheres pintam as unhas, deixa-se crescer o cabelo às meninas desde pequenas, etc). Mas não tem que ser assim.

    • Olá, Luís!
      Obrigada pelo comentário.
      Gostei da análise que fez a uma frase “óbvia”.
      Reitero-a, todavia: considero que há diferenças entre homens e mulheres ou entre mulheres e homens (se preferir), embora concorde, sem qualquer dúvida, que são em grande parte culturais. Aliás, no meu ponto de vista, há milhões de géneros no mundo e não apenas dois, o que potencia a quantidade de diferenças; o que pretendia salientar é que não deve o género hierarquizar-nos, limitar-nos ou reduzir-nos.
      (Como provocação, posso dizer-lhe que, na minha cabeça, os homens só estão à frente das mulheres, na gramática!)

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