“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Revestimento

4 comentários

No editorial da National Geographic de Abril, Susan Golbderg reconhece o passado da revista na reprodução de estereótipos:

“[…] até à década de 70, a National Geographic ignorava os negros que viviam nos Estados Unidos, raramente os reconhecendo para além de operários ou trabalhadores domésticos.

Ao mesmo tempo, apresentava nativos de outros lugares como exóticos, famosos e frequentemente desnudados, caçadores felizes, nobres selvagens e todo o tipo de estereótipos.”

O reconhecimento de um erro é sempre um acto de humildade notável, sobretudo vindo de uma revista que se retratou e tem agora como editora, pela primeira vez, uma mulher (e judia).

ignant-photography-daniel-dorsa-racismo

Numa altura em que qualquer ideia ou facto, para ser válido, tem de ser cientificamente provado, li uma conclusão que devia ser injectada por via intravenosa a toda a população mundial.

“Quando os cientistas reconstituíram  o primeiro genoma humano completo, recolheram deliberadamente amostras de indivíduos que se auto-identificaram como pertencendo a raças diferentes.

Em Junho de 2000, quando os resultados foram anunciados, Craig Venter, pioneiro do sequenciamento de DNA, concluiu:

“O conceito de raça não tem fundamento genético ou científico”.

Nas últimas décadas, a investigação genética revelou duas verdades profundas sobre os seres humanos.

Em primeiro lugar, todos os seres humanos são parentes próximos. […]

Todos partilham a mesma colecção de genes, mas, à excepção dos gémeos idênticos, todos têm versões ligeiramente diferentes de alguns deles.

Estudos desta diversidade genética permitiram aos cientistas reconstruir uma espécie de árvore genealógica das populações humanas.

E esta revelou a segunda verdade profunda: de uma forma muito concreta, todas as pessoas hoje vivas são africanas.” (página 10, National Geographic, Abril 2018)

Esta evidência científica está consagrada na Constituição Portuguesa, mas tal facto só significa que se pretende uma sociedade melhor; não significa que estejamos especialmente empenhados em atingi-la ou que cumpramos a lei…

Nem significa, infelizmente, que os cidadãos já tenham, de facto, interiorizado o princípio subjacente à lei.

Não conheço os dados portugueses, mas nos Estados Unidos, os negros registam, por exemplo, maior mortalidade infantil e menor expectativa de vida do que os outros grupos: morrem mais do dobro de crianças negras do que, por exemplo, hispânicas, asiáticas ou brancas!

Entre nós, o racismo nem sempre é assumido, mas está presente no olhar desconfiado e até assustado que os brancos dirigem aos negros e, mais recentemente, aos muçulmanos.

Infelizmente, é uma desconfiança que reside na ignorância e no facto do nosso passado árabe e africano ter sido habilmente apagado da nossa História.

Por exemplo, os árabes viveram entre nós (na Península Ibérica) durante 800 anos. Achamos mesmo que só nos deixaram as palavras que começam por “al-” e sistemas de rega inovadores, como dizem os livros de História?

 

Imagem: IGNANT

Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

4 thoughts on “Revestimento

  1. Olá,
    Os estereótipos estão intrínsecos há muito tempo. Hoje, 29, em Liége, outro atentado.
    Uma árvore não faz a floresta, mas não a dissocia da mesma.

    João Moreira

    • Olá, João:
      É uma bela frase a que escreveste, mas não sei se concordo com ela; não estou a ser irónica, tenho dúvidas, aliás, muitas!
      Por razões familiares e profissionais, sou próxima de alguns muçulmanos: associo-os a duas palavras – paz e espiritualidade; portanto, dissocio-os totalmente das árvores ruins!
      Como te disse, sem certezas mas, por todos os motivos, com pesar!
      Ana

      • Olá, Ana:
        O “racismo” não se manifesta, apenas, pela coloração da pele. Da mesma forma que a tatuagem uniu o prisioneiro ao seu destino e as grilhetas, o escravo à sua condição, a evocação religiosa separou mais que uniu (ou, se calhar, extremou mais que aproximou).

        João Moreira

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