“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Pele

Pele

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira

Vogue Portugal Abril 2018

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…
                                                                                                                                                                  .
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…
                                                                                                                                                                  .
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…
                                                                                                                                                            .
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
                                                                                                                                                            .
David Mourão-Ferreira

 


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Diferenças

As diferenças enriquecem-nos, mas habitualmente são difíceis de aceitar.

Ainda mais difíceis de tolerar em meios pequenos e por pessoas que, independentemente de serem mais velhas ou mais novas, pouco aprenderam com a vida.

Tenho reparado, com tristeza, que esta constatação é válida em todas as escolhas individuais que não sigam o já convencionado.

Há também uma enorme confusão entre o conceito de feminismo (que eu defendo) e a ideia de que somos todos iguais.

Felizmente, não somos todos iguais!

Feminismo não significa que apaguemos as diferenças que existem entre os milhões de géneros que habitam na Terra.

Somos bonitos como somos!

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Sete bilhões de corpos e almas.

Seremos todos, todavia, mais felizes, quando todos realçarmos as nossas diferenças e assumirmos o nosso género tão individual, sem querer imitar ninguém.

Martha_by_Kimmo_Metsaranta_IGNANT

Ora como a nossa individualidade se constrói também através do que vestimos, eu já assumi que adoro vestidos.

ignant-john-clayton-lee

Muito fluidos, de algodão ou linho.

neutral dress

Cores neutras.

vestidos 2018.jpg

Esta simplicidade talvez coincida com um momento da vida em que apenas quero proteger-me, mas não tentar ofuscar (-me) com folhos e flores.

Ou talvez este discurso seja uma grande conversa para justificar a fraqueza de ir comprar mais um vestido novo!

Hamji bohemian dress 2018

Imagens: IGNANT,  Bohemian Diesel e  HWTF 

christinealcalay vestido cobre

christinealcalay vestido de linho


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Lista

No Curso de Cultura Geral de 8 de Abril, Anabela Mota Ribeiro fez o seguinte prólogo:

“Nos últimos anos de vida, o escritor Scott Fitzgerald viveu com uma jornalista, jovem, para quem compôs um curso de cultura geral, onde estavam as obras que ele achava que ela devia conhecer. Ela, Sheilah Graham, condensou a experiência no livro College of One. Foi um curso para um, para uma, e foi uma tentativa de fixar um cânone.

A ideia é desafiadora: o que deve constar numa lista assim? Quais são as obras a partir das quais podemos dizer que uma pessoa é culta?

Outra coisa é pensar nas referências particulares, nas obras, encontros, livros, experiências que formam cada indivíduo. Isso implica um entendimento de cultura mais abrangente e menos circunscrito à erudição.

É daqui que parto para este programa. Muitas vezes há uma coincidência entre o Aristóteles ou a Capela Sistina, entre os indisputáveis do cânone, e os nomes apontados nas listas particulares. Muitas, muitas vezes, não. E as obras apontadas são, sobretudo, peças que tiveram um efeito detonador, um encontro que possibilitou uma expansão do mundo.”

Curso de Cultura Geral RTP2

Como adoro listas, uma vez que organizam e sintetizam mentes despenteadas como a minha, decidi também fazer a minha lista de 10 peças que tiveram um “efeito detonador”:

1-Contos tradicionais da Colecção Formiguinha e contos do Eça, ouvidos pela voz da minha prima Teresa, quando eu ainda não sabia ler. Foi o meu primeiro contacto com a literatura, ainda antes de ter consciência do impacto que o Eça (e a voz da minha prima!) teria em mim. De todas as vezes que ouvia “A Aia”, eu sofria e gritava para dentro: Tirem o punhal da mão da Aia! – 1981.

2-As tardes, no tempo da escola primária, com a minha avó. A Senhora Rosa era costureira e, todos os dias, as senhoras da aldeia passavam o dia lá em casa, na sala de costura. Contavam muitas histórias que eu ouvia em silêncio. De vez em quando, um acerto de um alinhavo ou uma prova obrigava à interrupção do diálogo e eu tombava abruptamente na realidade. Descobri, assim, o carácter encantatório da narrativa. – 1983

3-Ouvir, pela mão do meu irmão e das inovadoras cassetes de vídeo, músicos como Pink Floyd, Super Trump, Dire Straits, Queen, David Bowie e conhecer, só através deles, um mundo tão diferente da Figueira da Foz, na altura uma cidade demasiado pacata e pitoresca. -1988

4-Estudar Latim. Foi como se aprendesse a ler outra vez: nunca mais deixei de fazer ligações e de reflectir sobre a sua origem, significado e significante. – 1992

5-Descobrir o cinema e conhecer outros mundos: “Pulp Fiction” foi o meu primeiro: “onde é que eu estive nos últimos 100 minutos?”. “A Insustentável Leveza do Ser”. Depois, “Tudo sobre a minha mãe”, de Álmodovar e “Disponível para amar”, de Wong Kar-wai: um corte com tudo o que já tinha visto no ecrã e na vida real; perceber que podia ir mais além. 1995

Curso de Cultura Geral RTP2 Anabela Mota Ribeiro

6- Estudar na FLUC e apaixonar-me por quase todos os professores que tive, apenas porque eles sabiam tanto e o conhecimento seduzia-me mais do que nunca: Carlos Reis, Rui Bebiano, Maria Aparecida Ribeiro, Ana Paula Arnaut e Pires Laranjeira, entre outros. Uma nova percepção do que é a literatura escrita em português: Saramago, Mia Couto e Pepetela: A Gloriosa Família, Luís Bernardo Honwana, As mãos dos pretos.  Um arrebatamento por João Grosso, no teatro Paulo Quintela, na FLUC.- 1996

7-Perceber que a poesia também se canta, e muito, no Brasil. Ficar hipnotizada com as palavras de Chico Buarque, Tom Jobim, Elis Regina, Gilberto Gil, Bethânia, Caetano, Adriana Calcanhoto, Marisa Monte, Eliane Elias, Rosa Passos, Gal Costa, … Ficar obcecada com a forma como Chico Buarque consegue cantar a palavra “escafandrista”. Essa obsessão continua. – 1998

8-Perceber que a música existe sem palavras e passar a ter férias musicais com a outra metade do meu ♥. Depois de ver/ouvir Richard Bona e Bobby Macferry, veio o fascínio pelo jazz vocal, sobretudo feminino: de Esperanza Espalding, Melody Gardot a Nina Simone.  2004.

9-Conhecer outros autores e aprender que literatura é o que nos ensinam na Faculdade, mas tanto mais! Esse percurso temos de fazê-lo sozinho, mas são preciosas as ferramentas da formação de base: autores russos, americanos, franceses e portugueses. Afonso Cruz aparece, na prosa, e continua o efeito encantatório da infância. Descoberta tardia da poesia: David Mourão-Ferreira, Sophia, Eugénio de Andrade, Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, Nuno Júdice, Jorge de Sena, …

10-Ser mãe: a experiência mais difícil mas mais arrebatadora da minha vida: ir ao fundo de mim, ser posta à prova, aprender, descentrar e Amar. Misturou-se, entretanto, com a ilustração, a fantasia e a realidade: Planeta Tangerina, Bruaá, Pato Lógico, Orpheu Negro e OQO, e com a animação de Miyazaki.