“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Superar

Este é o meu desafio para 2019.

Fica o voto para que nos inspiremos no discurso de Mia Couto nas Conferências do Estoril de 2011.

MURAR O MEDO

“O medo foi um dos meus primeiros mestres.

Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios.

Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano.

Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória.

A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro.

Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias.

O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente limiar de emergência.

Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas incómodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento?

Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar?

Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exactamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi?

Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra.

Essa arma chama-se fome. Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção pequena do que se gasta em armamento.

A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Num planeta que imaginamos como uma única aldeia, a realidade mais globalizada é a miséria.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida.

Não há aqui nenhum laivo de feminismo, nenhum paternalismo dos que dizem cuidar dos chamados grupos vulneráveis. A verdade é que sobre metade das pessoas que estão nesta sala pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo.

Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos.

Mas não há hoje muro que separe os que têm medo dos que não têm medo.

Sob as mesmas nuvens cinzentas aprendemos a reduzir os sonhos e esperanças para um tamanho aceitável.

Acerca dessa histeria colectiva, Eduardo Galeano escreveu o seguinte:

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.”


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Netos

Antero de Quental foi, até ao último fôlego (suicidou-se em 1891), um homem desassossegado:

muito instável, ora entusiasmado, ora descrente, em relação aos outros, a ele próprio, a Deus. Nega-O, na Sua versão católica, mas consegue escrever poemas plenos da religiosidade que (pessoalmente) me interessa.

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A um Crucifixo

Não se perdeu teu sangue generoso,
Nem padeceste em vão, quem quer que foste,
Plebeu antigo, que amarrado ao poste
Morreste como vil e faccioso.

.

Desse sangue maldito e ignominioso
Surgiu armada uma invencível hoste…
Paz aos homens e guerra aos deuses! ‑ pôs-te
Em vão sobre um altar o vulgo ocioso…

Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti começa, um homem novo:
De ti data essa trágica linhagem.

Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,
Lembraremos, herdeiros desse povo,
Que entre nossos avós se conta Cristo.

FELIZ NATAL!


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Bolão de iogurte

Está frio e apetece uma boa fatia de bolo.

Este é um bolo sem presunções, muito fácil de fazer, um clássico em qualquer cozinha.

Adulterei a receita do famoso bolo de iogurte e ficou assim.

Bolo de iogurte transformado

Para um bolo de tamanho normal, é só fazer metade da receita.

2 iogurtes naturais

3 copos de iogurte de farinha de trigo + 1 copo de farelo de aveia + 2 copo de Maizena

4 copos de açúcar mascavado

2 copos de óleo Becel

8 ovos

1 colher de chá cheia de fermento

1- Separar as gemas das claras.

2- Bater as claras.

3- Misturar as gemas com o açúcar e todos os outros ingredientes, deixando a farinha para último.

4- Incorporar as claras em castelo, com muito cuidado.

5- Levar ao forno durante uma hora a 180ºC.

Ajuda a resistir ao frio, com chá ou cacau quente!

Está no limite do mais ou menos saudável e saboroso.

 


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Joy

O que dizer a um filho que sofre por amor?

“_ Lembra-te de que eu estou aqui.

Neste momento, podes não querer sentir nada.

Talvez queiras nunca ter sentido nada.

Talvez não seja comigo que queiras falar sobre estas coisas, mas é óbvio que sentiste alguma coisa.

Vocês tiveram uma amizade bela, mais do que uma amizade.

Eu invejo-te.

A maioria dos pais, no meu lugar, desejaria que o sentimento esmorecesse, para que o filho não sofresse mais, mas eu não sou esse pai.

Destruímos tanto de nós para ultrapassarmos depressa a dor que chegamos aos trinta anos e estamos totalmente esgotados.

De tal forma que temos cada vez menos para dar em cada relação que encetamos.

Mas tentar não sentir nada, para não sentir nada [de doloroso]… que desperdício!

Fui longe demais, filho?

Vou dizer mais uma coisa.

A dor vai aliviar.

Eu posso ter chegado perto, mas nunca tive o que vocês tiveram. Houve sempre algo que me reteve e me impossibilitou.

Tu é que sabes como queres viver a tua vida, mas lembra-te: só recebemos uma vez um corpo e um coração.

Quando damos por nós já não sentimos o coração.

Quanto ao corpo, chega um momento em que já ninguém olha para ele e muito menos deseja aproximar-se.

Neste momento, lamentas, sentes dor. Não a mates. É com ela que está o prazer [joy] que sentiste.”

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Este monólogo do actor Michael Stuhlbarg pertence ao filme “Chama-me pelo teu nome” de Luca Guadagnino.

Um filme sobre o primeiro amor, pleno de sensualidade, intensidade, cheiros, sabores, brisas, risos, brilhos e sombras, texturas, sussurros e arrepios… tal como na primeira paixão.

Um monólogo para interiorizar, no caso de eu ter a sorte de ser confidente do primeiro amor da minha filha.

 


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Os piores

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Tenho uma inveja danada dos que ainda acreditam.

A realidade, tal como eu a vejo, por José Miguel Silva.

-Vingar na vida partidária?

-“Só os piores conseguem […]”

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Feios, porcos e maus – Ettore Scola (1976)

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos – tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

(de “Movimentos no Escuro”)

Fotografias: IGNANT