“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Uma utopia realizada

Na senda da utopia, li a tese de Olga Maria de Azevedo Almeida, Utopias Realizadas acerca de dois homens que concretizaram as suas utopias sociais: Robert Owen, no País de Gales, e José Ferreira Pinto Basto, em Portugal.

Foram utopias “paternalistas”, mas provaram que é possível concretizar utopias e melhorar substancialmente a vida de uma comunidade.

Uma utopia paternalista parte de um indivíduo “benevolente e exterior” ao grupo (social ou profissional) que idealiza uma forma de melhorar a vida de uma comunidade que considera infeliz. “O termo paternalista não tem de ser pejorativo, uma vez que o consentimento para estas utopias existirem é essencial”.

Na verdade, no contexto do século XIX, não sei se seria possível criar uma utopia mais igualitária…

Aliás, será possível, em qualquer altura da história da humanidade realizar uma utopia igualitária e universal?

Talvez a redação da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, em 1948, seja o mais próximo que conseguimos estar dessa ideia.

Precisamente devido a essa consciência da nossa impotência, fiquei tão impressionada com estes dois utopistas, Robert Owen e José Ferreira Pinto Basto.

Robert-Owen-capa-livro-da-sua-vida-por-Agostinho-da-Silva

Em que contexto agiu Robert Owen?

Em plena Revolução Industrial, no séc. XIX, quando surgiu uma nova classe social, no Reino Unido, o proletariado.

Constituída por trabalhadores fabris e com baixo nível de vida, esta classe transformou-se num problema social: ignorância, trabalho infantil, miséria, alcoolismo, falta de higiene e doenças formaram um cocktail de revolta social difícil de resolver.

Foi neste cenário que Robert Owen surgiu com ideias que “viriam a ser apelidadas de socialismo utópico (proporcionando o mote a Karl Marx e Engels nos seus estudos fundadores de uma nova visão sobre o mundo, marcado por diferentes relações de trabalho)”.

Em 1800, Owen tem a oportunidade de gerir a unidade industrial mais famosa da década (que pertencia ao sogro), New Lanark. Robert Owen pretendia produzir, naquela comunidade fabril,  “um regime humanitário e gerar maior produtividade, bem como maior lucro que, teoricamente, todos podiam partilhar”.

Conseguiu?

Em parte.

A verdade é que, em New Lanark, havia assistência médica, crédito por conta do salário seguinte, medidas de combate à dependência do álcool (sem castigos), medidas de higiene nas habitações dos trabalhadores, atividades desportivas e culturais para os trabalhadores, refeitórios públicos e investiu-se na educação: era gratuita para as crianças até aos dez anos (e havia aulas à noite, após os dez anos, que era a idade em que começavam a trabalhar na fábrica), infantários, tutorias dos mais velhos e era proibido, sob qualquer pretexto, bater nas crianças.

Parece pouco aos nossos olhos, mas se recordarmos que, no século XIX, dois terços das crianças eram totalmente analfabetas, talvez tenhamos outro olhar sobre esta comunidade.

Robert Owen tentou expandir a sua utopia social e sonhava com muitas outras aldeias (para além de New Lanark) de 500 a 1500 habitantes.

Propagandeou o modelo de New Lanark como um exemplo a seguir, pois apresentava soluções para uma gestão lucrativa e para a prevenção de situações de insustentabilidade social. Impelia-o  “a necessidade de corrigir o caminho da ganância desmesurada provocada pelos lucros do período industrial, de forma a atingir alguma justiça social”.

Incrivelmente (ou não!), mesmo com provas dadas no terreno, o modelo de aldeia de Owen foi rejeitado pelo clero e pelos políticos. Consideravam que este modelo proporcionaria uma vida tão boa aos pobres que iria levá-los a recusar trabalho para se dedicarem ao ócio proporcionado pelos confortos considerados excessivos para as classes trabalhadoras. Owen começou a ser visto, pelas classes dirigentes, como um agitador social.

No extremo oposto, havia também quem acusasse Owen de confundir educação com doutrinação e de se dirigir aos trabalhadores em tom demasiado paternalista.

Pessoalmente, impressionou-me o facto deste homem ter concretizado, com sucesso e entusiasmo por parte dos visados, a sua utopia e ter melhorado, sem dúvida, as condições de vida de muitas famílias.

Neste momento da minha vida, considero incrível como há/houve seres humanos maduros e com formação que não perderam a fé na humanidade e continuaram a acreditar na possibilidade do mundo vir a ser um sítio melhor.

Tanto Owen, como os filósofos Fourier e Saint-Simon, socialistas utópicos, foram pioneiros na criação de um novo tipo de sociedade e acreditaram poder resolver problemas do mundo (com os quais ainda hoje nos deparamos!), através da aplicação dos seus modelos a nível mundial.

Estes homens deixaram-nos, igualmente, heranças não só no campo das ideias;

concretamente, foi graças a eles que ficou delineado o modelo urbano que viria a surgir como socialismo utópico e foi, assim, que se desenharam cidades “cujos edifícios deviam satisfazer o interesse público, dando ênfase às questões estéticas, por se acreditar que cidades bonitas produziriam bons cidadãos e, por consequência, sociedades mais perfeitas”! Não podia estar mais de acordo com esta ideia!

Em Portugal, um dos precursores do socialismo utópico, Francisco Solano Constâncio, conheceu as ideias de Robert Owen e, quando regressou a Lisboa, em 1799  (onde exerceu Medicina até 1807) foi responsável pela introdução e propagação da vacinação no nosso país.

A tese de Olga Maria de Azevedo Almeida está aqui e lê-se num fôlego de esperança no Mundo. Todas as citações deste post pertencem a esta obra.

Em breve, escreverei acerca do nosso utópico José Ferreira Pinto Basto.

A imagem é do livro que vou ler de seguida.


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Consertos

O início do ano é uma excelente altura para levar a cabo os pequenos consertos domésticos: um botão descosido, um quadro que nunca foi pendurado, um bule partido ou… a porta do coração.

The Passing Train Marianne Stokes

Consertar a porta de um coração

Pode um carpinteiro consertar a porta de um coração? Não é pergunta que se faça, sobretudo num texto que pretende fingir-se poema; mas é nele que poderia ser encontrada uma resposta para a perplexidade dos sentimentos, anteriormente tímidos e recolhidos, que olham agora o escancarado exterior e tentam reconhecer o espaço aberto, a vegetação luxuriante e solar no imo da qual ainda receiam aventurar-se.

Egito Gonçalves, O Mapa do Tesouro

O quadro é de Marianne Stokes, austríaca, 1855–1927: uma mulher com uma vida incrível (em qualquer época), cheia de viagens, arte, amor e amigos.

 


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Utopia

A maior miséria do Homem é perder a capacidade de sonhar.

Quando caminharmos, ou alienados ou cépticos e amargos pelo mundo, aí sim, estaremos vencidos.

Dou por mim, muitas vezes, a ter de resgatar essa ideia tal é a amargura que me assola quando ouço as notícias.

Esqueço-me de que é a utopia, essa que sempre nos fugirá, a responsável por nos fazer avançar e reavivar o fogo humano.

A solução passa por treinar o olhar para vermos alternativas e, assim, abrirmos janelas na nossa vida .

Uma forma de treinar o olhar e de recuperar a esperança é através da arte: a sublimação do humano.

Ouvir Eduardo Galeano tem o mesmo efeito.

“Sou um apaixonado pela realidade, mas creio que a a realidade não é só real nas horas em que se está acordado, mas a realidade também é real quando se sonha; também o sonho é parte da realidade. E, nesse sentido, acredito que quando alguém escreve para resgatar as vozes não escutadas e tudo o que não é visível, mas está vivo, anuncia outro mundo possível. Resgatar isso é como um ato de transmissão de energia, de energia de beleza, de energia de amor, de energia solidária e também de energia de denúncia de combate.

Se há outro mundo possível, esse mundo possível está dentro da barriga deste, e temos de ajudá-lo a que nasça. Esse parto não vai ser fácil e para isso a energia da indignação é fundamental. [Temos de começar por] Não aceitar a realidade como a única realidade possível porque cada realidade contém muitas outras dentro dela.

É como se o mundo estivesse grávido de outros pequenos mundos bastante melhores do que este. Há que ajudá-los a que nasçam.”

Para que serve a utopia?

“Para reflorestar os desertos do mundo e os desertos da alma!”


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Batatas

2019 começa com uns quilos espalhados pelo corpo;

quilos que vieram agarradinhos ao “estar” à volta da mesa, a horas a lagartar na esplanada e à lareira, ao mar, ao amor e à amizade.

Volta e Meia Restaurante

Ainda de barriga muito cheia de pratos feitos com amor, acabei de ler esta crónica de Ricardo Araújo Pereira, escrita para a Folha de S.Paulo (em Português do Brasil), acerca da importância das batatas fritas moles na nossa vida.

Amor e Batatas

“Os poetas têm falado muito sobre amor, pouco sobre batatas, e nada sobre a relação entre o amor e as batatas. É muito triste que tenha de ser eu a preencher as lacunas que a grande literatura vai deixando.

Talvez o problema seja meu: na minha vida, o amor manifestou-se menos sob a forma de grandes gestos e mais sob a forma de batatas. Os poetas cantam beijos loucos, gritos roucos, lágrimas, ânsias, despedidas, traições, ausências – mas às batatas não dedicam nem um epigrama.

É o seguinte: quando eu era pequeno, a minha avó fazia o almoço muito antes da hora, para que nada faltasse. Ela não tinha uma inclinação natural para beijar ou abraçar, mas fazia outras coisas.

Quando o ônibus do colégio me vinha buscar ela ficava a olhar, à janela, até eu dar a curva. E à tarde, quando o ônibus me trazia, ela já estava na mesma janela, à espera.

Eu tinha seis ou sete anos e ficava com a sensação de que ela ficara ali o dia todo, com a vida suspensa. Hoje sou adulto e a razão diz-me que não era assim – mas o coração continua a não ter a certeza.

No fim de semana, muito antes da hora do almoço, ela fritava batatas, punha num prato, e depois cobria com a tampa de uma panela. O vapor condensava-se no interior da tampa e depois a umidade chovia sobre as batatas. Por isso, as batatas ficavam moles.

Na casa da minha avó, nunca comi batatas que não fossem moles. Quando hoje me põem no prato batatas estaladiças eu penso: essa pessoa sabe fritar batatas, mas ela não me ama. Não fez as batatas com aquela antecedência. Arriscou que as batatas não estivessem prontas quando eu quisesse almoçar.

Batatas estaladiças, fica o leitor avisado, são cruéis. Têm arestas aguçadas que ferem o céu da boca, e estão muito conscientes do seu próprio mérito, reluzentes de óleo. As batatas moles, tubérculos humildes e meigos, suportam com paciência a aflição amorosa que as tornou moles, e a sua indolência morna tranquiliza quem estiver nervoso.

Penso muitas vezes naquele momento, no fim do “Cidadão Kane”, em que ele, mesmo antes de morrer, diz “Rosebud”, o nome de um trenó que tinha quando era criança. Eu, muito provavelmente, direi: “batatas moles”.”

Meia Volta

As fotografias são do restaurante Volta & Meia, na Figueira da Foz, onde gosto sempre de ficar bem cheia com a minha amiga V. (embora não sirvam batatas moles!).

Os meus votos para 2019 passam por desejar mais momentos calorosamente calóricos na minha vida… ainda que estes incluam o inevitável pão de forma molenga à volta do meu umbigo!