“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Batatas

8 comentários

2019 começa com uns quilos espalhados pelo corpo;

quilos que vieram agarradinhos ao “estar” à volta da mesa, a horas a lagartar na esplanada e à lareira, ao mar, ao amor e à amizade.

Volta e Meia Restaurante

Ainda de barriga muito cheia de pratos feitos com amor, acabei de ler esta crónica de Ricardo Araújo Pereira, escrita para a Folha de S.Paulo (em Português do Brasil), acerca da importância das batatas fritas moles na nossa vida.

Amor e Batatas

“Os poetas têm falado muito sobre amor, pouco sobre batatas, e nada sobre a relação entre o amor e as batatas. É muito triste que tenha de ser eu a preencher as lacunas que a grande literatura vai deixando.

Talvez o problema seja meu: na minha vida, o amor manifestou-se menos sob a forma de grandes gestos e mais sob a forma de batatas. Os poetas cantam beijos loucos, gritos roucos, lágrimas, ânsias, despedidas, traições, ausências – mas às batatas não dedicam nem um epigrama.

É o seguinte: quando eu era pequeno, a minha avó fazia o almoço muito antes da hora, para que nada faltasse. Ela não tinha uma inclinação natural para beijar ou abraçar, mas fazia outras coisas.

Quando o ônibus do colégio me vinha buscar ela ficava a olhar, à janela, até eu dar a curva. E à tarde, quando o ônibus me trazia, ela já estava na mesma janela, à espera.

Eu tinha seis ou sete anos e ficava com a sensação de que ela ficara ali o dia todo, com a vida suspensa. Hoje sou adulto e a razão diz-me que não era assim – mas o coração continua a não ter a certeza.

No fim de semana, muito antes da hora do almoço, ela fritava batatas, punha num prato, e depois cobria com a tampa de uma panela. O vapor condensava-se no interior da tampa e depois a umidade chovia sobre as batatas. Por isso, as batatas ficavam moles.

Na casa da minha avó, nunca comi batatas que não fossem moles. Quando hoje me põem no prato batatas estaladiças eu penso: essa pessoa sabe fritar batatas, mas ela não me ama. Não fez as batatas com aquela antecedência. Arriscou que as batatas não estivessem prontas quando eu quisesse almoçar.

Batatas estaladiças, fica o leitor avisado, são cruéis. Têm arestas aguçadas que ferem o céu da boca, e estão muito conscientes do seu próprio mérito, reluzentes de óleo. As batatas moles, tubérculos humildes e meigos, suportam com paciência a aflição amorosa que as tornou moles, e a sua indolência morna tranquiliza quem estiver nervoso.

Penso muitas vezes naquele momento, no fim do “Cidadão Kane”, em que ele, mesmo antes de morrer, diz “Rosebud”, o nome de um trenó que tinha quando era criança. Eu, muito provavelmente, direi: “batatas moles”.”

Meia Volta

As fotografias são do restaurante Volta & Meia, na Figueira da Foz, onde gosto sempre de ficar bem cheia com a minha amiga V. (embora não sirvam batatas moles!).

Os meus votos para 2019 passam por desejar mais momentos calorosamente calóricos na minha vida… ainda que estes incluam o inevitável pão de forma molenga à volta do meu umbigo!

 

Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

8 thoughts on “Batatas

  1. Maravilhoso! 🙂 Um 2019 espetacular pra vc ! Beijo grande

  2. Olá Ana! Adorei o post! Acho que em torno do meu corpo também tenho agarradas umas quantas filhoses e rabanadas, mas tudo feito com muito amor! Desejo-te, e aos teus, um Feliz Ano Novo! Beijinhos

  3. Ah, esses quilinhos ganhos às custas de muita comidinha boa e companhias melhores ainda em torno da mesa… Delícia demais! Que o nosso 2019 seja repleto desses momentos cheios de amor (e batatas). ❤

  4. Ah, minha cara, eu pouco comi nesse final de ano (que ainda vive aqui em mim) a bem da verdade queria esticar o dezembro e evitar o janeiro e o tal novo (cheio de esperança para alguns e mudanças para outros). Não deu, passou rápido, pegou as coisas e foi embora.
    Enquanto lia, lembrei que nunca fui de batatas… sempre gostei delas cozinhas com água e sal e coberta de queijo mole. Ainda hoje as prefiro assim. Deu fome…
    Estou a espera de inspiração para começar o tal ano novo e ler blogues me inspira.
    Que 2019 seja tempo presente e persistente.

    bacio

    • Lunna, o mês de Janeiro também é sempre o mês mais difícil para mim!
      Eu sou muito batateira: também gosto muito delas cozidas, com queijo ou com azeite!
      Todos os anos fico a pensar nos seus votos de ano novo; sim, que seja tempo presente e persistente para todos!
      Bacio, Lunna!

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