“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Perder o Sainete

As expressões idiomáticas revelam a criatividade e vivacidade da língua.

O que dizer do pitoresco “armado ao pingarelho…” , “dar sainete” ou o educado “Quanto pagas, se não é indiscrição?”

Com a doentia tendência dos tempos actuais para a padronização, algumas das nossas maravilhosas pérolas estão a desaparecer.

Reencontrei duas na página de Instagram do site Comunidade Cultura e Arte.

Para além deste reencontro com o lado mais expressivo da nossa língua, há referências, nesta conta de Instagram, a pequenas grandes frases de escritores, realizadores, filósofos, intelectuais,…

Um bálsamo para a minha vista, cabeça e coração que não suportam mais o fel destilado noutras redes sociais.

Surgem-me diariamente, no Instagram, autores como Saramago, com as suas reflexões tão verdadeiras e evidentes, mas tão ignoradas.

E até apareço eu, uma vez que este é o meu estado de espírito frequente, no final do dia.

Nota: Um sainete era uma peça dramática de ópera espanhola, de um só acto, com música. Muitas vezes, era colocado no meio ou no final dos espectáculos. O estilo era vernáculo e era muito apreciado entre os séculos XVIII a XX. Mais uma razão, para não deixar o sainete sair da nossa vida!


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Poder

Há muitas formas de exercer o poder, uma delas é reduzir o outro, metaforica ou literalmente.

Hoje em dia, opta-se por uma redução mais subtil e sofisticada, através do empobrecimento intencional do grupo que não interessa que tenha poder. Empobrecimento material e espiritual, claro.

Afonso Cruz dá-nos uma perspectiva muito interessante sobre as várias formas de diminuir o potencial adversário, de lhe cortar as asas… não vá ele fugir ou ultrapassar-nos.

“Cortam-se as asas dos pássaros para que não fujam, para que não voem.

De certa maneira, naquela altura, na minha altura, não educar as mulheres equivaleria a partir-lhes as articulações, uma vez que isso dificultaria, ou impediria de todo, a sua saída de casa, a sua independência. Curiosamente, as Amazonas, dizia Hipócrates, deslocavam as articulações dos filhos varões, nas ancas ou nos joelhos, para que não pudessem lutar ou fugir e não se organizassem contra as mulheres. Davam-lhes profissões sedentárias: sapateiros, por exemplo (que ironia, fazer sapatos e não poder caminhar). Essa ideia atribuída às Amazonas parece-me apenas uma transposição daquilo que é uma ideia de poder masculina.”


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Ser amoroso

Depois do filme Lion me ter abalado, andei perdida à procura do nosso sentido da vida, enquanto humanidade.

Este poema de Carlos Drummond de Andrade aponta o único caminho digno para as criaturas da terra.

Marília Pêra, actriz brasileira falecida em 2015, declama o poema de Carlos Drummond de Andrade, apontando-nos o outro caminho: a poesia.

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?


Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?


Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.


Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.


Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.


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Filhos

Um dos últimos livros de valter hugo mãe chama-se O Filho de Mil Homens.

Ainda não o li; vi apenas uma entrevista do autor, transcrita com este parágrafo do livro:

Todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.

O título, tal com a frase, transmitem uma ideia de humanidade fraterna que eu, nos dias bons, partilho.

Nos dias maus, perco a fé na humanidade e caio num abismo de onde é difícil sair.

A mais recente queda aconteceu-me ao ver o filme LION.

valter hugo mãe tem razão quando fala da nossa fraternidade e ao lembrar todos os pais que tiveram de viver harmoniosamente antes de nós para que nascessemos.

Há oito anos, depois da minha filha nascer, para além de ser irmã, passei a sentir-me mãe de todas as crianças, ou pelo menos mãe de mil crianças.

Durante as duas horas do filme LION, fui mãe do Saroo, o pequeno Saroo, perdido na babilónica Calcutá. Fui mãe daquele menino de cinco anos e sofri com o frio, com a sua fome e com o seu abandono. Fui mãe dele e dos meninos de rua que são abandonados, maltratados, espancados e violados. São oitenta mil por ano, na Índia. Chorei muito.

Continuei a chorar sem lágrimas e andei sem ânimo durante dias; tentei gerir esta desumanidade, este lado bestial do ser humano que permite este abandono dos seus filhos.

Em última instância, salvou-me o Amor que felizmente me rodeia…

A Índia tem cerca de 30 milhões de órfãos, mas as regras que regem as adoções internacionais são estritas e as adoções domésticas são relativamente raras.

Apenas 4.362 crianças foram legalmente adotadas em 2014 e 3.677 em 2015, de acordo com a Autoridade Central de Recursos de Adoção.”

Eu preciso de agir e tenho pesquisado associações que ajudam os órfãos indianos. Tenho receio do que possa acontecer aos contributos e a desconfiança cresce quando surgem notícias de que há orfanatos pouco honestos.


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Salsugem

Salsugem – qualidade do que é salso ou salgado.

Descobri o nome “salsugem” com Al Berto.

É o nome que descreve o que sinto quando estou tão perto do mar que sinto a sua respiração fria e molhada.

É o nome que descreve o que sinto quando me “crescem búzios nas pálpebras”.

“queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

debruçou-se para o outro lado do espelho
onde o corpo se torna aéreo até aos ossos
a noite devolveu-lhe outro corpo vogando
ao abandono dum secreto regresso… depois
guardou a paixão de longínquos dias no saco de lona
e do fundo nostálgico do espelho
surgiram os súbitos olhos do mar

cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais

um fio de sémen atava o coração devassado pela salsugem
o corpo separava-se da milenar sombra
imobilizava-se no sono antigo da terra
descia ao esquecimento de tudo… navegava
no rumor das águas oxidadas agarrava-se à raiz das espadas
ia de mastro em mastro perscrutando a insónia
abrindo ácidos lumes pelo rosto incerto dalgum mar”

Al Berto

Os maravilhosos marinheiros da imagem foram encontrados no blog IGNANT.


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Amores

Shakespeare viveu entre 1564-1616 e escreveu muitos sonetos de amor.

Parece que o seu “muso” inspirador era um jovem rapaz que ele sabia que nunca seria seu.

Um dos sonetos mais famosos de Shakespeare canta a beleza e juventude do seu amado.

Soneto XVIII

“Que és um dia de verão não sei se diga.

És mais suave e tens mais formosura:

vento agreste botões frágeis fustiga

em Maio e um verão a prazo pouco dura.

O olho do céu vezes sem conta abrasa,

outras a tez dourada lhe escurece,

todo o belo do belo se desfasa,

por caso ou pelo curso a que obedece

da Natureza; mas teu eterno verão

nem murcha, nem te tira teus pertences,

nem a morte te torna assombração

quando o tempo em eternas linhas vences:

enquanto alguém respire ou possa ver

e viva isto e a ti faça viver.”

(traduzido por Vasco Graça Moura)

Quatrocentos anos depois de Shakespeare, olho para os seguintes números aterrada. São números que nos envergonham, enquanto humanos incapazes de compreender o amor e o sexo.

  • Países do mundo em que a homossexualidade é punida com pena de prisão: 72
  • Países do mundo em que a homossexualidade é punida com pena de morte: 12

ÁFRICA:
Argélia
Burundi
Camarões
Chad
Comores
Egipto
Eritreia
Eswatini (Suazilândia)
Etiópia
Gâmbia
Gana
Guiné
Libéria
Líbia
Malawi
Mauritânia (pena de morte)
Maurícia
Marrocos
Namíbia
Nigéria (pena de morte)
Quénia
Senegal
Serra Leoa
Somália (pena de morte)
Sudão (pena de morte)

Tanzânia
Togo
Tunísia
Uganda
Zâmbia
Zimbabwe

AMÉRICA:
Antígua e Barbuda
Barbados
Dominica
Grenada
Guiana
Jamaica
Saint Kitts and Nevis
Saint Lucia
Saint Vincent and the Grenadines

ÁSIA:
Afeganistão (pena de morte)

Bangladesh
Bhutan
Brunei
Indonésia
Malásia
Maldivas
Myanmar
Paquistão (pena de morte)
Singapura
Sri Lanka
Turquemenistão
Uzbequistão

MÉDIO ORIENTE:
Arábia Saudita (pena de morte)
Emirados Árabes Unidos (pena de morte)
Iémen (pena de morte)
Irão (pena de morte)

Iraque
Kuwait
Líbano
Omã
Palestina
Qatar
Síria

OCEÂNIA:
Ilhas Cook
Ilhas Salomão
Quiribati
Papua – Nova Guiné
Samoa
Tuvalu
(Copiei esta informação do Facebook de Frederico Lourenço)

Não consigo (nem quero!) compreender o que vai na cabeça de um ser humano para se julgar no direito de condenar outro ser humano, por este amar/desejar/relacionar-se sexualmente com um adulto do mesmo sexo.

Felizmente, sou europeia (que sorte – sem ironia!) e esta minha posição pública não é censurada nem condenada por cumplicidade.

Fotografias de uma das minhas fotógrafas favoritas, a sul africana Betina du Toit.


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Bolachas de aveia e nozes

As férias acabaram mas, enquanto vestirmos manga-curta, conseguimos continuá-las aos fins-de-semana.

As minhas cozinheiras queriam bolachas e decidiram colocar mãos à obra:

2 chávenas de farinha de trigo com fermento

1 chávena de flocos de aveia integral

1 chávena de farelo de aveia

1 chávena de açúcar de cana mascavado

meia chávena de café de café forte

4 ovos

1/4 de chávena de manteiga

1/4 de chávena de azeite

1 pitada de flor de sal

nozes e passas a gosto

Misturar todos os ingredientes secos numa tigela e acrescentar as gorduras. Envolver com uma colher de pau.

Acrescentar os ovos e mexer (ou amassar com as mãos!) até descolar da taça.

Fazer bolinhas, pressionar a noz e levar ao forno.

Aprovadas!