“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Ser amoroso

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Depois do filme Lion me ter abalado, andei perdida à procura do nosso sentido da vida, enquanto humanidade.

Este poema de Carlos Drummond de Andrade aponta o único caminho digno para as criaturas da terra.

Marília Pêra, actriz brasileira falecida em 2015, declama o poema de Carlos Drummond de Andrade, apontando-nos o outro caminho: a poesia.

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?


Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?


Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.


Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.


Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.

Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

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