“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Como um oceano

Artur Cruzeiro Seixas é o último surrealista português.

Com 99 anos, continua incrivelmente lúcido e consciente da realidade desta nossa história de sermos humanos. No programa Nada será como Dante, diz-nos que, no final, só o Amor e a Poesia poderão salvar-nos. Bem, revela-se muito consciente do real para um surrealista; correcção – revela-se muito consciente do real para um ser humano.

Neste vídeo, tem 96 anos;

neste, entrevistado para o programa de Pedro Lamares e Filipa Leal, Nada será como Dante, tem 99.

Como um oceano

Tu és meu
pássaro do deserto
cinzento com mil portas
silenciosas e translúcidas.

Tu és meu
a todo o comprimento
do sol
e afogas-me como um oceano.

Artur do Cruzeiro Seixas, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa

Gideon Rubin nasceu em 1973 em Israel. Vive em Londres e é fascinado por fotografias antigas: os seus quadros são recriações dessas fotografias que ele colecciona. Apesar de não desenhar rostos, acho os quadros absolutamente expressivos e sensuais!


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Década

Janeiro é altura de balanços e, por isso, costuma ser um mês duro e frio.

Ainda que seja optimista, fico sempre focada nos vazios inevitáveis da vida.

No início de 2020, o balanço coloca num dos pratos toda uma década.

Que peso!

Foi, contudo, a década mais intensa, feliz e desafiante da minha vida.

Em 2011, fui mãe e podia nem escrever mais: transformei-me, preenchi a década e o coração.

Nada fica como dantes quando nos irrompe a mogli pela vida.

A partir daí, toda a década se conjugou na primeira pessoa do plural.

Em 2013, mudámos de casa e passámos a viver em Estremoz. Foi difícil.

Demorou até adoptarmos a cidade, mas ajudou o facto de uma de nós ser meio alentejana: a mogli, agora mais crescida e grande companheira de viagens.

Tomo consciência, com ela, de que ainda é necessário educar para o feminismo.

Estou alerta e percebo que o quotidiano nos exige, sem pudores, esforços de super-mulher e que, de facto, o somos, mas de outra forma. Somos super-mulheres quando impomos a nossa vontade, quando dizemos “não”, quando fechamos a cara e quebramos expectativas, pressões e convenções. Sei que o caminho de educar para a autenticidade só está a começar.

Este blog nasceu, em 2013, também porque fui mãe e quis, num determinado momento, documentar o nosso lado luminoso. Entretanto, fomos crescendo (eu, a Beatriz e o blog) e este espaço ganhou muitas outras vertentes. Eu também as adquiri, enquanto mãe e mulher.

Estou mais lúcida e contemplativa, embora continue hesitante e sem perceber algumas encruzilhadas da vida.

Antes dos 40, intrigava-me a melancolia dos mais velhos, quando ficavam muito tempo em silêncio a olhar para o vazio ou a observar uma chama ou uma paisagem. Agora já descobri o que fazem: colocam em ordem os pensamentos e tentam orientar-se numa (cada vez maior) teia interior. Nos dias em que não consigo essa pausa, sinto-me impaciente, esgotada e perdida.

Nem tudo correu bem nesta década, houve perdas pelo caminho.

Perdas profundas e que não resultaram da minha vontade.

Aprendi a dar-me tempo para aceitá-las.

Numa época em que tudo tem de ser rápido e intenso mas superficial, não aceitamos de ânimo leve que sarar feridas demora… Enfim, a triste realidade é que se ignorarmos a dor, corremos o risco de nunca a cicatrizarmos.

Aceitar, sofrer, respirar e avançar é o meu lema. Mas proteger-me também, ao contrário do que me acontecia quando tinha vinte ou trinta anos. Agora, permito-me ter alguns medos, selecciono as lutas e cuido-me, afastando-me de quem me faz mal (ainda que involuntariamente).

Se tudo correr bem, o caminho ainda vai ser longo, com subidas íngremes, mas algumas planícies onde conto descansar bem acompanhada.

Boa jornada e boa sorte para a próxima década!