“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Década

4 comentários

Janeiro é altura de balanços e, por isso, costuma ser um mês duro e frio.

Ainda que seja optimista, fico sempre focada nos vazios inevitáveis da vida.

No início de 2020, o balanço coloca num dos pratos toda uma década.

Que peso!

Foi, contudo, a década mais intensa, feliz e desafiante da minha vida.

Em 2011, fui mãe e podia nem escrever mais: transformei-me, preenchi a década e o coração.

Nada fica como dantes quando nos irrompe a mogli pela vida.

A partir daí, toda a década se conjugou na primeira pessoa do plural.

Em 2013, mudámos de casa e passámos a viver em Estremoz. Foi difícil.

Demorou até adoptarmos a cidade, mas ajudou o facto de uma de nós ser meio alentejana: a mogli, agora mais crescida e grande companheira de viagens.

Tomo consciência, com ela, de que ainda é necessário educar para o feminismo.

Estou alerta e percebo que o quotidiano nos exige, sem pudores, esforços de super-mulher e que, de facto, o somos, mas de outra forma. Somos super-mulheres quando impomos a nossa vontade, quando dizemos “não”, quando fechamos a cara e quebramos expectativas, pressões e convenções. Sei que o caminho de educar para a autenticidade só está a começar.

Este blog nasceu, em 2013, também porque fui mãe e quis, num determinado momento, documentar o nosso lado luminoso. Entretanto, fomos crescendo (eu, a Beatriz e o blog) e este espaço ganhou muitas outras vertentes. Eu também as adquiri, enquanto mãe e mulher.

Estou mais lúcida e contemplativa, embora continue hesitante e sem perceber algumas encruzilhadas da vida.

Antes dos 40, intrigava-me a melancolia dos mais velhos, quando ficavam muito tempo em silêncio a olhar para o vazio ou a observar uma chama ou uma paisagem. Agora já descobri o que fazem: colocam em ordem os pensamentos e tentam orientar-se numa (cada vez maior) teia interior. Nos dias em que não consigo essa pausa, sinto-me impaciente, esgotada e perdida.

Nem tudo correu bem nesta década, houve perdas pelo caminho.

Perdas profundas e que não resultaram da minha vontade.

Aprendi a dar-me tempo para aceitá-las.

Numa época em que tudo tem de ser rápido e intenso mas superficial, não aceitamos de ânimo leve que sarar feridas demora… Enfim, a triste realidade é que se ignorarmos a dor, corremos o risco de nunca a cicatrizarmos.

Aceitar, sofrer, respirar e avançar é o meu lema. Mas proteger-me também, ao contrário do que me acontecia quando tinha vinte ou trinta anos. Agora, permito-me ter alguns medos, selecciono as lutas e cuido-me, afastando-me de quem me faz mal (ainda que involuntariamente).

Se tudo correr bem, o caminho ainda vai ser longo, com subidas íngremes, mas algumas planícies onde conto descansar bem acompanhada.

Boa jornada e boa sorte para a próxima década!

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

4 thoughts on “Década

  1. Fiquei cá a pensar, minha cara Ana que nos conhecemos e somos estranhas há tempos. Me lembrei do tempo da correspondência, onde eu experimentava pessoas e lugares que chegavam em envelopes, hoje chegar através do ecrã… gosto de ti, desse lugar e saber-te através dos tempos. Catarina começou no mesmo ano que o teu Frasco e tantas vezes já dialogamos… uma delícia isso. O teu é um dos poucos blogues que não ficou pelo caminho e me chama ao diálogo. Grazie por isso…

  2. Maravilhoso, Ana, me identifiquei tanto! Pra mim foi uma década bastante intensa também, mas de enorme aprendizado. Talvez o maior deles tenha sido não ter pressa, mas não perder mais tempo com aquilo que não importa. Avante! Bjo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s