“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Planos de Beleza

Ulisses, antes de partir para a Guerra de Tróia, aconselhou-se com Mentor. Pediu-lhe, inclusivamente, para ser o tutor do pequeno Telémaco, durante a ausência do pai.

Não pára de surpreender-me a influência da cultura grega na nossa língua e, por conseguinte, na nossa substância.

valter hugo mãe é o meu mentor.

Fico sempre a reler o que diz nas entrevistas e nas crónicas.

Na revista da livraria Bertrand, dá orientações muito sábias e inspiradoras para a vida.

Revista Bertrand: Com esse superpoder [a poesia], continua a ter a pretensão de salvar o mundo?

valter hugo mãe: Quero, ao menos, não piorar o mundo. […] já entendi que há gente indisponível para ser salva. Aceitar que algumas pessoas optam pelo abismo e votam no abismo é essencial, porque não podemos cultivar o remorso de, nos nossos planos de beleza, não caber toda a gente. Porque não cabe. Então, estou muito interessado em fazer com que o mundo não destrua minha benignidade, minha generosidade, meu compromisso com a verdade e com a esperança. E é desse modo que me apresento perante quem se encontra comigo. Mas sei que outras pessoas vivem a avidez de ver o mundo sangrar, como se sucumbissem a uma vontade de vingança. Não quero permitir que algo me agrida tanto que viva à espera de vingança. Quero estar como útil aos outros, como quem ainda sabe amar, sim […]”

Emma Hardy é inglesa, fotógrafa autodidacta, e segue este lema:

“I photograph with my heart engaged, […]”.

Pronto, é isto:

a frase de Emma, “I live with my heart engaged”, mas com as palavras de vhm na cabeça “no meu plano de beleza, não cabe toda a gente” – duas ideias que não são incompatíveis e que, conciliadas, talvez nos permitam ser mais felizes.


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Para sempre

SILOGISMOS

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.


Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.


A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?


Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.


(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

Vozes, 2011 – Ana Luísa Amaral

Nunca ninguém desvendou o grande mistério que nos espera no final;

é essa ignorância que ofende a sobranceria humana e nos devolve à nossa pequenez.

Mas se houver mais alguma coisa, para além da “vida inteira”, o que sinto por estes pezitos amarelos irá, de certeza, comigo.

“Para sempre!”

Se não houver, não me chegará a “vida inteira” para agradecer por estes nove anos.


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Grandes goles

Fernando Assis Pacheco foi dos primeiros poetas portugueses a tratar o tema da Guerra Colonial na sua obra.

Assumidamente contra a guerra, o poeta acabou por embarcar e ficar marcado pela experiência na frente de batalha (foi, inclusivamente, retirado por motivos psiquiátricos).

Diz o filho que a “guerra nunca saiu dele”.

Ficou-lhe aquela “morrinha”, no viver, como o poeta dizia quando questionado acerca da sua evidente melancolia.

Mas é este homem que, provavelmente por ter conhecido o lado medonho do ser humano, consegue reconhecer o sentimento mais nobre, o Amor.

Esta definição que escreve, no poema “Esta areia fina”, é tão simples e tão plena.

Esta areia fina

Não sei

se o que chamam amor é este apaziguamento.

Não sei se comias fogo. Tuas abelhas

voam agora em círculos tranquilos.

Mães serenam seus filhos no ventre,

não sei se o que enfim chamam

amor é esta areia fina.

.

Agora estamos um dentro do outro,

fazemos longas visitas deslumbradas

porque “o nosso prazer lembra um rio vagaroso

no meio de juncos ao cair da tarde”.

.

As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio

falaríamos melhor de tudo isto.

Não sei se o que chamam amor

é a cama desfeita o sol fugindo,

uma vontade louca de beber

a grandes goles a noite entorpecente.

.

Com o silêncio, o silêncio sem nome:

morrermos a meio do filme

simples, calada, delicadamente.

Eras tu, amor? – Era eu, era eu!

.

Um barco junto à margem. E cegonhas.

***

Imagem: IGNANT (gosto tanto desta fotografia que já a usei…)

O podcast do Expresso, Palavra de Autor, foi uma descoberta recente mas muito feliz. Foi nesta plataforma que ouvi a entrevista ao filho de Fernando Assis Pacheco, João Pacheco.


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Apego

Esta é uma das mais bonitas músicas que ouvi nos últimos tempos: a letra, a melodia, os intérpretes (Tiago Nacarato e Salvador Sobral) e o vídeo (com a participação do pintor Tony Cassanelli).

Uma música que canta a maturidade no querer que eu gostaria de alcançar um dia.

Sentir amor sem posse, numa relação amorosa, talvez seja o ponto mais alto da evolução humana. Sobretudo para nós, latinos, que misturamos tudo com uma intensidade muitas vezes pouco saudável para as duas partes.

A solução não é o desapego: estar apenas pela metade com o outro-

mas é fundamental distinguir apego de posse.

É muito lúcida e madura esta letra de Tiago Nacarato: a ideia de deixar partir quem não que ficar e despedirmo-nos com o voto: se encontrares quem te faça melhor mulher (pessoa), aproveita para ser feliz!

Talvez um dia lá chegue.

Por enquanto ainda estou neste percurso árduo de resolver a cabeça na tentativa de ser melhor mulher, namorada, mãe, filha, irmã, amiga, professora,…

“Mesmo que eu queira mudar

De mim não consigo fugir

Sou feito do vento que sopra devagar

E do tempo que sobrar

Se o segredo for deixar partir

No sereno do areal

Antes que o apego se apegue ainda mais

Deixo ao tempo a solução

E se encontrares por aí

Quem te faça ser melhor mulher

Aproveita para ser feliz”

Letra e música: Tiago Nacarato

Tony Cassanelli