“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Louco

valter hugo mãe chama-me sempre à razão, mesmo quando eu estou cheia de mim como, por exemplo, no caso da eutanásia ou do discurso de Ramalho Eanes, ou quando hesito e estou sem saber bem o que pensar.

No caso deste texto, estamos em total sintonia.

poema sobre o amor eterno

inventaram um amor eterno. trouxeram-no em braços para o meio das pessoas e ali ficou, à espera que lhe falassem. mas ninguém entendeu a necessidade de sedução. pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa convictas de que seria falso alarme, e o amor eterno tombou no chão. não estava desesperado, nada do que é eterno tem pressa, estava só surpreso. um dia, do outro lado da vida, trouxeram um animal de duzentos metros e mil bocas e, por ocupar muito espaço, o amor eterno deslizou para fora da praça. ficou muito discreto, algo sujo. foi como um louco o viu e acreditou nas suas intenções. carregou-o para dentro do seu coração, fugindo no exacto momento em que o animal de duzentos metros e mil bocas se preparava para o devorar

valter hugo mãe, in ‘contabilidade’

Fotografia da polaca Sonia Szostak.


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Canção dos adultos

22:00h

Criança -Vamos conversar sobre quê?

Adulta – Sobre o João Pestana. Já está nas portas da cidade.

Criança – Não me enganas! Vamos falar! Então, quando é que aprendeste a ser adulta?

Adulta – Adulta?! Eu? Hum! Deixa ver… talvez blablabla… viver sozinha… blablabla… estudar fora… resolver situações difíceis… blabla…

Zzzzzz!

Insónia- Olá, Adulta!

Esta fé nos adultos é a maior fantasia que perpetuamos na imaginação das crianças; bem mais ilusória do que o Pai Natal ou o Coelhinho da Páscoa.

Não temos alternativa, seria insuportável surgir neste planeta pequeno e vulnerável e saber a verdade: estamos cercados por criancinhas com mais de 1,50m e muitos deles dirigem o mundo! Criancinhas que erram e estragam, mas cujos atos provocam consequências bem mais graves do que partir um carrinho, espremer o gato num abraço ou mentir à mãe.

Manuel António Pina respondeu com mais sinceridade do que eu à questão “Quando é que aprendeste a ser sdulta?”, em 1983, no livro O pássaro na cabeça.

“Parece que crescemos mas não,
somos ainda do mesmo tamanho.

As coisas que à nossa volta estão

é que mudam de tamanho.


Parece que crescemos mas não crescemos,

foram as coisas grandes que há,

o amor que há, a esperança que há,

que ficaram mais pequenos.


Estão agora tão distantes

que às vezes já mal as vemos.

Por isso parece que crescemos

e somos maiores que antes.


Mas somos ainda como dantes,

talvez até mais pequenos

quando o amor e o resto estão distantes

que nem vemos como estão distantes.


Julgamos então que somos grandes

e já nem isso compreendemos!”

A fotografia é da madrilena Elena del Palacio.


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A saudade rói os ossos

A escritora brasileira Líria Porto descreve o que estamos todos a sentir: saudade.

durante a tua ausência
deitei-me do outro lado
dormi de rosto colado
com a tua fronha

a saudade é uma doninha
a saudade é uma toupeira
ela rói dentro e fora
rói os ossos rói o peito
o corpo os sentimentos
a saudade rói os sonhos

e mostra os dentes

Não é nada fácil resistir a este bichinho roedor, embora saibamos que os valores que nos motivam ao autoisolamento voluntário são os mais nobres.

A Páscoa chegou num tempo fora do calendário.

Estamos adiados.

Pela Beatriz, esforço-me por assinalar alguma excepcionalidade nos fins-de-semana e datas célebres.

Pela Beatriz, desenhámos coelhos, fizemos bolos e organizámos uma caça aos ovos.

Mas a tristeza está na cara dos poucos que passam na rua e a saudade dos que amamos e que estão tão longe “rói os ossos ” e “rói o peito”.

Gritou-me o meu vizinho da janela: “Temos de estar arrecadados!”.

Oxalá aprendamos a nunca adiar os verdadeiros encontros quando tivermos de novo oportunidade; oxalá nunca mais permitamos que as urgênciazinhas do dia-a-dia se sobreponham aos abraços que ficamos a dever aos nossos amigos e família.

É o meu desejo de Páscoa.

Em sintonia com a celebração cada vez mais oportuna do homem que se superou, renovou e renasceu, há mais de 2000 anos.

Uma Páscoa Feliz!


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Ilhas

Não sei se a pandemia é o resultado de uma conspiração chinesa, se acontece porque a Natureza está saturada dos humanos ou, pelo contrário, se é a consequência dos humanos se terem esquecido que fazem parte da Natureza, ou se foi Deus ou um demónio que decidiram dar-nos uma lição de humildade.

É um vírus poderoso, mas acredito que lhe falta a grande capacidade humana de luta: a inteligência é uma prerrogativa nossa e é ela que conduz à ciência.

A minha esperança na ciência não é uma questão de fé, pois a ciência não é divina nem mágica; no entanto, tem-nos curado de muitas doenças e proporcionado conquistas inimagináveis.

Infelizmente, não lhe demos a oportunidade de nos curar da imbecilidade e de outras tantas ameaças mais ou menos concretas em que andamos mergulhados há séculos.

A maior prova de que a nossa sociedade já estava há muito doente é que o Conhecimento e a Educação têm sido desprezados e o virtuosismo futebolístico e outras alucinações (que nem virtuosas são) foram valorizadas e remuneradas insanamente.

Agora, dependemos de cientistas, investigadores, médicos e enfermeiros que tanto desprezámos e pedimos-lhe, despudoradamente, um milagre e, já agora, que arrisquem a vida, todos os dias, por nós.

E eles fazem-no!

Espero que, depois deste abalo, os valores que nos devem reger encontrem o seu lugar e que quem salva vidas, quer seja com um gesto humilde, quer seja com rigor científico, passe a ser o nosso herói. E justamente divulgado e remunerado.

Estas palavras de Nick Cave, publicadas no Blitz, não são científicas, são poéticas, o que é mais ou menos a mesma coisa. A minha amiga Carmen partilhou comigo a resposta do cantor à grande pergunta do momento:

o que fazemos agora?“.

[…] o músico admitiu que “os tempos mudaram”, e que agora “enfrentamos um inimigo comum – imparcial, insensível e de magnitude incomensurável”, pelo que “não é tempo de nos abstrairmos”, e sim de “sermos cautelosos com as nossas palavras e as nossas opiniões”.

“Teremos de nos recuperar, não só pessoalmente como socialmente”, continuou. “No futuro, ser-nos-á dada a oportunidade de nos refugiarmos numa versão antiga de nós e do nosso mundo – insular, interesseiro e tribalista – ou de perceber as ligações e uniformidades de todos os seres humanos”.

“Em isolamento, vamos ter de decidir entre o que queremos preservar do nosso mundo e de nós próprios e o que desejamos descartar”.

As metáforas dos nossos mundos são da autoria da fotógrafa catalã Andrea Torres Balaguer.