Frasco de Memórias

“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


2 comentários

Roseiras e doces

Cora Coralina é o pseudónimo da escritora brasileira Ana Lins de Guimarães Peixoto (1889-1985).

Foi poeta e contista, teve seis filhos e, depois de enviuvar, tornou-se doceira. Além de fazer os seus doces, Aninha, como lhe chamavam, escreveu a maioria de seus versos entre o açúcar e o fogão.

Cora começou a escrever aos catorze anos (mais ou menos a altura em que deixou a escola), mas publicou o seu primeiro livro aos 76 anos.

Esta história impressionou-me, mas ainda mais este poema que parece ter sido escrito para esta Aninha que o copiou para aqui.

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Quantas Anas haveria dentro de Cora (pseudónimo que resultou da adaptação da palavra “coração”)?

Tantas que viveu até aos 96 anos!

As ilustrações são da canadiana Annya Marttinen, que me foi apresentada pela minha querida amiga Carmen, companheira de leituras e desventuras.


5 comentários

Papéis

Fiz muitas viagens de carro com os meus pais.

Pelo nosso país e por Espanha.

Os tempos eram outros, assim como as prioridades. O dinheiro não proporcionava périplos pelas capitais do mundo, mas o Verão não passava sem a mala do carro se fechar à força e sem a madrugada nos ver partir.

Apercebi-me, mais tarde, de que o destino não era o mais importante.

Lembro-me de que não me aborrecia com aquele embalo lento e morno, com a paisagem a mudar do lado da janela, e com a cara ensonada do meu irmão do outro.

Nada de mal nos podia acontecer com o meu pai a conduzir e com a minha mãe com o mapa no colo. Do meu lugar, via as rugas nos cantos dos olhos do meu pai e acreditava que ele estava sempre a sorrir. Geralmente, estava.

Conversávamos, sonhávamos, crescíamos e dormitávamos. As viagens duravam dias inteiros, com paragens em que comíamos com aquela fome que não voltei a sentir.

Nunca atravessámos a Europa, mas não interessava.

Instalar a difícil caravana ou ocupar uma casa desconhecida era já uma aventura.

Agora vou eu no lugar da frente e vejo a paisagem aberta.

Aproveito as horas de viagem para conversas sem pressa.

O lado atraente da viagem é também ter disponível aquele bloco de tempo sólido pela frente. Numa altura em que tudo é corrido, é como se entrássemos numa outra dimensão da nossa existência, uma dimensão dos contos mágicos.

Sinto sempre sol, quando recordo as viagens com a Beatriz, mas também deve ter chovido.

Ouvimos música, mas eu não estou autorizada a cantar, porque já tenho uma pré-adolescente no carro. Pode ser também porque sou terrivelmente desafinada. No fundo do meu peito também bate um coração e acabo por cantar baixinho.

A vida é feita de viagens e é bom que tenhamos ao nosso lado a melhor companhia. Quanto a mim, quero usufruir o “durante” sem pressa de chegar.

As pessoas distinguem-se entre as que querem que os quilómetros se prolonguem e as que querem que os quilómetros se encurtem.

Lembro-me perfeitamente do momento em que percebi que já não podia namorar com uma pessoa. Estávamos no carro e eu comecei a sentir uma urgência em chegar à cidade para onde nos dirigíamos. Percebi então que aquele nunca seria o meu companheiro de viagem. São, por vezes, estes momentos, aparentemente tão simples, que definem a conjugação eterna (ou a separação) de duas almas.

Tínhamos uma viagem marcada para o outro lado do mundo.

Não fui.

José Luís Peixoto escreveu magnificamente sobre as viagens que nos ficam, enquanto filhos e enquanto pais. Foi ao lê-lo que me lembrei das minhas e que me consciencializei de que já desempenhei os dois papéis. Também vou ficar na memória da minha filha e essa é a maior honra e a maior responsabilidade.

Esta crónica.

“Falta pouco, respondia o meu pai. E continuávamos a falar de algum assunto que, agora, gostava de poder retomar. Esse era um tempo muito bom, era um tempo perfeito. Sentado, com o peito atravessado pelo cinto de segurança, não sei se dava o valor devido a essas horas em que a paisagem me parecia demasiado monótona, sobretudo quando confrontada com tudo o que imaginava acerca do lugar para onde nos dirigíamos. Eu era pequeno ou distraído, não creio que tenhamos chegado a falar sobre isso, mas acredito que o meu pai valorizava esse tempo, esses quilómetros que partilhávamos no carro.

Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Por isso, sobreponho a minha memória com o que vejo em espelhos visíveis e invisíveis, e acredito que sou capaz de perceber melhor o significado do seu rosto durante essas viagens, a maneira como dizia certas palavras e como contava certas histórias. Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Essa é uma constatação profunda dentro de mim, como se o meu pai me olhasse ainda desde esse interior. Em breve, terei a idade que ele nunca chegou a ter. Quanto falta para chegarmos?

Falta pouco, respondo eu com a voz do meu pai. Percebo agora que também ele sabia exatamente quanto tempo faltava para chegarmos, mas também ele preferia que não nos fixássemos apenas no destino, apenas na hora e no lugar onde chegaríamos. A impaciência era desnecessária. Tarde ou cedo, haveríamos de chegar. Essa era uma certeza. Enquanto estávamos ali tínhamos a viagem, tínhamos tudo.”

As fotografias cinematográficas são da dupla Damien e Leila de Blinkk.


2 comentários

Biscoitos de limão, chia e nozes

Apesar do desconfinamento, continuamos com cuidado e, por enquanto, evitamos as viagens.

Fizemos estes biscoitos e enviámos para as pessoas de quem temos mais saudades.

Apesar do ar simplório e saudável, são saborosos e crocantes.

Ingredientes:

200g de flocos de aveia triturados como farinha

100g de farinha de trigo

100g de farinha de trigo integral

2 colheres de chá de fermento em pó

120g de açúcar mascavado

4 colheres de sopa de sementes de chia

raspa de 2 limões

4 colheres de sopa de sumo de limão

1 pitada de flor de sal

120ml de natas de soja light (ou outro leite vegetal)

4 colheres de sopa de azeite

nozes a gosto

1- Misturar os ingredientes secos (farinhas, fermento, sementes e sal).

2- Juntar a bebida vegetal, o azeite, a raspa e o sumo de limão.

3-Envolver até se formar uma massa bem moldável.

4-Deixar repousar 25 minutos.

5-Fazer bolinhas e achatá-las com as nozes (ou apenas com os dentes de um garfo, se não se pretender usar frutos secos).

6- Levar ao forno, durante 15 minutos a 180ºC, em tabuleiro forrado de papel vegetal.

Seguiram embalados e aqueceram os estômagos dos nossos corações espalhados pelo país.


2 comentários

Lancinante

Lancinante:

– do latim lancinans, -antis

– particípio presente do verbo lancino, -are: despedaçar, rasgar, ferir.

adjetivo de dois géneros.

Por vezes, os meus adolescentes confidenciam-me desgostos de amor.

Apesar da avalanche de informação a que estamos, hoje, todos sujeitos, o analfabetismo afectivo é transversal a todas as gerações.

De qualquer forma, gerir emoções aos 16 anos é, sem dúvida, avassalador.

Eu não sou sábia, mas vivo com o coração, leio, ouço e quero-lhes bem. Talvez eles intuam isso.

Invariavelmente, os que me procuram são os elos mais frágeis da relação: estão em crise e toleram da outra parte um desamor que já não é aceitável.

Ouço-os, agradeço-lhes o voto de confiança e peço-lhes para, durante a vida, não permitirem ser rejeitados duas vezes pela mesma pessoa. Se o outro nos diz “não” (ou demonstra esta rejeição através de actos) é a “deixa” para abandonarmos aquele palco. Dilacerados… mas é o momento de sairmos.

Ter a capacidade de amar parece-lhes, nestas alturas, uma maldição, mas asseguro-lhes que é um privilégio de poucos. “Mutilado” é o adjetivo que define o ser humano que nunca amou ridiculamente ou nunca chorou por alguém.

Confirmo-lhes que ser abandonado provoca dores lancinantes; dores que nos trespassam o corpo e nos despedaçam em farrapos de despeito, rancor, incompreensão, revolta, fel e vertigem.

A cultura trágico-amorosa que nos envolve, quer nos noticiários, filmes, séries, músicas, quer na literatura, continua a deformar-nos diariamente.

Infelizmente, o culto de aceitar o sofrimento e a humilhação como uma fatalidade amorosa está longe de ser varrida do discurso que nos rodeia.

A literatura também mina um coração fragilizado.

Quer aos 15, quer aos 50 anos, há poucos poemas que ajudem a sobreviver ao ferimento com dignidade. São até perigosos os poemas que cantam a rejeição: alimentam esperanças, vinganças, autocomiserações e fantasias.

Há, de facto, poucas ajudas para encarar esta inevitabilidade da vida:

vamos cruzar-nos com pessoas incríveis e outras que nem por isso. As “nem por isso” é preferível que nos deixem depressa. Também vamos encontrar pessoas apaixonantes e outras apaixonadas (por nós). Estas pessoas, desafortunadamente, nem sempre vão coincidir aos nossos olhos. Forçar só vai trazer sofrimento.

É assim o mistério da Vida. Temos encontros e desencontros e, geralmente, aprendemos sempre. Muitas vezes, aprendemos a não repetir o erro. Já não é pouco.

Se tudo correr bem, a partir dos 40 anos, a nossa autoestima e amadurecimento ajudar-nos-ão a aguentar o embate. Triste consolo para quem tem 16 anos. Nunca o refiro ou corro o risco de parecer uma anciã.

José Carlos Barros é dos poucos poetas que pode ajudar, nestas desditosas situações.

Nasceu, em Boticas, em 1963.

Escreveu o poema que devemos declamar 100 vezes, no silêncio e solidão da ressaca, quando, literalmente, acabam connosco.

Depois da declamação, como sabemos, é aguentar.

Ter um coração que sente tem reveses, mas viver sem o sentir é pior.

Chorar copiosamente durante 10 dias também ajuda.

Ou apagar o número do telemóvel, respeitar o necessário distanciamento higiénico e fazer o luto. É um processo lento e querer apressá-lo é um sintoma de uma sociedade doente que não nos dá tempo e dissimula o sofrimento e a morte.

NÃO INVENTES

Não venhas cá com merdas. Não inventes. 

Não olhes nos meus olhos. Sai apenas. 

E poupa-me aos discursos eloquentes

e às farsas do adeus. Não faças cenas. 

Não digas que lamentas ou que a vida

às vezes é assim: que tudo esquece; 

que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.

Repito, meu amor: desaparece. 

E leva o que quiseres de tudo quanto

um dia suspeitámos partilhar:

os livros, as esculturas em pau-santo,

os discos, os retratos, o bilhar. 

Não deixes endereços. Por favor:

eu quero é que te fodas, meu amor. 

José Carlos Barros, in O Uso dos Venenos, ed. Língua Morta

Fotografias de Charlotte Lapalus, descoberta no site IGNANT.

Nota: escrevi este texto antes do que aconteceu à Beatriz Lebre. Tive o privilégio de receber o seu sorriso, durante vários meses, nas minhas aulas. Fiquei incrédula, revoltada, e em choque com o que lhe aconteceu.

Hesitei, sem saber se deveria publicar o que escrevi há um mês. Optei por avançar, porque é a altura de chamar a atenção para a necessidade de educar os nossos jovens para a gestão dos afectos. Não chega conversarem com uma professora bem intencionada. Falta um trabalho de fundo.

Como sabemos, sem meios nada é possível. Continuamos com um psicólogo para centenas de alunos. Pensar que, nestas condições, se faz alguma coisa é uma ingenuidade ou uma perversidade. Há que investir seriamente na formação emocional dos jovens. Só profissionais qualificados podem formar crianças e diagnosticar possíveis patologias.

Hoje, como sabemos, já é tarde para corrigir esta lacuna!