Frasco de Memórias

“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Papéis

5 comentários

Fiz muitas viagens de carro com os meus pais.

Pelo nosso país e por Espanha.

Os tempos eram outros, assim como as prioridades. O dinheiro não proporcionava périplos pelas capitais do mundo, mas o Verão não passava sem a mala do carro se fechar à força e sem a madrugada nos ver partir.

Apercebi-me, mais tarde, de que o destino não era o mais importante.

Lembro-me de que não me aborrecia com aquele embalo lento e morno, com a paisagem a mudar do lado da janela, e com a cara ensonada do meu irmão do outro.

Nada de mal nos podia acontecer com o meu pai a conduzir e com a minha mãe com o mapa no colo. Do meu lugar, via as rugas nos cantos dos olhos do meu pai e acreditava que ele estava sempre a sorrir. Geralmente, estava.

Conversávamos, sonhávamos, crescíamos e dormitávamos. As viagens duravam dias inteiros, com paragens em que comíamos com aquela fome que não voltei a sentir.

Nunca atravessámos a Europa, mas não interessava.

Instalar a difícil caravana ou ocupar uma casa desconhecida era já uma aventura.

Agora vou eu no lugar da frente e vejo a paisagem aberta.

Aproveito as horas de viagem para conversas sem pressa.

O lado atraente da viagem é também ter disponível aquele bloco de tempo sólido pela frente. Numa altura em que tudo é corrido, é como se entrássemos numa outra dimensão da nossa existência, uma dimensão dos contos mágicos.

Sinto sempre sol, quando recordo as viagens com a Beatriz, mas também deve ter chovido.

Ouvimos música, mas eu não estou autorizada a cantar, porque já tenho uma pré-adolescente no carro. Pode ser também porque sou terrivelmente desafinada. No fundo do meu peito também bate um coração e acabo por cantar baixinho.

A vida é feita de viagens e é bom que tenhamos ao nosso lado a melhor companhia. Quanto a mim, quero usufruir o “durante” sem pressa de chegar.

As pessoas distinguem-se entre as que querem que os quilómetros se prolonguem e as que querem que os quilómetros se encurtem.

Lembro-me perfeitamente do momento em que percebi que já não podia namorar com uma pessoa. Estávamos no carro e eu comecei a sentir uma urgência em chegar à cidade para onde nos dirigíamos. Percebi então que aquele nunca seria o meu companheiro de viagem. São, por vezes, estes momentos, aparentemente tão simples, que definem a conjugação eterna (ou a separação) de duas almas.

Tínhamos uma viagem marcada para o outro lado do mundo.

Não fui.

José Luís Peixoto escreveu magnificamente sobre as viagens que nos ficam, enquanto filhos e enquanto pais. Foi ao lê-lo que me lembrei das minhas e que me consciencializei de que já desempenhei os dois papéis. Também vou ficar na memória da minha filha e essa é a maior honra e a maior responsabilidade.

Esta crónica.

“Falta pouco, respondia o meu pai. E continuávamos a falar de algum assunto que, agora, gostava de poder retomar. Esse era um tempo muito bom, era um tempo perfeito. Sentado, com o peito atravessado pelo cinto de segurança, não sei se dava o valor devido a essas horas em que a paisagem me parecia demasiado monótona, sobretudo quando confrontada com tudo o que imaginava acerca do lugar para onde nos dirigíamos. Eu era pequeno ou distraído, não creio que tenhamos chegado a falar sobre isso, mas acredito que o meu pai valorizava esse tempo, esses quilómetros que partilhávamos no carro.

Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Por isso, sobreponho a minha memória com o que vejo em espelhos visíveis e invisíveis, e acredito que sou capaz de perceber melhor o significado do seu rosto durante essas viagens, a maneira como dizia certas palavras e como contava certas histórias. Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Essa é uma constatação profunda dentro de mim, como se o meu pai me olhasse ainda desde esse interior. Em breve, terei a idade que ele nunca chegou a ter. Quanto falta para chegarmos?

Falta pouco, respondo eu com a voz do meu pai. Percebo agora que também ele sabia exatamente quanto tempo faltava para chegarmos, mas também ele preferia que não nos fixássemos apenas no destino, apenas na hora e no lugar onde chegaríamos. A impaciência era desnecessária. Tarde ou cedo, haveríamos de chegar. Essa era uma certeza. Enquanto estávamos ali tínhamos a viagem, tínhamos tudo.”

As fotografias cinematográficas são da dupla Damien e Leila de Blinkk.

Autor: Frasco de Memórias

https://frascodememorias.wordpress.com

5 thoughts on “Papéis

  1. A própria vida é uma viagem, não?

  2. Pingback: 22 | no tempo em que éramos felizes… – Catarina voltou a escrever

  3. Comecei a escrever um comentário e viajei… levei para Catarina.

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