“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Redondezas

3 comentários

Aceitar a modificação progressiva do corpo é difícil e é um percurso.

Depois de ter saído vitoriosa da grande missão que foi confiada ao meu corpo: criar, dar à luz e alimentar em exclusivo um ser humano até aos seis meses, apaziguei-me com as falhas estéticas do meu corpo.

Estava de parabéns: aquele corpo baixo e estreito tinha concluído a mais divina gesta, concretizou a gestação, e continuou elegante e invencível.

Entretanto, passaram-se mais nove anos e o metabolismo abrandou, a energia para o desporto caiu a pique, as hormonas trairam-me e a minha estrutura corporal modificou-se.

O corpo magro deixou de ser magro, ganhou seis quilos, arredondou-se e eu estranhei-me.

Comecei, insensata e ingratamente, a desdenhar um corpo que luta todos os dias para que eu me movimente, trabalhe, tenha prazer e viva, há mais de quatro décadas, cheia de saúde.

Não faz qualquer sentido estar nesta rejeição.

É muito fácil apontar culpados: estamos sujeitos a uma colossal pressão mediática e a referências estéticas (irreais e/ou minoritárias) que diariamente dinamitam a nossa auto-estima.

Hoje, gritam-nos que ser gordo é ser feio e a “gordofobia” não é um mito urbano.

Tenho oscilado muito e sei que tenho de aceitar algumas mudanças, mas busco ainda o equilíbrio entre viver em restrição alimentar constante e um potencial desleixo alimentar; um desleixo que não aceito nas restantes vertentes da minha vida.

A entrevista a Isabel do Carmo, fundadora da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, da Sociedade Portuguesa de Diabetologia e fundadora da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, entre muitas outras funções (coordenadora do Estudo de Prevalência da Anorexia Nervosa nos Distritos de Lisboa e Setúbal, diretora do Serviço de Endocrinologia do hospital de Snta Maria,…) é muito esclarecedora.

Por exempo, a celulite que me indigna e que vou combatento com bravura, permitiu-nos a todas chegar saudáveis ao século XXI:

Aquela redondez das ancas e das coxas é saudável. É saudável porque retém os ácidos gordos que estão a circular no sangue. Aquela gordura puxa-os e retém-nos. É bom que eles fiquem ali e não andem a passear no sangue.

Se os ácidos gordos andarem a circular com excesso no sangue, a dada altura aderem à superfície das artérias, como a ferrugem dos canos da água — aderem à parede, a parede inflama-se e ao longo dos anos isto pode diminuir a passagem do sangue, que é o que dá origem aos enfartes do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. Portanto, é bom que a gordura não seja excessiva no sangue, sobretudo as que têm uma densidade mais baixa, que aderem mais facilmente à parede das artérias. As mulheres com as suas ancas e coxas puxam essa gordura e fixam-na ali. Mas depois chamam-lhe celulite, bochechinhas, e outras coisas assim. E não gostam. Muitas vezes é excessivo e é compreensível que não gostem. Mas antes ali do que noutras partes do corpo.”

Isabel do Carmo refere ainda mitos alimentares convenientes à indústria alimentar tal como a “intolerância à lactose ou ao glúten”, os benefícios da soja e os suplementos alimentares, os alimentos que nos dão energia, o excesso de proteínas (em detrimentos de hidratos de carbono de qualidade) nesta entrevista e no seu livro Alimentação: mitos e factos – Uma perspectiva científica.

Em relação às modelos XL, alerta-nos para a importância da diversidade entrar na nossa visão. Não se está a promover a obesidade, está-se a lutar contra a estigmatização e a dizer que os corpos volumosos existem.

Faço o mea culpa; gosto tanto de fotografia, mas invariavelmente escolho modelos que podem ter rostos invulgares mas que são magros.

Também eu vou tentar mudar e, para já, alterar as pessoas que sigo no Instagram e tornar os meus padrões de beleza cada vez mais vastos e diversificados.

A Mafalda Fonseca é esta mulher sexy e poderosa que devia estar em vários outdoors do mundo. Tenho aprendido muito nos stories do seu Instagram My Favourite Milkshake, inclusivamente acerca de gordofobia, que é um tema a que eu não era sensível.

Recomendo também este artigo de Ana Luísa Bernardino para quem, como eu até há bem pouco tempo, são sabe o que é a gordofobia.

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

3 thoughts on “Redondezas

  1. Uma curiosidade minha, carissima… quando menina era magra e sou italiana, as mulheres de minha família são todas cheias e eu parecia um prego. Sem altura porque demorei a me desenvolver. Tive atraso no crescimento. Vivia com vergonha os enormes ossos do meu corpo. Fomos ao médico que recomendou atividade física porque eu tinha estrutura óssea para o crescimento.
    Vegetariana, minha alimentação era riquíssima e, ao contrário dos que diziam ser a falta de carne o problema, a questão era outra: hormonal. Passei a jogar basquete e estiquei em dois anos o que deveria crescer ao longo de toda a infância e parte da adolescência. Perdi tudo… de roupas a calçados. De um metro e meio cheguei a um metro e setenta. Ganhei peso, massa muscular. Deixei de ter horror ao meu corpo…
    Não sou obesa, mas não sou magra (não mais, amém) e tenho disposição para quase tudo, menos para correr porque nunca fui de corridas. Pedalo, patino, nado. Não frequento academias nem por decreto e sigo vegetariana. Apaixonada por minhas curvas, celulites e estrias (tenho também). Não tive filhos porque não nasci para esse fim e sempre me divirto quando alguém vira para mim e diz: você emagreceu? Oi?

    bacio

    • Lunna, aceitar o corpo é mesmo um processo: com ossos ou almofadinhas!
      De resto. ser grata e ativa! O ginásio também não é para mim, mas assumo que qualquer desporto me custa, excepto caminhar e olhar paisagens bonitas. Mas, e tempo para isso?
      Eu sou uma vegetariana intermitente 😉 E adoro ver os seus pratos, pães e pizzas a fumegar 😉
      Bacio!

  2. Pingback: Bolinho da saúde |

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