“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

“A cidade ainda ali estava”

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O livro Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago nunca foi tão actual.

Resumidamente, relata-nos o horror de uma cidade assolada por casos de cegueira inesperada e contagiosa.

Dado o nosso contexto desde Março, facilmente a intriga se tornou tristemente verosímil. Ao lermos o livro, partilhamos o medo que se apodera dos habitantes, as precipitações políticas, a perda de direitos fundamentais e o caos que se instala. Temos de lhes juntar uma componente extra de terror, pânico e fome.

Por outras palavras, o livro relata uma Covid-19 hiperbolizada.

Torna-se chocante assistirmos à degradação total da condição humana. Fica provado que, perante a escassez de alimentos e o caos, é muito fácil perdermos a nossa humanidade. Demasiado fácil.

No livro, a cegueira que atinge as personagens é, obviamente, uma metáfora que vai sendo descodificada ao longo da acção e que se torna clara na última página:

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer
a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso
que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

O livro termina com a misteriosa frase:

“A cidade ainda ali estava”.

Na altura, não percebi esta frase que encerra a obra, mas Saramago, nesta entrevista a Ana Sousa Dias, explica-a:

A cidade continua presente e expectante, em pausa.

Mas será que os homens, depois da “cegueira física” ser curada, voltam mais sábios? Será que se questionam sobre a forma como estavam organizados,?Será que vão alterar alguma coisa?

Neste momento que nós vivemos, é mesmo esta a questão: o mundo paralisou de medo e por decreto. Aos poucos, regressámos e parece que o pior já passou, mas será que aprendemos alguma coisa?

Ingenuamente, em Abril e Maio, pensei que sim, mas sinto que nos perdemos desse rumo mais generoso: estamos tensos, pouco empáticos e muito auto-centrados… como sempre fomos.

Acredito que a nossa vida é construída de detalhes que se acumulam e não tanto de grandes gestos. Há novos pormenores do nosso quotidiano que estão a marcar-nos. O distanciamento, a ausência da pele e do calor do outro é um deles, mas a máscara também está a deixar consequências.

O uso constante da máscara pode proteger-nos, mas retira-nos a individualidade e cega-nos.

Somos, agora, seres que se cruzam mas não se reconhecem.

Somos casos de que os jornalistas, à noite, falam, mas perdemos a identidade. A identidade é o que nos resta quando tudo se dissipa.

Aprendemos, desde bebés, a reconhecer o outro através da face. Se esta é engolida por uma máscara, ignoramo-lo e desprezamos, inconscientemente, a sua peculiaridade, necessidades e emoções.

Toda a situação pandémica está a ganhar novos contornos bizarros e cruéis de filme de segunda categoria.

Mais uma vez, talvez nos salve a literatura.

Como nos diz Saramago,

“A cidade/ o mundo ainda ali está.”

E, nós, que fazemos?

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

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