“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Poder

Há uma forma infalível de dominar um povo: instigar o medo.

Há outra maneira subterrânea de controlo: suscitar a culpa.

Não sei se é devido à nossa longa tradição católica, mas os governantes portugueses, ao longo da História, mostraram-se peritos em agrilhoarem-nos, explorando estes dois poderosos sentimentos.

Recentemente, em 2008, quando o mundo sofreu uma crise financeira internacional, iniciada nos Estados Unidos (e secundada na Europa), os nossos governantes tiveram o desplante de nos culpar. Ouvimos vezes sem conta o célebre chavão: “vivemos acima das nossas possibilidades!”

Foram negócios planetários ruinosos, mas o povo lusitano, que nunca viveu no luxo, viu-se de repente com o ônus da culpa, pela falta de crédito que assolou o mundo.

Como consequência da “nossa culpa”, veio o castigo e o medo de que o nosso país fosse à falência: sistema bancário, segurança social e os ordenados dos funcionários públicos estavam em perigo (disseram-nos…).

Como sempre fomos uns grandes comensais, libertinos ociosos (e outros mimos que foram ditos pelo nosso tão amigo ex-Presidente do Eurogrupo), ordenaram-nos que “apertássemos o cinto”, e sem sermos “piegas” disse o ilustre Passos Coelho. Os “senhores que mandam nisto tudo” estavam zangados connosco, com o nosso despesismo e enviaram-nos os engravatados do FMI. Emprestaram-nos dinheiro, pela terceira vez em democracia, mas fizeram-nos pagá-lo com muito desemprego e mais pobreza.

Em 2019, chegou a pandemia e o medo foi, novamente, alardeado.

Com o medo a dominar-nos há vários meses, o Primeiro-Ministro lembrou-se de que nos faltava a culpa.

A segunda vaga, absolutamente esperada em qualquer pandemia, é culpa dos portugueses: somos nós que somos desleixados e precisamos de um “abanão”.

O Primeiro-Ministro disse que precisamos de um “abanão” ou reguadas por mau-comportamento? Será outro conselho da sua perspicaz vizinha?

Um governante é eleito para tomar decisões, com base nas mais recentes vigilâncias epidemiológicas, não para justificar as medidas que considera necessárias com paternalismos desrespeitosos.

A segunda vaga era esperada desde Março. É, portanto, uma afronta acusar os portugueses (que têm sido, no geral, muito cumpridores), quando o próprio não robusteceu o Sistema Nacional de Saúde, não investiu em testes, não autorizou a redução do número de alunos por turma, não testou com regularidade os funcionários dos lares de idosos,… só para citar algumas medidas muito básicas que qualquer leigo, como eu, entende como indispensáveis.

Convém acrescentar que niguém tem culpa de adoecer. Contrair o vírus não é sinónimo de negligência (nem um castigo divino, ao jeito medieval); é apenas o risco a que se sujeita quem trabalha e… consequência de uma segunda vaga pandémica!

O poder seduz, embriaga e corrompe.

Os contextos de crise são especialmente perigosos e já potenciaram distopias muito reais.

Distopias demasiado próximas no tempo que inspiraram as ficcionadas.

Reler 1984, de George Orwell, talvez seja conveniente, neste momento.

A singular ideia de António Costa, de tornar obrigatória a instalação da aplicação StayAwayCovid, recordou-me esta obra-prima e esta associação é, por si só, arrepiante.

Perdi a minha inocência, enquanto cidadã, quando comecei a estudar História. Ler as distopias 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo , de Aldous Huxley e até A História de uma Serva, de Margaret Atwood, são os verdadeiros “abanões” de que precisamos.

Ainda bem que perdi essa candura civil, porque quem nos governa precisa de seres lúcidos e conscientes:

Artigo 21.º da Constituição: “Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.”

A distopia torna-se perigosamente real quando é a própria autoridade pública que nos “ofende”.

Fernanda Câncio, no dia 17 de outubro, refletiu sobre esta e outras questões.


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Doce pássaro

Geraldo Eustáquio de Sousa ou Letízia Lanz é uma lição de vida.

Sabemos tão pouco…

Temos menos de um século para aprender alguma coisa desta complexidade louca que nos rodeia e nos habita.

Declaro-me, por conseguinte, sem tempo para ouvir os enfadonhos (tão chatos!) que pensam que sabem tudo; os arrogantes e os seus primos paternalistas podem seguir sem parar. Os medrosos teóricos que gostam de apontar o dedo também escusam de se demorar por aqui; chegam-me os meus medos. Ai, e moralistas… distância. Até os moralistas Covid muito bem intencionados. Já não consigo!

Só quero ouvir e ler quem me traz lições por aquilo que é, faz e persegue.

Só quero os que me incitam a ser feliz.

Agora.

Sem mais adiamentos.

A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos

Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança
e sorrir e cantar e brincar e dançar
e vestir-se com todas as cores
e entregar-se a todos os amores
experimentando a vida em todos os seus sabores
sem preconceito ou pudor

Tempo de entusiasmo e de coragem
em que todo desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda a disposição de tentar algo novo,
de novo e de novo, e quantas vezes for preciso

Essa idade, tão fugaz na vida da gente,
chama-se presente,
e tem apenas a duração do instante que passa …
… doce pássaro do aqui e agora
que quando se dá por ele já partiu para nunca mais!


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Golias

No meu programa de eleição, “Original é a Cultura” – SIC, debateu-se o poder da informação verdadeira, difícil de encontrar, e o perigo da informação falsa, que nos bombardeia diariamente.

A quem interessa esta circulação de fake news?

Nada é inocente neste mundo digital.

A questão é: como escapar a esta avalanche de informação que torna tão difícil destrinçar o verdadeiro do falso?

Vemos essa questão de forma gritante durante esta pandemia. Ninguém nos diz a verdadeira dimensão da pandemia, circulam números díspares, a própria Graça Freitas nos confunde,

Na verdade, é impossível desenlear a verdade quando todos os blocos noticiosos transformam tragédias em reality-shows. Morte, violência e sexo são garantias de audiências.

Por outro lado, a era da informação atualizada ao minuto obriga a que as fontes não sejam confirmadas e que nos sirvam a versão fast-food do jornalismo.

O que podemos nós, David, contra este Golias desinformativo que nos manipula e que já fez estragos na América, com a eleição de Trump e, no Reino Unido, na votação a favor do Brexit?

Cristina Ovídio recomenda este documentário: “Nada é Privado: O Escândalo da Cambridge Analytica”.

Aprendi, confirmei o que já sabia mas, sobretudo, fiquei em choque com a dimensão daquilo que eu não conseguia imaginar.

Desconhecia que, atualmente, os dados que introduzimos descontraidamente no Facebook estão cotados e são mais valiosos do que o petróleo. Obviamente que são vendidos e bem pagos:

Os nossos rastros digitais estão a ser extraídos para uma indústria de trilhões de dólares por ano. Nós somos o produto.

Estavamos tão encantados com a conetividade que não lemos os termos e condições.”

Como somos incessantemente rastreados, são-nos apresentados conteúdos de acordo com o nosso perfil digital. O objetivo desta jogada pode ser muito diversificado e não é só de caráter comercial (como eu julgava), mas também é político e/ou ideológico.

Neste documentário, denuncia-se como a Cambridge Analytica atuou em várias campanhas eleitorais e como o Facebook lhe vendeu dados de 87 milhões de usuários.

Um negógio ultra-secreto que Mark Zurkerberg só admitiu quando as provas já eram demasiado evidentes.

Negócios escuros e ilícitos que demonstram que não é por acaso que as empresas mais ricas do mundo são as de tecnologia: Facebook, Google, Amazon e Tesla.

A Cambridge Analytica foi também uma empresa bilionária e líder mundial durante 15 anos, até que encerrou a atividade, de forma a ocultar informação e dificultar a investigação do Parlamento Britânico.

Trabalhou nas campanhas de vários políticos republicanos, na campanha de Trump e na campanha do Brexit. Usou informações pessoais (compradas a Mark Zurkerberg e sem autorização dos usuários, claro) e accionou os famosos psicográficos (testes de personalidade elaborados por equipas de psicólogos e que possibilitam prever comportamentos – permitem, evidentemente, alterá-los, ao agir a montante). Desta forma ilegal, a empresa ajudou os seus clientes a obter os resultados, para nós, absolutamente imprevisíveis: o Brexit concretizou-se e, cereja em cima do bolo, Trump ganhou as eleições.

Os alvos deste tipo de empresas que se apresentam como “modificadoras de comportamentos” são os “persuasíveis”; são estes que vão ser sujeitos a fake-news personalizadas em todas as plataformas digitais a que se ligam.

Os “persuasíveis” são os eleitores que encaixam no perfil de indecisos ou são pessoas com pouca formação ou socialmente fragilizados ou jovens, etc.

Há números que nos fazem pensar que umas mentirinhas espalhadas por aí não são assim tão inofensivas: o diretor da campanha digital de 2016 de Trump admitiu ter publicado 5,9 milhoes de anúncios no Facebook; Hillary publicou 66 000. Claro que o diretor da campanha de Donal Trump foi promovido a chefe de campanha para as presidenciais de 2020, ou seja, o crime compensa e vai repetir-se.

Inofensivo também não é o vice-presidente da Cambridge Analytica. Partilha a assustadora ideia de Breitbart: “Se quiseres mudar uma sociedade nos seus fundamentos tens de destruí-la primeiro. Só depois de destruí-la em pedaços é que podes remodelar os pedaços segundo a tua visão de uma nova sociedade”.

São pessoas que estão claramente em guerra e não têm contemplações.

Não são inofensivas nem se podem substimar, pois subverteram, por diversas vezes, regimes democráticos e alcançaram o seu objetivo, surpreendendo o mundo.

Estas empresas treinaram, inclusivamente, militares para estes aprenderem a influenciar o comportamento dos inimigos, em contexto de guerra. Por exemplo, no Afeganistão, o militar podia destruir uma aldeia, mas aprendeu técnicas para persuadir os habitantes para que se juntassem a ele, convencendo-os, por exemplo, de que os talibans iriam destruir a sua aldeia…

Na política e na guerra, fica clara a ideia de que a verdade não é um valor e que os fins dos clientes destas empresas justificam claramente os meios.

No documentário, o Facebook não é poupado e são explicitados os seus truques: os mesmos usados pelos casinos e que passam por aproveitar os instintos básicos para cativar as pessoas. O medo e a raiva são dois deles, mas os anunciantes são livres para explorar toda a emotividade da audiência. Esta rede social é descrita como um “gangster digital” totalmente impune.

A jornalista Carole Cadwalladr conseguiu reunir muita informação e explica, neste vídeo, como o Parlamento Britânico investigou durante 18 meses as ligações de Mark Zurkerberg à Cambridge Analytica, durante a campanha do Brexit, e como não consegue condená-lo, pois ele encontra-se, providencialmente, fora do alcance da lei britânica.

Ainda no programa “Original é a Cultura”, Dulce Maria Cardoso sugere o documentário “After Truth“.

Este documentário desmascara a dorma como as fake news são usadas, conscientemente, como armas para promover ou destruir um candidato partidário; são denominadas, de forma assustadora, como uma “arma de guerra para reconduzir a História”. Por vezes, as fake news chegam até às grandes cadeias de televisão americanas. É verdade que acabam por ser desmentidas, mas o estrago já está feito. Há episódios tão bizarros que parecem mesmo ficção.

Todas as manobras políticas desmascaradas aproximam-se da série House of Cards, série que eu deixei de seguir porque a considerei, ingenuamente, muito artificial e exagerada.

Estes dois documentários alertaram-me para a manipulação a que estamos sujeitos e renovaram-me a vontade de fechar a minha conta no Facebook.


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Um íntimo deserto

Juan Vicente Piqueras indica-nos o humor nas suas Instruções para atravessar o deserto.

Para além de humor, precisamos de coragem e lucidez para manter o foco. É tão fácil o desvaire…

“Para atravessar este íntimo deserto
é preciso coragem, tempo, vontade
de não perder a vida preparando
uma viagem que jamais faremos,
um camelo leal, um companheiro
igual, um mapa vão,
um turbante, uma bússola,
dez caixas de bombons (souvenir do Ocidente)
e uma jilaba azul… que mais? Um livro
que faça as vezes de Corão, de Bíblia,
de Tora e Tao,
e tenha as páginas em branco ou esteja escrito
numa língua que ninguém compreenda.
Faz falta uma certa confiança na sede,
um olhar límpido e um caderno
de notas que os dias
são compridos, lentos, e as noites tristes,
e não há tenda nem tribo
nem deus que ajudem em tanta solidão.
Para atravessar este íntimo deserto
faz falta querer, ter de, decidir
começar a andar e não olhar para trás,
não recuar, não ter outro remédio.”

astrid-verhoef-inscapes-tree

IGNANT