“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Golias

2 comentários

No meu programa de eleição, “Original é a Cultura” – SIC, debateu-se o poder da informação verdadeira, difícil de encontrar, e o perigo da informação falsa, que nos bombardeia diariamente.

A quem interessa esta circulação de fake news?

Nada é inocente neste mundo digital.

A questão é: como escapar a esta avalanche de informação que torna tão difícil destrinçar o verdadeiro do falso?

Vemos essa questão de forma gritante durante esta pandemia. Ninguém nos diz a verdadeira dimensão da pandemia, circulam números díspares, a própria Graça Freitas nos confunde,

Na verdade, é impossível desenlear a verdade quando todos os blocos noticiosos transformam tragédias em reality-shows. Morte, violência e sexo são garantias de audiências.

Por outro lado, a era da informação atualizada ao minuto obriga a que as fontes não sejam confirmadas e que nos sirvam a versão fast-food do jornalismo.

O que podemos nós, David, contra este Golias desinformativo que nos manipula e que já fez estragos na América, com a eleição de Trump e, no Reino Unido, na votação a favor do Brexit?

Cristina Ovídio recomenda este documentário: “Nada é Privado: O Escândalo da Cambridge Analytica”.

Aprendi, confirmei o que já sabia mas, sobretudo, fiquei em choque com a dimensão daquilo que eu não conseguia imaginar.

Desconhecia que, atualmente, os dados que introduzimos descontraidamente no Facebook estão cotados e são mais valiosos do que o petróleo. Obviamente que são vendidos e bem pagos:

Os nossos rastros digitais estão a ser extraídos para uma indústria de trilhões de dólares por ano. Nós somos o produto.

Estavamos tão encantados com a conetividade que não lemos os termos e condições.”

Como somos incessantemente rastreados, são-nos apresentados conteúdos de acordo com o nosso perfil digital. O objetivo desta jogada pode ser muito diversificado e não é só de caráter comercial (como eu julgava), mas também é político e/ou ideológico.

Neste documentário, denuncia-se como a Cambridge Analytica atuou em várias campanhas eleitorais e como o Facebook lhe vendeu dados de 87 milhões de usuários.

Um negógio ultra-secreto que Mark Zurkerberg só admitiu quando as provas já eram demasiado evidentes.

Negócios escuros e ilícitos que demonstram que não é por acaso que as empresas mais ricas do mundo são as de tecnologia: Facebook, Google, Amazon e Tesla.

A Cambridge Analytica foi também uma empresa bilionária e líder mundial durante 15 anos, até que encerrou a atividade, de forma a ocultar informação e dificultar a investigação do Parlamento Britânico.

Trabalhou nas campanhas de vários políticos republicanos, na campanha de Trump e na campanha do Brexit. Usou informações pessoais (compradas a Mark Zurkerberg e sem autorização dos usuários, claro) e accionou os famosos psicográficos (testes de personalidade elaborados por equipas de psicólogos e que possibilitam prever comportamentos – permitem, evidentemente, alterá-los, ao agir a montante). Desta forma ilegal, a empresa ajudou os seus clientes a obter os resultados, para nós, absolutamente imprevisíveis: o Brexit concretizou-se e, cereja em cima do bolo, Trump ganhou as eleições.

Os alvos deste tipo de empresas que se apresentam como “modificadoras de comportamentos” são os “persuasíveis”; são estes que vão ser sujeitos a fake-news personalizadas em todas as plataformas digitais a que se ligam.

Os “persuasíveis” são os eleitores que encaixam no perfil de indecisos ou são pessoas com pouca formação ou socialmente fragilizados ou jovens, etc.

Há números que nos fazem pensar que umas mentirinhas espalhadas por aí não são assim tão inofensivas: o diretor da campanha digital de 2016 de Trump admitiu ter publicado 5,9 milhoes de anúncios no Facebook; Hillary publicou 66 000. Claro que o diretor da campanha de Donal Trump foi promovido a chefe de campanha para as presidenciais de 2020, ou seja, o crime compensa e vai repetir-se.

Inofensivo também não é o vice-presidente da Cambridge Analytica. Partilha a assustadora ideia de Breitbart: “Se quiseres mudar uma sociedade nos seus fundamentos tens de destruí-la primeiro. Só depois de destruí-la em pedaços é que podes remodelar os pedaços segundo a tua visão de uma nova sociedade”.

São pessoas que estão claramente em guerra e não têm contemplações.

Não são inofensivas nem se podem substimar, pois subverteram, por diversas vezes, regimes democráticos e alcançaram o seu objetivo, surpreendendo o mundo.

Estas empresas treinaram, inclusivamente, militares para estes aprenderem a influenciar o comportamento dos inimigos, em contexto de guerra. Por exemplo, no Afeganistão, o militar podia destruir uma aldeia, mas aprendeu técnicas para persuadir os habitantes para que se juntassem a ele, convencendo-os, por exemplo, de que os talibans iriam destruir a sua aldeia…

Na política e na guerra, fica clara a ideia de que a verdade não é um valor e que os fins dos clientes destas empresas justificam claramente os meios.

No documentário, o Facebook não é poupado e são explicitados os seus truques: os mesmos usados pelos casinos e que passam por aproveitar os instintos básicos para cativar as pessoas. O medo e a raiva são dois deles, mas os anunciantes são livres para explorar toda a emotividade da audiência. Esta rede social é descrita como um “gangster digital” totalmente impune.

A jornalista Carole Cadwalladr conseguiu reunir muita informação e explica, neste vídeo, como o Parlamento Britânico investigou durante 18 meses as ligações de Mark Zurkerberg à Cambridge Analytica, durante a campanha do Brexit, e como não consegue condená-lo, pois ele encontra-se, providencialmente, fora do alcance da lei britânica.

Ainda no programa “Original é a Cultura”, Dulce Maria Cardoso sugere o documentário “After Truth“.

Este documentário desmascara a dorma como as fake news são usadas, conscientemente, como armas para promover ou destruir um candidato partidário; são denominadas, de forma assustadora, como uma “arma de guerra para reconduzir a História”. Por vezes, as fake news chegam até às grandes cadeias de televisão americanas. É verdade que acabam por ser desmentidas, mas o estrago já está feito. Há episódios tão bizarros que parecem mesmo ficção.

Todas as manobras políticas desmascaradas aproximam-se da série House of Cards, série que eu deixei de seguir porque a considerei, ingenuamente, muito artificial e exagerada.

Estes dois documentários alertaram-me para a manipulação a que estamos sujeitos e renovaram-me a vontade de fechar a minha conta no Facebook.

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

2 thoughts on “Golias

  1. Aqui no Brasil, vimos o efeito disso… mas, à época, confesso que me espantei com as pessoas replicando tudo isso. Uma pessoa ao meu lado no café, insistia sem dificuldades que na questão da tal mamadeira de piroca, que seria distribuída nas escolas e o tal do kit gay. E afirmava que a cunhada havia recebido. Respirei fundo e perguntei: você é evangélica? Foi uma afirmativa imensa, sem pudor algum. Eu sorri e perguntei: então, você estaria no julgamento dele e o crucificaria, certo? Ela arregalou os olhos, usou trechos da bíblia mas, não respondeu.
    Nada tenho eu contra a fé alheia, só que por aqui o fanatismo está no mesmo nível dos islâmicos radicais.
    E quanto ao papel do Facebook, esta claro que o ódio existente na nossa realidade, vem dessa rede social. Eu mesma me senti sufocada com tanta gente esbravejando por ali. É muito tóxico e as pessoas gostam de atacar as outras, por se sentirem protegidas quando, na verdade, não estão… viramos um mísero produto com código de barras pelo qual se paga caro.

    bacio cara mia

    • Muito verdade, Lunna!
      Para mim, o Facebook também se tornou tóxico; lugar a evitar, mesmo, pela agressividade dos utilizadores e pelo facto de nos termos tornado “um mísero produto com código de barras”. Tenho pena, porque é uma rede com um potencial incrível. De facto, tudo o que pode ter um uso pernicioso, tem um uso pernicioso.
      Bacio!

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