“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Galdéria

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«Se a Língua Portuguesa fosse uma personagem, o que seria? Uma cortesã, uma concubina, uma galdéria?
Uma galdéria, disso não tenho dúvida. Andou por todas as camas: a galega, a castelhana, a francesa… E saiu delas mais fresca que nunca.»

Fernando Venâncio responde com graça à pergunta provocatória da jornalista Joana Marques, sobre as diferentes influências que a língua portuguesa sofreu.

A nossa língua começou a sua “odisseia” pelos anos 600 e teve um percurso rico e incrível.

No entanto, o que eu não sabia é que o Português, como língua diferente do Galego, começa a tomar corpo apenas por volta de 1400; até aí falávamos… Galego.

Fiquei surpreendida, porque sempre li que falávamos “galaico-português”, antes desse ano. Julgava que a nossa lírica trovadoresca estava escrita em “galaico-português”. É verdade que nunca tinha pensado profundamente na denominação e associei-a à área geográfica que abrangia: as margens norte e sul do Rio Minho.

Fernando Venâncio acrescenta:

« [o galaico-português] é uma história mal contada. Uma história à nossa medida, para nos tranquilizar. A língua em que a lírica chamada «galaico-portuguesa» foi escrita foi, sem sombra de dúvida, o galego. Por esta razão simples: o português ainda não existia, e só seria criado, como tenho vindo a lembrar, no século de Quatrocentos. Quando, em 1290, um ensaísta catalão enumera as grandes línguas poéticas da altura, fala no “galego”. E importaria recordar que as expressões “língua portuguesa” e “português” só aparecem, entre nós, nos anos de 1430, quando as correspondentes castelhanas já circulavam dois séculos antes. Só que, no momento em que essa lírica regressa à luz do dia, ao longo de Oitocentos, ninguém em Portugal admitiria que se dissesse estar em “galego”. O que não seria nada do outro mundo, visto quase todos os seus autores serem galegos. É então, isto por 1880, que se inventa a etiqueta “galaico-português” e, de caminho, se inventa o “galego-português” como idioma. A grande filóloga Carolina Michaëlis de Vasconcelos ainda tenta chamar ”galego” à língua das cantigas, mas acaba por render-se às susceptibilidades portuguesas.»

A língua portuguesa não pára de surpreender-me, quer enquanto instrumento de trabalho, quer de prazer.

Não me ofende que tenha derivado do Galego (que por sua vez derivou do latim vulgar, que por sua vez derivou do indoeuropeu,…). Não sou tão pudica que me melindre com o facto de ela ter dormido prazenteiramente, mais tarde, com o latim erudito, com o francês, com o inglês e com as línguas índigenas dos novos continentes.

Não sou purista ao ponto de não me encantar com o Português adocicado dos youtubers brasileiros que a Beatriz me apresenta. Apesar da estridência que regra geral os acompanha, ouço uma língua com um vocabulário mais rico e rebuscado do que aquele que nós usamos e confirmo que ninguém é dono da língua. Muito menos nós, portugueses: somos apenas 10 milhões de falantes perante os 240 milhões que se deitam todos os dias com esta bela galdéria.

Definitivamente, é melhor abrirmos a cabeça e iniciarmos uma relação poliamorosa!

Fotografias do francês Laurent Castellani, um fotógrafo que sofre de agorafobia e que nos proporciona grandes viagens através da sua obra.

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

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