“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Ciclopes

2 comentários

Julio Cortázar (1914 – 1984), escritor argentino, é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo. Mestre no conto e na narrativa curta, a sua obra é apenas comparável a nomes como os de Edgar Allan Poe, Tchékhov ou Borges.

Não me lembro de ter lido algum texto de Cortázar.

De quantas vidas precisaríamos para conseguirmos ler todos os livros que desejamos?

Na página digital da livraria Bertrand, entrou-me Cortázar pelos olhos diretamente para o coração.

“Toco a tua boca.

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

in ‘Rayuela’, disponível aqui: bit.ly/rayuela-

Encontrei este excerto AQUI.

Os ciclopes são do fotógrafo espanhol Cayetano González, um adepto da luz natural, neste mundo tão cheio de filtros…

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

2 thoughts on “Ciclopes

  1. Ah, já li tanto e tanto Cortázar… meu primeiro contato com ele se deu em Coimbra, durante uma leitura. Foi amor no primeiro tato… e esse trecho do “jogo da amarelinha” é de uma sensualidade maravilhosa, como todo o livro, onde se inventa um dialecto dos amantes. Maravilhoso.

    Lembro-me que demorou a ser publicado em Portugal. Era uma reclamação de uma amiga livreira portuguesa que conheço desde os tempos de Universidade e com quem travava diálogos primorosos, inclusive sobre esse livro que ela dizia ser o livro dos livros.

    Aliás, cara mia… eu quase dei o nome ao meu clube de leitura de O clube da serpente por causa desse livro. rs

    baci

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