“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

A casa do amanhã

4 comentários

Quem nasceu em Democracia e Liberdade, como eu, nunca pensou que estas conquistas, relativamente recentes no nosso país, poderiam tornar-se tão frágeis e voláteis.

Vivemos em ininterruptos estados de calamidade/emergência e outros estados híbridos há meses.

Sucedem-se regimes de excepção que determinam, sem pudores, a “suspensão parcial do exercício de direitos, liberdades e garantias, prevendo-se, se necessário, o reforço dos poderes das autoridades administrativas civis e o apoio às mesmas por parte das Forças Armadas”, conforme consta do site da Assembleia da República.

Receio que quem realmente nos governa (e não me refiro ao séquito do Primeiro-Ministro) se habitue a esta submissão generalizada, ordeira (e tão conveniente) dos povos.

O pequeno comércio foi arruinado, a restauração familiar faliu, os produtores por conta própria foram cilindrados e os grandes distribuidores monopolizam e engordam. As grandes fortunas nunca estiveram tão prósperas, como em 2020/2021:

“Assim [o enriquecimento] aconteceu com os maiores milionários de todo o mundo, que se “aguentaram bastante bem” neste novo normal e viram as suas fortunas engordar 27,5% entre abril e julho, escreve o jornal “The Guardian“.

Isso é o mesmo que dizer que pouco mais de duas mil pessoas arrecadam atualmente 8,7 biliões de euros nos seus cofres e até enriqueceram em pleno pico da pandemia, de acordo com um relatório do banco suíço UBS.”

Coincidências?!

Concomitantemente, o cidadão comum definha: só em Portugal 100 mil pessoas ficaram desempregados, as doenças mentais aumentaram e as outras, terrivelmente mortíferas (oncológicas e cardíacas), têm sido negligenciadas.

A par disto, os pequenos prazeres quotidianos são proibidos.

Beber um café, conversar com um amigo na rua, ler numa esplanada, dar um passeio pela cidade ao fim-de-semana, comprar um livro na livraria, oferecer um sorriso destapado, abraçar os amigos, beijar os amantes,… são actos subversivos e criminosos.

Pessoalmente, sou afortunada e, por isso, sinto o dever cívico de manifestar a minha preocupação relativamente àquilo que vai para além da sobrevivência básica; como humanos, temos de ansiar, em todas as circunstâncias, por mais do que isso…

Na verdade, nem é o confinamento per si que me perturba.

O clima de proibição e o incentivo à delação, em pleno século XXI, é que me desconcertam e retiram o ânimo.

Também por isso, neste segundo confinamento, precisei de manter-me ativa.

Fui melhorando a minha casa e coloquei em prática alguns projetos adiados.

Entretive as mãos com tinta branca, reactivei a aparelhagem abandonada, coloquei os pensamentos em ordem e fui descobrindo vários poadcasts que não conhecia.

A Beleza das Pequenas Coisas de Bernardo Mendonça é um deles, com convidados tão excepcionais como Maria do Rosário Pedreira, valter hugo mãe, Dulce Maria Cardoso, João Tordo,…

Nos últimos dias, ouvi ainda o podcast “O Poema ensina a cair” de Raquel Marinho, com convidados como Eunice Muñoz, Capicua, Rui Vieira Nery ou Alexandre Quintanilha. Ouvir a Raquel Marinho dizer, com frequência: “A Poesia é a distância mais curta entre duas pessoas” restitui-me a fé nos humanos.

O episódio com Alexandre Quintanilha também foi terapêutico e profundamente comovente, sobretudo no momento em que ele partilhou este poema do libanês Khalil Gibran. Tal como Quintanilha, li muitas vezes Khalil Gibran, quando tinha vinte anos.

O poema “As Crianças” ganhou um novo sentido, agora que sou mãe há precisamente uma década.

Os vossos filhos [são] setas vivas projectadas

As crianças

E uma mulher que trazia

um menino ao colo disse:

-Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:

-Os vossos filhos

não são vossos filhos:

são filhos e filhas da própria Vida.

Vêm por vosso meio

mas não de vós;

e apesar de estarem convosco,

não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor,

mas não os vossos pensamentos

porque eles têm os seus.

Podeis acolher os seus corpos

mas não as suas almas:

porque as suas almas

habitam a casa do amanhã

que não podeis visitar,

nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles,

mas não tenteis fazê-los como vós.

Porque a vida não vai para trás,

nem se detém com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos

as setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,

e retêm-vos com o seu poder para que as setas

possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro

seja de Alegria.

Porque assim como Ele gosta da seta que voa,

também gosta do arco que fica.”

No dia das fotografias, nevou.

Corremos para a rua, esquecemo-nos da máscara em casa, brincámos no Rossio e comemos neve.

Foi o último dia em que me senti livre, dentro da cidade.

(A versão do poema de Khalil Gibran foi retirada dos cadernos de Poesia mais-que perfeita. Há várias décadas circulavam por Coimbra, pelas mãos de alguns estudantes, estas pequenas antologias; são da editora “A Mar Arte”, e a minha edição é de 1994. A coleção chamava-se “O Reino dos Loucos” e eu, sem noção de como era privilegiada, feliz e livre, era uma delas.)

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

4 thoughts on “A casa do amanhã

  1. Que possamos manter a esperança como farol a nos iluminar o caminho mesmo que a escuridão se faça presente. Não está fácil viver nesse momento mas que possamos contar com apoio e textos belos como esse que fez para manter a mente sã e o coração saudável. Fiquem bem!

  2. Sempre que você menciona Coimbra volto para lá e penso… percorremos os mesmos caminhos. Então volto dessa realidade de ontem e penso em tudo que disse. Esse tempo onde tudo é frágil. A Democracia de novo sofre do mesmo horror de ontem. Eu não vivi ditaduras. Soube delas e por tudo que li e ouvi, recuso. Mas acho estranho que tantas pessoas a considerem.

    • Lunna, é verdade, percorremos as ruas da minha cidade do coração: eu estudei lá entre 1994-1999, pois também lá estagiei.
      Foi noutra vida… tão longe de ideias de ditadura que por vezes se aproximam demasiado, neste presente tão incerto.
      Bacio!

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