“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


Deixe um comentário

Labaredem-se

Prometeu foi um importante “benfeitor da humanidade”:

roubou algumas sementes de fogo à roda do Sol e levou-as para Terra, escondidas num caule de férula.

Zeus puniu-nos com uma terrível criatura forjada para o efeito, Pandora.

Prometeu não ficou muito melhor: foi preso com grilhões de aço no cimo do Cáucaso e uma águia devorou-lhe o fígado que se ia renovando incessantemente.

O mito podia terminar aqui, mas não é verdade.

Héracles passou pelo Cáucaso e trepassou com uma flecha a águia de Prometeu.

Nós ficámos com a Pandora e a maldita caixa, mas já não nos tiraram o fogo.

É desse fogo que nascem as metáforas.

Como esta da Cláudia R. Sampaio.

Resta-nos honrar Prometeu e os Poetas:

labaredemo-nos, então!

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre


Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha


Sempre me recusei a arder como os outros


Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!


Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio


E no fim são todos cinza

(O mito de Prometeu foi retirado do fascinante Dicionário da Mitologia, de Pierre Grimal)


Deixe um comentário

Sementes

Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.”

(final do poema “O Minotauro”, de Sophia de Mello Breyner)

Atravessámos quase dois anos de pandemia e não aprendemos o que é realmente importante.

Houve palmas para os médicos e enfermeiros, mas não se melhoraram as condições de trabalho destas profissões. Reconheceu-se o papel do sector cultural, durante os confinamentos, mas continua a precariedade no sector. Realçou-se o desempenho dos professores, mas prolifera a desvalorização social e política da profissão.

Não evoluiremos, enquanto não percebermos que a saúde, a justiça, a arte e o conhecimento são os verdadeiros pilares de um povo. Já que não brilhamos com euros ou dólares nos bolsos, poderíamos apostar na luminescência espiritual…

Vivemos na vertigem da rapidez e da mudança; só interessa o que flui ou telinta.

A comunicação seguiu a tendência e privilegia o emoji e a imagem.

A palavra, que nos distingue enquanto espécie, exige tempo e concentração e não temos nem um, nem outra.

Para contrariar esta perversidade, é primordial ensinar a fruir o tempo livre, assim como é essencial treinar a capacidade de concentração e educar para a empatia e para a gestão das emoções.

Ser professor é uma nobre profissão: é ao professor que compete a reponsabilidade de recolocar o foco da sociedade na palavra. Os professores são, por princípio, os guardiões da palavra (falada e escrita).

O início dos séculos e dos milénios são sempre conturbados e, no início do nosso, criou-se alguma confusão em relação à função do professor.

Criou-se o jargão retórico de que o professor do século XXI devia ser jovial, sintético e multimédia.

O discurso e o diálogo ficavam, definitivamente, no século XX.

Felizmente, acima das modas barrocas, está a nossa ancestralidade cultural e a palavra está connosco desde o início; é a ela que instintivamente recorremos quando tudo é incerto e rui.

Está provado que, perante a avalanche tecnológica, a solidão aumenta proporcionalmente, assim como a depressão. Não aprendemos a escutar, mas temos uma necessidade premente de sermos ouvidos.

Educar para a escuta ativa, para a reflexão e para a palavra: são estes os verdadeiros lemas desta professora do século XXI. A multimédia é apenas uma excelente ferramenta para chegar a este fim.

Eugénio de Andrade fala nos guardiões de sementes:

“Que fizeste das palavras?
Que contas darás dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e do sol dos cavalos?
Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?”

O Original é a Cultura regressou e o episódio da rentrée foi precisamente dedicado aos professores.

Fotografia de Brian Oldham.


2 comentários

Mar nas veias

Mundo redondo, tenho o mar nas veias.

E no mar há sereias.”

Miguel Torga, transmontano, é mais conhecido pelas temáticas telúricas, mas é um poeta da Natureza e, como tal, sensível ao mar.

A ideia de ter o mar nas veias e toda a sua flora e fauna é muito tranquilizante.

Significa que o mar caminha comigo para onde quer que eu vá.

É uma ideia muito apaziguadora, sobretudo porque passo grande parte do ano tão longe deste universo.

Quanto à mais bela sereia do mar, cujo aquário transportei durante nove meses, está sempre comigo.

Também na costa, há plantas aromáticas e foi com elas que recuperei a disponibilidade para as flores, num caloroso almoço familiar.

Neste fim de semana, voltei à minha cidade e estou a tentar repor o meu stock de amizade, abraços, teatro e maresia.

Para passar o resto do ano a flutuar… ou a voar.