“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Winter 2021/22

Estamos no último trimestre de 2021 e já é válido que comecemos a fazer balanços:

Superei com muita distinção o desafio a que me propus no início do ano: reduzi o meu vício consumista… o que não significa que se tenha extinguido a vaidade.

Tomei, apenas, consciência de que tenho muita roupa e, portanto, posso tratar de fazer 1000 conjugações que andarei sempre com um look novo até ao ano 2100.

Depois de dois invernos em casa e de alguns desvarios nas compras online, para compensar insensatamente a frustração do isolamento, chegou a hora de enfrentar o Outono e de procurar algumas inspirações.

Gosto sempre de procurar modelitos de street style, o que faz ainda mais sentido agora, uma vez que saímos da redoma.

Num estilo mais sóbrio e neutro:

Ou com mais cor e diversão:

Ou…

Pára tudo!

Quem são estes dois fenómenos?

OLIVIA on Twitter: "sarah linh tran and christophe lemaire… "

Christophe Lemaire & Sarah-Linh Tran, criadores da LEMAIRE!

Totalmente inspiradores!


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Labaredem-se

Prometeu foi um importante “benfeitor da humanidade”:

roubou algumas sementes de fogo à roda do Sol e levou-as para Terra, escondidas num caule de férula.

Zeus puniu-nos com uma terrível criatura forjada para o efeito, Pandora.

Prometeu não ficou muito melhor: foi preso com grilhões de aço no cimo do Cáucaso e uma águia devorou-lhe o fígado que se ia renovando incessantemente.

O mito podia terminar aqui, mas não é verdade.

Héracles passou pelo Cáucaso e trepassou com uma flecha a águia de Prometeu.

Nós ficámos com a Pandora e a maldita caixa, mas já não nos tiraram o fogo.

É desse fogo que nascem as metáforas.

Como esta da Cláudia R. Sampaio.

Resta-nos honrar Prometeu e os Poetas:

labaredemo-nos, então!

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre


Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha


Sempre me recusei a arder como os outros


Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!


Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio


E no fim são todos cinza

(O mito de Prometeu foi retirado do fascinante Dicionário da Mitologia, de Pierre Grimal)


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Sementes

Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.”

(final do poema “O Minotauro”, de Sophia de Mello Breyner)

Atravessámos quase dois anos de pandemia e não aprendemos o que é realmente importante.

Houve palmas para os médicos e enfermeiros, mas não se melhoraram as condições de trabalho destas profissões. Reconheceu-se o papel do sector cultural, durante os confinamentos, mas continua a precariedade no sector. Realçou-se o desempenho dos professores, mas prolifera a desvalorização social e política da profissão.

Não evoluiremos, enquanto não percebermos que a saúde, a justiça, a arte e o conhecimento são os verdadeiros pilares de um povo. Já que não brilhamos com euros ou dólares nos bolsos, poderíamos apostar na luminescência espiritual…

Vivemos na vertigem da rapidez e da mudança; só interessa o que flui ou telinta.

A comunicação seguiu a tendência e privilegia o emoji e a imagem.

A palavra, que nos distingue enquanto espécie, exige tempo e concentração e não temos nem um, nem outra.

Para contrariar esta perversidade, é primordial ensinar a fruir o tempo livre, assim como é essencial treinar a capacidade de concentração e educar para a empatia e para a gestão das emoções.

Ser professor é uma nobre profissão: é ao professor que compete a reponsabilidade de recolocar o foco da sociedade na palavra. Os professores são, por princípio, os guardiões da palavra (falada e escrita).

O início dos séculos e dos milénios são sempre conturbados e, no início do nosso, criou-se alguma confusão em relação à função do professor.

Criou-se o jargão retórico de que o professor do século XXI devia ser jovial, sintético e multimédia.

O discurso e o diálogo ficavam, definitivamente, no século XX.

Felizmente, acima das modas barrocas, está a nossa ancestralidade cultural e a palavra está connosco desde o início; é a ela que instintivamente recorremos quando tudo é incerto e rui.

Está provado que, perante a avalanche tecnológica, a solidão aumenta proporcionalmente, assim como a depressão. Não aprendemos a escutar, mas temos uma necessidade premente de sermos ouvidos.

Educar para a escuta ativa, para a reflexão e para a palavra: são estes os verdadeiros lemas desta professora do século XXI. A multimédia é apenas uma excelente ferramenta para chegar a este fim.

Eugénio de Andrade fala nos guardiões de sementes:

“Que fizeste das palavras?
Que contas darás dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e do sol dos cavalos?
Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?”

O Original é a Cultura regressou e o episódio da rentrée foi precisamente dedicado aos professores.

Fotografia de Brian Oldham.


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Mar nas veias

Mundo redondo, tenho o mar nas veias.

E no mar há sereias.”

Miguel Torga, transmontano, é mais conhecido pelas temáticas telúricas, mas é um poeta da Natureza e, como tal, sensível ao mar.

A ideia de ter o mar nas veias e toda a sua flora e fauna é muito tranquilizante.

Significa que o mar caminha comigo para onde quer que eu vá.

É uma ideia muito apaziguadora, sobretudo porque passo grande parte do ano tão longe deste universo.

Quanto à mais bela sereia do mar, cujo aquário transportei durante nove meses, está sempre comigo.

Também na costa, há plantas aromáticas e foi com elas que recuperei a disponibilidade para as flores, num caloroso almoço familiar.

Neste fim de semana, voltei à minha cidade e estou a tentar repor o meu stock de amizade, abraços, teatro e maresia.

Para passar o resto do ano a flutuar… ou a voar.