“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Novelos

5 comentários

Com a idade fui ficando mais susceptível:

um filme dramático pode arrasar o meu ânimo,

uma criança atriz arrasta-me num pranto e um policial sangrento angustia-me.

Pelo mesmo motivo, reportagens e documentários têm de ser tomados em doses homeopáticas.

O reverso dessa sensibilidade crescente é que um sorriso, um abraço, uma música, um verso ou um livro são igualmente poderosos.

O livro O Infinito num Junco, de Irene Vallejo, teve um efeito terapêutico, numa fase mais descrente que eu atravessava.

Ler acerca da invenção do objeto infinito e salvador que é o livro restitui-me alguma fé na humanidade.

Neste pequeno vídeo, a autora revela a sua grande surpresa: depois da longa investigação que fez, ficou admirada com o papel desempenhado pelas mulheres no processo da criação da literatura. Constantemente silenciadas, elas foram, todavia, as primeiras narradoras da História (não obstante todos os obstáculos físicos e sociais edificados à sua volta).

Ninguém registou, mas por milénios foram elas que contaram histórias aos filhos e aos familiares, enquanto cos/ziam, tratavam dos bebés ou limpavam a casa.

A comprovar este papel ignorado, Irene Vallejo realça o facto de haver tantos vocábulos em comum entre os textos e os têxteis:

  • o fio da narrativa, o novelo da história, a trama, a urdidura da história, o desenlace da ação, entremear o discurso ou urdir um trama.

Pergunta Irene: “O que é para nós um texto a não ser um conjunto de fios verbais atados?”

Nunca tinha pensado nestas coincidências vocabulares e considero este levantamento de expressões deveras intrigante. Na verdade, tendo as mulheres diferenças estruturais no cérebro relacionadas com a sua extraordinária competência linguística, tal facto nem deveria surpreender-me.

No entanto, como, ao longo dos últimos séculos, aprendemos a valorizar apenas o que está escrito, esse papel literário da mulher esfumou-se. Evidentemente, nesse mundo misógino da escrita, as mulheres foram, durante muitos séculos, impedidas de entrar.

Felizmente, a literatura oral é perseverante e, muito antes do registo escrito, reinou um poderoso património de partilha de experiências, das mais fantásticas ficções e emoções (vividas ou sonhadas) que nos cinzelou, sem dúvida, enquanto humanidade.

As autoras desse fabuloso império foram, sem dúvida, as mães e avós da História.

Outro facto que me deixou completamente estupefacta é que, apesar das restrições, “o primeiro autor do mundo que assina um texto com o próprio nome é uma mulher.

Mil e quinhentos anos antes de Homero, Enheduana, poeta e sacerdotisa, escreveu um conjunto de hinos cujos ecos ainda se ouvem nos salmos da Bíblia. Rubricou-os com orgulho. Era filha do rei Sargão da Acádia, que unificou a Mesopotâmia central e meridional num grande império[…] Também são suas as mais antigas notações astronómicas. Poderosa e audaciosa, atreveu-se a participar na agitada luta política da sua época, e por isso sofreu o castigo do exílio e a sua nostalgia.”

A propósito de sensibilidades, há um programa protector de almas vulneráveis imperdível na RTP2: “Volta ao Mundo em Cem Livros”, de Alexandra Lucas Coelho.

No primeiro episódio, a voz serena de Alexandra fala de quem?

Precisamente de Enheduana.

https://www.rtp.pt/play/p9507/e579261/volta-ao-mundo-em-cem-livros

Por vezes, o Universo alinha-se de forma a mostrar-nos do que somos capazes!

Enquanto mulheres e enquanto Humanidade!

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

5 thoughts on “Novelos

  1. Esse livro foi-me oferecido pelo Natal, mas ainda está em lista de espera, ou seja, ainda não o li. Acho o título lindo e fiquei ainda mais curiosa depois de ler o post.

  2. Minha nonna mantinha a história de nossa família ao nos contar a respeito dos nos ancestrais a história que tinha ouvido deles. As mulheres sempre cumpriram esse papel, de maneira mais uniforme que os homens, mais preocupados em galardia, heroísmos.
    E o mais interessante que somos maioria quando se trata de leitores e mesmo assim, durante anos, os homens eram os autores, pior, fingiam não saber que eram lidos por mulheres e por meia dúzia de gajos. rá
    Eu não conhecia a autora e já adorei os trechos e quero mais.
    Grazie pela partilha

    • Intuitivamente, já sabíamos que tinham sido as avós as primeiras contadoras de histórias, mas quase nos convenceram que essa herança não tinha muita importância em termos de património literário…
      Acredito que, finalmente, tudo está em turbulência e mudança. Que bom!
      Neste aspecto, estou muito optimista!
      Bacio!

  3. Pingback: Portrait |

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