“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Nasceu-te um Filho

Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida.
Se a não chegaste a conhecer, se a vida
ta não mostrou – já não conhecerás

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
Já nenhum astro te será fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
– ri-te de ambas, que um filho é imortal.

Jorge de Sena, in Visão Perpétua

Nasceu-me uma filha.

Há 11 anos.

Nenhum astro me será fatal.

Jamais.


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Talvez alguém

Na peça “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vivente, várias almas desfilam pelo Pugatório, tentando convencer o Anjo de que são merecedoras da eternidade no Paraíso.

A personagem aparentemente mais absurda é o Parvo.

Quando se dirige ao Anjo, repetindo o percurso de todas as personagens, responde da forma mais intrigante:

Anjo: Quem és tu?

Parvo: Samica alguém (talvez alguém).

Desde a adolescência, que me pergunto que resposta daria eu ao Anjo, se me encontrasse em semelhante situação. Décadas passaram, acumulei tantas experiências, leituras, aventuras, cobardias e bravuras que continuo sem encontrar solução.

Que resposta poderá ser mais humilde, lúcida e sábia do que a do Parvo?

Tento ter presente a lição do Parvo, quando sou elogiada, quando dou por mim com tiques de arrogância, quando cedo à tentação de menosprezar alguém que ideologicamente está distante de mim ou que não se consegue expressar da forma mais fluida.

Confirmo a superioridade do Parvo, quando sou confrontada com a soberba, com o egocentrismo, com a crueldade, e com a intolerância dos outros.

Provavelmente a sobranceria é o defeito que mais abomino… também em mim.

Lembrei-me do Parvo, quando li este poema de Emily Dickinson.

Melhor do que um “Alguém” só mesmo outro “Alguém”.

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém – Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste – ser –  Alguém!
Que pública – a Fama –
Dizer seu nome – como a Rã –
Para as palmas da Lama!

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém. Poemas.


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Coloristas

Introspecção: “observação dos fenómenos psíquicos da própria consciência”.

Passou o interminável Janeiro.

É sempre um mês de introspecção: 31 dias de observação dos fenómenos psíquicos da minha consciência é um trabalho árduo.

Fico melancólica e misantropa.

Felizmente, Fevereiro já é tempo de renascer, antecipar a Primavera e desenclausurar.

É também a altura de renovar os meus votos de parcimónia consumista e procurar conjugações com o que há no roupeiro.

Os básicos que nunca falham no dia-a-dia veloz e implacável.

E animar a monotonia com bom humor urbano?

O que se destaca destas fotografias não são só as roupas, é o ar feliz de quem anda na rua com as amigas.

São estes programas tão íntimos que, de facto, dão cor ao meu Inverno.

São estes programas tão íntimos que estão a faltar em 2022!

Imagens: Pinterest.