“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Talvez alguém

2 comentários

Na peça “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vivente, várias almas desfilam pelo Pugatório, tentando convencer o Anjo de que são merecedoras da eternidade no Paraíso.

A personagem aparentemente mais absurda é o Parvo.

Quando se dirige ao Anjo, repetindo o percurso de todas as personagens, responde da forma mais intrigante:

Anjo: Quem és tu?

Parvo: Samica alguém (talvez alguém).

Desde a adolescência, que me pergunto que resposta daria eu ao Anjo, se me encontrasse em semelhante situação. Décadas passaram, acumulei tantas experiências, leituras, aventuras, cobardias e bravuras que continuo sem encontrar solução.

Que resposta poderá ser mais humilde, lúcida e sábia do que a do Parvo?

Tento ter presente a lição do Parvo, quando sou elogiada, quando dou por mim com tiques de arrogância, quando cedo à tentação de menosprezar alguém que ideologicamente está distante de mim ou que não se consegue expressar da forma mais fluida.

Confirmo a superioridade do Parvo, quando sou confrontada com a soberba, com o egocentrismo, com a crueldade, e com a intolerância dos outros.

Provavelmente a sobranceria é o defeito que mais abomino… também em mim.

Lembrei-me do Parvo, quando li este poema de Emily Dickinson.

Melhor do que um “Alguém” só mesmo outro “Alguém”.

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém – Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste – ser –  Alguém!
Que pública – a Fama –
Dizer seu nome – como a Rã –
Para as palmas da Lama!

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém. Poemas.

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

2 thoughts on “Talvez alguém

  1. Ah, eu amo esse poema de Emily e espero que tenha se lembrando de mim ao lê-lo. Pode rir… é o meu lado parvo falando. Enfim, eu irei passar o dia a pensar em que resposta daria. Porque o poema de Emily sempre foi uma espécie de tatuagem na minha pele. Mas quero algo meu… será?

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