“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Humanitas

Com a idade a avançar, também surgem boas mudanças: encontro em mim a constância e as referências que me permitem confrontar-me com o ensaio, género que nunca me cativou enquanto literatura prazerosa.

A Utilidade do Inútil é um manifesto do filósofo italiano Nuccio Ordine que nos interpela nestes tempos de decadência e escuridão. É precisamente quando a crise se agudiza que o sentido prático domina e só se salva o que é útil, ou seja, o que produz lucro.

Ordine chama a atenção para o perigo de construirmos um mundo que anseia correr, mesmo que não saiba para onde. Para contrariar esta questão, este sentido único e cego na direcção do fogo do dinheiro, o filósofo evidencia a importância de todos os filósofos, cientistas e escritores que, com os seus pensamentos e descobertas inúteis, foram dando algum sentido ao caos.

Neste excerto do livro, cita-se Kakuzo Okakura que explica como é o inútil que nos torna humanos; de facto, se pensarmos bem, nenhum outro animal coloca na sua toca um objecto decorativo ou oferece ao seu parceiro um adorno estético.

“O japonês Kakuzo Okakura atribui à descoberta do inútil o salto que assinalou a passagem da feritas à humanitas. No seu livro A Cerimónia do Chá (1906), num apaixonado capítulo dedicado às flores, alvitra que a poesia amorosa teve origem no mesmo momento que nasceu o amor pelas flores:

O homem primordial superou a sua condição de bruto ao oferecer a primeira grinalda à sua rapariga.

Elevando-se acima das necessidades naturais primitivas, tornou-se humano. Quando percebeu o uso que se podia fazer do inútil, o homem fez a sua entrada no reino da arte“.

Fotografia: IGNANT.


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A orla do sublime

As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, são um desafio para quem, como eu, é impaciente e tendencialmente dispersa. Na verdade, são um desafio para quem vive no milénio do fácil, do imediato e da acção.

Nada acontece neste livro descritivo, mas tudo pode acontecer se nos permitirmos.

Marco Polo descreve ao imperador Kublai Khan cinquenta e cinco cidades com nomes de mulher, por onde a nossa mente viaja, somente interrompida pelos comentários do imperador mongol.

Apesar de aparentemente fantasiosas, estas cidades são trágicas, porque são criações humanas.

É cada vez mais evidente a incapacidade que temos de, juntos, atingirmos a orla do sublime.

Marco Polo termina a sua descrição desta forma absurdamente atual:

O inferno dos seres vivos não é uma coisa que há-de acontecer; se ele existe, já está aqui presente, o inferno que habitamos todos os dias, que constituímos estando juntos.

Há duas maneiras de não sofrermos com isso.

A primeira torna-se fácil para muitos: aceitar o inferno e tornarmo-nos parte dele até ao ponto de já não o vermos.

A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas:

procurar e saber reconhecer quem e o quê, no meio do inferno, não é inferno, e fazê-lo durar e dar-lhe espaço.

Tenho muita dificuldade com a hipótese A, embora seja a mais cómoda.

Os “mass media” confundem-nos e é difícil discernir o que é e o que não é inferno: como digerir tanta violência, apelo ao consumismo, sensacionalismo, polarizações, dicotomias simplistas, catadupa de informação, … ?

É preciso ócio, humildade, reflexão e conhecimento para procurar a Hipótese B, valores antagónicos ao novo milénio.

É preciso coragem para caminhar (quase) sozinha.

Imagem: IGNANT.