“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Ainda bem

Durante a adolescência e pelos meus vinte anos, morri muitas vezes de Amor.

Da forma mais sofrida possível.

Este poema de Maria do Rosário Pedreira devia ser dobrado com a bula dos antidepressivos que compramos quando nos sangra o coração imaturo.

Na altura em que me afundava em choro e Chico Buarque, não acreditava num futuro feliz, a minha vida acabava no momento em que “o amor da minha vida” tinha a frieza demente de acabar comigo.

Inevitavelmente, apareceram outros amores, uns mais certos do que outros, que ajudaram a estruturar o maior de todos: o amor-próprio.

Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.

Maria do Rosário Pedreira


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Indescritível

A mais bela (e verdadeira!) descrição de um beijo é de Afonso Cruz.

No livro Princípio de KARENINA :

“Recordo muito bem o trajecto que os nossos lábios, os meus e os da Fernanda, fizeram pela primeira vez, uns na direcção dos outros, até se tocarem, a sua lenta aproximação, o tempo ia desacelerando, as pálpebras caíram criando a noite, a noite melancólica dos amantes, os lábios cada vez mais perto, a respiração quente (há quem diga que é doce, mas é uma hipérbole poeticamente pobre, um beijo tem de ser tudo menos doce, tem de conjugar demónios), os lábios cada vez mais perto, o coração cada vez mais como as gazelas do monte Hebron, os lábios cada vez mais perto, talvez as nossas mãos se tenham apertado, o rosto enrubescido (noutras alturas fica corado, mas com os beijos enrubesce, há um glossário apropriado a todas as situações e devemos estar atentos à linguagem certa, devemos muito à exactidão), os lábios cada vez mais perto, o coração aos pulos pelo monte Hebron, as pernas frágeis e vacilantes sob o peso do que está para vir, os lábios cada vez mais perto, mil anos mais perto, pois o tempo está quase parado, uma inspiração entrecortada, arrepios pelo corpo, os lábios cada vez mais perto, uma eternidade mais perto, os pêlos dos braços eriçados, a pressão na boca do estômago, alguns cabelos colados à testa com o suor do calor de Julho, as bocas entreabertas, os lábios cada vez mais perto.

E tocaram-se.”


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Perder o Sainete

As expressões idiomáticas revelam a criatividade e vivacidade da língua.

O que dizer do pitoresco “armado ao pingarelho…” , “dar sainete” ou o educado “Quanto pagas, se não é indiscrição?”

Com a doentia tendência dos tempos actuais para a padronização, algumas das nossas maravilhosas pérolas estão a desaparecer.

Reencontrei duas na página de Instagram do site Comunidade Cultura e Arte.

Para além deste reencontro com o lado mais expressivo da nossa língua, há referências, nesta conta de Instagram, a pequenas grandes frases de escritores, realizadores, filósofos, intelectuais,…

Um bálsamo para a minha vista, cabeça e coração que não suportam mais o fel destilado noutras redes sociais.

Surgem-me diariamente, no Instagram, autores como Saramago, com as suas reflexões tão verdadeiras e evidentes, mas tão ignoradas.

E até apareço eu, uma vez que este é o meu estado de espírito frequente, no final do dia.

Nota: Um sainete era uma peça dramática de ópera espanhola, de um só acto, com música. Muitas vezes, era colocado no meio ou no final dos espectáculos. O estilo era vernáculo e era muito apreciado entre os séculos XVIII a XX. Mais uma razão, para não deixar o sainete sair da nossa vida!


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Poder

Há muitas formas de exercer o poder, uma delas é reduzir o outro, metaforica ou literalmente.

Hoje em dia, opta-se por uma redução mais subtil e sofisticada, através do empobrecimento intencional do grupo que não interessa que tenha poder. Empobrecimento material e espiritual, claro.

Afonso Cruz dá-nos uma perspectiva muito interessante sobre as várias formas de diminuir o potencial adversário, de lhe cortar as asas… não vá ele fugir ou ultrapassar-nos.

“Cortam-se as asas dos pássaros para que não fujam, para que não voem.

De certa maneira, naquela altura, na minha altura, não educar as mulheres equivaleria a partir-lhes as articulações, uma vez que isso dificultaria, ou impediria de todo, a sua saída de casa, a sua independência. Curiosamente, as Amazonas, dizia Hipócrates, deslocavam as articulações dos filhos varões, nas ancas ou nos joelhos, para que não pudessem lutar ou fugir e não se organizassem contra as mulheres. Davam-lhes profissões sedentárias: sapateiros, por exemplo (que ironia, fazer sapatos e não poder caminhar). Essa ideia atribuída às Amazonas parece-me apenas uma transposição daquilo que é uma ideia de poder masculina.”


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Ser amoroso

Depois do filme Lion me ter abalado, andei perdida à procura do nosso sentido da vida, enquanto humanidade.

Este poema de Carlos Drummond de Andrade aponta o único caminho digno para as criaturas da terra.

Marília Pêra, actriz brasileira falecida em 2015, declama o poema de Carlos Drummond de Andrade, apontando-nos o outro caminho: a poesia.

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?


Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?


Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.


Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.


Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.


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Filhos

Um dos últimos livros de valter hugo mãe chama-se O Filho de Mil Homens.

Ainda não o li; vi apenas uma entrevista do autor, transcrita com este parágrafo do livro:

Todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.

O título, tal com a frase, transmitem uma ideia de humanidade fraterna que eu, nos dias bons, partilho.

Nos dias maus, perco a fé na humanidade e caio num abismo de onde é difícil sair.

A mais recente queda aconteceu-me ao ver o filme LION.

valter hugo mãe tem razão quando fala da nossa fraternidade e ao lembrar todos os pais que tiveram de viver harmoniosamente antes de nós para que nascessemos.

Há oito anos, depois da minha filha nascer, para além de ser irmã, passei a sentir-me mãe de todas as crianças, ou pelo menos mãe de mil crianças.

Durante as duas horas do filme LION, fui mãe do Saroo, o pequeno Saroo, perdido na babilónica Calcutá. Fui mãe daquele menino de cinco anos e sofri com o frio, com a sua fome e com o seu abandono. Fui mãe dele e dos meninos de rua que são abandonados, maltratados, espancados e violados. São oitenta mil por ano, na Índia. Chorei muito.

Continuei a chorar sem lágrimas e andei sem ânimo durante dias; tentei gerir esta desumanidade, este lado bestial do ser humano que permite este abandono dos seus filhos.

Em última instância, salvou-me o Amor que felizmente me rodeia…

A Índia tem cerca de 30 milhões de órfãos, mas as regras que regem as adoções internacionais são estritas e as adoções domésticas são relativamente raras.

Apenas 4.362 crianças foram legalmente adotadas em 2014 e 3.677 em 2015, de acordo com a Autoridade Central de Recursos de Adoção.”

Eu preciso de agir e tenho pesquisado associações que ajudam os órfãos indianos. Tenho receio do que possa acontecer aos contributos e a desconfiança cresce quando surgem notícias de que há orfanatos pouco honestos.


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Salsugem

Salsugem – qualidade do que é salso ou salgado.

Descobri o nome “salsugem” com Al Berto.

É o nome que descreve o que sinto quando estou tão perto do mar que sinto a sua respiração fria e molhada.

É o nome que descreve o que sinto quando me “crescem búzios nas pálpebras”.

“queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

debruçou-se para o outro lado do espelho
onde o corpo se torna aéreo até aos ossos
a noite devolveu-lhe outro corpo vogando
ao abandono dum secreto regresso… depois
guardou a paixão de longínquos dias no saco de lona
e do fundo nostálgico do espelho
surgiram os súbitos olhos do mar

cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais

um fio de sémen atava o coração devassado pela salsugem
o corpo separava-se da milenar sombra
imobilizava-se no sono antigo da terra
descia ao esquecimento de tudo… navegava
no rumor das águas oxidadas agarrava-se à raiz das espadas
ia de mastro em mastro perscrutando a insónia
abrindo ácidos lumes pelo rosto incerto dalgum mar”

Al Berto

Os maravilhosos marinheiros da imagem foram encontrados no blog IGNANT.