“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Reverso

Um dos músicos de Adriana Calcanhoto, quando foi pela primeira vez a uma casa de fados, suspirou: Como é possível que tenham cantado 15 fados sobre mim?

Ao ouvir o relato deste episódio, regressei aos meus 20 anos e à minha primeira impressão ao ouvir Tom Jobim, Marisa Monte, Maria Betânia, Caetano Veloso ou Chico Buarque.

Esta música de Tom Jobim e Vinicius de Morais é sobre a condição humana:

  • a dureza da vida, as desilusões, o fatalismo estão lá, tal como estão no nosso fado.

Com mais balanço, é certo.

 

O que nós não temos no fado são histórias de amor felizes.

“Pela luz dos olhos teus” talvez reflicta a mais terna relação (cantada) que conheço.

Não temos amores felizes em nenhuma língua, para dizer a verdade;

é preciso fricção e dor para crescermos e criarmos.

Como diz Vinicius:

“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não”


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Sábios

O grande Ulisses nunca me convenceu.

Extraordinário guerreiro, sem dúvida: lutou, venceu, viajou e voltou para casa, onde a fiel esposa o esperava, vinte anos passados.

No mundo ocidental, durante mais de dois milénios, a Odisseia conduziu-nos, simbolicamente, para o modelo ideal masculino e feminino: Ulisses e Penélope.

É uma obra incrível, sem dúvida, mas os papéis desempenhados pelo par amoroso sempre me perturbaram.

O homem abandona o lar, por uma nobre causa para a época: a guerra com Tróia, e a mulher fica, cria o filho e governa o reino. Não deixa de ser um grande destino o de Penélope, mas nem por isso é valorizado, se comparado com a panóplia de aventuras exóticas do marido.

Finalmente, Teolinda Gersão esclarece o meu desconforto em relação à Odisseia:

Na realidade, Ulisses revelou-se imaturo e incapaz de assumir o papel de número 2 no lar, depois do nascimento do filho Telémaco. Para além disso, estava demasiado disponível para cair de amores por outra mulher (na terra e no mar – ui, as sereias!), sempre com ar de vítima, e acabou por fugir de casa com um excelente alibi: a guerra.

Fiquei mais tranquila com a análise de Teolinda Gersão, mas a minha desilusão com os sábios gregos continuava.

Foi novamente a escritora que me apaziguou.

Na verdade, a Odisseia é uma obra que tem a sua origem na tradição oral e havia muitas versões do poema.

No século VIII a.C., Homero apenas fixou (sublimemente, sem dúvida) a versão de que gostou mais… e que lhe era mais conveniente, talvez.

Havia versões, todavia, que relatavam que Penélope refizera a sua vida na ausência de Ulisses e que o herói, vinte anos depois, ao ver uma nova Penélope, acabava por abandonar Ítaca;

havia ainda versões bem mais ousadas que referiam que Penélope dormira com os seus mais de cem pretendentes!

Mesmo tendo sido durante vinte anos, não deixa de ser um feito extraordinário… e extremamente emancipado para a época!

O que é incrível é que nestas diferentes versões que se perderam perpassa uma moralidade bem mais acutilante do que a registada por Homero, no que diz respeito à dinâmica de um casal.

Uma lição válida para mulheres e homens, como é óbvio:

se descuras o teu amante e partes (e não precisa de ser por 20 anos!) é natural que, na volta, ele lá não esteja impávido à tua espera.

Esta, sim, é uma mensagem sábia!

E os gregos sabiam-na há mais de 2000 anos!


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Papas de aveia

Na senda da Teoria do Amor, um poema muito realista de um amor velhinho!

INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS

É tarde. Inês é velha.
Os joanetes de Pedro não o deixam caçar
e passa o dia todo em solene toada:
«Mulher que eu tanto amei, o javali é duro!
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar
os grelhados!»

Mas isto Inês nem ouve:
não só o aparelho está mal sintonizado,
mas também vasto é o sono
e o tricot de palavras do marido
escorrega-lhe, dolente, dos joelhos
que outrora eram delícias,
mas que agora
uma artrose tornou tão reticentes.

Inês é velha, hélas,
e Pedro tem caibras no tornozelo esquerdo.
E aquela fantasia peregrina
que o assaltava, em novo
(quando a chama era alta e o calor
ondeava no seu peito),
de ver Inês em esquife,
de ver as suas mãos beijadas por patifes
que a haviam tão vilmente apunhalado:
fantasia somente,
fulgor que ele bem sabe ser doença
de imaginação.

O seu desejo agora
era um bom bife
de javali macio
(e ausente desse horror de derreter
neurónios).

Mais sábia e precavida (sem três dentes
da frente),
Inês come, em sossego,
uma papa de aveia.

Ana Luísa Amaral

O poema foi transcrito do blog “O Mar parece azeite” que devem visitar, se não quiserem acabar como eu a comer papas de aveia ao pequeno-almoço.

Breakfast

Mesa de pequeno-almoço para dois do blog What should I eat for breakfast today.


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A teoria do amor

Os psicólogos que eu conheço são muito ponderados, assertivos e cerebrais.

Tanto que, às vezes, conseguem irritar-me mas, na maior parte das ocasiões, aprendo muito com eles.

Robert Sternberg, psicólogo norte-americano, desenvolveu a teoria triangular do amor.

Racionalizar o que é profundamente/intimamente emocional não deixa de ser um desafio, nem que seja para desconstruirmos tudo de seguida.

Segundo a “Teoria do Amor”, é necessário que existam três componentes para uma história de amor feliz: intimidade, paixão e compromisso.

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O psicólogo inglês Frank Tallis explica, muito resumidamente, numa entrevista, que para um amor ser consistente são necessários os três parâmetros referidos por Robert Sternberg:

1- “-paixão, tem de haver atracção sexual, que não dura para sempre;

2- intimidade, temos de gostar da pessoa; é mais do que ser amigos, é preciso haver um sentido de proximidade;

3- tem de haver compromisso mútuo.

É uma fórmula simples mas consistente porque, quando algo de errado acontece, percebemos que algum destes três indicadores falhou. Por exemplo, se só tivermos a intimidade mas não houver atracção sexual, então é uma relação fria.”

Parece tão fácil, não?

Uma check list com apenas três pontos!

Ou um triângulo das Bermudas onde podemos afundar?

A entrevista a Frank Tallis, no Público 

Fotografias no IGNANT.

ignant-photography-daniel-coburn-becoming-a-spector female


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Ternura negra

Uma das contas de Instagram que sigo diariamente a é do brasileiro Ricardo Lombardi.

Tem uma livraria de livros usados, em São Paulo, com o nome Desculpe a Poeira, nome inspirado no epitáfio da escritora Dorothy Parker: “Excuse my dust”.

Para além de admirar este projecto, ainda encontro na conta do sebo (sebo significa, no Brasil, uma loja de livros usados, sensivelmente como o nosso alfarrabista) poemas como este de valter hugo mãe.

Doctor love mariana a miserável

uns mortinhos pequenos

tenho uns caixõezinhos no coração que me
nasceram quando partiste. se regados com
cuidado, brotam mortos como flores negras pelo
interior das veias, que me assombram o sangue, corando
a minha pele numa vergonha e sentindo medo

são uns mortinhos pequenos que muita gente
nem sabe que existem. acreditar em fantasmas é
só possível para quem tem muito amor e recusa a
pequenez da vida sem continuação

tenho uns caixõezinhos no coração que se
abrem a toda a hora. quando me deito, ouço-os
embatendo de encontro ao peito, talvez com vontade
de ir embora, talvez só por ser o amor tão estreito

mariana a miserável

Não resisti e tive de ilustrar o post, e sobretudo o poema de vhm, com Mariana, a Miserável.


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Japão

A cultura japonesa influenciou-me desde cedo; antes de eu saber onde era o Japão.

Perdi-me, nas montanhas da Heidi, com As Aventuras de Tom Sawyer, com a Ana dos Cabelos Ruivos, Marco, Dartacão (série espanhola mas com animação japonesa), Abelha Maia e tantos outros filmes de animação japonesa que preenchiam aquela sagrada hora diária de desenhos animados.

Voltei à animação na idade adulta, com o estúdio Ghibli e com filmes vistos cinquenta vezes (até quase aprender japonês…).

Entretanto, fui encontrando, sem planear, filmes que marcaram momentos importantes da minha vida, como Disponível para Amar, Depois da Vida  ou O que eu mais desejo.

Penso agora que não tenho um escritor japonês de eleição, lapso que vou tratar prazerosamente de superar. Kazuo Ishiguro ganhou o Nobel da Literatura em 2017;   Kenzaburo Oe, em 1994; e Yasunari  Kawabata, em 1968. Yukio Mishima não ganhou mas já está na minha lista também. E o conhecido Haruki Murakami também. Uma licença sabática dava mesmo jeito!

Talvez por ter este substrato nipónico a fermentar há tantos anos, fiquei encantada com a Kiri.

kiri wearjapan winter 2018

Kiri é designer, japonesa e mede 1,59 m.

Foi só o que percebi do site Wear Japan.

De resto, é catita e eu, sem esforço, vir-me-ia assim vestida…

No Alentejo ou no Japão.

winter2019

wearjapan winter2018

Cestas incluídas!

Inverno 2018 Japan white skirt


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Anti-social

A solidão acomete-nos quando não encontramos, pelo caminho, pessoas que tenham uma visão do mundo parecida com a nossa.

Acontece-me muitas vezes.

Por isso, são tão importantes na minha vida pessoas como o Miguel Esteves Cardoso e a minha Teresa.

Mais a minha prima, claro, que partilhou comigo esta crónica.

A solidão nova

Começo a odiar o tempo que passo sozinho sem ela. É uma sensação nova para mim, a solidão.

 

Casámos há dezoito anos. Estamos escondidos. Quanto mais nos amamos mais temos de fugir. Somos como aqueles que não têm para onde ir.

Começo a odiar o tempo que passo sozinho sem ela. É uma sensação nova para mim, a solidão. Sempre tive medo dela. Começo a saber que tinha razão.

É uma consequência inesperada do amor, a solidão. Eu quero estar sozinho – mas é sozinho com ela, sozinhos os dois, eu dentro de um livro, ela dentro doutro e mais nada a passar senão a brisa. Soa mal porque é verdadeira esta malvadez de não querer mais nada.

Começo também a perceber, depois de tantos anos de amor contínuo, que a minha alma, a minha maneira de ser, a minha personalidade, a minha solidão particular, não existem só em mim. Existem através da Maria João, da maneira como ela trata comigo, da maneira como somos um para o outro.

Espero que também seja assim com a Maria João. Tenho medo. Sou bem-vindo ao mundo do amor, do medo e da solidão.
Carmen_Triana_Primer_Amor
A crónica do MEC de 30 de Setembro e a fotografia de Carmen Triana (do IGNANT).