“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Sapiens de ficção

A cusquice permite organizar grupos de 150 indivíduos com relativa facilidade.

Resta saber como é que passámos de tribos com uma organização rudimentar para cidades e países modernos?

Yuval Harari, no seu livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, responde a essa intrigante questão:

“Como foi possível ao homo sapiens ultrapassar o limite de 150 indivíduos?

Como é que o homo sapiens conseguiu fundar cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios com centenas de milhões de súbditos?

Graças à ficção!

Nunca tinha pensado nisso, mas faz muito sentido.

O segredo do nosso sucesso gregário reside na mitologia: um grande número de desconhecidos cooperam bem, se acreditarem nos mesmos mitos!

Não usamos a linguagem apenas para descrever o que se passa à nossa volta, mas também para inventar o que se passa à nossa volta. As ficções cercam-nos, nas suas formas mais saudáveis e artísticas.

Infelizmente, também nos perseguem nas suas formas mais perversas.

Quantas narrativas foram criadas por génios para nosso prazer?

Quantas narrativas foram/são inventadas para nos manipular, dominar, oprimir ou aniquilar?

São questões que continuam actuais.

“Toda a cooperação humana de larga escala depende de mitos partilhados que existem só no imaginário colectivo. Vale para uma tribo pré-histórica, uma cidade antiga, uma igreja medieval ou um estado moderno.

As ficções são instrumentos estruturantes nas religiões, nos estados ou até dos sistemas judiciais, mas é conveniente que não percamos a noção de que são meros instrumentos; não poderemos permitir que nos escravizem. Não teremos, no entanto, já passado essa linha vermelha?

Quantas vezes se confunde a realidade com as ficções que criámos?

Nem tudo é ficção, a realidade existe.

Quando alguém morre na guerra, morre realmente, mas muitas vezes em nome de uma ficção que nos venderam: a defesa de um país, de um povo, ou de um valor moral nobre propagandeado para justificar a violência armada ou opressora (democracia, liberdade, justiça, segurança, saúde,…).

“Como saber se o herói de uma história é real ou inventado?

Pergunta a ti mesmo: este herói pode sofrer?

Uma empresa, por exemplo, não sofre nem quando entra em falência: não tem uma mente, não consegue sentir dor, nem tristeza. Também uma nação não sofre, sequer quando perde uma guerra”, mas um ser humano pode morrer em nome de uma ficção que criaram para ele.

Um ser humano ferido na guerra sofre realmente.

Imagens e citações do livro Sapiens, uma Breve História da Humanidade.


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Calhandrice

Quando há mais de vinte anos cheguei ao Alentejo, aprendi muitas palavras novas. Recordo-me da palavra “calhandreira”.

No programa Visita Guiada, de Paula Moura Pinheiro, fiquei a saber que as calhandreiras eram as mulheres que tinham a ingrata função de recolher e despejar os calhandros dos mais ricos. Os calhandros eram os objectos que guardavam os dejectos, antes de haver saneamento básico nas cidades. Estas mulheres passavam o dia com os calhandros à cabeça a circular pelas ruas. Imagino que os momentos de convívio e conversa fossem os únicos momentos de alívio e refrigério. A partir daí, associou-se a palavra calhandeira a quem se entretém a conversar sobre a vida dos outros.

Segundo Yuval Harari, no seu livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, foram os momentos de complexidade comunicativa, sobretudo acerca dos outros, que nos distinguiram definitivamente dos demais primatas.

O homo sapiens é, por excelência, um animal social.

“A troca de informações sobre leões, bisontes e rios foi muito útil, mas a informação mais importante que os humanos trocaram entre si não foi sobre leões ou bisontes – foi sobre eles próprios.”

“A cooperação social é a chave da nossa sobrevivência e reprodução. Para caçar bisontes ou construir bombas, temos de confiar uns nos outros.

É importante as pessoas saberem quem, no seu círculo, odeia quem, quem está com quem, quem é honesto, quem é vigarista.”

“Para seguir o estado das relações de umas poucas dúzias de pessoas é preciso obter e processar uma quantidade avassaladora de informação. Num grupo de 50 indivíduos, há 1225 relações de um para um, além de um sem número de combinações sociais complexas! Os chimpanzés mal conseguem manter unidos grupos de 50 indivíduos.”

Os chimpanzés são curiosos e gostam de saber as novidades do grupo, mas têm de vê-las, não conseguem espalhá-las. Como sabemos, para os sapiens é muito fácil: basta falar nas costas uns dos outros!

Não consigo digerir bem este desprezível hábito humano, mas agora consigo compreendê-lo melhor.

“A cusquice é uma atividade maldosa, mas verdadeiramente essencial à cooperação de massas.

Como a cusquice, regra geral, se centra nas transgressões, ajuda a implementar normas sociais e a manter a coesão.”

Ajudou na evolução, mas esta é, sem dúvida, a razão principal pelo qual a abomino: quem cusca tem quase sempre a pretensão de possuir uma superioridade moral e, por conseguinte, ambiciona forçar os outros a seguirem o seu padrão social!

“Mas até a cusquice tem os seus limites. Cusque-se muito ou pouco, a maioria das pessoas não conhece a vida pessoal de mais de 150 pessoas. É por isso que o limite crítico de capacidade das organizações humanas ronda este número mágico: 150. Abaixo do limite de 150, as comunidades, as empresas, as redes sociais e as unidades militares conseguem funcionar graças ao tráfico de informações e boatos. Não há necessidade de escalões, cargos ou regulamentos para manter a ordem. Ultrapassando o limite de 150 indivíduos, as coisas deixam de funcionar assim.”

“Então como foi possível ao homo sapiens ultrapassar o limite de 150? Como conseguiu fundar cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios com centenas de milhões de súbditos?”.

Graças a algo muito mais poderoso, mas também muito mais perigoso!

Já conto!

Entretanto, nas noites de segunda-feira, na RTP1, começou o documentário Deus Cérebro, de António José de Almeida, sobre este enigmático órgão.

Aprendi que o fogo permitiu que passássemos a cozinhar os alimentos e que tivéssemos, finalmente, o aporte calórico necessário para sustentar o nosso inesgotável cérebro. Concomitantemente, o controlo do fogo permitiu longos serões à volta da fogueira: tínhamos conforto e alimento para contar as nossas façanhas de caça, “tecer alianças, ajustar contas, coscuvilhar, dançar e cantar. A cooperação afirmou-se como um pilar crucial para o desenvolvimento da mente humana.”

Quanto maior o grupo social dos primatas maior é a dimensão da cabeça!

É o conceito de “cérebro social”, que se relaciona com a complexa relação que as pessoas estabelecem umas com as outras.

Neste documentário, os cientistas destacam ainda o sexto sentido.

Não são impressões ou melindres; é a incrível capacidade que o nosso cérebro tem de simular e antever o futuro para assim se preparar e nos proteger. A verdadeira inteligência, segundo vários cientistas, reside na nossa (maior) capacidade de antever o futuro e na nossa capacidade de nos relacionarmos. Mais do que a tão reconhecida inteligência cognitiva, o que nos permite brilhar e elevar-nos é a inteligência emocional. Seríamos todos mais felizes se a valorizássemos desde o berço!

Imagem e citações do livro Sapiens, uma Breve História da Humanidade.


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O pânico é o abutre que se senta no teu peito

Não sei quando voltaremos a sair livremente.

Estamos presos nos concelhos, em casa e, sobretudo, num espaço psicológico de opressão, desconfiança e medo.

Alguns estão pior: ficaram confinados em espaços interiores de moralismo, intolerância, policiamento, agressão, condenação e delação. Sinto profunda piedade por estes últimos, mas tenho por hábito conservar uma distância muito superior a 3 metros de mentes tóxicas .

Não saberemos tão cedo se há motivos reais para “os vários aprisionamentos” a que temos sido sujeitos.

Julgo que só daqui a dez anos vislumbraremos alguma luz. Por agora, cada um tem as suas motivações, teorias e certezas.

Tem sido assim em todos os tumultos históricos: muito mais tarde, descobrimos parte da enorme encenação que nos contaram.

Neste milénio, recordo-me do que aconteceu durante a sanguinária invasão do Afeganistão (mais de 30 mil civis afegãos mortos – BBC) ou da obscena demolição do Iraque (e as armas de destruição maciça que nunca apareceram!?).

Vou vivendo com o cuidado e com a serenidade possível.

Tento não cometer muitos atos de desobediência civil (apesar da minha natureza insurrecta), mesmo quando vejo que muitas das medidas são de natureza política e aleatória.

Faço um esforço enorme para não me envolver demasiado na narrativa atual. Não tenho a pretensão de saber onde está a verdade, nesta altura em que todos são cientistas de bancada, mas já vivi o suficiente para não ser totalmente crédula.

Juan Vicente Piqueras escreveu “Instruções para sair do deserto”.

Os desertos que mais me preocupam são, sem dúvida, os interiores; esses que estão a crescer dentro de nós: os que nos impedem de empatizar e solidarizar; os que nos impelem a atacar e culpar ferozmente “os outros” por uma pandemia mundial.

Desses desertos temos de sair a todo o custo, distinguindo bem as “gaivotas dos abutres”.

De outra forma, perderemos a nossa humanidade, dividir-nos-emos, enfraquecer-nos-emos e só sobreviverão os necrófagos. Esses, impiedosos que são, não nos deixarão os ossos!

Para sair deste íntimo deserto
é preciso saber que não tem saída.

Esperar, caminhar, desesperar,
cultivar a paciência até perdê-la
quando todo tu sejas já pura paciência.

É preciso sentir que o deserto és tu mesmo,
recordar com irónica ternura
aqueles dias só agora felizes
em que tivemos fé nas miragens.

Já não há mais coração do que aquele que ardeu.

Não há maneira nem água nem amanhã
nem oriente nem ocidente. Não há estrelas
que te digam onde, que te indiquem
messias ou saídas que não existem

até que um dia encontres diante de ti

as tuas pegadas de outros anos e

compreendas que chegaste ao teu passado

que já estás onde estavas

que morrerás de sede

Olha na areia as sombras dos abutres que julgavas gaivotas”

A imagem é do blog sempre inspirador IGNANT.

O título do post é uma frase do livro O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, de Ana Margarida Carvalho.


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Reinventar

Depois de ter lido que a indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo e após ter refletido acerca das minhas compras impulsivas, desafiei-me a abster-me de comprar roupa durante dois meses.

A expressão é própria das dependências, mas o facto é que comprar roupa bonita é viciante: definitivamente, não é por necessidade que compramos o nosso sétimo casaco ou o quinto par de botas.

Cumpri o desafio. Espero que sejam apenas os primeiros dois meses, mas não avanço promessas.

Estive muitas vezes prestes a cair em tentação, confesso, mas mantive o foco nas minhas reais necessidades.

Continuo a visitar o Pinterest e a tentar combinar de forma diferente o que já tenho.

Fiz bainhas a algumas das minhas calças e dobrei outras para um ar mais moderninho.

As camisolas de lã de qualidade são sempre uma aposta segura e pode ser que compre uma (só uma!) nos saldos.

Enquanto isso, vou usando as que tenho, inspirada nesta simplicidade que nunca falha.

Este twin-set da Mango provocou-me muitas vezes…

Estes sobretudos fariam furor no meu roupeiro, mas vou passeando todos os outros que esperam a sua vez para se exibirem em Estremoz.

A esta cor de casaco talvez não resistisse…

Gosto da ideia de conjugar saias mais leves de Verão com camisolas de malha. Neste caso, só é preciso procurar no armário das roupas de Verão e seguir…

Os sapatos Oxford também podem voltar. Tenho dois pares no fundo do armário, tristonhos, há uns anos.

Votos de um Inverno muito sorridente!

Comprometo-me, agora, com muito mais seriedade, a manter os meus amigos bem mais perto do que no miserável ano que passou! Preciso muito deles para me manter equilibrada e firme nos meus desafios verdadeiramente importantes!


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Sapiens: tirano ou cuidador

 Yuval Noah Harari, professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu, em 2014, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade.

Em 2020,  surgiu a novela gráfica, como resultado da parceria entre o autor Yuval Harari, o escritor David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casaneve.

O livro narra a evolução do Homem desde a pré-história até à atualidade e explica de que modo este ultrapassou as restantes espécies e os outros membros da família sapiens.

Este salto para o topo do ecossistema foi tão precipitado que nem tivemos tempo para nos ajustar.

Talvez este nosso “novo-riquismo” hierárquico explique os nossos tiques tiranetes em relação às outras espécies.

Sempre me questionei acerca desta nossa sede pungente de domínio sobre a flora, a fauna e, surpreendentemente, até sobre os outros seres humanos. Este livro deu-me uma pista para a sofreguidão humana de esmagar o outro.

“Há pouco tempo, éramos animais insignificantes no meio da cadeia alimentar. Depois, de súbito, saltámos para o topo. Talvez demasiado depressa. Aos leões, às águias e aos tubarões, chegar gradualmente ao topo da pirâmide levou milhões de anos.”

“Este processo gradual permitiu que o ecossistema se autorregulasse, impedindo que os leões e os tubarões lançassem o caos. À medida que os leões se tornaram mais mortíferos, as gazelas tornaram-se mais rápidas, por exemplo.”

Mas a humanidade saltou tão rapidamente para o topo que o ecossistema não teve tempo de se ajustar.

Nem os próprios humanos.

Os outros animais, que estiveram durante milhares de anos no topo do ecossistema, exibem um aspecto físico imponente e cheio de dignidade; vejamos os casos do leão, do lobo, do tubarão ou da águia.

Já o sapiens

“Não há muito tempo, nós éramos os pés rapados da savana. Os nossos primeiros instrumentos foram usados para rapar os restos deixados por leões e hienas. Este facto ajuda-nos a compreender a nossa história e a nossa psicologia.”

Individualmente e enquanto espécie, já é tempo de nos tranquilizarmos com o “posto” conquistado.

Não sei se Yuval Harari estaria de acordo, mas julgo que somos uma espécie que deve a sua sobrevivência ao facto de termos sido (e sermos), mais do que déspotas, diligentes cuidadores.

Se pensarmos bem, nenhum de nós cá estaria se não nos tivessem zelado, nos primeiros tempos de vida.

Ao contrário dos outros animais, não caminhamos, não nos alimentamos sozinhos, nem temos capacidade de defesa, após dias, semanas ou meses de vida. De facto, ficamos em total dependência relativamente aos nossos progenitores (ou outros adultos) pelo menos uma década. Quero acreditar que não é por acaso que essa dependência, no início da vida, sucede entre os humanos…

Surpreendentemente, esquecemos essa dádiva e ignoramos a grandiosa lição de generosidade milenar que experienciámos: todos somos cuidadores ou fomos cuidados. Que paradoxo! Crescemos e tornamo-nos predadores vorazes e soberbos!

O livro de Yuval Noah Harari, de forma divertida, coloca em cima da mesa muitas questões científicas, mas também filosóficas. O autor, muito sabiamente, realça que “as questões éticas e filosóficas têm sempre um lugar central nos seus livros. Não vale a pena escrever História se nos esquecermos da dimensão ética.

Editora: ELSINORE.


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Tu

No último episódio de uma das minhas séries favoritas, Years and Years, a matriarca (interpretada pela fantástica Anne Reid) faz um discurso incrível no dia de Natal, para espanto e desconforto dos membros da família… e dos espectadores da série.

O tom pode ser interpretado como culpabilizante, mas talvez uma nonagenária já tenha o estatuto de nos apontar o indicador.

Eu considero o discurso responsabilizante.

Somos cidadãos e temos de activar o nosso modo interventivo, sob pena de que a nossa demissão alimente um sistema ainda mais corrupto e desumanizado. O nosso poder tem de ser exercido nas nossas decisões, escolhas e exigências diárias, assim como no processo eleitoral.

De outro modo, tudo pode acontecer:

“É tudo culpa vossa! Os bancos, o governo, a recessão, os políticos medíocres!

Vocês têm a culpa de tudo o que correu mal. A culpa é de cada um de nós…

Podemos ficar aqui todo o dia a culpar os outros. Culpamos a economia, culpamos a Europa, a oposição, a metereologia, os grandes acontecimentos da História; dizemos que tudo está fora de controlo e que estamos desprotegidos, pequenos e frágeis, mas nós é que somos os culpados. Porquê?

Vejam o caso da t-shirt que custa uma libra. Nós não lhe resistimos. Nenhum de nós lhe resiste. Achamos uma pechincha e compramos. Sabemos que não tem qualidade, mas serve. O dono da loja ganha 5 míseros pence por ela. O pobre camponês, no campo, ganha 0,01 pence. Nós achamos que esta situação é correta, concordamos com ela, todos nós: damos o nosso dinheiro e participamos neste sistema durante toda a vida.

Tudo começou a correr muito mal, nos supermercados, quando substituiram as pessoas que nos atendiam por caixas automáticas. Não gostámos, mas não protestámos, não escrevemos no livro de reclamações, não mudámos de supermercado; conformámo-nos! Agora todas as pessoas que trabalhavam nas caixas foram despedidas e nós permitimos que isso acontecesse. Hoje, até gostamos, porque pagamos e não temos de olhar ninguém nos olhos, não temos de olhar para a pessoa que ganha menos do que nós.

Temos culpa, sim. Este é o mundo que construímos.

Parabéns!”

A avó alerta-nos ainda para os políticos polémicos, disruptivos e irracionais:

“Tenham cuidado! Livramo-nos de uma aberração política e acorda outra, imediatamente, dentro da caverna.

Cuidado com os políticos engraçadinhos, corruptos e palhaços. Riem-se e levam-nos ao inferno.”

É impossível ouvir estas palavras e não pensar em Trump ou Bolsonaro ou num outro Ventureiro aqui entre portas.

Os votos de Feliz Natal costumam ser ligeiros e delicados, mas este Natal não é como os outros.

Vou aproveitar a pausa e o isolamento profilático que me calhou para reflectir sobre o mundo que quero deixar, como presente, aos mais pequenos.

Temos vários exemplos de seres humanos que fizeram a diferença.

Acabei de ver Snowden, um homem que denunciou o sistema de escutas americano: o mesmo que invadiu tranquilamente os nossos computadores, leu os nossos emails e sms e accionou a câmara do nosso computador pessoal, sem necessidade de qualquer autorização prévia. Snowden está, desde 2013, refugiado na Rússia… mas a lei americana foi alterada, em consequência da sua acção.

Definitivamente, não somos todos feitos da massa dos heróis, mas o meu objectivo de vida é, pelo menos, distanciar-me dos vermes e deixar clara a minha repugnância por quem os segue.

Preciso de biografias inspiradoras, ainda que estas sejam frequentemente silenciadas, em nome de uma ideia de segurança, de saúde e de bem-estar comum que nos pregam.

Se não é essa a inspiração que nos guia, não sei bem por que razão andamos a celebrar todos os anos o nascimento de um homem absolutamente excepcional.

Feliz Natal!


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Ficção

A melhor ficção actual está nos livros, mas também nas séries de televisão.

Resisti muito a esta evidência, presa aos meus preconceitos intelectuais.

Não vi muitas séries, nem pretendo ver, porque o tempo não é elástico e não posso correr o risco de ficar sem disponibilidade para a leitura, mas já descobri três incríveis.

1- Chernobyl

Uma série dividida em cinco partes, baseada no terrível acidente nuclear de Chernobyl de 1986, com todos os meandros políticos e pessoais chocantes que (nem) imaginamos. Tão perfeita a todos os níveis que fiquei com a sensação de estar a assistir a um incrível documentário.

2- Years and Years

Com Emma Thompson. Não é preciso dizer mais, mas ver a Emma Thompson como André Ventura, em versão “à solta”, revista e aumentada… e Primeiro Ministro é aterrador. Só a Emma Thomson para fazer esta figura terrivelmente sublime!

Assistimos, em poucos episódios, ao passar dos anos nas próximas décadas.

Tudo o que nos ameaça e preocupa, hoje, concretiza-se e vive-se numa distopia (in)esperada:

  • as alterações climáticas levam mesmo a chuvas diluviais e à subida da orla costeira de muitas cidades europeias, há desalojados de todas as condições sociais e de todos os países; procuram entrar na Grã-Bretanha muitos refugiados políticos desesperados; assistimos a ataques terroristas com armas químicas; temos direito a uma pandemia mais mortífera do que a que vivemos actualmente; a vitória de partidos de extrema direita leva à eliminação de direitos básicos nas democracias que conhecemos, os homossexuais são perseguidos; os jovens desenvolvem bizarras obsessões cibernéticas, …

Esta série é um alerta poderoso para o que nos pode acontecer, no futuro, se não agirmos, no presente.

3- A Casa de Papel

Quem é que nunca sonhou em roubar um banco, dar um estalo ao capitalismo e ainda ter dinheiro para viver no paraíso, sem prejudicar outro comum mortal?

Mais do que o assalto perfeito à Casa da Moeda de Espanha, este bando assina um manifesto político. Adrenalina, humor, intervenção e sensualidade em doses bem altas.

Vi outras séries com interesse:

  • Ozark: uma série formalmente irrepreensível; retrata a vida de uma família comum que se envolve com um cartel de droga mexicano. Violenta e viciante, conta com as atrizes Laura Linney e Lisa Emery.
  • Normal People: a série que eu deveria ter visto quando tinha vinte anos.
  • Dietland: e se deixássemos de questionar o nosso corpo? E se fossem os homens a aparecer objectificados nas capas das revistas? E se as mulheres deixassem de ter medo de andar, na rua, sozinhas à noite? Para isso era preciso que acontecesse uma revolução! Acontece, nesta série. O feminismo continua a ser um movimento pacífico, mas há um grupo armado de feministas que espalha o terror entre os homens abusadores.


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Casa de Outono

Estamos novamente confinados em casa.

Volto a olhar para as minhas paredes e renova-se a vontade de reformular e aconchegar o lar.

Entre o estilo boémio e o minimalismo escandinavo, sempre preferi o colorido mediterrâneo.

Mas, enfim, com a idade começo a depurar-me e a necessitar da organização nórdica na minha vida. Pelo menos em casa…

Continuo a gostar da cozinha com prateleiras, mas agora privilegio a possibilidade de arrumar/esconder e deixar as bancadas livres para os imprevistos culinários. É muito mais prático que estes aconteçam sem terem de pedir licença às mil coisinhas que por lá estacionam.

Não sei se há uma explicação psicológica, mas o meu lado étnico e folclórico está, definitivamente, a empalidecer e só consigo pensar em branco para o meu escritório. Tudo neste palácio estremocense demora a tomar forma mas, depois de uns quantos contactos com um novo carpinteiro e muitas visitas virtuais ao IKEA, talvez leve mesmo a depuração branca a outro nível.

A sala de estar pode ser uma toca menos branca mas, ainda assim, monocromática.

Também pode ser branca…

Os pormenores das velharias e dos livros são para manter, claro, bem espalhados pela casa.

Os quartos ainda precisam duma cara de Outono.

E estas casas de banho incríveis?

Só têm de estar muito quentes.

O aquecimento em casas seculares é um problema grave e estou a pensar seriamente em soluções radicais. Não necessariamente brancas, embora estas caldeiras sejam incríveis.

Ainda não retirei toda a mobília de Verão do terraço e é mesmo o momento mais triste do Outono. Estou a pensar deixar uma cadeira e espreguiçar-me ao sol com uma manta quente para apanhar vitamina D… e limpar a mente de maus humores.

As imagens foram roubadas a vários sites, mas dado o allure do momento, tenho andado muito pelo blog My Scandinavian Home.


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Menos

A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo.

A primeira é a petrolífera.

Fiquei com a minha consciência ecológica muito inquieta, ao ler esta notícia.

“Uma t-shirt produzida a partir de algodão convencional gasta 2700 litros de água, o equivalente ao consumo médio por pessoa durante dois anos e meio.”

Como faço a separação do lixo, consumo pouca carne, privilegio alimentos de produção local e já não faço viagens diárias de carro, habituei-me a pensar que não é por minha causa que os recursos anuais da Terra se esgotam cada vez mais cedo. Nada mais errado.

Há um consumo desmedido de roupa no mundo ocidental: as colecções de fast fashion são lançadas de 15 em 15 dias (o factor novidade incrementa as compras!), o que implica emissões descomunais de gases, consumo de água e outros recursos naturais (e humanos) astronómicos!

Estranhamente, só quando comecei a ter de organizar o meu quarto de vestir é que vi o disparate de roupa e calçado que tinha espalhado em vários armários. Demorei semanas a seleccionar e doei montanhas de peças.

Acumulei, durante anos, sem pensar, e o facto de comprar muito em outlet aliviava-me a consciência.

O advérbio “muito” arruina qualquer equação…

Obviamente que comprar mais do que o razoável, para além de ser um sinal da minha vaidade, também reflecte um desajuste em relação às minhas verdadeiras necessidades, ou pior, uma fuga das minhas reais necessidades.

Há uns meses, senti necessidade de fazer uma pausa.

Coincidiu com esta paragem global que fomos obrigados a fazer, mas a verdade é que, apesar de todos os perigos exteriores, interrompi o ritmo frenético em que andava e foquei-me no que preciso para ser feliz.

Definitivamente, não preciso de tanta roupa…

Acabei de lançar um desafio a mim própria: não comprar qualquer peça de roupa ou acessório (para mim ou para a Beatriz) durante dois meses. Pode parecer pouco para quem é contido, mas para mim é uma mega aventura.

É verdade que andamos semi-confinados e o apelo das lojas físicas não é evidente, mas ainda assim o desafio é muito válido. As compras online impuseram-se, por aqui, desde Março…

O outro desafio consiste em ser suficientemente criativa e reinterpretar a roupa que já tenho. É mais do que suficiente. A minha Mãe que o diga…

Tenho andado mais pelo Pinterest do que por lojas online e estas imagens são da minha nova diva, Emanuelle Alt, a quem não falta roupa… Espero, no entanto, que me inspire a reinventar, com pormenores como os cintos ou combinações mais improváveis.

Uma inspiração da editora da Vogue parisiense para me levar a consumir menos? Não deixa de ser irónico, mas tanta incoerência pode ser que resulte.

Quero ser mais livre, mais equilibrada e ter mais dinheiro para fazer o que realmente gosto: organizar a minha casa, conviver com os que amo e passear com a Beatriz.

Para já, pretendo fazê-lo num raio geográfico apertado, mas este bicho não há-de infernizar-nos para sempre.

Ficam as dicas de Emanuelle Alt, válidas para ser designer de moda… ou para viver melhor:

1- Be funny!

2- Be creative!

3- Be on time!

4- Work hard!


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Galdéria

«Se a Língua Portuguesa fosse uma personagem, o que seria? Uma cortesã, uma concubina, uma galdéria?
Uma galdéria, disso não tenho dúvida. Andou por todas as camas: a galega, a castelhana, a francesa… E saiu delas mais fresca que nunca.»

Fernando Venâncio responde com graça à pergunta provocatória da jornalista Joana Marques, sobre as diferentes influências que a língua portuguesa sofreu.

A nossa língua começou a sua “odisseia” pelos anos 600 e teve um percurso rico e incrível.

No entanto, o que eu não sabia é que o Português, como língua diferente do Galego, começa a tomar corpo apenas por volta de 1400; até aí falávamos… Galego.

Fiquei surpreendida, porque sempre li que falávamos “galaico-português”, antes desse ano. Julgava que a nossa lírica trovadoresca estava escrita em “galaico-português”. É verdade que nunca tinha pensado profundamente na denominação e associei-a à área geográfica que abrangia: as margens norte e sul do Rio Minho.

Fernando Venâncio acrescenta:

« [o galaico-português] é uma história mal contada. Uma história à nossa medida, para nos tranquilizar. A língua em que a lírica chamada «galaico-portuguesa» foi escrita foi, sem sombra de dúvida, o galego. Por esta razão simples: o português ainda não existia, e só seria criado, como tenho vindo a lembrar, no século de Quatrocentos. Quando, em 1290, um ensaísta catalão enumera as grandes línguas poéticas da altura, fala no “galego”. E importaria recordar que as expressões “língua portuguesa” e “português” só aparecem, entre nós, nos anos de 1430, quando as correspondentes castelhanas já circulavam dois séculos antes. Só que, no momento em que essa lírica regressa à luz do dia, ao longo de Oitocentos, ninguém em Portugal admitiria que se dissesse estar em “galego”. O que não seria nada do outro mundo, visto quase todos os seus autores serem galegos. É então, isto por 1880, que se inventa a etiqueta “galaico-português” e, de caminho, se inventa o “galego-português” como idioma. A grande filóloga Carolina Michaëlis de Vasconcelos ainda tenta chamar ”galego” à língua das cantigas, mas acaba por render-se às susceptibilidades portuguesas.»

A língua portuguesa não pára de surpreender-me, quer enquanto instrumento de trabalho, quer de prazer.

Não me ofende que tenha derivado do Galego (que por sua vez derivou do latim vulgar, que por sua vez derivou do indoeuropeu,…). Não sou tão pudica que me melindre com o facto de ela ter dormido prazenteiramente, mais tarde, com o latim erudito, com o francês, com o inglês e com as línguas índigenas dos novos continentes.

Não sou purista ao ponto de não me encantar com o Português adocicado dos youtubers brasileiros que a Beatriz me apresenta. Apesar da estridência que regra geral os acompanha, ouço uma língua com um vocabulário mais rico e rebuscado do que aquele que nós usamos e confirmo que ninguém é dono da língua. Muito menos nós, portugueses: somos apenas 10 milhões de falantes perante os 240 milhões que se deitam todos os dias com esta bela galdéria.

Definitivamente, é melhor abrirmos a cabeça e iniciarmos uma relação poliamorosa!

Fotografias do francês Laurent Castellani, um fotógrafo que sofre de agorafobia e que nos proporciona grandes viagens através da sua obra.