“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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O futuro da humanidade

Quando a Beatriz tinha 4 meses, visitei uma creche.

Gostei do local e das pessoas, mas vim para casa dilacerada com a ideia de deixar o meu bebé com estranhos.

A partir desse momento percebi que nada faz sentido na nossa sociedade.

Deixar o nosso bebé é contranatura.

Para mim ainda é.

A minha Mãe salvou-nos.

Quando a Beatriz tinha um ano e meio, fiz nova experiência, num local de elevada reputação nacional.

O mundo moderno ocidental não está preparado para receber os seus filhos.

Ou eu não faço parte do mundo moderno ocidental.

Não encontrei sorrisos nem abraços, a não ser aqueles que eu dava a todas as crianças nos 20 minutos diários que passava na sala do bibe azul.

A minha Mãe salvou-nos.

E o meu Pai e a minha Tia Alice.

Mudança de cidade.

Não fui à creche.

Salvam-nos a Tia Alda, a Prima Cristina, a Avó Silvana e todos os primos que aparecem e trazem sorrisos e brincadeiras.

Sinto que está certo assim.

No meu íntimo, todas as mães que viveram antes de mim dizem-me que sim e eu confio.

Comprovam-no a alegria , o sorriso constante e as aprendizagens diárias da Beatriz.

Não é uma decisão fácil.

Nem entre a família.

Parece que rejeitar a creche é ir contra uma ordem estabelecida muito maior do que uma simples creche.

Talvez seja questionar-nos enquanto sociedade (frenética, materialista e implacável) e isso é sempre incómodo.

Felizmente, sei que não estou só.


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Verde

Nos últimos três anos atravessei diariamente os campos do Mondego.

Via o coração de Montemor-o-Velho e sentia-me protegida.

coração Montemor

Apesar do cansaço de duas horas diárias de viagem, enchia os olhos de verde.

Maiorca Cegonhas

E ouvia as crónicas da Antena 1.

À Sexta-feira, Gonçalo Cadilhe falava de viagens, grandes viagens solitárias pelo mundo.

Até que as crónicas emudeceram e começaram as mudanças.

Tudo porque outro cronista, o jornalista Pedro Rosa Mendes, referiu que Angola precisava de importar respeitabilidade.

Acrescentou outras verdades que caíram mal a quem tem interesses muito respeitáveis em Angola.

Até que há pouco tempo estalou o verniz desta amizade entre Angola e Portugal e já não se sabe bem quem é que precisa de importar respeitabilidade.

Portugal arquivou o processo que investigava o vice-presidente de Angola: nada se sabe acerca da transferência misteriosa de 14000 euros para a conta deste político. Uma prenda de Natal…

Arquiva-se e pede-se desculpa pelo desacato.

A bem da nossa digestão, regresso a Gonçalo Cadilhe.

Num programa sobre viagens de comboio, o viajante referiu os melhores carris e as mais belas paisagens.

E, como figueirense que estudou em Coimbra, apontou (também) o percurso Figueira-Coimbra: os campos de arroz, as salinas da foz e as recordações douradas da juventude.

Todas estas razões fazem deste percurso um dos mais bonitos que eu conheci.

Quilómetros de um verde de tal forma luxuriante que durante duas horas esquecia indigestões e restabelecia o meu lugar, enquanto ser humano, no Mundo.

Maiorca


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KO

Quem já veio a minha casa sabe que eu não tenho televisão; e que encerrei a televisão da minha Avó Rosa num canto escuro do sótão.

No entanto, às vezes, tenho o azar de ser atingida por uma televisão alheia.

Por momentos, fico hipnotizada por quem julga ser dono da verdade e fala de forma tão convincente que (quase) todos julgam que ele, por poder divino, transmite mesmo a verdade.

Rentes de Carvalho, no blog Tempo Contado, fala deste triste fenómeno:

Adivinhos

microfoon[1]

Em bruxas só os simples acreditam, e as pitonisas vivem escondidas na Mitologia, mas muito se lhes assemelham os comentadores políticos.

Inchados e fátuos, como se tudo soubessem e adivinhassem o resto lendo nos astros, explicam-nos eles o que o presidente tem na ideia, o que os ministros preparavam mas esqueceram, o que presidente Obama devia ter dito à chanceler da Alemanha, o que a Rússia anda a conversar com a China. Entoaram loas ao engrandecimento e enriquecimento do Brasil, dizem agora que há muito sabiam as razões porque nele seriam abaladas a “Ordem e Progresso”.
Aborrecida, cansativa gente, a papaguear horas, convencida de estar no segredo dos deuses. E então as vozes. Umas de tom paternalista, outras em modo de homilia, algumas severas, a avisar que a posse da verdade não admite discordâncias nem oposições.
Por hábito antigo acordo às seis e ligo o rádio. Esta manhã, às seis e meia estava KO e desliguei, enfartado para o resto do dia, moído de crises, revoluções e adivinhos.
O post está aqui.
Os adivinhos calam-se se premirmos o off.


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Sem opção

Ainda este livro

É a 8ªedição e custou 35 escudos.

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(Já não encontrei cifrões nos teclados: o início da perda da nossa soberania).

Este livro é o retrato de uma geração.

Quando era mais nova pensava que sabia como tinha sido a vida das minhas avós e bisavós.

E sentia-me com alguma soberba ao comparar a minha vida com a delas.

Atingi a formação e a autonomia com que elas não sonharam.

Hoje vejo que, apesar do ganho ser evidente, também houve perdas e que a última vantagem: a autonomia, a independência, a liberdade é muito aparente.

Antigamente, as mulheres tinham de ser perfeitas donas de casa, mesmo que não sentissem dentro de si o apelo e vocação para tal.

Uma ida à praia implicava uma tarde na cozinha.

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Era exigente?

Era, sobretudo se não havia uma apetência especial pelos tachos.

E, hoje, temos uma vida menos exigente?

Espera-se menos perfeição das tarefas da profissional, mãe, ser social, mulher?

De tal forma andamos mergulhadas nas tarefas urgentíssimas que passar uma tarde na cozinha é impossível, mesmo que haja uma apetência natural pelos temperos e aromas do mundo culinário.

Significa que queira voltar aos anos 30?

Não.

Significa apenas que queria viver em 2013 mais devagar, com menos exigências e, sobretudo, com direito de opção.

Atingir a Liberdade é poder escolher.

E desse ponto de vista estamos muito longe de alcançar a Liberdade, enquanto mulheres e enquanto seres humanos.

Se me apetecesse preparar uma ida à praia com todos os requintes, isso devia ser permitido.

Se eu desejasse ficar entre a sala e a cozinha, essa opção devia ser facilitada, permitida e bem vista.

Em 2013, uma mulher optar por desenvolver uma actividade em casa e investir na formação nos filhos é um tema que continua a ser tabu e uma opção dificultada por toda a sociedade: estrutura e cidadãos.

O que é completamente coerente com a política vigente: quem não é produtivo e não vive pelo dinheiro deve ser cilindrado.

Quanto ao livro do início, a mulher que sou repudia o título, por intuir nas palavras A mulher na sala e na cozinha, a falta de opção.

Mas a mulher que sou repudia com a mesma convicção a falta de opção da mulher do século XXI.


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Criaturas das crateras

Em 1998, José Saramago discursou perante os membros da Academia Sueca acerca das incongruências do ser humano.
Afrontava-o o júbilo em que se vivia por se ter colocado uma sonda em Marte, quando em Terra tínhamos o caos e a fome. Não me lembro se citava especificamente o caso de África ou de outro continente.

Houve quem o acusasse de não valorizar a ciência.

Houve quem ficasse incomodado.

Houve quem não o compreendesse.

Quinze anos mais tarde, leio, no Público, que se inscreveram 150000 pessoas, para 24 vagas, num projecto que pretende iniciar a colonização do planeta Marte.
Um projecto de seis biliões de dólares (o que quer que isso seja)…

E voltei às palavras de Saramago. Cada vez mais sábias.

Razões para querer sair da Terra não faltam… mas o que motiva estas 150000 pessoas?

E os financiadores do projecto?

Tal como Vítor Belanciano, do Público, fiquei espantada:
“Estranho mundo onde os audaciosos são os que idealizam paraísos distantes, parecendo acreditar na fundação de sociedades sem conflitos, como nunca existiu, nem existirá. Enquanto quem deseja transformar a realidade mais premente, aqui e agora, com a consciência de que onde há pessoas haverá sempre tensões, mas também a possibilidade de justiça, da equidade e da promoção de novas ideias, é relegado para a posição de desejar o impossível.”

Vítor Belanciano (Público, 1 de Setembro de 2013)

A propósito, as inscrições para habitar Marte terminaram a 31 de Agosto.

Eu prefiro conviver com estas criaturas das crateras.

Não devem ser muito diferentes e estes bichos são muito mais divertidos do que os 24 que partem na nave espacial.

E já foram domesticados pela Beatriz.

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The Portrait of a Lady

A imagem da mulher vende. Sempre vendeu.

Mesmo quando ainda aparecia vestida…
A forma lenta como esta imagem foi evoluindo, ao longo do século XX, surpreende-me.

Em 1921, era importante usar Palmolive para manter o marido em estado permanente de paixão.

Hoje, há uma fila de cremes, perfumes, champôs e loções que devem dar a volta ao planeta. O objectivo é, mais ou menos, o mesmo.

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Nos anos 30, era importante estar bonita, mesmo depois de um dia de trabalho intenso.

Continua a ser; o local de trabalho é que mudou. E abundam os cereais, os cremes, as vitaminas e as ampolas que nos prometem o mesmo.

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1952: quero acreditar que isto já não existe.

Pelo menos, estamos a fazer o percurso correcto: enquanto sociedade, repudiamos a violência doméstica.

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Em 1961, surpreende-me esta descontracção na divisão de tarefas: Tu cozinhas, eu como e ofereço-te a Bimby!

Na década de 60, muitas das mulheres já trabalhavam fora de casa, mas tudo continuava igual (e continuou/continua  durante muitos anos…).

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Nem todos os anúncios antigos são ternurentos e encantadores…

Tal como hoje, retratam a mentalidade de uma época, incluindo o seu lado sombrio.

Encontrei-os no DailyMail.

Os originais estão no Museu Colecção Berardo até 5 de Janeiro de 2014.