“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Verdades terríveis sobre a maternidade

Nos blogs das mães famosas, aquelas que recuperam a forma num ápice e têm empregados que as substituem nas tarefas domésticas (e não só), a maternidade aparece como a experiência mais glamorosa de sempre.

chriselle lim

São os empregados, é a maquilhagem, são os fotógrafos e os filtros de edição de imagem que criam uma realidade que não existe.

chriselle lim 2

Eu, que não sou famosa, que me debato diariamente com os problemas de uma mãe de classe média, com uma profissão exigente, mil ideias para concretizar, razoavelmente privilegiada, também caio em tentação e apenas refiro o lado maravilhoso e encantador de ser mãe.

Esse lado existe e prevalece, mas o outro lado também cá está.

No balanço dos dias, esse outro lado imperfeito não se impõe; quer dizer, no balanço da maior parte dos dias, não se impõe… mas existe:

1- O parto foi a experiência mais violenta e assustadora pela qual o meu corpo (e alma) já passou. Felizmente, um anestesista misericordioso administrou-me a anestesia epidural quando cheguei de ambulância ao hospital. O que significa que apenas estive no átrio do inferno de Dante.

2- O pós-parto fez-me sentir vítima de um atropelamento por um camião TIR: só não me doíam as mãos e os pés… durante vários dias… melhorou, mas continuei a sentir muitas dores durante semanas.

3- A amamentação equipara-se, nos primeiros dias, a uma tortura sádica!

4- No primeiro mês, o cérebro não pensa, só reage: são tantas as solicitações, as aflições, as inseguranças, as dores, a privação de sono!

5- O meu bebé não se comportava como eu idealizava: não era suposto ficar no berço e dormir? O meu chorava, chorava, chorava!

E sujava a fralda e bolçava a roupa… aquela clarinha e fofinha que eu tinha comprado para a minha boneca idealizada.

6- Eu não sabia que os bebés tinham cólicas e choravam de forma inconsolável, sobretudo a partir das 20:00h, quando nós já estamos de rastos.

7- Nos 3 primeiros anos, foi aflitivo não ter tempo, sobretudo para estar só comigo. De repente, ninguém compreende que essa seja uma necessidade básica para manter a sanidade mental. Mais grave ainda, eu própria não me dava esse espaço, porque tinha sempre de…

8- Por outro lado, foi absolutamente doloroso deixar a minha filha com outra pessoa e ir trabalhar. Nos anos seguintes, houve dias em que trabalhar era um momento para respirar fundo e descontair. Nunca o admiti, claro!

9- Corresponder à imagem que os outros têm de ser mãe é difícil. Corresponder à imagem que eu tenho de ser mãe é impossível. Aprendi a ser menos exigente comigo e a aceitar que existo enquanto Ana. A luta continua…

10- As birras são difíceis, mas mais difícil é ser adulto e não responder com uma birra a outra birra.

11- Viver com as incoerências e aceitá-las é um desafio: durante o fim-de-semana, quase sufoco com a Beatriz pendurada durante todo o dia no meu pescoço; durante a semana, sinto tanta falta daqueles bracinhos pendurados no meu pescoço…

12- A Beatriz só tem 5 anos: imagino de que forma a lista vai crescer nos próximos anos.

Durante a gravidez nunca ninguém me falou destas verdades terríveis;

provavelmente nem todas as mulheres as partilham,

provavelmente muitas mulheres esquecem-nas.

Eu própria tive de fazer um esforço para me lembrar das primeiras…

Será um fenómeno natural para que queiramos ter mais filhos?

chriselle lim filha

As fotografias são do blog de Chiselle Lim que, com muita graça, diz que o glamour das imagens do seu blog se devem aos fotógrafos e à edição.

chriselle lim


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A maior herança

No meu percurso Estremoz-Figueira da Foz, passo sempre pelas Galveias.

E penso sempre no José Luís Peixoto.

Ultimamente, e depois de uma fase forçosamente mais contida em termos de viagens, não me saem da cabeça estas palavras:

“Discordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção.

As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros novos, cores novas, sons novos, estímulos que alargam a paleta daquilo com que contam a partir daí: na sua consciência, no modo como desenham o mundo e o avaliam.

As crianças não são testemunhas, são descobridores. Quando chegam a um lugar que desconhecem, não deixam que o peso do que sabem molde o que as espera. Levam os sentidos abertos, prontos a serem marcados para sempre.
Se perderem essa disponibilidade, nunca aprenderão a viajar e, em consequência, nunca serão capazes de desfrutar dessa vantagem. Quando falo de viajar, não me refiro apenas à oportunidade de ir muito longe, a outros países ou continentes, refiro-me à curiosidade pelo mundo, à capacidade de se surpreender com o que é diferente, de não temer essa diferença, de desejá-la.

Marciac

na gare

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos.

Quando falo de viajar, refiro-me a esse prazer de olhar em volta e saber que estamos ali, sentirmo-nos. Mais do que uma promessa, viajar é a certeza de estar vivo. Por isso, aquilo que desejo aos meus filhos é cidades e pessoas, montanhas e horizonte, desejo-lhes Nova Iorque e a Amazónia, desejo-lhes São Petersburgo e o entardecer lento da savana africana, desejo-lhes sorrisos da Tailândia e sake de Quioto.

Ao mesmo tempo, desejo que nunca percam a capacidade de ir ali ao fundo e, da mesma maneira, surpreenderem-se com o que lá está, com a luz e a temperatura ligeiramente diferentes. Desejo que se apaixonem sempre, por tudo. E que sejam capazes de passar essa eletricidade aos seus filhos, meus netos por nascer, porque é ela que dá ânimo e sentido: combustível e estrutura da vida. Aquilo que desejo aos meus filhos é que a variedade de opções que o mundo lhes oferece nunca deixe de deslumbrá-los.”

casa da JillRichard Bona in Marciac

O texto é de José Luís Peixoto, “A maior herança”.

As imagens são da primeira viagem da Beatriz bebé.

O som é do primeiro concerto da Beatriz, Richard Bona.


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Amor oblativo

Nikki Mcclure

Numa entrevista de Mário Cordeiro, li acerca dos vários níveis de afeto;

li acerca dos destinatários dos afectos que, por vezes, usamos de forma indiferenciada –   gostar/adorar/amar.

Segundo Mário Cordeiro,

-gostamos de coisas,

-adoramos deuses,

-amamos pessoas.

No meio das pessoas que amamos que cruzam o nosso caminho, há aquelas a quem dedicamos um tipo de amor: o amor oblativo – um amor que cresce, que se manifesta e se entrega, sem condições.

Esse amor só o senti, verdadeiramente, quando conheci a Beatriz.

 

Um dia, uma amiga, com olheiras e sem artifícios, no meio de uma conversa que tentávamos ter, com gritinhos especialmente embirrantes dos nossos filhos, disse-me:

-é preciso amar muito para conseguir suportar alguns dias e chegar ao fim com sanidade.

É preciso, sim; é preciso um amor oblativo!

A imagem, de Nikki McClure, reflete aqueles momentos raros que nos carregam as baterias da resistência por semanas!

Pronto, aqueles momentos que, antes de termos filhos, pensamos que preenchem todos os nossos dias…

 

 

 


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Quando a mãe era pequena

Quando a mãe era pequena veio connosco da Biblioteca.

Tal como as personagens do livro, sentei a filha no colo, já na cama, e peguei no mote.

Quando a mãe era pequena capa

Pensando bem, nunca tinha falado muito da minha infância com a Beatriz… tão centrada que ando na infância dela… o que não significa que não pense na minha: mais ou menos conscientemente, quando tento reproduzir o que me fez bem ou evitar a todo o custo o que me fez mal.

Cada página é motivo de tantas perguntas por parte da Beatriz que é evidente que há uma grande curiosidade à volta da Mãe menina que já foi bebé. Foi há tanto tempo que quase me esqueci!

E este livro foi um bom reencontro.

Com a menina que não gostava de atender o telefone.

Quando a mãe era pequena telefone

Com a menina que gostava de escrever na máquina verde do Pai.

Quando a mãe era pequena máquina de escrever

Com os irmãos que adoravam o gira-discos mas que partiam as agulhas amiúde e se calavam, tão cúmplices como quando ficavam sossegados e sozinhos a ouvir os velhos LP´s.

Quando a mãe era pequena gira discos

Escrito por Joana Cabral e ilustrado por Margarida Teixeira.

Da editora Máquina de Voar.

Imperdível é também o blog da Joana Cabral, Menina Rapaz!

 

 

 


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Para sempre

As nossas mãos

5 anos é uma mão cheia!

Uma mão cheia que enche as minhas mãos.

Mãos que envolvem as tuas.

Mãos pequeninas que podem tanto e aquecem e preenchem e apaziguam o meu coração.

Há 5 anos!

Mãos que ficarão presas nas tuas.

Para sempre.

Mãos enrugadas, ossudas e torcidas que irão escutar os teus medos e inseguranças e fraquezas

e as tuas façanhas e conquistas e alegrias!

Não sempre, porque as tuas hão-de juntar-se e voar alto, mas para sempre!

5 anos!


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Se eu fosse muito pequenino

Se eu fosse muito pequenino capa

Um livro da Biblioteca que começámos a “ler” antes de o folhearmos:

-O que é que tu farias se fosses muito, muito pequenina, Mamã?

-Eu ia no bolso do teu bibe contigo para a escolinha, claro!

Se eu fosse muito pequenino bolso do pai

Se eu fosse muito pequenino festa

Ou, como o protagonista do livro, podia convidar insectos pequeninos e simpáticos para jantar.

E tomar banho no dedal da Bivó ou num búzio.

Se eu fosse muito pequenino banho no dedal

Assim, com este ar todo satisfeito.

Se eu fosse muito pequenino búzio

Se eu fosse muito pequenino ninho de andorinha

Ou esconder-me da Mãe!

Se eu fosse muito pequenino mãe

De António Mota, faz parte de uma coleção que apetece mesmo fazer.

As ilustrações são do Pato Lógico André Letria.

Editora: Gailivro.

E tu, o que farias se fosses mesmo, mesmo pequenino?

 


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Aniversários

Desde que a Beatriz entrou para o Pré-escolar, são frequentes os convites para as festas de aniversário.

Nada contra, tudo a favor: eu gosto de celebrar e de festas com amigos e a Beatriz herdou esse espírito festeiro.

A questão são mesmo os presentes: até agora o nosso recorde foram 3 festas de aniversário num sábado, felizmente no mesmo local…

Por todos os motivos, temos evitado comprar presentes e, enquanto a Beatriz se sentir bem com isso, oferecemos uma prenda feita por nós.

Rosa e as bolachas

Têm sido bolachas: para as meninas.

Rosa Avô e as bolachas

E bolachas para os meninos.

bolachas para as crianças

E um frasco de doce de progenitores para progenitores, porque acho que sempre que um filho faz anos há também uns pais que estão de Parabéns.

embrulhos para bolachas artesanais

As imagens de fundo são de uma colecção de que nós gostamos muito e que aborda, de forma muito acessível, questões existenciais profundas: o Elmer.

sacos de aniversário

 


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O Taco, o Paco e Eu

Um dos livros da biblioteca que proporcionou mais momentos divertidos cá em casa.

O Taco, o Paco e Eu capa

Para ser sincera, achei-o, numa primeira impressão, um pouco bizarro, mas é essa diferente percepção que distingue o mundo das crianças do mundo convencional/aborrecido dos adultos.

Para mim, não há nada melhor do que ouvir as risadas da Beatriz e, se forem provocadas por livros, ainda melhor; ou seja, acabei por deixar-me levar e encantar-me por este universo de fantasia total, discurso onomatopaico e ilustrações expressivas.

O Taco, o Paco e Eu pag 1

O Taco tem um bigode espetado para cima (e que pode atingir os 5 metros), “anda descalço, rouba maçãs na mercearia e tem umas orelhas muito grandes das vezes que o pai e a mãe lhas puxaram”… e é muuuito divertido.

O Taco, o Paco e Eu pag 3

O irmão, o Paco, é um senhor, certinho e pontual, sempre preocupado com a metereologia e com as horas.

É mesmo extremamente pontual.

O Taco, o Paco e Eu pag 4

O Taco voa mas o Paco, como todas as pessoas certinhas e pontuais, não consegue tal proeza.

Olha para o irmão a voar e bate com a cabeça no poste da electricidade.

O Taco, o Paco e Eu pag 5

A minha parcialidade em relação às personagens é evidente e a do narrador também.

Um narrador que vê cães a perseguem avionetas que andam na estrada,

macacos em paragens de autocarros,

girafas que comem as floreiras dos prédios mais altos,…

O Taco, o Paco e Eu pag 6

e que acaba por voar com o Taco.

O Taco, o Paco e Eu pag 7

Escrito pelo dramaturgo José Maria Vieira Mendes e ilustrado por Marina Palácio: uma dupla com quem é bom “deixarmo-nos ir”, para utilizar a expressão do narrador momentos antes de levantar voo nas asas de um pelicano.

Edições Afrontamento.


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Escolhas

A Beatriz não conhece a Doutora Brinquedos, nem a Princesa Sofia, nem vibra com os ganchos e diverso merchandising da Violeta.

Durante quase 3 anos nem tínhamos televisão em casa e agora temos, mas ignoramo-la.

É uma opção que ocorreu naturalmente mas que, sem fundamentalismos, para mim, é muito libertadora.

 

Na verdade, nos raros momentos em que ouço qualquer “coisa” dos noticiários fico, invariavelmente, irritada com o facto das notícias serem transmitidas de forma sensacionalista, tendenciosa, simplista ou… tudo isto ao mesmo tempo.

Geralmente, começo a vociferar contra a televisão, o que também não transmite a melhor das imagens da minha pessoa.

També me acontece chorar

 

Não sei até quando vai ser pacífica esta nossa escolha de eliminação, sobretudo para a Beatriz.

Para já fica desapontada porque os seus colegas na escola não mostram interesse pela KIKI;

porque não fala Português!

Tentei animá-la e explicar-lhe que nem todas as crianças percebiam tão bem Japonês como ela!