“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Lista

No Curso de Cultura Geral de 8 de Abril, Anabela Mota Ribeiro fez o seguinte prólogo:

“Nos últimos anos de vida, o escritor Scott Fitzgerald viveu com uma jornalista, jovem, para quem compôs um curso de cultura geral, onde estavam as obras que ele achava que ela devia conhecer. Ela, Sheilah Graham, condensou a experiência no livro College of One. Foi um curso para um, para uma, e foi uma tentativa de fixar um cânone.

A ideia é desafiadora: o que deve constar numa lista assim? Quais são as obras a partir das quais podemos dizer que uma pessoa é culta?

Outra coisa é pensar nas referências particulares, nas obras, encontros, livros, experiências que formam cada indivíduo. Isso implica um entendimento de cultura mais abrangente e menos circunscrito à erudição.

É daqui que parto para este programa. Muitas vezes há uma coincidência entre o Aristóteles ou a Capela Sistina, entre os indisputáveis do cânone, e os nomes apontados nas listas particulares. Muitas, muitas vezes, não. E as obras apontadas são, sobretudo, peças que tiveram um efeito detonador, um encontro que possibilitou uma expansão do mundo.”

Curso de Cultura Geral RTP2

Como adoro listas, uma vez que organizam e sintetizam mentes despenteadas como a minha, decidi também fazer a minha lista de 10 peças que tiveram um “efeito detonador”:

1-Contos tradicionais da Colecção Formiguinha e contos do Eça, ouvidos pela voz da minha prima Teresa, quando eu ainda não sabia ler. Foi o meu primeiro contacto com a literatura, ainda antes de ter consciência do impacto que o Eça (e a voz da minha prima!) teria em mim. De todas as vezes que ouvia “A Aia”, eu sofria e gritava para dentro: Tirem o punhal da mão da Aia! – 1981.

2-As tardes, no tempo da escola primária, com a minha avó. A Senhora Rosa era costureira e, todos os dias, as senhoras da aldeia passavam o dia lá em casa, na sala de costura. Contavam muitas histórias que eu ouvia em silêncio. De vez em quando, um acerto de um alinhavo ou uma prova obrigava à interrupção do diálogo e eu tombava abruptamente na realidade. Descobri, assim, o carácter encantatório da narrativa. – 1983

3-Ouvir, pela mão do meu irmão e das inovadoras cassetes de vídeo, músicos como Pink Floyd, Super Trump, Dire Straits, Queen, David Bowie e conhecer, só através deles, um mundo tão diferente da Figueira da Foz, na altura uma cidade demasiado pacata e pitoresca. -1988

4-Estudar Latim. Foi como se aprendesse a ler outra vez: nunca mais deixei de fazer ligações e de reflectir sobre a sua origem, significado e significante. – 1992

5-Descobrir o cinema e conhecer outros mundos: “Pulp Fiction” foi o meu primeiro: “onde é que eu estive nos últimos 100 minutos?”. “A Insustentável Leveza do Ser”. Depois, “Tudo sobre a minha mãe”, de Álmodovar e “Disponível para amar”, de Wong Kar-wai: um corte com tudo o que já tinha visto no ecrã e na vida real; perceber que podia ir mais além. 1995

Curso de Cultura Geral RTP2 Anabela Mota Ribeiro

6- Estudar na FLUC e apaixonar-me por quase todos os professores que tive, apenas porque eles sabiam tanto e o conhecimento seduzia-me mais do que nunca: Carlos Reis, Rui Bebiano, Maria Aparecida Ribeiro, Ana Paula Arnaut e Pires Laranjeira, entre outros. Uma nova percepção do que é a literatura escrita em português: Saramago, Mia Couto e Pepetela: A Gloriosa Família, Luís Bernardo Honwana, As mãos dos pretos.  Um arrebatamento por João Grosso, no teatro Paulo Quintela, na FLUC.- 1996

7-Perceber que a poesia também se canta, e muito, no Brasil. Ficar hipnotizada com as palavras de Chico Buarque, Tom Jobim, Elis Regina, Gilberto Gil, Bethânia, Caetano, Adriana Calcanhoto, Marisa Monte, Eliane Elias, Rosa Passos, Gal Costa, … Ficar obcecada com a forma como Chico Buarque consegue cantar a palavra “escafandrista”. Essa obsessão continua. – 1998

8-Perceber que a música existe sem palavras e passar a ter férias musicais com a outra metade do meu ♥. Depois de ver/ouvir Richard Bona e Bobby Macferry, veio o fascínio pelo jazz vocal, sobretudo feminino: de Esperanza Espalding, Melody Gardot a Nina Simone.  2004.

9-Conhecer outros autores e aprender que literatura é o que nos ensinam na Faculdade, mas tanto mais! Esse percurso temos de fazê-lo sozinho, mas são preciosas as ferramentas da formação de base: autores russos, americanos, franceses e portugueses. Afonso Cruz aparece, na prosa, e continua o efeito encantatório da infância. Descoberta tardia da poesia: David Mourão-Ferreira, Sophia, Eugénio de Andrade, Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, Nuno Júdice, Jorge de Sena, …

10-Ser mãe: a experiência mais difícil mas mais arrebatadora da minha vida: ir ao fundo de mim, ser posta à prova, aprender, descentrar e Amar. Misturou-se, entretanto, com a ilustração, a fantasia e a realidade: Planeta Tangerina, Bruaá, Pato Lógico, Orpheu Negro e OQO, e com a animação de Miyazaki.

 

 

 

 


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O Urso que não era

Este é um livro existencialista e que coloca algumas questões universais e intemporais.

Seremos nós aquilo que os outros julgam que nós somos?

Tornar-nos-emos padronizados à força da repetição do que “devemos” ser ou fazer ou parecer?

Até que ponto ficará a nossa individualidade diluída no meio de tantos convencionalismos e expectativas?

Conseguiremos salvá-la?

É bom ser “esquisito”?

Dúvidas ainda difíceis de acertar aos 40, mas que convém começar a abordar aos 6.

Com sentido de humor, recorrendo ao absurdo e… com um urso.

Um urso que sabe muito bem que. quando os gansos voam para sul. é a altura de hibernar.

Um urso que. ao acordar do seu sono retemperador. tem o azar de encontrar homens muito produtivos, muitos decididos, muito enérgicos, muito poderosos e, claro, muito imbecis.

Homens que sabem o lugar do urso: numa linha de produção de uma fábrica super tecnológica, a trabalhar 8h por dia.

Urso não, “um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles”.

São tão convincentes que o nosso urso quase que se convence de que é “um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles”.

Como “homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles”, vai trabalhar.

E quase se esquece de quem é e do que realmente precisa para ser feliz.

Um livro de 1946, editado pela Bruaá em 2016, mas, como se vê, muito actual.

Para ler e reler!


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Lá Fora Cá Dentro

Uma dupla cá de casa da responsabilidade dos meus ilustradores preferidos, Bernardo Carvalho e Madalena Matoso, e da editora portuguesa do coração, Planeta Tangerina.

Num mundo feroz e veloz, educar para a contemplação e para o deslumbramento não é fácil.

É preciso, antes, educar para o silêncio e para o recolhimento.

É preciso respirar e seguir o voo da borboleta… e encantarmo-nos.

É um trabalho diário e contracorrente.

Durante o Verão já tínhamos treinado:

Por que razão é que o mar é azul? E salgado? E as marés de onde virão?

E que animais vivem na areia, nas rochas e no azul profundo?

No entanto, tão importante como olhar para fora é olhar para dentro:

Reflectir sobre as emoções, sobretudo agora, aos seis anos, que elas estão a tornar-se mais complexas e a precisar de ser entendidas e discutidas.

A infância (e não só!)  é o momento para analisar o que se sente pelos outros e para responsabilizar a criança pelas suas decisões; mesmo pelas incorretas. Que difícil que é, também para quem assiste, vê-la nas primeiras dores do crescimento!

Como adulta, renova-me esta partilha do Maravilhamento: pelo Mundo e pelo Homem, o único ser com um cérebro (e coração!) capaz de raciocínio, de nutrir sentimentos tão profundos e de criar e apreciar Arte!


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Libertar

Palavras que nos libertam:

PARA ESCREVER O POEMA

O poeta quer escrever sobre um pássaro:

e o pássaro foge-lhe do verso.

 

O poeta quer escrever sobre a maçã:

e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

 

O poeta quer escrever sobre uma flor:

e a flor murcha no jarro da estrofe.

 

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras

para o pássaro não fugir.

 

Então, o poeta chama pela serpente

para que ela convença Eva a morder a maçã.

 

Então, o poeta põe água na estrofe

para que a flor não murche.

 

Mas um pássaro não canta

quando o fecham na gaiola.

 

A serpente não sai da terra

porque Eva tem medo de serpentes.

 

E a água que devia manter viva a flor

escorre por entre os versos.

 

E quando o poeta pousou a caneta,

o pássaro começou a voar,

Eva correu por entre as macieiras

e todas as flores nasceram da terra.

 

O poeta voltou a pegar na caneta,

escreveu o que tinha visto,

e o poema ficou feito.

Nuno Júdice, A Matéria do Poema

Ilustração Cynthia Tedy.

 

 


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Pássaros na cabeça

Mais um livro da Biblioteca de Estremoz.

Como muitos livros infantis, este é só aparentemente simples, permitido uma leitura mais superficial e outra bem mais complexa.

A mais profunda vou abordando aos poucos com a Beatriz.

Temos um rei, muito sensato e tranquilo com as suas escolhas.


 

Um rei que gosta de passarinhos e de refletir sobre o seu reino enquanto os alimenta e mima.

E temos três ministros ambiciosos, megalómanos, insensatos e que querem ficar para a história custe o que/ a quem custar (onde é que já vimos estes três?).

Três ministros que traçam um plano maquiavélico para enganarem o seu rei.

Ministros que expulsam todos os passarinhos do reino, os verdadeiros conselheiros do soberano.

Três ministros que merecem um grande castigo pela sua crueldade e egoísmo.

Um livro com uma mensagem muito lúcida:

Seremos todos mais inteligentes e felizes com tempo para introspeção e próximos da natureza!

Escrito pelo escritor cubano Joel Franz Rosell e ilustrado por Marta Torrão.

Da editora do coração Kalandraka!

 

 


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O Médico do Mar

A Beatriz anda muito curiosa acerca da vida animal, sobretudo a marinha.

Eu também tenho aprendido muito: vocês sabiam que os polvos têm 3 corações e as formigas 2 estômagos?

Eu não!

Para além do saber enciclopédico, encontrámos este livro sobre um veterinário intrépido que todos os dias salva os animais marinhos.

Dos mais inofensivos.

Aos mais temerários.

Até que um dia é ele que precisa de ser salvo.

De forma muito descontraída e divertida, este livro ensina acerca da importância dos comportamentos em cadeia, no mar e na terra: o bem atrai e provoca o bem!

Escrito e ilustrado por Leo Timmers e brevemente adaptado para televisão.


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Enrugar

A propósito de envelhecer, este é um dos parágrafos mais ternos da literatura portuguesa.

Sobre ser velho e belo.

Sobre o Amor.

“Desce Baltasar ao vale, vai para casa, é certo que o trabalho ainda não despegou na obra,

mas, vindo ele tão esforçadamente de longe, desde Santo António do Tojal em um só dia,

não esqueçamos, tem direito a recolher mais cedo, depois de descangados e pensados os bois.

O tempo, às vezes, parece não passar, é como uma andorinha que faz o ninho no beiral, sai e entra,

vai e vem, mas sempre à nossa vista, julgaríamos, nós e ela, que iríamos ficar assim a eternidade,

ou metade dela, o que já não seria mau. Mas, de repente, estava e já não está, mesmo agora a vi,

onde é que se meteu, e se temos à mão um espelho, Jesus, como o tempo passou, como eu me tornei

velho, ainda ontem era a flor do bairro, e hoje nem bairro nem flor. Baltasar não tem espelhos,

a não ser estes nossos olhos que o estão vendo a descer o caminho lamacento para a vila,

e eles são que lhe dizem, Tens a barba cheia de brancas, Baltasar, tens a testa carregada de rugas,

Baltasar, tens encorreado o pescoço, Baltasar, já te descaem os ombros, Baltasar,

nem pareces o mesmo homem, Bal­tasar, mas isto é certamente defeito dos olhos que usamos,

porque aí vem justamente uma mulher, e onde nós víamos um homem velho, vê ela um homem novo,

o soldado a quem perguntou um dia, Que nome é o seu, ou nem sequer a esse vê,

apenas a este homem que desce, sujo, canoso e maneta, Sete-Sóis de alcunha, se a merece tanta canseira,

mas é um constante sol para esta mulher, não por sempre brilhar, mas por existir tanto,

escondido de nuvens, tapado de eclipses, mas vivo, Santo Deus, e abre-lhe os braços, quem,

abre-os ele a ela, abre-os ela a ele, ambos, são o escân­dalo da vila de Mafra, agarrarem-se assim um

ao outro na praça pública, e com idade de sobra, talvez seja porque nunca tiveram filhos,

talvez porque se vejam mais novos do que são, pobres cegos, ou porventura serão estes os únicos seres

humanos que como são se vêem, é esse o modo mais difícil de ver, agora que eles estão juntos até os

nossos olhos foram capazes de perceber que se tornaram belos.”

Memorial do Convento, José Saramago

Saramago e Pilar

♥ Vale a pena ver a peça de teatro da companhia Éter!