“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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O Urso que não era

Este é um livro existencialista e que coloca algumas questões universais e intemporais.

Seremos nós aquilo que os outros julgam que nós somos?

Tornar-nos-emos padronizados à força da repetição do que “devemos” ser ou fazer ou parecer?

Até que ponto ficará a nossa individualidade diluída no meio de tantos convencionalismos e expectativas?

Conseguiremos salvá-la?

É bom ser “esquisito”?

Dúvidas ainda difíceis de acertar aos 40, mas que convém começar a abordar aos 6.

Com sentido de humor, recorrendo ao absurdo e… com um urso.

Um urso que sabe muito bem que. quando os gansos voam para sul. é a altura de hibernar.

Um urso que. ao acordar do seu sono retemperador. tem o azar de encontrar homens muito produtivos, muitos decididos, muito enérgicos, muito poderosos e, claro, muito imbecis.

Homens que sabem o lugar do urso: numa linha de produção de uma fábrica super tecnológica, a trabalhar 8h por dia.

Urso não, “um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles”.

São tão convincentes que o nosso urso quase que se convence de que é “um homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles”.

Como “homem tonto que precisa de fazer a barba e usa um casaco de peles”, vai trabalhar.

E quase se esquece de quem é e do que realmente precisa para ser feliz.

Um livro de 1946, editado pela Bruaá em 2016, mas, como se vê, muito actual.

Para ler e reler!


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Lá Fora Cá Dentro

Uma dupla cá de casa da responsabilidade dos meus ilustradores preferidos, Bernardo Carvalho e Madalena Matoso, e da editora portuguesa do coração, Planeta Tangerina.

Num mundo feroz e veloz, educar para a contemplação e para o deslumbramento não é fácil.

É preciso, antes, educar para o silêncio e para o recolhimento.

É preciso respirar e seguir o voo da borboleta… e encantarmo-nos.

É um trabalho diário e contracorrente.

Durante o Verão já tínhamos treinado:

Por que razão é que o mar é azul? E salgado? E as marés de onde virão?

E que animais vivem na areia, nas rochas e no azul profundo?

No entanto, tão importante como olhar para fora é olhar para dentro:

Reflectir sobre as emoções, sobretudo agora, aos seis anos, que elas estão a tornar-se mais complexas e a precisar de ser entendidas e discutidas.

A infância (e não só!)  é o momento para analisar o que se sente pelos outros e para responsabilizar a criança pelas suas decisões; mesmo pelas incorretas. Que difícil que é, também para quem assiste, vê-la nas primeiras dores do crescimento!

Como adulta, renova-me esta partilha do Maravilhamento: pelo Mundo e pelo Homem, o único ser com um cérebro (e coração!) capaz de raciocínio, de nutrir sentimentos tão profundos e de criar e apreciar Arte!


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Libertar

Palavras que nos libertam:

PARA ESCREVER O POEMA

O poeta quer escrever sobre um pássaro:

e o pássaro foge-lhe do verso.

 

O poeta quer escrever sobre a maçã:

e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

 

O poeta quer escrever sobre uma flor:

e a flor murcha no jarro da estrofe.

 

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras

para o pássaro não fugir.

 

Então, o poeta chama pela serpente

para que ela convença Eva a morder a maçã.

 

Então, o poeta põe água na estrofe

para que a flor não murche.

 

Mas um pássaro não canta

quando o fecham na gaiola.

 

A serpente não sai da terra

porque Eva tem medo de serpentes.

 

E a água que devia manter viva a flor

escorre por entre os versos.

 

E quando o poeta pousou a caneta,

o pássaro começou a voar,

Eva correu por entre as macieiras

e todas as flores nasceram da terra.

 

O poeta voltou a pegar na caneta,

escreveu o que tinha visto,

e o poema ficou feito.

Nuno Júdice, A Matéria do Poema

Ilustração Cynthia Tedy.

 

 


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Pássaros na cabeça

Mais um livro da Biblioteca de Estremoz.

Como muitos livros infantis, este é só aparentemente simples, permitido uma leitura mais superficial e outra bem mais complexa.

A mais profunda vou abordando aos poucos com a Beatriz.

Temos um rei, muito sensato e tranquilo com as suas escolhas.


 

Um rei que gosta de passarinhos e de refletir sobre o seu reino enquanto os alimenta e mima.

E temos três ministros ambiciosos, megalómanos, insensatos e que querem ficar para a história custe o que/ a quem custar (onde é que já vimos estes três?).

Três ministros que traçam um plano maquiavélico para enganarem o seu rei.

Ministros que expulsam todos os passarinhos do reino, os verdadeiros conselheiros do soberano.

Três ministros que merecem um grande castigo pela sua crueldade e egoísmo.

Um livro com uma mensagem muito lúcida:

Seremos todos mais inteligentes e felizes com tempo para introspeção e próximos da natureza!

Escrito pelo escritor cubano Joel Franz Rosell e ilustrado por Marta Torrão.

Da editora do coração Kalandraka!

 

 


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O Médico do Mar

A Beatriz anda muito curiosa acerca da vida animal, sobretudo a marinha.

Eu também tenho aprendido muito: vocês sabiam que os polvos têm 3 corações e as formigas 2 estômagos?

Eu não!

Para além do saber enciclopédico, encontrámos este livro sobre um veterinário intrépido que todos os dias salva os animais marinhos.

Dos mais inofensivos.

Aos mais temerários.

Até que um dia é ele que precisa de ser salvo.

De forma muito descontraída e divertida, este livro ensina acerca da importância dos comportamentos em cadeia, no mar e na terra: o bem atrai e provoca o bem!

Escrito e ilustrado por Leo Timmers e brevemente adaptado para televisão.


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Enrugar

A propósito de envelhecer, este é um dos parágrafos mais ternos da literatura portuguesa.

Sobre ser velho e belo.

Sobre o Amor.

“Desce Baltasar ao vale, vai para casa, é certo que o trabalho ainda não despegou na obra,

mas, vindo ele tão esforçadamente de longe, desde Santo António do Tojal em um só dia,

não esqueçamos, tem direito a recolher mais cedo, depois de descangados e pensados os bois.

O tempo, às vezes, parece não passar, é como uma andorinha que faz o ninho no beiral, sai e entra,

vai e vem, mas sempre à nossa vista, julgaríamos, nós e ela, que iríamos ficar assim a eternidade,

ou metade dela, o que já não seria mau. Mas, de repente, estava e já não está, mesmo agora a vi,

onde é que se meteu, e se temos à mão um espelho, Jesus, como o tempo passou, como eu me tornei

velho, ainda ontem era a flor do bairro, e hoje nem bairro nem flor. Baltasar não tem espelhos,

a não ser estes nossos olhos que o estão vendo a descer o caminho lamacento para a vila,

e eles são que lhe dizem, Tens a barba cheia de brancas, Baltasar, tens a testa carregada de rugas,

Baltasar, tens encorreado o pescoço, Baltasar, já te descaem os ombros, Baltasar,

nem pareces o mesmo homem, Bal­tasar, mas isto é certamente defeito dos olhos que usamos,

porque aí vem justamente uma mulher, e onde nós víamos um homem velho, vê ela um homem novo,

o soldado a quem perguntou um dia, Que nome é o seu, ou nem sequer a esse vê,

apenas a este homem que desce, sujo, canoso e maneta, Sete-Sóis de alcunha, se a merece tanta canseira,

mas é um constante sol para esta mulher, não por sempre brilhar, mas por existir tanto,

escondido de nuvens, tapado de eclipses, mas vivo, Santo Deus, e abre-lhe os braços, quem,

abre-os ele a ela, abre-os ela a ele, ambos, são o escân­dalo da vila de Mafra, agarrarem-se assim um

ao outro na praça pública, e com idade de sobra, talvez seja porque nunca tiveram filhos,

talvez porque se vejam mais novos do que são, pobres cegos, ou porventura serão estes os únicos seres

humanos que como são se vêem, é esse o modo mais difícil de ver, agora que eles estão juntos até os

nossos olhos foram capazes de perceber que se tornaram belos.”

Memorial do Convento, José Saramago

Saramago e Pilar

♥ Vale a pena ver a peça de teatro da companhia Éter!

 

 


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A minha professora é um monstro

O nosso ano lectivo inicia-se com mais adrenalina do que o habitual: a nossa bebé vai para a escola primária!

Que nervos!

Uma das leituras de Verão abordou a incontornável temática:

-Será que eu vou gostar da professora?

-Será que a professora vai gostar de mim?

O Fred não gostava da professora… e a D. Lurdes também não simpatizava especialmente com o Fred.

Até que, num tranquilo Sábado de manhã, um encontro nada desejado aconteceu no parque da cidade.

Um silêncio incómodo prolongou-se… interrompido por um ventinho benfazejo.

Foi a oportunidade de que precisavam para perceberem que, se olhassem com mais atenção um para o outro, iriam encontrar pontos comuns, daqueles que retiram a  “monstruosidade” às pessoas com quem não simpatizamos (bem, a algumas…).

No fundo, uma lição de sã convivência para crianças e adultos.

De Peter Brown, filho, neto e sobrinho de professores.

Da editora mais perigosa que conheço Orfeu Negro  

(Se visitarem o site, percebem o que digo: tudo irresistível!)