“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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A escolha de Aquiles

Algures no milénio passado, uma miúda tímida frequentava a Faculdade de Letras de Coimbra.

Numa manhã fria de Fevereiro, numa inquietante prova de História da Cultura Clássica, essa pupila esteve durante duas horas perante uma folha A4 com as seguintes palavras:

1- “A escolha de Aquiles”.

As pistas para a pretendida reflexão estavam sugeridas numa das inúmeras anotações de rodapé do livro da nossa professora, Helena da Rocha Pereira. Fomos a sua última turma.

Lembro-me da indignação geral no final da prova, mas também me recordo do fascínio que Aquiles exercia sobre mim.

Talvez devido ao meu carácter inseguro de então, eu fixara bem a encruzilhada do herói.

A sua mãe, Tétis, tinha sido peremptória:

ou Aquiles iria guerrear em Tróia e tornar-se mítico, mas pagar a glória com uma violenta morte prematura;

ou Aquiles ficaria na doce vida doméstica a envelhecer serenamente, mas condenado ao anonimato.

Para Aquiles não houve dilema.

Ele nascera para a heroicidade.

Aos vinte anos, esta promessa de fama, ainda que com um revés fatal, é muito sedutora.

Irene Vallejo, num dos livros mais incríveis que li na vida, O Infinito num Junco, refere que não seríamos os mesmos sem Aquiles e sem a Ilíada de Homero.

Eu não teria sido.

Mas bem mais importante para a história e cultura do Ocidente, Alexandre, o Grande, também não teria sido.

O jovem conquistador era obcecado por Aquiles e guardava os 15 000 versos da Ilíada como o seu maior tesouro, enquanto construia, sanguinariamente, um império global. Alexandre sonhava com um mundo mestiço, universal e culto.

Na verdade, a cultura ocidental não teria sido a mesma sem este macedónio megalómano, rapidamente adoptado pelos gregos e primeiro responsável pela difusão e domínio da cultura grega.

“Desde a Anatólia até às portas da Índia, no mundo helenístico expandido e mestiço, ser grego deixou de ser uma questão de nascimento ou de genética, tinha muito mais que ver com amar os poemas homéricos.”

“Numa sociedade que nunca teve livros sagrados, a Ilíada e a Odisseia eram o mais parecido com a Bíblia.”

No vasto mundo helénico, quantas gerações de adolescentes não terão crescido a ler ou a ouvir declamar Homero?

Não terá chegado parte desse filão até aos nossos dias?

Duas palavras que caracterizam a adolescência foram há milénios registadas:

  • “A língua grega tem uma palavra para descrever a sua [de Alexandre… ou de qualquer jovem] obsessão: póthos. É o desejo do ausente ou do inalcançável, um desejo que faz sofrer porque é impossível de acalmar. Nomeia o desassossego dos apaixonados não correspondidos e também a angústia do luto […]”.
  • Cólera” é a primeira palavra da Ilíada.

Conclusão: Na juventude, somos todos netos de Aquiles, até aqueles que não leram Homero.

Imagem: quadro de Tétis tentando tornar Aquiles imortal.


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Inquietação

A inquietação é o poderoso motor da evolução e da criação humanas.

É a condição da nossa existência, o sinal da nossa consciência da vida.

No entanto, se em excesso, para os comuns mortais, a inquietação deixa de ser criadora e torna-se paralisante, ao transformar-se em angústia permanente.

Eu sou um comum mortal.

O estado ansioso, na verdade, liga-se à previsão de futuro apenas presente nos animais racionais: quando esquecemos o “carpe diem”, surge o desassossego, a dúvida, a interrogação e a mudança transformadora.

No último Original é a Cultura – SIC, o tema foi a Inquietação.

Dulce Maria Cardoso refere, no final, a inquietação mais menosprezada pela sociedade: aquela provocada pelo desgosto amoroso.

De forma bem-humorada mas muito séria, a escritora defende, com toda a legitimidade, a baixa por desgosto de amor.

Num dos episódios Os Herdeiros de Saramago -RTP, valter hugo mãe alerta para o antídoto mais eficaz contra os efeitos nefastos da inquietação: a amizade.

Sugere, com a sagacidade aparentemente ligeira que o caracteriza, que devia haver uma lei que proteja as amizades como há leis que protegem os cônjuges.

A distância geográfica voluntária dos amigos devia ser, inclusivamente, taxada: o amigo que se ausenta tem obrigação de indemnizar quem fica para trás, através de uma pensão que compense o abandono. Em alternativa a este imposto, os amigos poderiam sempre ser presos e nós iríamos visitá-los a uma cadeia perto de casa e levar-lhes bolachas amororsas.

Rendi-me a esta ideia!

No final do programa moderado por Cristina Ovídio, Rui Vieira Nery sugeriu “I Cover the Waterfront”, uma música digna de quatro semanas de baixa, interpretada pela diva do desencontro amoroso, Billie Holiday.


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Winter 2021/22

Estamos no último trimestre de 2021 e já é válido que comecemos a fazer balanços:

Superei com muita distinção o desafio a que me propus no início do ano: reduzi o meu vício consumista… o que não significa que se tenha extinguido a vaidade.

Tomei, apenas, consciência de que tenho muita roupa e, portanto, posso tratar de fazer 1000 conjugações que andarei sempre com um look novo até ao ano 2100.

Depois de dois invernos em casa e de alguns desvarios nas compras online, para compensar insensatamente a frustração do isolamento, chegou a hora de enfrentar o Outono e de procurar algumas inspirações.

Gosto sempre de procurar modelitos de street style, o que faz ainda mais sentido agora, uma vez que saímos da redoma.

Num estilo mais sóbrio e neutro:

Ou com mais cor e diversão:

Ou…

Pára tudo!

Quem são estes dois fenómenos?

OLIVIA on Twitter: "sarah linh tran and christophe lemaire… "

Christophe Lemaire & Sarah-Linh Tran, criadores da LEMAIRE!

Totalmente inspiradores!


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Labaredem-se

Prometeu foi um importante “benfeitor da humanidade”:

roubou algumas sementes de fogo à roda do Sol e levou-as para Terra, escondidas num caule de férula.

Zeus puniu-nos com uma terrível criatura forjada para o efeito, Pandora.

Prometeu não ficou muito melhor: foi preso com grilhões de aço no cimo do Cáucaso e uma águia devorou-lhe o fígado que se ia renovando incessantemente.

O mito podia terminar aqui, mas não é verdade.

Héracles passou pelo Cáucaso e trepassou com uma flecha a águia de Prometeu.

Nós ficámos com a Pandora e a maldita caixa, mas já não nos tiraram o fogo.

É desse fogo que nascem as metáforas.

Como esta da Cláudia R. Sampaio.

Resta-nos honrar Prometeu e os Poetas:

labaredemo-nos, então!

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre


Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha


Sempre me recusei a arder como os outros


Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!


Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio


E no fim são todos cinza

(O mito de Prometeu foi retirado do fascinante Dicionário da Mitologia, de Pierre Grimal)


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Sementes

Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra.”

(final do poema “O Minotauro”, de Sophia de Mello Breyner)

Atravessámos quase dois anos de pandemia e não aprendemos o que é realmente importante.

Houve palmas para os médicos e enfermeiros, mas não se melhoraram as condições de trabalho destas profissões. Reconheceu-se o papel do sector cultural, durante os confinamentos, mas continua a precariedade no sector. Realçou-se o desempenho dos professores, mas prolifera a desvalorização social e política da profissão.

Não evoluiremos, enquanto não percebermos que a saúde, a justiça, a arte e o conhecimento são os verdadeiros pilares de um povo. Já que não brilhamos com euros ou dólares nos bolsos, poderíamos apostar na luminescência espiritual…

Vivemos na vertigem da rapidez e da mudança; só interessa o que flui ou telinta.

A comunicação seguiu a tendência e privilegia o emoji e a imagem.

A palavra, que nos distingue enquanto espécie, exige tempo e concentração e não temos nem um, nem outra.

Para contrariar esta perversidade, é primordial ensinar a fruir o tempo livre, assim como é essencial treinar a capacidade de concentração e educar para a empatia e para a gestão das emoções.

Ser professor é uma nobre profissão: é ao professor que compete a reponsabilidade de recolocar o foco da sociedade na palavra. Os professores são, por princípio, os guardiões da palavra (falada e escrita).

O início dos séculos e dos milénios são sempre conturbados e, no início do nosso, criou-se alguma confusão em relação à função do professor.

Criou-se o jargão retórico de que o professor do século XXI devia ser jovial, sintético e multimédia.

O discurso e o diálogo ficavam, definitivamente, no século XX.

Felizmente, acima das modas barrocas, está a nossa ancestralidade cultural e a palavra está connosco desde o início; é a ela que instintivamente recorremos quando tudo é incerto e rui.

Está provado que, perante a avalanche tecnológica, a solidão aumenta proporcionalmente, assim como a depressão. Não aprendemos a escutar, mas temos uma necessidade premente de sermos ouvidos.

Educar para a escuta ativa, para a reflexão e para a palavra: são estes os verdadeiros lemas desta professora do século XXI. A multimédia é apenas uma excelente ferramenta para chegar a este fim.

Eugénio de Andrade fala nos guardiões de sementes:

“Que fizeste das palavras?
Que contas darás dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e do sol dos cavalos?
Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?”

O Original é a Cultura regressou e o episódio da rentrée foi precisamente dedicado aos professores.

Fotografia de Brian Oldham.


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Mar nas veias

Mundo redondo, tenho o mar nas veias.

E no mar há sereias.”

Miguel Torga, transmontano, é mais conhecido pelas temáticas telúricas, mas é um poeta da Natureza e, como tal, sensível ao mar.

A ideia de ter o mar nas veias e toda a sua flora e fauna é muito tranquilizante.

Significa que o mar caminha comigo para onde quer que eu vá.

É uma ideia muito apaziguadora, sobretudo porque passo grande parte do ano tão longe deste universo.

Quanto à mais bela sereia do mar, cujo aquário transportei durante nove meses, está sempre comigo.

Também na costa, há plantas aromáticas e foi com elas que recuperei a disponibilidade para as flores, num caloroso almoço familiar.

Neste fim de semana, voltei à minha cidade e estou a tentar repor o meu stock de amizade, abraços, teatro e maresia.

Para passar o resto do ano a flutuar… ou a voar.


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Florir

Durante anos, trouxe flores para dentro de casa.

Achava poética a ideia das flores, tão efémeras, morrerem acompanhadas e contempladas.

Faziam-me bem as cores do campo em casa.

Cheguei a exagerar nas mimosas, completamente inebriada pela minha tonalidade de amarelo preferida.

A Beatriz cresceu e, nem sei bem a razão, perdi o hábito.

Talvez saiba porquê: o meu quintal está totalmente selvagem, numa autogestão que me surpreende com orégãos e espinafres, mas também com urtigas, folhas secas e ervas daninhas.

Quando vi a imagem desta cozinha, percebi que tinha de mudar.

Eu quero estas cores, de novo, na minha vida!

A ideia da prateleira com flores e livros na cabeceira da cama já está anotada.

Será que os meus gatos não irão delirar com a ideia de uma ponte florida?

Estas plantas parecem sobreviver a um cão.

Pelo menos nos minutos que demorou a tirar a fotografia…

O próximo passo é tratar do meu terraço e do meu quintal; só assim terei um fornecedor esplendoroso e gratuito de flores.

Tenho de encontrar motivação para enfrentar o monstro verde.

O meu subconsciente é retorcido.

Há poucos anos, só fui arrancar as ervas do quintal quando fui atingida por um surto de inveja pela Anita, ao ler o livro Anita e o Jardim. Achei que eu, Ana, não era menos do que aquela menina rosadinha e dinâmica e pus mãos à obra.

Agora, espero que estas fotografias de sonho resultem, mas tenho de admitir que os sentimentos que me deixam verde por dentro são bem mais eficazes.

As fotografias são Laugh at you.


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Autocaravanismo (para totós) na Costa del Sol

Dez dias numa autocaravana faz-me pouco mais do que totó no caravanismo, mas já tenho estatuto para tecer considerações e adiantar dicas.

Confirmo que é uma sensação intensa de liberdade partir sem planos, fazer o roteiro no dia a dia, avançar ou parar consoante a disposição e a paisagem e não ter de pensar que há uma reserva feita, um hotel para procurar ou uma tenda para montar ao fim do dia. É o compromisso ideal entre rebeldia e conforto, que a pessoa já não tem costas para a insurreição total e dormir no chão da praia.

A minha ideia inicial era ir avançando, sem compromisso, pela Costa del Sol até encontrar a praia onde me apetecesse ficar.

Houve noites com esta vista e em que adormeci a ouvir o mar, o que retempera qualquer coração inquieto. Desconfio, seriamente, que os meus neurónios têm a forma de algas.

Não tive qualquer problema em pernoitar junto de um miradouro ou perto da praia. Pelo que li, pode-se fazê-lo, desde que não haja sinalização específica a proibir autocaravanas e não se coloque qualquer equipamento (cadeiras, mesas ou toldos) fora da carrinha. Também nunca me senti em perigo, mas segui muito a minha intuição em relação aos lugares e posso ter tido sorte de iniciante.

Nas cidades, como Sevilha, Ronda e Málaga, não foi fácil encontrar paisagens magníficas onde fosse permitido (e seguro!) passar a noite e, nesse caso, os parques pagos foram a opção. Zero romantismo, mas total segurança.

Estas manhãs foram menos bucólicas e ficou claro que as autocaravanas não são feitas para explorar cidades, por razões de volumetria óbvias.

Visitar cidades não fazia parte do meu objetivo inicial, mas fiquei com muita vontade de voltar a Málaga e visitar a Fundação Picasso.

A Costa del Sol começa em Tarifa, uma cidade histórica, mas talvez por este passado ser demasiado sangrento, não me senti especialmente atraída pela cidade. No entanto, a paisagem da estrada que liga Algeciras a Tarifa é de cortar a respiração e fiquei emocionada ao avistar África (Ceuta vê-se perfeitamente).

Confirmei que Tarifa não me era favorável. Fui multada por mau estacionamento e aprendi que uma autocaravana não é propriamente discreta para infringir regras de trânsito.

A influência árabe na cidade é evidente na decoração, na arquitetura e na gastronomia.

Continuo sem perceber como continuamos a viver este apagamento da evidente e secular presença árabe nos costumes, língua e tradições dos povos ibéricos. Parece que nunca nos libertámos totalmente da prática de “terra queimada” praticada durante a reconquista cristã.

A variedade e qualidade do pão de Tarifa impressionou-me; é o resultado da convivência de várias técnicas culturais e práticas ancestrais.

Entretanto, segui pela Costa del Sol e apareceram-me algumas praias pequenas e menos frequentadas; a minha intenção, desde o início da viagem, era evitar os aglomerados de Marbella ou Torremolinos.

A água do Mediterrâneo é transparente e tépida e, fugindo destas cidades-empreendimento, há surpresas muito boas, mas nada como a que me esperava um pouco mais a Este.

Nerja – terminou a busca!

Senti-me imediatamente confortável na cidade, talvez porque passei muitas tardes neste cenário quando era pré-adolescente: foi em Nerja que se filmou o “Verão Azul”. A cidade não é cara, os hotéis são poucos e discretos e as referências ao capitão Chanquete, ao Piraña e ao resto do grupo seduziram-me.

Balcón de Europa – Nerja

As praias não estão super-lotadas e têm chuveiros de água doce, o que é essencial para o autocaravanista asseado.

Na verdade, a casa de banho foi a minha grande desilusão na autocaravana. O depósito de água limpa é minúsculo: 2 banhos rápidos esgotam a reserva e nem sobra uma gota para o lavatório ou para o lava-louças. É verdade que em qualquer torneira (paga ou gratuita) se enche o depósito, mas a ideia idílica de estar autonomamente estacionado por dois dias não é real. O depósito das águas negras também é problemático: minúsculo, pouco perfumado e esvaziá-lo já não é tão fácil, embora as cidades tenham áreas de serviço para autocaravanas – ASA (com locais específicos para os diferentes resíduos). Em SOS, pode-se esvaziá-lo numa casa de banho, mas não é a melhor solução.

Nerja revelou-se o destino da viagem, mas ainda houve outra surpresa.

No regresso a Portugal, passei por Ronda.

Puente Nuevo, do século XVIII, galga a garganta do Tejo

Uma cidade vertical (literalmente) com origem árabe e que, mais tarde, se notabilizou pelas lides tauromáquicas (o aspecto que me desagradou…).

É tão incrível o facto vertiginoso de ter sido construída no cimo de um desfiladeiro e tão encantatória que conquistou artistas como Orson Welles e Ernest Hemingway. Orson Welles morreu nos E.U.A. mas pediu que as suas cinzas repousassem em Ronda.

A cidade antiga, com arquitetura muçulmana e o palácio de Abbel Mallek, filho do rei de Marrocos

Também foi em Ronda que encontrei o melhor café expresso. Apeteceu-me tanto beijar a senhora, depois de 8 dias de uma triste água suja!

Quanto à experiência caravanista, de facto o aluguer não é barato, sobretudo na época alta, mas a cozinha equipada foi uma inesperada vantagem que contribuiu para economizar nas refeições: é muito prático usá-la e muito cómodo, porque não obriga a sair e a procurar um restaurante diariamente.

A noção de privacidade e higiene alterou-se, ao longo dos dias, mas aconteceram muitos episódios cómicos que, desconfio, não serão só fruto da inexperiência; as circunstâncias são muito diferentes daquelas a que estou habituada na minha casa grande!

O inconveniente de conduzir um furgão-caracol que é alugado é que temos de ter sorte com a empresa em quem confiámos uma fiança. Não foi o caso: Autocaravanas Badajoz nunca mais!

O balanço é, no entanto, muito positivo, sobretudo porque o objetivo era desintoxicar de wi-fi, esquecer testes, notícias e certificados Covid, horários e check-lists, partir sem ideias pré-definidas, respirar e descobrir a melhor praia da Costa del Sol.

Fica um lembrete: para a próxima, optarei por um modelo mais simples e mais pequeno que permita alguma agilidade na cidade (e uma empresa honesta!).

Málaga ficou já no roteiro de 2022!


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Sentimental

Uma carência de serotonina, uma crise de meia idade ou a ressaca de tantos meses de tensão global pandémica levaram-me a um estado meditativo solitário. Foi profundo e com o tempo certo, vejo agora, mas estas inquietações da alma parecem-me sempre prolongadas.

Sinto uma revolta natural contra este tipo de desassossego que perdura.

Talvez seja porque a melancolia crónica me derruba e me obriga à introespecção improdutiva.

Insanamente, continuo a medir os meus dias pelos actos e tarefas que equacionei e não pelos progressos mentais ou emocionais que resolvi. Na verdade, estes últimos são muito mais determinantes para o meu bem-estar do que os primeiros, mas desenrolam-se de uma forma lenta, discreta e, frequentemente, imperceptível.

Felizmente, o corpo e a mente têm sempre a capacidade de me obrigar à pausa e assim aconteceu.

Respeitar-me, retomar a psicoterapia, dar e receber amor em todas as suas formas e usufruir da arte humana e natural sempre foram os responsáveis pela minha salvação. Desta vez, também me resgataram.

Regressei à leitura prazerosa com Ferrante e Jávier Marias, voltei a emocionar-me com as palavras da Cláudia Lucas Chéu e com este vídeo de Roger Wolfe (entrevistado pela Raquel Marinho), entusiasmei-me com o teatro, prestei culto a programas como o da Gabriela Moita, oportunamente intitulado “Impaciência do Coração“, dormi, abracei, viajei e voltei a sentir-me livre, como já não acontecia desde 2019.

A poesia ajuda-me a conhecer-me melhor, ensina-me a conviver com a minha natureza sentimental (como refere Roger Wolfe), orienta-me de forma a aceitar a angústia inevitável das almas inquietas que, imprudentemente, chega como uma onda que gela. Durante a vaga gelada, terei de aprender a não me debater de imediato, pois a reacção frontal contra uma força inexpugnável conduz a um esgotamento inútil.

Serei paciente e aproveitarei a maré posterior para boiar até à baía onde tenho pé.

Sou afortunada.

Na costa, há sempre a possibilidade de abarcar a beleza extraodinária da minha vida e do mundo.

Bom recomeço!


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Certezas

A voragem dos dias provoca tamanho sorvedouro na minha vida que me cercam partículas, num raio mínimo de 1 km.

Deito-me e levanto-me na poeira.

À noite, pesam-me os sedimentos que não encontraram o seu lugar.

Chamam-lhe insónia.

A escuridão mais assustadora é a que encontro no peito quando fecho os olhos.

A intensidade do amor e a luz dos livros são a minha única possibilidade de redenção.

Perfilei, aleatoriamente, os livros que me esperam na prateleira de cima do escritório e tranquilizo-me com Afonso Cruz.

Ainda vou ser muito feliz.

“Por vezes, os livros que não são lidos podem assumir um ar acusador. Muitos leitores sentem alguma culpa quando olham para as pilhas de livros por ler. No meu caso, considero estes livros uma possibilidade de ser livre: não tenho apenas um livro para ler, tenho muitos, e isso permite-me escolher o próximo[…]. No fundo, concordo com Jules Renard quando escreveu em Notas sobre el Oficio de Escribir: «Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz».”

Também foi por causa de Afonso Cruz e desta entrevista incrível a Bernardo Mendonça que ouvi, depois de tantos anos, esta música de Chico.

Sobre a rotina, precisamente.

E esta! Para os corações mais sensíveis ouvirem em noites de insónia!

Ou talvez não.

Os corações sensíveis terão mais dificuldade em conciliar o sono e podem despertar a sua “llorona”.