“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Importa?

Ouvi Oliverio Girondo, no programa Literatuta Aqui, dito por Pedro Lamares.

Só cumprimentei o escritor, mas ficou-me a vontade de voar com ele!

Nasceu em 1891, em Buenos Aires.

Não era fisicamente atraente, mas um homem que escreve assim não precisa.

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Em total coerência com a transcrição, Girondo casa com a escritora Norah Lange.

“Não me importa nada que as mulheres tenham seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Não dou nenhuma importância ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que ganharia o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas isso sim – e nisso sou irredutível — não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendam seduzir-me!

Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.

Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognóstico reservado?

Maria Luísa era uma verdadeira pluma!

Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar até à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…

Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. “Maria Luísa! Maria Luísa!”… e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.

Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.

Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!

Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?

Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando. “

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As fotografias são da fotógrafa alemã Katharina Jung, uma mulher alada, sem dúvida.

Descobri-a no IGNANT.


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Tarte de espinafre e courgette

O Alentejo continua quente e eu continuo sem querer iniciar o hábito das sopas que cheiram a Inverno e dias escuros.

A Beatriz não gosta de saladas e eu encontrei um belo embuste para obrigá-la a comer verdes.

Invento tartes.

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Ingredientes:

-1 embalagem de base de pizza (é a massa pré-cozinhada com menos gordura adicionada);

-1 alho-francês;

-duas mãos cheias de espinafres;

-meia courgette;

-4 fatias de fiambre;

-4 ovos;

-1 dl de natas de soja;

-uma mão-cheia de queijo ralado;

-sal e pimenta.

1-Forrar uma tarteira com a massa.

2-Cortar os legumes e saltear numa frigideira com uma colher de chá de azeite.

3-Bater os ovos com as natas, sal e pimenta.

4-Adicionar aos legumes salteados e ao fiambre.

5-Polvilhar com o queijo e pincelar as margens da massa com azeite.

6-Levar ao forno a 190ºC por 35 minutos.

 


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Selvagem

O Senhor Tigre veio connosco da Biblioteca.

Senhor Tigre Capa

O Senhor Tigre vive num mundo de pessoas seríssimas e tenta ser um deles.

Tal como eu.

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Sente-se infeliz e preso a obrigações e convenções do mundo adulto.

Tal como eu.

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Até que se apercebe de que se sente mais feliz se for fiel à sua natureza.

Tal como eu.

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Mesmo que para isso tenha de pôr-se a nu, defraudar expectativas e ser enviado para a selva.

Tal como eu.

dav

dav

Mas o Senhor Tigre não é um Tigre como os outros.

Sente-se demasiado sozinho se for misantropo.

Tal como eu.

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Fico assim, de boca caída, no dilema de todos os dias: como contemporizar de forma a viver em sociedade, mas sem anular a minha índole?

O lúcido Tigre é da autoria do criador do livro A Minha Professora é um Monstro (um dos meus livros favoritos), Peter Brown;  no seu blog explica todo o processo criativo, quer enquanto autor, quer enquanto ilustrador.

 

 

 

 


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Lois

O mês de Agosto, o mês que parece não ter fim, acaba-se num sobressalto.

Foram 30 dias fora de casa: nada de trabalho, redes sociais, obrigações sociais ou tarefas domésticas. Quase nada….

É, contudo, este o pior mês para viajar.

Em Agosto, todos os sítios do mundo parecem estar descobertos e saturados.

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Em qualquer lugar minúsculo no mapa ou imagem deserta na Internet, pululam turistas.

Junto ao mar é impossível e na montanha é parecido.

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Por esses motivos, fico sempre feliz quando encontro raridades, longe destes nossos tempos tão néon, tão estridentes, tão trendy, tão digitais, tão-tão…

Lois é um deles.

Com a Casa Rural La Catedral de la Montanã.

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É a casinha do Avô da Heidi, mas em versão confortável.

Lois é mais pequeno do que a aldeia da Heidi, mas o espírito comunitário faz com que nos sintamos bem recebidos por todos. No segundo dia, tratam-nos pelo nome e convidam-nos para participarmos na dinâmica do lugar.

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Sem Internet aberta, sem TV ou computadores, o tempo passa da forma certa. Olhamo-nos e ouvimo-nos como quase já nos tínhamos esquecido.

rhdr

No deslumbramento do momento, pensei mesmo que poderíamos ter uma leitaria e eu faria chocolates.

Enfim, Setembro chegou e a realidade também.

As unhas já estão pintadas e o baton na bancada, assim como as restantes pinturas de guerra.

Picos da Europa 2018

Talvez nos valha ainda o ar, o silêncio e a solidão com que enchemos os pulmões!

Bom reinício!

(A primeira, segunda e quarta fotos são da autoria do meu Companheiro de Viagem!)

 

 

 


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Alternativas

Numa escola do Alentejo, assisti a uma iniciativa louvável, ao longo da qual se convidaram vários profissionais, a fim de partilharem as suas experiências académicas e de trabalho, com jovens de quinze anos.

Numa das intervenções, uma pediatra enfatizou a importância de manter o foco na hora de escolher o futuro.

Descreveu o seu duro percurso académico e tudo aquilo de que teve de abdicar para se licenciar. É uma profissional realizada, mas realçou a necessidade de reflectir sobre o que se gosta e de alargar o leque de opções.

Salientou que teria sido muito feliz como educadora de infância, porque do que fundamentalmente gostava, enquanto médica, era do contacto com as crianças. Pensava, actualmente, que teria vivido o início da juventude menos pressionada e isolada, se tivesse feito essa escolha.

Foi um discurso humilde e consciencioso e fez-me pensar sobre as minhas escolhas.

No final do ensino básico, percebi que gostava muito de ler e de escrever e que teria de seguir Humanidades.

Jenny Kroik

Apesar de tímida, gostava muito de pessoas e de partilhar descobertas.

Estavam reunidas as características essenciais para, um dia mais tarde, ser professora.

Na minha ingenuidade, depois de ver vinte vezes O Clube dos Poetas Mortos, não fazia ideia das dificuldades.

Depois de muita persistência da minha parte, da minha família e de amigos, consegui exercer e, finalmente, pertencer à carreira docente.

Hoje, tal como há vinte anos,  continuo sem saber o que vai acontecer no mês de Setembro; continuo sem estabilidade geográfica.

A dispersão das últimas duas décadas teve custos elevados, no meu equilíbrio financeiro e, principalmente, no emocional, assim como na manutenção dos afectos.

Obviamente que também foi devido a esse périplo que conheci o meu país;

aprendi muito com pessoas diferentes e tenho legitimidade para afirmar que os professores são, na sua maioria, esforçados, responsáveis, bem intencionados e muito generosos. Sobretudo no interior do país, fazem, de facto, a diferença na vida das crianças. Apenas uma ínfima parte está esgotada e não tem a resistência ou a resiliência que esta profissão, cada vez mais, exige.

Gosto de ser professora, mas reparo que, a cada ano que passa, chego ao fim do dia mais cansada.

São trinta alunos numa sala e é impossível manter o contacto (mais do que visual!) com todos.

O “Programa de Português” é alienado: exigente, infindável e inesgotável, ignora que os alunos (que nunca leram um livro para além da colecção Uma Aventura) precisam de tempo para analisar, assimilar, e para aprenderem a apreciar um texto literário.

O “Programa e Metas Curriculares de Português” de 2014 sugere quatro aulas para leccionar Fernão Lopes, duas para História Trágico-Marítima, oito para António Vieira e seis para Amor de Perdição, por exemplo. Contextualização histórico-cultural incluída!

Apesar da demência ministerial, travo uma luta diária para conseguir trazer todos os alunos comigo e sinto, com frequência, que o problema está muito para além da escola.

O final do dia é, por todos estes motivos, muitas vezes, marcado pela exaustão e frustração.

lady at subway Jenny Kroik

Entretanto, o outro motivo que me fez optar por esta profissão, a literatura, vai ficando  sequestrada.

À noite, raramente consigo ler mais do que uma página sem confundir as letras.

selfie Jenny Kroik

Volto à questão levantada pela pediatra:

não poderia ter feito outra escolha que me fizesse feliz e preenchesse os requisitos iniciais: a literatura e a partilha com os outros?

Até que ponto não estaria no lugar certo a trabalhar numa livraria ou numa biblioteca?

Jenny Kroik livraria

É uma questão existencial que me atormenta.

A persistência na profissão, como a maior parte das grandes decisões da minha vida, é, sem dúvida, mais emocional do que racional.

Quando penso numa alternativa mais serena para a minha vida, abalam-me os sorrisos dos cento e quinze alunos deste ano e os sorrisos que me acompanharam nas últimas duas décadas.

Para mim, a escola é um lugar de Conhecimento, mas principalmente de Afectos; acredito que não há aprendizagem efectiva, se esta não tiver um contexto afectivo.

E volta o lado emocional a toldar-me o pensamento…

Não sei se estou bem.

Haverá o lugar certo?

Imagens: Jenny Kroik.

 


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Pele

Pele

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira

Vogue Portugal Abril 2018

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…
                                                                                                                                                                  .
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…
                                                                                                                                                                  .
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…
                                                                                                                                                            .
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
                                                                                                                                                            .
David Mourão-Ferreira

 


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Diferenças

As diferenças enriquecem-nos, mas habitualmente são difíceis de aceitar.

Ainda mais difíceis de tolerar em meios pequenos e por pessoas que, independentemente de serem mais velhas ou mais novas, pouco aprenderam com a vida.

Tenho reparado, com tristeza, que esta constatação é válida em todas as escolhas individuais que não sigam o já convencionado.

Há também uma enorme confusão entre o conceito de feminismo (que eu defendo) e a ideia de que somos todos iguais.

Felizmente, não somos todos iguais!

Feminismo não significa que apaguemos as diferenças que existem entre os milhões de géneros que habitam na Terra.

Somos bonitos como somos!

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Sete bilhões de corpos e almas.

Seremos todos, todavia, mais felizes, quando todos realçarmos as nossas diferenças e assumirmos o nosso género tão individual, sem querer imitar ninguém.

Martha_by_Kimmo_Metsaranta_IGNANT

Ora como a nossa individualidade se constrói também através do que vestimos, eu já assumi que adoro vestidos.

ignant-john-clayton-lee

Muito fluidos, de algodão ou linho.

neutral dress

Cores neutras.

vestidos 2018.jpg

Esta simplicidade talvez coincida com um momento da vida em que apenas quero proteger-me, mas não tentar ofuscar (-me) com folhos e flores.

Ou talvez este discurso seja uma grande conversa para justificar a fraqueza de ir comprar mais um vestido novo!

Hamji bohemian dress 2018

Imagens: IGNANT,  Bohemian Diesel e  HWTF 

christinealcalay vestido cobre

christinealcalay vestido de linho