“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Aerolivro

A memória nunca foi o meu trunfo.

Nunca recitei poemas de cor, nem mesmo depois de lê-los cinquenta vezes.

O único aspecto positivo dessa minha incapacidade é que de todas as vezes que leio um poema de que gosto, descubro uma palavra fascinante ou uma imagem de que me tinha esquecido.

Hoje, lamentei esta minha incapacidade.

Queria tanto decorar estes vinte e dois minutos da exposição do escritor valter hugo mãe. Ouvi-o repetidas vezes e queria fixar cada ideia e cada formulação frásica.

Gosto de ler vhm, mas neste momento gosto até mais de ouvi-lo.

“A sobrevivência não é teórica, é a coisa prática [mas] o que nos assegura a humanidade é a Fernanda Montenegro, a Elza Soares, é o Chico Buarque, é o Caetano Veloso, é o Raduan Nassar, é o Guimarães Rosa, é o Machado de Assis; são estas pessoas que nos conferem e nos auscultam na amplitude humana.”

“Infelizmente, parece que o lirismo e sobretudo a delicadeza são valores obsoletos, mas para mim eles compõem exactamente o que justifica a humanidade ou compõem aquilo que pode caracterizar a humanidade.

Para mim, a construção humana é uma fuga ao grotesco; é um caminho para longe do grotesco e inclusive é até um caminho que opera na nossa condição animal mas que de alguma forma pretende fazer uma redenção [desse lado] animal.

A gentileza, a delicadeza, a sensibilidade, o conhecimento, a aprendizagem possível, todo o exercício de benignidade são o que justifica o projecto humano.”

O escritor leu também um excerto que enriqueceria a minha vida e tornar-me-ia mais feliz, se estivesse disponível para consulta na minha cabeça:

“As bibliotecas deviam ser declaradas da família dos aeroportos, porque são lugares de partir e de chegar.   Os livros são parentes directos dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se entrassem dentro do próprio ar, a ver o que existe para depois do que não se vê.    O leitor entra com o livro para o depois do que não se vê. O leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas.   Os livros são também toupeiras ou minhocas, troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo. Os livros esticam e tapam furos na cabeça. […]

As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade dos ignorantes e dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam canções ou trombetas a cada instante. E há invariavelmente quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé.   Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra. Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame o direito de seguir maior viagem.

Todos os livros são infinitos. Começam no texto e estendem-se pela imaginação. Por isso é que os textos são mais do que gigantescos, são absurdos de um tamanho que nem dá para calcular. Mesmo os contos, de pequenos não têm nada. Se os soubermos entender, crescemos também, até nos tornarmos monumentais pessoas. Edifícios humanos de profundo esplendor.   Devemos sempre lembrar que ler é esperar por melhor.” 

valter hugo mãein Contos de cães e maus lobos   


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Ainda bem

Durante a adolescência e pelos meus vinte anos, morri muitas vezes de Amor.

Da forma mais sofrida possível.

Este poema de Maria do Rosário Pedreira devia ser dobrado com a bula dos antidepressivos que compramos quando nos sangra o coração imaturo.

Na altura em que me afundava em choro e Chico Buarque, não acreditava num futuro feliz, a minha vida acabava no momento em que “o amor da minha vida” tinha a frieza demente de acabar comigo.

Inevitavelmente, apareceram outros amores, uns mais certos do que outros, que ajudaram a estruturar o maior de todos: o amor-próprio.

Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.

Maria do Rosário Pedreira


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Indescritível

A mais bela (e verdadeira!) descrição de um beijo é de Afonso Cruz.

No livro Princípio de KARENINA :

“Recordo muito bem o trajecto que os nossos lábios, os meus e os da Fernanda, fizeram pela primeira vez, uns na direcção dos outros, até se tocarem, a sua lenta aproximação, o tempo ia desacelerando, as pálpebras caíram criando a noite, a noite melancólica dos amantes, os lábios cada vez mais perto, a respiração quente (há quem diga que é doce, mas é uma hipérbole poeticamente pobre, um beijo tem de ser tudo menos doce, tem de conjugar demónios), os lábios cada vez mais perto, o coração cada vez mais como as gazelas do monte Hebron, os lábios cada vez mais perto, talvez as nossas mãos se tenham apertado, o rosto enrubescido (noutras alturas fica corado, mas com os beijos enrubesce, há um glossário apropriado a todas as situações e devemos estar atentos à linguagem certa, devemos muito à exactidão), os lábios cada vez mais perto, o coração aos pulos pelo monte Hebron, as pernas frágeis e vacilantes sob o peso do que está para vir, os lábios cada vez mais perto, mil anos mais perto, pois o tempo está quase parado, uma inspiração entrecortada, arrepios pelo corpo, os lábios cada vez mais perto, uma eternidade mais perto, os pêlos dos braços eriçados, a pressão na boca do estômago, alguns cabelos colados à testa com o suor do calor de Julho, as bocas entreabertas, os lábios cada vez mais perto.

E tocaram-se.”


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Perder o Sainete

As expressões idiomáticas revelam a criatividade e vivacidade da língua.

O que dizer do pitoresco “armado ao pingarelho…” , “dar sainete” ou o educado “Quanto pagas, se não é indiscrição?”

Com a doentia tendência dos tempos actuais para a padronização, algumas das nossas maravilhosas pérolas estão a desaparecer.

Reencontrei duas na página de Instagram do site Comunidade Cultura e Arte.

Para além deste reencontro com o lado mais expressivo da nossa língua, há referências, nesta conta de Instagram, a pequenas grandes frases de escritores, realizadores, filósofos, intelectuais,…

Um bálsamo para a minha vista, cabeça e coração que não suportam mais o fel destilado noutras redes sociais.

Surgem-me diariamente, no Instagram, autores como Saramago, com as suas reflexões tão verdadeiras e evidentes, mas tão ignoradas.

E até apareço eu, uma vez que este é o meu estado de espírito frequente, no final do dia.

Nota: Um sainete era uma peça dramática de ópera espanhola, de um só acto, com música. Muitas vezes, era colocado no meio ou no final dos espectáculos. O estilo era vernáculo e era muito apreciado entre os séculos XVIII a XX. Mais uma razão, para não deixar o sainete sair da nossa vida!


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Poder

Há muitas formas de exercer o poder, uma delas é reduzir o outro, metaforica ou literalmente.

Hoje em dia, opta-se por uma redução mais subtil e sofisticada, através do empobrecimento intencional do grupo que não interessa que tenha poder. Empobrecimento material e espiritual, claro.

Afonso Cruz dá-nos uma perspectiva muito interessante sobre as várias formas de diminuir o potencial adversário, de lhe cortar as asas… não vá ele fugir ou ultrapassar-nos.

“Cortam-se as asas dos pássaros para que não fujam, para que não voem.

De certa maneira, naquela altura, na minha altura, não educar as mulheres equivaleria a partir-lhes as articulações, uma vez que isso dificultaria, ou impediria de todo, a sua saída de casa, a sua independência. Curiosamente, as Amazonas, dizia Hipócrates, deslocavam as articulações dos filhos varões, nas ancas ou nos joelhos, para que não pudessem lutar ou fugir e não se organizassem contra as mulheres. Davam-lhes profissões sedentárias: sapateiros, por exemplo (que ironia, fazer sapatos e não poder caminhar). Essa ideia atribuída às Amazonas parece-me apenas uma transposição daquilo que é uma ideia de poder masculina.”


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Ser amoroso

Depois do filme Lion me ter abalado, andei perdida à procura do nosso sentido da vida, enquanto humanidade.

Este poema de Carlos Drummond de Andrade aponta o único caminho digno para as criaturas da terra.

Marília Pêra, actriz brasileira falecida em 2015, declama o poema de Carlos Drummond de Andrade, apontando-nos o outro caminho: a poesia.

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?


Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?


Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.


Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.


Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.


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Filhos

Um dos últimos livros de valter hugo mãe chama-se O Filho de Mil Homens.

Ainda não o li; vi apenas uma entrevista do autor, transcrita com este parágrafo do livro:

Todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.

O título, tal com a frase, transmitem uma ideia de humanidade fraterna que eu, nos dias bons, partilho.

Nos dias maus, perco a fé na humanidade e caio num abismo de onde é difícil sair.

A mais recente queda aconteceu-me ao ver o filme LION.

valter hugo mãe tem razão quando fala da nossa fraternidade e ao lembrar todos os pais que tiveram de viver harmoniosamente antes de nós para que nascessemos.

Há oito anos, depois da minha filha nascer, para além de ser irmã, passei a sentir-me mãe de todas as crianças, ou pelo menos mãe de mil crianças.

Durante as duas horas do filme LION, fui mãe do Saroo, o pequeno Saroo, perdido na babilónica Calcutá. Fui mãe daquele menino de cinco anos e sofri com o frio, com a sua fome e com o seu abandono. Fui mãe dele e dos meninos de rua que são abandonados, maltratados, espancados e violados. São oitenta mil por ano, na Índia. Chorei muito.

Continuei a chorar sem lágrimas e andei sem ânimo durante dias; tentei gerir esta desumanidade, este lado bestial do ser humano que permite este abandono dos seus filhos.

Em última instância, salvou-me o Amor que felizmente me rodeia…

A Índia tem cerca de 30 milhões de órfãos, mas as regras que regem as adoções internacionais são estritas e as adoções domésticas são relativamente raras.

Apenas 4.362 crianças foram legalmente adotadas em 2014 e 3.677 em 2015, de acordo com a Autoridade Central de Recursos de Adoção.”

Eu preciso de agir e tenho pesquisado associações que ajudam os órfãos indianos. Tenho receio do que possa acontecer aos contributos e a desconfiança cresce quando surgem notícias de que há orfanatos pouco honestos.