“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Inventalínguas

“O povo é um inventalínguas”, tal como escreveu Haroldo de Campos e cantou Caetano Veloso.

A nossa língua é dinâmica: cria palavras, deixa morrer outras, modifica outras tantas.

Pensar que a língua se deturpa ou morre por esse motivo é uma assunção de quem não conhece a história da língua. Acredito que existem fases mais criativas e outras mais pobres, como aquela em que vivemos, mas a dinâmica é própria dos organismos vivos.

Nesse sentido, não tenho nada, em teoria, contra as mudanças na forma como escrevemos e falamos…

No entanto, considero que as modificações têm de provir de uma necessidade de quem fala.

O problema deste Novo Acordo Ortográfico é mesmo esse: nenhum dos falantes sentia necessidade de transformar a língua da forma que foi superiormente proposta imposta.

A título de exemplo, nunca conheci quem sistematicamente se esquecesse das consoantes “c” e “p”, no caso das palavras em que estas não são pronunciadas; por experiência profissional, constatei, durante anos, que os erros ortográficos dos alunos não provinham destas consoantes surdas.

Por outro lado, as ambiguidades linguísticas que existem entre o Português Europeu, o Português dos PALOPS e o Português do Brasil (que o Acordo diz pretender diminuir) também não provêm da existência das consoantes mudas ou da acentuação que foi alterada. Como todos sabemos, as diferenças entre as variantes do Português prendem-se sobretudo com questões de pronúncia e de vocabulário específico dos espaços sociais e geográficos.

 

Por imposição profissional, adoptei o Acordo, mas pessoalmente sinto-me muito mais confortável desobedecendo a um Acordo que me foi imposto por políticos que eu desconsidero.

A língua é de quem a fala e a nossa relação com ela é muito íntima: acompanha-nos desde o nascimento, permite-nos o pensamento e sentimo-la como um prolongamento da nossa identidade.

Comprova essa ligação umbilical o facto de ninguém gostar de ser corrigido quando fala: da pessoa mais humilde à mais erudita, todas ficam extremamente melindradas quando são emendadas no seu discurso.

Numa época de total TV lixo, encontrei um programa que devia ser copiado pelos nossos canais privados ou públicos: Livros que amei do Canal Futura, do Brasil.

O Professor Evanildo Bechara esclarece:

“A língua é uma instituição social.

A língua nunca está estável; está sempre instável, num equilíbrio instável.

O equilíbrio é para permitir a comunicação entre todos aqueles que a falam e a instabilidade é porque o povo – que é o dono da língua – está em acção, é criativo e essa criatividade leva também a criar dentro da língua. Esse poder de criação não é exclusivo dos eruditos. O poder de criação é também distribuído ao homem comum.”

 


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Encontrar

theresa-marx_photography_012

Em Todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny, in “Pena Capital”
theresa-marx_photography_013
Fotografias IGNANT


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Chuva de Abril

Eugénio de Andrade reconciliou-me com a poesia, depois de uma adolescência de prosa.

Continua a ser, para mim, um porto muito seguro!

Mesmo em dias de chuva!

Xuan loc xuan on Behace

Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca se desprende.

A chuva em Abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem,
O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga – os seus formosos pés –
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.

Xuan Loc Xuan ilustração

As ilustrações são da vietnamita Xuan Loc Xuan!

Xuan Loc Xuan significa Primavera.


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Patine

escritório vintage

Patine – do francês patinedo italiano patinacamada que recobre algovelatura;

coloração natural ou conjunto de resíduos ou depósitos quenum objecto ou num imóvel mostram a marca do tempo e do envelhecimento.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
ArianeDalle armário antigo integrado na decoração
É a patine que dá alma aos objectos e às pessoas.
A minha casa é velha e tem patine.
Já sofreu obras mas a patine mantém-se.
AD020119_TOC_02_
A falta de dinheiro tem só essa vantagem: não proporciona remodelações megalómanas e irreconhecíveis…
As casas remodeladas que visitei na minha rua estão absolutamente incríveis, mas perderam a alma que a minha ainda tem.
caneu17
Por aqui, a remodelação e a decoração são, por todos os motivos, processos muito lentos e que incluem reaproveitamento.
Os objectos, novos e velhos, andam  à procura do seu lugar…
por vezes durante anos.
ArianeDalle sala de estar
De tantas imagens que procuro e guardo, acredito que o brainstorming vai acontecendo e que os salões vão ganhando, muito lentamente, sentido.
ArianeDalle quarto
Vai demorar, mas quem tem pressa?
Aprendi, no Alentejo, que a calma é uma importante virtude.
JohnDerianNYC_SKJ_24
696-Brewster_MasterBath35-01-01
casa de banho vintage
É verdade que, periodicamente, fico ansiosa com o facto das divisões estarem tão evidentemente inacabadas, especialmente o meu escritório, mas sei que a impaciência é um dos meus piores defeitos.
caneu6
Todas as imagens são do blog HWTF.
ladders_Escada antiga como candelabro de jardim


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Pássaros azuis

A propósito da proliferação de programas de televisão hediondos que transformam as relações entre humanos num espectáculo sórdido;

A propósito desta fúria de publicar todos os momentos da vida, esquecendo o significado da palavra intimidade;

A propósito de declarações despudoradas nas redes sociais e #amordaminhavida / #morroporti;

surgem-me as palavras de Egito Gonçalves:

Katharina_Geber_photography_03

“Uma declaração de amor não é acontecimento do domínio público, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multidões, desalinhando hábitos quotidianos;

uma declaração de amor é um acto de grande intimidade que ergue um véu transparente de onde brotam mel e pássaros azuis. As palavras directas ou indirectas, ditas ou escritas, suscitam a carícia única, irrepetível, a leve percussão que desenha no silêncio a imagem do que se ama.

E assim terá de se guardar. Num lugar seguro onde os sismos não possam encontrar o mapa do tesouro. ”

Egito Gonçalves, O Mapa do Tesouro

Katharina_Geber_photography_IGNANT

As fotografias são da alemã Katharina Geber, do meu site de eleição IGNANT.

Katharina_Geber_photography 2019


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Eliete

A Eliete tem quarenta e dois anos e uma vida aparentemente comum, uma “vida normal”, como escreve Dulce Maria Cardoso, na capa do seu último livro.

Quarenta e dois anos e uma “vida normal”… tal como eu.

oznor

“Quando acabei de me maquilhar no espelho da casa de banho e me vi depois no de corpo inteiro, fui surpreendida por uma mulher atraente. Não me pareceram trágicas as marcas dos mais de quarenta anos de vida, admirei o meu cabelo forte, apesar de saber as suas raízes a embranquecerem, e agradou-me que as rugas dessem algum mistério aos meus vulgares olhos castanhos. Fiz passar com vagar o indicador direito ao longo do contorno do meu rosto que, ao começar a indefinir-se, ganhava finalmente caráter. Descobri, como quem entrevê um velho conhecido ao longe, as minhas feições de jovem adulta. A jovem adulta que fora igual a milhões de jovens adultas de beleza mediana dera lugar a uma mulher que carregava uma história, e a minha história distinguia-me de qualquer outra. Até o dente torto que tanto me atormentou se afirmava agora único entre os sorrisos certos e demasiado brancos das clínicas de implantes espanholas. Não cheguei a enterrar o machado de guerra, mas aceitei as tréguas que o meu corpo a envelhecer me oferecia, se não nos podíamos separar teríamos de pelo menos arranjar maneira de ficarmos em paz, e quanto mais unidos estivéssemos mais imbatíveis seríamos perante os outros.”

Num arrebatamento saudável mas infantil, só me ocorre dizer que Dulce Maria Cardoso é, neste momento, a minha escritora preferida!

Sérgio de Almeida Correia argumenta no Delito de Opinião!