Frasco de Memórias

“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


4 comentários

Repensar a casa

Ao passar tanto tempo confinada, apercebo-me de que a casa precisa de muita atenção e de modificações.

Tenho alguns projetos de carpintaria adiados, porque em Estremoz os carpinteiros são um caso sério; parece impossível, mas estou há mais de três anos à espera de um carpinteiro. O segundo carpinteiro que contactei veio cá, depois de um ano de insistência, e palpita-me que agora vai desaparecer mais dois anos.

Para além disso, tenho uma grande dificuldade de visão de conjunto, portanto, os espaços grandes assustam-me e não consigo torná-los acolhedores. Será por que sou uma pessoa fisicamente pequena?

Quando vivíamos na casa pequenina, a decoração foi tão fácil. Em poucos meses, ficou uma casinha de bonecas mimosa e acolhedora.

Nesta casa grande, é tudo mais difícil.

O blog Forma Plural, da muito inspiradora Helka, dá-me muitas ideias e foi através dos seus posts que fui até ao site Domino.

Confirmei algumas ideias:

Faltam-me mais prateleiras nas paredes da cozinha.

Queria fazer uma prateleira de memórias passadas (e futuras) ligadas ao vinho: garrafas vazias que ficaram na minha história e outras garrafas, cheias, que construirão a minha memória futura.

O meu escritório-biblioteca está tão a meio que parece uma sala multiusos. E é! Aqui acontece de tudo, mas está na hora de dar-lhe uma orientação.

A secretária já está feita (pelo carpinteiro que entretanto desapareceu), assim como algumas prateleiras, mas ainda não as pintei de branco.

A zona de lazer continua a meio.

Falta ainda decorar um dos quartos da casa.

É um closet com cama, para dizer a verdade, mas tem de ficar mais bonitinho para acolher os nossos hóspedes.

O patamar também precisa de ficar bem mais acolhedor.

Todas as imagens foram retiradas do blog Forma Plural e do blog Domino.


2 comentários

Bolo de cacau puro

A Beatriz autonomizou-se como pasteleira e eu sou uma cobaia cada vez mais feliz.

Este bolo de cacau é pouco elaborado e o resultado é garantido: é o bolo ideal para uma criança fazer quase sozinha.

A receita que se segue resulta da adaptação de uma receita velhinha da Avó Silvana que fazia muito sucesso nos almoços de família.

Ingredientes:

350g de farinha de trigo com fermento

300g de açúcar

2dl de óleo vegetal

150g de cacau puro (a Avó Silvana usava Suchard Express)

5 ovos médios

1 chávena de água quente para misturar no final

1- Batem-se os ovos com o açúcar, o óleo e o chocolate até a mistura estar homogénea.

2- Junta-se a farinha, mas sem bater em excesso.

3- Lentamente, acrescenta-se a água quente.

4- Coloca-se numa forma untada e vai a forno quente, 180ºC, durante 40 minutos.

Para nós a receita termina aqui, mas a Avó Silvana ainda colocava a seguinte calda bem quente por cima do bolo. De facto, faz a diferença entre um bolo bom e um bolo extraordinário, mas eu não me permito fazê-la.

Não consigo abstrair-me das calorias que sobrecarregam assim o bolo e que iriam sobrecarregar-me para sempre o sobrolho, no momento em que saltasse para cima da balança, …

Ingredientes para a calda:

1 colher de sopa de manteiga;

2 colheres de sopa de chocolate em pó;

6 colheres de sopa de açúcar;

6 colheres de sopa de leite

Dissolvem-se e fervem-se estes ingredientes, antes de colocar a gulosa calda por cima do bolo ainda quente.

Claro que, antes de saber como se fazia o famoso bolo de chocolate da Avó Silvana, procurava as partes humedecidas do bolo, para assim me deliciar.

Moral da história: há sobremesas que é preferível desconhecermos como se fazem, sob pena de não conseguirmos reproduzi-las com a mesma leveza.


2 comentários

Depois do beijo

Miki Rofu, poeta simbolista, nasceu em 1889, no Japão.

Escreveu este poema:

Depois do beijo

“Adormeceste?”

“Não”, dizes.

Flores em Maio

Florindo ao meio-dia.

Na relva junto ao lago,

Ao sol,

“Podia fechar os meus olhos

E morrer aqui”, dizes.

Em 2020, a alemã Ezgi Polat escreve, filma e fotografa o Amor.

O Amor íntimo e cúmplice, mas também com contradições e perdões.

As mais belas fotografias são aquelas que contam histórias e eu fiquei com uma vontade danada de ouvir os segredos que estes dois trocam enquanto fumam um cigarro:

“Podia fechar os meus olhos

E morrer aqui”, dizem.


Deixe um comentário

Pão doce

Durante o confinamento, não me rendi à pãodemia da Filipa Gomes, embora prometa sempre que vou experimentar o pão da panela, quando vejo este vídeo.

A verdade é que o o pão alentejano é tão bom que não senti necessidade de colocar as mãos na massa.

Enfim, também sou mais bolos e, por isso, contribuí, de outra forma, para o fim das reservas do fermento granulado nas lojas: optei pelos pães doces.

Fi-los na Páscoa e repeti, porque são os melhores pães de leite que já comi.

220g de leite

11g de fermento granulado

60g de açúcar amarelo

60g de manteiga

500g de farinha de trigo

1 ovo grande

1 colher de chá de sal

(Decoração: 1 ovo e 20g de leite)

1- Misturar, numa taça, o leite (apenas morno) com o fermento e mexer durante dois minutos.

2- Acrescentar, aos poucos, a farinha, o ovo, a manteiga, o açúcar amarelo e o sal e misturar bem.

3- Tapar com um pano e deixar fermentar num local agradável (sem correntes de ar), durante uma hora.

4- Numa superfície enfarinhada, cortar a massa em pedaços iguais e formar rolos.

5- Enroscar os rolos em forma de caracol (ou outra à escolha) e colocar num tabuleiro de forno, forrado com papel vegetal.

6- Para a decoração, misturar a gema de um ovo com 20g de leite e pincelar os pães no tabuleiro.

7- Deixar levedar durante mais 45 minutos e levar ao forno pré-aquecido a 200ºC, durante 20 minutos.

Adaptei a receita daqui por sugestão da minha mãe que sabe que tem duas formiguinhas que nunca dizem que não a um desafio que envolva ovos e açúcar. Demora o seu tempo a concretizar mas, depois de comer estes pãezinhos, vai ser muito difícil voltar a comer um pão de leite de padaria.


2 comentários

Louco

valter hugo mãe chama-me sempre à razão, mesmo quando eu estou cheia de mim como, por exemplo, no caso da eutanásia ou do discurso de Ramalho Eanes, ou quando hesito e estou sem saber bem o que pensar.

No caso deste texto, estamos em total sintonia.

poema sobre o amor eterno

inventaram um amor eterno. trouxeram-no em braços para o meio das pessoas e ali ficou, à espera que lhe falassem. mas ninguém entendeu a necessidade de sedução. pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa convictas de que seria falso alarme, e o amor eterno tombou no chão. não estava desesperado, nada do que é eterno tem pressa, estava só surpreso. um dia, do outro lado da vida, trouxeram um animal de duzentos metros e mil bocas e, por ocupar muito espaço, o amor eterno deslizou para fora da praça. ficou muito discreto, algo sujo. foi como um louco o viu e acreditou nas suas intenções. carregou-o para dentro do seu coração, fugindo no exacto momento em que o animal de duzentos metros e mil bocas se preparava para o devorar

valter hugo mãe, in ‘contabilidade’

Fotografia da polaca Sonia Szostak.


Deixe um comentário

Canção dos adultos

22:00h

Criança -Vamos conversar sobre quê?

Adulta – Sobre o João Pestana. Já está nas portas da cidade.

Criança – Não me enganas! Vamos falar! Então, quando é que aprendeste a ser adulta?

Adulta – Adulta?! Eu? Hum! Deixa ver… talvez blablabla… viver sozinha… blablabla… estudar fora… resolver situações difíceis… blabla…

Zzzzzz!

Insónia- Olá, Adulta!

Esta fé nos adultos é a maior fantasia que perpetuamos na imaginação das crianças; bem mais ilusória do que o Pai Natal ou o Coelhinho da Páscoa.

Não temos alternativa, seria insuportável surgir neste planeta pequeno e vulnerável e saber a verdade: estamos cercados por criancinhas com mais de 1,50m e muitos deles dirigem o mundo! Criancinhas que erram e estragam, mas cujos atos provocam consequências bem mais graves do que partir um carrinho, espremer o gato num abraço ou mentir à mãe.

Manuel António Pina respondeu com mais sinceridade do que eu à questão “Quando é que aprendeste a ser sdulta?”, em 1983, no livro O pássaro na cabeça.

“Parece que crescemos mas não,
somos ainda do mesmo tamanho.

As coisas que à nossa volta estão

é que mudam de tamanho.


Parece que crescemos mas não crescemos,

foram as coisas grandes que há,

o amor que há, a esperança que há,

que ficaram mais pequenos.


Estão agora tão distantes

que às vezes já mal as vemos.

Por isso parece que crescemos

e somos maiores que antes.


Mas somos ainda como dantes,

talvez até mais pequenos

quando o amor e o resto estão distantes

que nem vemos como estão distantes.


Julgamos então que somos grandes

e já nem isso compreendemos!”

A fotografia é da madrilena Elena del Palacio.


Deixe um comentário

A saudade rói os ossos

A escritora brasileira Líria Porto descreve o que estamos todos a sentir: saudade.

durante a tua ausência
deitei-me do outro lado
dormi de rosto colado
com a tua fronha

a saudade é uma doninha
a saudade é uma toupeira
ela rói dentro e fora
rói os ossos rói o peito
o corpo os sentimentos
a saudade rói os sonhos

e mostra os dentes

Não é nada fácil resistir a este bichinho roedor, embora saibamos que os valores que nos motivam ao autoisolamento voluntário são os mais nobres.

A Páscoa chegou num tempo fora do calendário.

Estamos adiados.

Pela Beatriz, esforço-me por assinalar alguma excepcionalidade nos fins-de-semana e datas célebres.

Pela Beatriz, desenhámos coelhos, fizemos bolos e organizámos uma caça aos ovos.

Mas a tristeza está na cara dos poucos que passam na rua e a saudade dos que amamos e que estão tão longe “rói os ossos ” e “rói o peito”.

Gritou-me o meu vizinho da janela: “Temos de estar arrecadados!”.

Oxalá aprendamos a nunca adiar os verdadeiros encontros quando tivermos de novo oportunidade; oxalá nunca mais permitamos que as urgênciazinhas do dia-a-dia se sobreponham aos abraços que ficamos a dever aos nossos amigos e família.

É o meu desejo de Páscoa.

Em sintonia com a celebração cada vez mais oportuna do homem que se superou, renovou e renasceu, há mais de 2000 anos.

Uma Páscoa Feliz!


4 comentários

Ilhas

Não sei se a pandemia é o resultado de uma conspiração chinesa, se acontece porque a Natureza está saturada dos humanos ou, pelo contrário, se é a consequência dos humanos se terem esquecido que fazem parte da Natureza, ou se foi Deus ou um demónio que decidiram dar-nos uma lição de humildade.

É um vírus poderoso, mas acredito que lhe falta a grande capacidade humana de luta: a inteligência é uma prerrogativa nossa e é ela que conduz à ciência.

A minha esperança na ciência não é uma questão de fé, pois a ciência não é divina nem mágica; no entanto, tem-nos curado de muitas doenças e proporcionado conquistas inimagináveis.

Infelizmente, não lhe demos a oportunidade de nos curar da imbecilidade e de outras tantas ameaças mais ou menos concretas em que andamos mergulhados há séculos.

A maior prova de que a nossa sociedade já estava há muito doente é que o Conhecimento e a Educação têm sido desprezados e o virtuosismo futebolístico e outras alucinações (que nem virtuosas são) foram valorizadas e remuneradas insanamente.

Agora, dependemos de cientistas, investigadores, médicos e enfermeiros que tanto desprezámos e pedimos-lhe, despudoradamente, um milagre e, já agora, que arrisquem a vida, todos os dias, por nós.

E eles fazem-no!

Espero que, depois deste abalo, os valores que nos devem reger encontrem o seu lugar e que quem salva vidas, quer seja com um gesto humilde, quer seja com rigor científico, passe a ser o nosso herói. E justamente divulgado e remunerado.

Estas palavras de Nick Cave, publicadas no Blitz, não são científicas, são poéticas, o que é mais ou menos a mesma coisa. A minha amiga Carmen partilhou comigo a resposta do cantor à grande pergunta do momento:

o que fazemos agora?“.

[…] o músico admitiu que “os tempos mudaram”, e que agora “enfrentamos um inimigo comum – imparcial, insensível e de magnitude incomensurável”, pelo que “não é tempo de nos abstrairmos”, e sim de “sermos cautelosos com as nossas palavras e as nossas opiniões”.

“Teremos de nos recuperar, não só pessoalmente como socialmente”, continuou. “No futuro, ser-nos-á dada a oportunidade de nos refugiarmos numa versão antiga de nós e do nosso mundo – insular, interesseiro e tribalista – ou de perceber as ligações e uniformidades de todos os seres humanos”.

“Em isolamento, vamos ter de decidir entre o que queremos preservar do nosso mundo e de nós próprios e o que desejamos descartar”.

As metáforas dos nossos mundos são da autoria da fotógrafa catalã Andrea Torres Balaguer.


2 comentários

17 dias

Estamos todos a reaprender a viver.

Tudo indica que ainda vamos ter muito tempo para consolidar as aprendizagens.

Para além do incómodo de não poder sair de casa, eu pessoalmente tenho medo.

Medo de adoecer e de não ser só uma “gripezita” (como diz aquele político lunático), medo de ficar presa a um ventilador (ou de nem haver ventilador), de ficar sozinha num corredor sombrio de hospital e, sobretudo, de afastar-me da minha filha.

Tenho medo pelos meus pais, pela minha avó, pelos meus tios, pelos meus primos, pelo meu irmão, pela minha sobrinha que está na barriga da mãe, pelos meus amigos, pelos meus alunos, pelos meus colegas e pelos meus vizinhos.

São muitos medos que se juntam à panóplia (e paranóia) de cuidados que tenho de ter nas raras vezes que saio de casa.

São tantos medos que por vezes paraliso.

Há quem compre desmesuradamente, há quem se revolte e seja agressivo com os outros, há quem escape para as redes sociais, há quem apenas publique as notícias catastróficas, há quem entre em negação e se coloque em perigo, … Já vimos quase de tudo.

Neste momento, para ser sincera, não conseguiria entrar num supermercado sem um ataque de pânico. Portanto, tenho optado por compras online (embora as entregas demorem), tenho optado por abdicar de alguns luxos e prefiro ir à mercearia da esquina, à padaria do fundo da rua e ao talho.

O pequeno comércio precisa muito de nós e irá precisar ainda mais quando este demónio invisível nos deixar. Espero que estas pequenas mudanças positivas fiquem na minha vida.

Oxalá permaneçam outras mudanças que fui forçada a fazer.

Ainda antes de tudo o que está a acontecer, o meu corpo e a minha mente rejeitaram o ritmo em que vivia e a que me impus… ou que permiti que me impusessem. Tive um quadro de burnout e estou a reaprender a relevar e a enfrentar a minha profissão de outra forma. Ser professora é uma profissão nobre, mas tive de mentalizar-me de que muitos dos problemas e indisponibilidades dos meus alunos têm origem familiar e social e que me ultrapassam. Tive de aprender a deixar partir quem não quer ou não pode seguir-me. Não foi fácil e ainda não concluí o processo.

Foi no contexto desta recuperação individual que surgiu a doença mundial.

Fiquei desorientada e estou agora a gerir outros desafios: o teletrabalho, os trabalhos da Beatriz (e afastá-la o mais possível de telemóveis e computadores), as tarefas domésticas e a minha ansiedade que me deixa, por vezes, instável.

Tenho respirado fundo, bebido muito chá quente de gengibre e limão e exigido momentos de solidão e silêncio.

Tenho-me oferecido momentos de evasão, embora esse seja o desafio que tenho de aperfeiçoar. Há sempre muitas tarefas que eu permito que se sobreponham. Era assim antes do isolamento e continua a ser assim durante o isolamento.

Para além de tentar aprender, com esta terrível experiência, a viver com menos, a reduzir o consumismo e a abrandar o ritmo, estou a tentar reagir e perceber o que posso fazer pela comunidade local.

Como acontece em todas as cidades, a zona antiga de Estremoz está abandonada e restam os mais velhos, as casas abandonadas, pequenos serviços que fecharam… e nós. Ainda não foi preciso intervir, mas esse será o momento seguinte desta crise individual e coletiva: ajudarmo-nos.

Para chegar a essa disponibilidade é preciso serenar, reestruturar, conseguir agradecer o dia presente e partilhar o que temos.

Entretanto, para chegar a esse ponto, uma vez por semana, eu e a Beatriz levamos o isolamento para a Serra d´Ossa. Tem sido a nossa oportunidade de apanhar sol e vento, estabilizar, e carregar baterias.

E eu penso na vida absurda que tenho levado.

Foi preciso vir uma pandemia para eu ter tempo para ver a Primavera surgir no Alentejo. Há mais de dois anos, seguramente, que não passeava por este verde.

A Beatriz tem andado radiante e não perde a ternura, nem o ânimo, nem a alegria e esse facto acalenta-me o coração.

Quero acreditar que, juntos, vamos conseguir enfrentar o que ainda virá!

A caixa de Pandora soltou todos os males, mas manteve sempre bem guardada a Esperança! Este mito contém sabedoria milenar e não podemos esquecê-lo.


Deixe um comentário

O Poema Ensina a Cair

“A poesia é a distância mais curta entre duas pessoas.” – Laurence Ferlinghetti

Nestes estranhos tempos em que vivemos, quando somos facilmente contaminados pelo vírus do medo, do pânico, da desconfiança, da arrogância, das teorias conspiratórias, das ausências, o que ainda vai fazendo algum sentido na minha vida é o Amor e a Poesia.

Como diz o poeta Ferlinghetti, a Poesia e o Amor (acrescento eu) tornam-nos mais próximos, sobretudo agora que as distâncias são tão concretas e físicas e nós estamos confinados ao difícil interior das nossas paredes.

Interior

Por trás dos muros da nossa casa

Estamos tão juntos que nos tocamos:

O vento é brisa e a brisa é asa.

Por trás dos muros da nossa casa

Todos os frutos ficam nos ramos.

Vivamos, pois, dentro de nós

Deixando aos outros o gesto e a voz.

Este poema de António Manuel Couto Viana foi a escolha de Carlos Vaz Marques para integrar a saudável e salvífica iniciativa do “Poema Ensina a Cair”:

Tenho andado com estes versos a ecoar na cabeça:

“Por trás dos muros da nossa casa

Estamos tão juntos que nos tocamos:

O vento é brisa e a brisa é asa.”

Numa altura em que nos gritam palavras de ordem e em que já domino mais vocabulário epidemiológico do que gostaria, é bom encher os olhos e os ouvidos com os poetas.

Fechar os olhos e sentir o vento que corre no quintal é hoje o meu sublime prazer: “o vento é brisa/ e a brisa é asa”.

São estes raros momentos (e os braços da Beatriz) que ainda me permitem sonhar com asas, tendo em conta as gaiolas onde estamos todos fechados.

Tenho também aprendido muito com o podcast de Raquel Marinho que me transmite as ferramentas possíveis para combater esta que é a verdadeira crise.

Durante tantos anos, enganaram-nos indecorosamente: só agora estamos em crise, pois só agora estão ameaçados os únicos bens que nos interessam verdadeiramente proteger: a nossa saúde e a nossa humanidade.

Acredito que apenas o conhecimento e a bondade poderão ser as armas, as únicas estritamente humanas, que poderão lutar contra esse tal bicho-vírus.

Nunca fizeram tanto sentido os versos do poema de Luiza Neto Jorge:

“O poema ensina a cair

sobre os vários solos […] “

O dia-a-dia da nossa quarentena está aqui.