“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Maçãs

Do que mais gosto do Verão é da variedade de fruta que temos ao nosso dispor! Nesta altura, ficam umas tristes maçãs na fruteira que têm de ser aproveitadas.

Bolo de maçã

Massa:

50g de manteiga amolecida + 25g de azeite

100g de farinha com fermento + 75g de farinha de trigo integral

50g de açúcar mascavado

1 ovo

75 ml de água

3 maçãs descascadas e partidas

Cobertura:

40g de açúcar mascavado

1 colher de chá de canela

20g de manteiga

1- Pré-aquecer o forno a 180ºC e untar uma forma de cerca de 20 cm de diâmetro e forrá-la com papel vegetal.

2- Misturar a farinha com a manteiga numa taça e trabalhar com a ponta dos dedos até obter uma massa granulosa.

3- Juntar o açúcar e misturar bem.

4- Incorporar o ovo e a água até que esteja uma massa cremosa.

5-Espalhar a massa no fundo da forma e colocar as maçãs sobre a massa.

6- Pincelar com a cobertura e levar ao forno, durante 35 minutos.

A receita original, com tudo a que temos direito, resulta num bolo mais voluptuoso que está no meu blog de receitas (e não só!) favorito, Flagrante Delícia, de Leonor de Sousa Bastos.


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Gente

Este poema custa-me, mas quando não afogo a lucidez em tinta cor-de-rosa é esta tristeza que sinto com o peso do mundo.

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Adolfo Casais Monteiro escreveu Europa em 1945:

IV

Eu falo das casas e dos homens,

dos vivos e dos mortos:

do que passa e não volta nunca mais…

Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,

ah, não me venha com teorias!

eu vejo a desolação e a fome,

as angústias sem nome,

os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,

uma insignificante parcela de tragédia.

Eu, se visse, não acreditava.

Se visse, dava em louco ou em profeta,

dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,

— mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.

Olho num pasmo sem limites,

e fico sem palavras,

na dor de serem homens que fizeram tudo isto:

esta  pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,

esta lama de sangue e alma,

de coisa e ser,

e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,

se o ódio sequer servirá para alguma coisa…

Deixai-me chorar — e chorai!

As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,

de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,

e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,

por um segundo seremos os mortos e os torturados,

os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,

seremos a terra podre de tanto cadáver,

seremos o sangue das árvores,

o ventre doloroso das casas saqueadas,

— sim, por um momento seremos a dor de tudo isto…

Eu não sei porque me caem lágrimas,

porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,

eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,

eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,

eu que estou na minha casa sossegada,

eu que não tenho guerra à porta,

— eu porque tremo e soluço?

Quem chora em mim, dizei — quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:

As ruas são ruas com gente e automóveis,

Não há sereias a gritar  pavores irreprimíveis,

e a miséria é a mesma miséria que já havia…

E se tudo é igual aos dias antigos,

Apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,

eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,

sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,

sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,

uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada…


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Companheiros

Riscas

O Gato

Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga

O poema de Vinícius de Moraes retrata os nossos companheiros de casa;

muito provavelmente, os gatos mais felizes do mundo.

Branquinha

Aos nossos olhos, são também os mais bonitos do mundo, claro.

Como a Beatriz não nos ouve – ela que zela para que os sentimentos felinos não sejam feridos – admito que este riscadinho franzino é o meu favorito.

Meu gato-sombra, acredito que está convencido de que sou mãe dele; uma mãe estranha e sem pelo, mas as mães não se escolhem, pensará ele, conformado… e, enfim, não conheceu outra!


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Biscoitos de cacau, mirtilos e manteiga de amendoim

Enquanto a Primavera é suave e a ideia de ligar o forno não é absolutamente tenebrosa, fomos para a cozinha fazer biscoitos fáceis e muito saborosos.

Biscoitos cacau, mirtilos e manteiga de cacau

100g de manteiga

100g de azeite

50g de manteiga de amendoim

10 colheres de sopa de açúcar amarelo (ou mascavado)

raspa de um limão

uma chávena de farinha de trigo

uma chávena de farinha de trigo integral

12 colheres de sopa de farinha de milho (ou de aveia)

150g de mirtilos desidratados

1- Derreter as gorduras e bater bem com o açúcar.

2- Depois de envolver as farinhas, juntar à mistura anterior aos poucos, assim como os mirtilos.

3- Fazer esferas achatadas e colocar no tabuleiro forrado com papel vegetal (não precisa de ser untado).

4- Levar ao lume a 160ºC, durante 20 minutos.


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Terra

Não sei como vivemos tanto tempo na Terra sem este manual de instruções.

capa O livro da Terra

Bem-vindo ao planeta Terra!

“Na vastidão do espaço, há uma pequena esfera que orbita uma estrela banal, de meia idade, num pacato recanto da Via Láctea.”

A Terra

O primeiro capítulo aborda a formação da Terra com a humildade própria de quem se sabe demasiado insignificante para explicar algo tão grandioso como o Universo: são apenas apresentadas algumas teorias científicas.

Ficamos ainda a saber que nós, os humanos, somos feitos de “velho pó de estrelas”.

Fiquei totalmente rendida e todo o “velho pó das estrelas” que há em mim brilhou!

Velho pó das estrelas

Universo

Outra chamada de humildade humana: vivemos na terceira rocha a contar do Sol.

terceira rocha a contar do sol

O livro contém ainda capítulos sobre os vulcões e o clima, com explicações simples e muito visuais.

o clima

Desfilam ainda capítulos sobre a “Vida na Terra”, a “Árvore da Vida”, “Habitats Naturais”, “Plantas e árvores”, “Espécies raras” e “Espécies desconsideradas” mas super estrelas para a vida na Terra, como a abelha, o morcego ou a formiga.

Terráqueos ignoradosFrases como esta situam-nos na história da humanidade:

“O homem bom é amigo de todas as coisas vivas!” de Mahatma Gandhi.

O livro da Terra Mar

ártico

No entanto, os seres humanos surgem referidos na sua real dimensão para a vida no planeta: duas páginas.

terráqueos influentes

Até que se impõe a última pergunta: Estaremos sozinhos?

estamos sozinhos

Escrito por Jonathan Litton .

Ilustrado por Thomas Hegbrook.

Editora Edicare.


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Turismo

José Maria Zonta nasceu na Costa Rica, em 1961.

Neste poema, ensina a amar uma mulher.

Não entres como turista no coração de uma mulher
a bater fotos
a deixar latas de cerveja
buscando só imensas catedrais
e estátuas transparentes

com a mochila cheia de mapas
e fazendo refeições ligeiras

há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração duma mulher

não bebas aí só um copo de mar

não entres no avião
toma o comboio da meia-lua
não reveles ali tuas fotos na hora

se não fizer muito frio
entra nu

não leves chapéu-de-chuva
e sobretudo não cortes árvores
no coração duma mulher
não costumam voltar a crescer.

ignant-photography-luca-anzalone-IGNANT


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Inventalínguas

“O povo é um inventalínguas”, tal como escreveu Haroldo de Campos e cantou Caetano Veloso.

A nossa língua é dinâmica: cria palavras, deixa morrer outras, modifica outras tantas.

Pensar que a língua se deturpa ou morre por esse motivo é uma assunção de quem não conhece a história da língua. Acredito que existem fases mais criativas e outras mais pobres, como aquela em que vivemos, mas a dinâmica é própria dos organismos vivos.

Nesse sentido, não tenho nada, em teoria, contra as mudanças na forma como escrevemos e falamos…

No entanto, considero que as modificações têm de provir de uma necessidade de quem fala.

O problema deste Novo Acordo Ortográfico é mesmo esse: nenhum dos falantes sentia necessidade de transformar a língua da forma que foi superiormente proposta imposta.

A título de exemplo, nunca conheci quem sistematicamente se esquecesse das consoantes “c” e “p”, no caso das palavras em que estas não são pronunciadas; por experiência profissional, constatei, durante anos, que os erros ortográficos dos alunos não provinham destas consoantes surdas.

Por outro lado, as ambiguidades linguísticas que existem entre o Português Europeu, o Português dos PALOPS e o Português do Brasil (que o Acordo diz pretender diminuir) também não provêm da existência das consoantes mudas ou da acentuação que foi alterada. Como todos sabemos, as diferenças entre as variantes do Português prendem-se sobretudo com questões de pronúncia e de vocabulário específico dos espaços sociais e geográficos.

 

Por imposição profissional, adoptei o Acordo, mas pessoalmente sinto-me muito mais confortável desobedecendo a um Acordo que me foi imposto por políticos que eu desconsidero.

A língua é de quem a fala e a nossa relação com ela é muito íntima: acompanha-nos desde o nascimento, permite-nos o pensamento e sentimo-la como um prolongamento da nossa identidade.

Comprova essa ligação umbilical o facto de ninguém gostar de ser corrigido quando fala: da pessoa mais humilde à mais erudita, todas ficam extremamente melindradas quando são emendadas no seu discurso.

Numa época de total TV lixo, encontrei um programa que devia ser copiado pelos nossos canais privados ou públicos: Livros que amei do Canal Futura, do Brasil.

O Professor Evanildo Bechara esclarece:

“A língua é uma instituição social.

A língua nunca está estável; está sempre instável, num equilíbrio instável.

O equilíbrio é para permitir a comunicação entre todos aqueles que a falam e a instabilidade é porque o povo – que é o dono da língua – está em acção, é criativo e essa criatividade leva também a criar dentro da língua. Esse poder de criação não é exclusivo dos eruditos. O poder de criação é também distribuído ao homem comum.”