“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Sapiens: tirano ou cuidador

 Yuval Noah Harari, professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu, em 2014, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade.

Em 2020,  surgiu a novela gráfica, como resultado da parceria entre o autor Yuval Harari, o escritor David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casaneve.

O livro narra a evolução do Homem desde a pré-história até à atualidade e explica de que modo este ultrapassou as restantes espécies e os outros membros da família sapiens.

Este salto para o topo do ecossistema foi tão precipitado que nem tivemos tempo para nos ajustar.

Talvez este nosso “novo-riquismo” hierárquico explique os nossos tiques tiranetes em relação às outras espécies.

Sempre me questionei acerca desta nossa sede pungente de domínio sobre a flora, a fauna e, surpreendentemente, até sobre os outros seres humanos. Este livro deu-me uma pista para a sofreguidão humana de esmagar o outro.

“Há pouco tempo, éramos animais insignificantes no meio da cadeia alimentar. Depois, de súbito, saltámos para o topo. Talvez demasiado depressa. Aos leões, às águias e aos tubarões, chegar gradualmente ao topo da pirâmide levou milhões de anos.”

“Este processo gradual permitiu que o ecossistema se autorregulasse, impedindo que os leões e os tubarões lançassem o caos. À medida que os leões se tornaram mais mortíferos, as gazelas tornaram-se mais rápidas, por exemplo.”

Mas a humanidade saltou tão rapidamente para o topo que o ecossistema não teve tempo de se ajustar.

Nem os próprios humanos.

Os outros animais, que estiveram durante milhares de anos no topo do ecossistema, exibem um aspecto físico imponente e cheio de dignidade; vejamos os casos do leão, do lobo, do tubarão ou da águia.

Já o sapiens

“Não há muito tempo, nós éramos os pés rapados da savana. Os nossos primeiros instrumentos foram usados para rapar os restos deixados por leões e hienas. Este facto ajuda-nos a compreender a nossa história e a nossa psicologia.”

Individualmente e enquanto espécie, já é tempo de nos tranquilizarmos com o “posto” conquistado.

Não sei se Yuval Harari estaria de acordo, mas julgo que somos uma espécie que deve a sua sobrevivência ao facto de termos sido (e sermos), mais do que déspotas, diligentes cuidadores.

Se pensarmos bem, nenhum de nós cá estaria se não nos tivessem zelado, nos primeiros tempos de vida.

Ao contrário dos outros animais, não caminhamos, não nos alimentamos sozinhos, nem temos capacidade de defesa, após dias, semanas ou meses de vida. De facto, ficamos em total dependência relativamente aos nossos progenitores (ou outros adultos) pelo menos uma década. Quero acreditar que não é por acaso que essa dependência, no início da vida, sucede entre os humanos…

Surpreendentemente, esquecemos essa dádiva e ignoramos a grandiosa lição de generosidade milenar que experienciámos: todos somos cuidadores ou fomos cuidados. Que paradoxo! Crescemos e tornamo-nos predadores vorazes e soberbos!

O livro de Yuval Noah Harari, de forma divertida, coloca em cima da mesa muitas questões científicas, mas também filosóficas. O autor, muito sabiamente, realça que “as questões éticas e filosóficas têm sempre um lugar central nos seus livros. Não vale a pena escrever História se nos esquecermos da dimensão ética.

Editora: ELSINORE.


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Tu

No último episódio de uma das minhas séries favoritas, Years and Years, a matriarca (interpretada pela fantástica Anne Reid) faz um discurso incrível no dia de Natal, para espanto e desconforto dos membros da família… e dos espectadores da série.

O tom pode ser interpretado como culpabilizante, mas talvez uma nonagenária já tenha o estatuto de nos apontar o indicador.

Eu considero o discurso responsabilizante.

Somos cidadãos e temos de activar o nosso modo interventivo, sob pena de que a nossa demissão alimente um sistema ainda mais corrupto e desumanizado. O nosso poder tem de ser exercido nas nossas decisões, escolhas e exigências diárias, assim como no processo eleitoral.

De outro modo, tudo pode acontecer:

“É tudo culpa vossa! Os bancos, o governo, a recessão, os políticos medíocres!

Vocês têm a culpa de tudo o que correu mal. A culpa é de cada um de nós…

Podemos ficar aqui todo o dia a culpar os outros. Culpamos a economia, culpamos a Europa, a oposição, a metereologia, os grandes acontecimentos da História; dizemos que tudo está fora de controlo e que estamos desprotegidos, pequenos e frágeis, mas nós é que somos os culpados. Porquê?

Vejam o caso da t-shirt que custa uma libra. Nós não lhe resistimos. Nenhum de nós lhe resiste. Achamos uma pechincha e compramos. Sabemos que não tem qualidade, mas serve. O dono da loja ganha 5 míseros pence por ela. O pobre camponês, no campo, ganha 0,01 pence. Nós achamos que esta situação é correta, concordamos com ela, todos nós: damos o nosso dinheiro e participamos neste sistema durante toda a vida.

Tudo começou a correr muito mal, nos supermercados, quando substituiram as pessoas que nos atendiam por caixas automáticas. Não gostámos, mas não protestámos, não escrevemos no livro de reclamações, não mudámos de supermercado; conformámo-nos! Agora todas as pessoas que trabalhavam nas caixas foram despedidas e nós permitimos que isso acontecesse. Hoje, até gostamos, porque pagamos e não temos de olhar ninguém nos olhos, não temos de olhar para a pessoa que ganha menos do que nós.

Temos culpa, sim. Este é o mundo que construímos.

Parabéns!”

A avó alerta-nos ainda para os políticos polémicos, disruptivos e irracionais:

“Tenham cuidado! Livramo-nos de uma aberração política e acorda outra, imediatamente, dentro da caverna.

Cuidado com os políticos engraçadinhos, corruptos e palhaços. Riem-se e levam-nos ao inferno.”

É impossível ouvir estas palavras e não pensar em Trump ou Bolsonaro ou num outro Ventureiro aqui entre portas.

Os votos de Feliz Natal costumam ser ligeiros e delicados, mas este Natal não é como os outros.

Vou aproveitar a pausa e o isolamento profilático que me calhou para reflectir sobre o mundo que quero deixar, como presente, aos mais pequenos.

Temos vários exemplos de seres humanos que fizeram a diferença.

Acabei de ver Snowden, um homem que denunciou o sistema de escutas americano: o mesmo que invadiu tranquilamente os nossos computadores, leu os nossos emails e sms e accionou a câmara do nosso computador pessoal, sem necessidade de qualquer autorização prévia. Snowden está, desde 2013, refugiado na Rússia… mas a lei americana foi alterada, em consequência da sua acção.

Definitivamente, não somos todos feitos da massa dos heróis, mas o meu objectivo de vida é, pelo menos, distanciar-me dos vermes e deixar clara a minha repugnância por quem os segue.

Preciso de biografias inspiradoras, ainda que estas sejam frequentemente silenciadas, em nome de uma ideia de segurança, de saúde e de bem-estar comum que nos pregam.

Se não é essa a inspiração que nos guia, não sei bem por que razão andamos a celebrar todos os anos o nascimento de um homem absolutamente excepcional.

Feliz Natal!


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Ficção

A melhor ficção actual está nos livros, mas também nas séries de televisão.

Resisti muito a esta evidência, presa aos meus preconceitos intelectuais.

Não vi muitas séries, nem pretendo ver, porque o tempo não é elástico e não posso correr o risco de ficar sem disponibilidade para a leitura, mas já descobri três incríveis.

1- Chernobyl

Uma série dividida em cinco partes, baseada no terrível acidente nuclear de Chernobyl de 1986, com todos os meandros políticos e pessoais chocantes que (nem) imaginamos. Tão perfeita a todos os níveis que fiquei com a sensação de estar a assistir a um incrível documentário.

2- Years and Years

Com Emma Thompson. Não é preciso dizer mais, mas ver a Emma Thompson como André Ventura, em versão “à solta”, revista e aumentada… e Primeiro Ministro é aterrador. Só a Emma Thomson para fazer esta figura terrivelmente sublime!

Assistimos, em poucos episódios, ao passar dos anos nas próximas décadas.

Tudo o que nos ameaça e preocupa, hoje, concretiza-se e vive-se numa distopia (in)esperada:

  • as alterações climáticas levam mesmo a chuvas diluviais e à subida da orla costeira de muitas cidades europeias, há desalojados de todas as condições sociais e de todos os países; procuram entrar na Grã-Bretanha muitos refugiados políticos desesperados; assistimos a ataques terroristas com armas químicas; temos direito a uma pandemia mais mortífera do que a que vivemos actualmente; a vitória de partidos de extrema direita leva à eliminação de direitos básicos nas democracias que conhecemos, os homossexuais são perseguidos; os jovens desenvolvem bizarras obsessões cibernéticas, …

Esta série é um alerta poderoso para o que nos pode acontecer, no futuro, se não agirmos, no presente.

3- A Casa de Papel

Quem é que nunca sonhou em roubar um banco, dar um estalo ao capitalismo e ainda ter dinheiro para viver no paraíso, sem prejudicar outro comum mortal?

Mais do que o assalto perfeito à Casa da Moeda de Espanha, este bando assina um manifesto político. Adrenalina, humor, intervenção e sensualidade em doses bem altas.

Vi outras séries com interesse:

  • Ozark: uma série formalmente irrepreensível; retrata a vida de uma família comum que se envolve com um cartel de droga mexicano. Violenta e viciante, conta com as atrizes Laura Linney e Lisa Emery.
  • Normal People: a série que eu deveria ter visto quando tinha vinte anos.
  • Dietland: e se deixássemos de questionar o nosso corpo? E se fossem os homens a aparecer objectificados nas capas das revistas? E se as mulheres deixassem de ter medo de andar, na rua, sozinhas à noite? Para isso era preciso que acontecesse uma revolução! Acontece, nesta série. O feminismo continua a ser um movimento pacífico, mas há um grupo armado de feministas que espalha o terror entre os homens abusadores.


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Casa de Outono

Estamos novamente confinados em casa.

Volto a olhar para as minhas paredes e renova-se a vontade de reformular e aconchegar o lar.

Entre o estilo boémio e o minimalismo escandinavo, sempre preferi o colorido mediterrâneo.

Mas, enfim, com a idade começo a depurar-me e a necessitar da organização nórdica na minha vida. Pelo menos em casa…

Continuo a gostar da cozinha com prateleiras, mas agora privilegio a possibilidade de arrumar/esconder e deixar as bancadas livres para os imprevistos culinários. É muito mais prático que estes aconteçam sem terem de pedir licença às mil coisinhas que por lá estacionam.

Não sei se há uma explicação psicológica, mas o meu lado étnico e folclórico está, definitivamente, a empalidecer e só consigo pensar em branco para o meu escritório. Tudo neste palácio estremocense demora a tomar forma mas, depois de uns quantos contactos com um novo carpinteiro e muitas visitas virtuais ao IKEA, talvez leve mesmo a depuração branca a outro nível.

A sala de estar pode ser uma toca menos branca mas, ainda assim, monocromática.

Também pode ser branca…

Os pormenores das velharias e dos livros são para manter, claro, bem espalhados pela casa.

Os quartos ainda precisam duma cara de Outono.

E estas casas de banho incríveis?

Só têm de estar muito quentes.

O aquecimento em casas seculares é um problema grave e estou a pensar seriamente em soluções radicais. Não necessariamente brancas, embora estas caldeiras sejam incríveis.

Ainda não retirei toda a mobília de Verão do terraço e é mesmo o momento mais triste do Outono. Estou a pensar deixar uma cadeira e espreguiçar-me ao sol com uma manta quente para apanhar vitamina D… e limpar a mente de maus humores.

As imagens foram roubadas a vários sites, mas dado o allure do momento, tenho andado muito pelo blog My Scandinavian Home.


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Menos

A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo.

A primeira é a petrolífera.

Fiquei com a minha consciência ecológica muito inquieta, ao ler esta notícia.

“Uma t-shirt produzida a partir de algodão convencional gasta 2700 litros de água, o equivalente ao consumo médio por pessoa durante dois anos e meio.”

Como faço a separação do lixo, consumo pouca carne, privilegio alimentos de produção local e já não faço viagens diárias de carro, habituei-me a pensar que não é por minha causa que os recursos anuais da Terra se esgotam cada vez mais cedo. Nada mais errado.

Há um consumo desmedido de roupa no mundo ocidental: as colecções de fast fashion são lançadas de 15 em 15 dias (o factor novidade incrementa as compras!), o que implica emissões descomunais de gases, consumo de água e outros recursos naturais (e humanos) astronómicos!

Estranhamente, só quando comecei a ter de organizar o meu quarto de vestir é que vi o disparate de roupa e calçado que tinha espalhado em vários armários. Demorei semanas a seleccionar e doei montanhas de peças.

Acumulei, durante anos, sem pensar, e o facto de comprar muito em outlet aliviava-me a consciência.

O advérbio “muito” arruina qualquer equação…

Obviamente que comprar mais do que o razoável, para além de ser um sinal da minha vaidade, também reflecte um desajuste em relação às minhas verdadeiras necessidades, ou pior, uma fuga das minhas reais necessidades.

Há uns meses, senti necessidade de fazer uma pausa.

Coincidiu com esta paragem global que fomos obrigados a fazer, mas a verdade é que, apesar de todos os perigos exteriores, interrompi o ritmo frenético em que andava e foquei-me no que preciso para ser feliz.

Definitivamente, não preciso de tanta roupa…

Acabei de lançar um desafio a mim própria: não comprar qualquer peça de roupa ou acessório (para mim ou para a Beatriz) durante dois meses. Pode parecer pouco para quem é contido, mas para mim é uma mega aventura.

É verdade que andamos semi-confinados e o apelo das lojas físicas não é evidente, mas ainda assim o desafio é muito válido. As compras online impuseram-se, por aqui, desde Março…

O outro desafio consiste em ser suficientemente criativa e reinterpretar a roupa que já tenho. É mais do que suficiente. A minha Mãe que o diga…

Tenho andado mais pelo Pinterest do que por lojas online e estas imagens são da minha nova diva, Emanuelle Alt, a quem não falta roupa… Espero, no entanto, que me inspire a reinventar, com pormenores como os cintos ou combinações mais improváveis.

Uma inspiração da editora da Vogue parisiense para me levar a consumir menos? Não deixa de ser irónico, mas tanta incoerência pode ser que resulte.

Quero ser mais livre, mais equilibrada e ter mais dinheiro para fazer o que realmente gosto: organizar a minha casa, conviver com os que amo e passear com a Beatriz.

Para já, pretendo fazê-lo num raio geográfico apertado, mas este bicho não há-de infernizar-nos para sempre.

Ficam as dicas de Emanuelle Alt, válidas para ser designer de moda… ou para viver melhor:

1- Be funny!

2- Be creative!

3- Be on time!

4- Work hard!


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Galdéria

«Se a Língua Portuguesa fosse uma personagem, o que seria? Uma cortesã, uma concubina, uma galdéria?
Uma galdéria, disso não tenho dúvida. Andou por todas as camas: a galega, a castelhana, a francesa… E saiu delas mais fresca que nunca.»

Fernando Venâncio responde com graça à pergunta provocatória da jornalista Joana Marques, sobre as diferentes influências que a língua portuguesa sofreu.

A nossa língua começou a sua “odisseia” pelos anos 600 e teve um percurso rico e incrível.

No entanto, o que eu não sabia é que o Português, como língua diferente do Galego, começa a tomar corpo apenas por volta de 1400; até aí falávamos… Galego.

Fiquei surpreendida, porque sempre li que falávamos “galaico-português”, antes desse ano. Julgava que a nossa lírica trovadoresca estava escrita em “galaico-português”. É verdade que nunca tinha pensado profundamente na denominação e associei-a à área geográfica que abrangia: as margens norte e sul do Rio Minho.

Fernando Venâncio acrescenta:

« [o galaico-português] é uma história mal contada. Uma história à nossa medida, para nos tranquilizar. A língua em que a lírica chamada «galaico-portuguesa» foi escrita foi, sem sombra de dúvida, o galego. Por esta razão simples: o português ainda não existia, e só seria criado, como tenho vindo a lembrar, no século de Quatrocentos. Quando, em 1290, um ensaísta catalão enumera as grandes línguas poéticas da altura, fala no “galego”. E importaria recordar que as expressões “língua portuguesa” e “português” só aparecem, entre nós, nos anos de 1430, quando as correspondentes castelhanas já circulavam dois séculos antes. Só que, no momento em que essa lírica regressa à luz do dia, ao longo de Oitocentos, ninguém em Portugal admitiria que se dissesse estar em “galego”. O que não seria nada do outro mundo, visto quase todos os seus autores serem galegos. É então, isto por 1880, que se inventa a etiqueta “galaico-português” e, de caminho, se inventa o “galego-português” como idioma. A grande filóloga Carolina Michaëlis de Vasconcelos ainda tenta chamar ”galego” à língua das cantigas, mas acaba por render-se às susceptibilidades portuguesas.»

A língua portuguesa não pára de surpreender-me, quer enquanto instrumento de trabalho, quer de prazer.

Não me ofende que tenha derivado do Galego (que por sua vez derivou do latim vulgar, que por sua vez derivou do indoeuropeu,…). Não sou tão pudica que me melindre com o facto de ela ter dormido prazenteiramente, mais tarde, com o latim erudito, com o francês, com o inglês e com as línguas índigenas dos novos continentes.

Não sou purista ao ponto de não me encantar com o Português adocicado dos youtubers brasileiros que a Beatriz me apresenta. Apesar da estridência que regra geral os acompanha, ouço uma língua com um vocabulário mais rico e rebuscado do que aquele que nós usamos e confirmo que ninguém é dono da língua. Muito menos nós, portugueses: somos apenas 10 milhões de falantes perante os 240 milhões que se deitam todos os dias com esta bela galdéria.

Definitivamente, é melhor abrirmos a cabeça e iniciarmos uma relação poliamorosa!

Fotografias do francês Laurent Castellani, um fotógrafo que sofre de agorafobia e que nos proporciona grandes viagens através da sua obra.


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Poder

Há uma forma infalível de dominar um povo: instigar o medo.

Há outra maneira subterrânea de controlo: suscitar a culpa.

Não sei se é devido à nossa longa tradição católica, mas os governantes portugueses, ao longo da História, mostraram-se peritos em agrilhoarem-nos, explorando estes dois poderosos sentimentos.

Recentemente, em 2008, quando o mundo sofreu uma crise financeira internacional, iniciada nos Estados Unidos (e secundada na Europa), os nossos governantes tiveram o desplante de nos culpar. Ouvimos vezes sem conta o célebre chavão: “vivemos acima das nossas possibilidades!”

Foram negócios planetários ruinosos, mas o povo lusitano, que nunca viveu no luxo, viu-se de repente com o ônus da culpa, pela falta de crédito que assolou o mundo.

Como consequência da “nossa culpa”, veio o castigo e o medo de que o nosso país fosse à falência: sistema bancário, segurança social e os ordenados dos funcionários públicos estavam em perigo (disseram-nos…).

Como sempre fomos uns grandes comensais, libertinos ociosos (e outros mimos que foram ditos pelo nosso tão amigo ex-Presidente do Eurogrupo), ordenaram-nos que “apertássemos o cinto”, e sem sermos “piegas” disse o ilustre Passos Coelho. Os “senhores que mandam nisto tudo” estavam zangados connosco, com o nosso despesismo e enviaram-nos os engravatados do FMI. Emprestaram-nos dinheiro, pela terceira vez em democracia, mas fizeram-nos pagá-lo com muito desemprego e mais pobreza.

Em 2019, chegou a pandemia e o medo foi, novamente, alardeado.

Com o medo a dominar-nos há vários meses, o Primeiro-Ministro lembrou-se de que nos faltava a culpa.

A segunda vaga, absolutamente esperada em qualquer pandemia, é culpa dos portugueses: somos nós que somos desleixados e precisamos de um “abanão”.

O Primeiro-Ministro disse que precisamos de um “abanão” ou reguadas por mau-comportamento? Será outro conselho da sua perspicaz vizinha?

Um governante é eleito para tomar decisões, com base nas mais recentes vigilâncias epidemiológicas, não para justificar as medidas que considera necessárias com paternalismos desrespeitosos.

A segunda vaga era esperada desde Março. É, portanto, uma afronta acusar os portugueses (que têm sido, no geral, muito cumpridores), quando o próprio não robusteceu o Sistema Nacional de Saúde, não investiu em testes, não autorizou a redução do número de alunos por turma, não testou com regularidade os funcionários dos lares de idosos,… só para citar algumas medidas muito básicas que qualquer leigo, como eu, entende como indispensáveis.

Convém acrescentar que niguém tem culpa de adoecer. Contrair o vírus não é sinónimo de negligência (nem um castigo divino, ao jeito medieval); é apenas o risco a que se sujeita quem trabalha e… consequência de uma segunda vaga pandémica!

O poder seduz, embriaga e corrompe.

Os contextos de crise são especialmente perigosos e já potenciaram distopias muito reais.

Distopias demasiado próximas no tempo que inspiraram as ficcionadas.

Reler 1984, de George Orwell, talvez seja conveniente, neste momento.

A singular ideia de António Costa, de tornar obrigatória a instalação da aplicação StayAwayCovid, recordou-me esta obra-prima e esta associação é, por si só, arrepiante.

Perdi a minha inocência, enquanto cidadã, quando comecei a estudar História. Ler as distopias 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo , de Aldous Huxley e até A História de uma Serva, de Margaret Atwood, são os verdadeiros “abanões” de que precisamos.

Ainda bem que perdi essa candura civil, porque quem nos governa precisa de seres lúcidos e conscientes:

Artigo 21.º da Constituição: “Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.”

A distopia torna-se perigosamente real quando é a própria autoridade pública que nos “ofende”.

Fernanda Câncio, no dia 17 de outubro, refletiu sobre esta e outras questões.


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Doce pássaro

Geraldo Eustáquio de Sousa ou Letízia Lanz é uma lição de vida.

Sabemos tão pouco…

Temos menos de um século para aprender alguma coisa desta complexidade louca que nos rodeia e nos habita.

Declaro-me, por conseguinte, sem tempo para ouvir os enfadonhos (tão chatos!) que pensam que sabem tudo; os arrogantes e os seus primos paternalistas podem seguir sem parar. Os medrosos teóricos que gostam de apontar o dedo também escusam de se demorar por aqui; chegam-me os meus medos. Ai, e moralistas… distância. Até os moralistas Covid muito bem intencionados. Já não consigo!

Só quero ouvir e ler quem me traz lições por aquilo que é, faz e persegue.

Só quero os que me incitam a ser feliz.

Agora.

Sem mais adiamentos.

A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos

Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança
e sorrir e cantar e brincar e dançar
e vestir-se com todas as cores
e entregar-se a todos os amores
experimentando a vida em todos os seus sabores
sem preconceito ou pudor

Tempo de entusiasmo e de coragem
em que todo desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda a disposição de tentar algo novo,
de novo e de novo, e quantas vezes for preciso

Essa idade, tão fugaz na vida da gente,
chama-se presente,
e tem apenas a duração do instante que passa …
… doce pássaro do aqui e agora
que quando se dá por ele já partiu para nunca mais!


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Golias

No meu programa de eleição, “Original é a Cultura” – SIC, debateu-se o poder da informação verdadeira, difícil de encontrar, e o perigo da informação falsa, que nos bombardeia diariamente.

A quem interessa esta circulação de fake news?

Nada é inocente neste mundo digital.

A questão é: como escapar a esta avalanche de informação que torna tão difícil destrinçar o verdadeiro do falso?

Vemos essa questão de forma gritante durante esta pandemia. Ninguém nos diz a verdadeira dimensão da pandemia, circulam números díspares, a própria Graça Freitas nos confunde,

Na verdade, é impossível desenlear a verdade quando todos os blocos noticiosos transformam tragédias em reality-shows. Morte, violência e sexo são garantias de audiências.

Por outro lado, a era da informação atualizada ao minuto obriga a que as fontes não sejam confirmadas e que nos sirvam a versão fast-food do jornalismo.

O que podemos nós, David, contra este Golias desinformativo que nos manipula e que já fez estragos na América, com a eleição de Trump e, no Reino Unido, na votação a favor do Brexit?

Cristina Ovídio recomenda este documentário: “Nada é Privado: O Escândalo da Cambridge Analytica”.

Aprendi, confirmei o que já sabia mas, sobretudo, fiquei em choque com a dimensão daquilo que eu não conseguia imaginar.

Desconhecia que, atualmente, os dados que introduzimos descontraidamente no Facebook estão cotados e são mais valiosos do que o petróleo. Obviamente que são vendidos e bem pagos:

Os nossos rastros digitais estão a ser extraídos para uma indústria de trilhões de dólares por ano. Nós somos o produto.

Estavamos tão encantados com a conetividade que não lemos os termos e condições.”

Como somos incessantemente rastreados, são-nos apresentados conteúdos de acordo com o nosso perfil digital. O objetivo desta jogada pode ser muito diversificado e não é só de caráter comercial (como eu julgava), mas também é político e/ou ideológico.

Neste documentário, denuncia-se como a Cambridge Analytica atuou em várias campanhas eleitorais e como o Facebook lhe vendeu dados de 87 milhões de usuários.

Um negógio ultra-secreto que Mark Zurkerberg só admitiu quando as provas já eram demasiado evidentes.

Negócios escuros e ilícitos que demonstram que não é por acaso que as empresas mais ricas do mundo são as de tecnologia: Facebook, Google, Amazon e Tesla.

A Cambridge Analytica foi também uma empresa bilionária e líder mundial durante 15 anos, até que encerrou a atividade, de forma a ocultar informação e dificultar a investigação do Parlamento Britânico.

Trabalhou nas campanhas de vários políticos republicanos, na campanha de Trump e na campanha do Brexit. Usou informações pessoais (compradas a Mark Zurkerberg e sem autorização dos usuários, claro) e accionou os famosos psicográficos (testes de personalidade elaborados por equipas de psicólogos e que possibilitam prever comportamentos – permitem, evidentemente, alterá-los, ao agir a montante). Desta forma ilegal, a empresa ajudou os seus clientes a obter os resultados, para nós, absolutamente imprevisíveis: o Brexit concretizou-se e, cereja em cima do bolo, Trump ganhou as eleições.

Os alvos deste tipo de empresas que se apresentam como “modificadoras de comportamentos” são os “persuasíveis”; são estes que vão ser sujeitos a fake-news personalizadas em todas as plataformas digitais a que se ligam.

Os “persuasíveis” são os eleitores que encaixam no perfil de indecisos ou são pessoas com pouca formação ou socialmente fragilizados ou jovens, etc.

Há números que nos fazem pensar que umas mentirinhas espalhadas por aí não são assim tão inofensivas: o diretor da campanha digital de 2016 de Trump admitiu ter publicado 5,9 milhoes de anúncios no Facebook; Hillary publicou 66 000. Claro que o diretor da campanha de Donal Trump foi promovido a chefe de campanha para as presidenciais de 2020, ou seja, o crime compensa e vai repetir-se.

Inofensivo também não é o vice-presidente da Cambridge Analytica. Partilha a assustadora ideia de Breitbart: “Se quiseres mudar uma sociedade nos seus fundamentos tens de destruí-la primeiro. Só depois de destruí-la em pedaços é que podes remodelar os pedaços segundo a tua visão de uma nova sociedade”.

São pessoas que estão claramente em guerra e não têm contemplações.

Não são inofensivas nem se podem substimar, pois subverteram, por diversas vezes, regimes democráticos e alcançaram o seu objetivo, surpreendendo o mundo.

Estas empresas treinaram, inclusivamente, militares para estes aprenderem a influenciar o comportamento dos inimigos, em contexto de guerra. Por exemplo, no Afeganistão, o militar podia destruir uma aldeia, mas aprendeu técnicas para persuadir os habitantes para que se juntassem a ele, convencendo-os, por exemplo, de que os talibans iriam destruir a sua aldeia…

Na política e na guerra, fica clara a ideia de que a verdade não é um valor e que os fins dos clientes destas empresas justificam claramente os meios.

No documentário, o Facebook não é poupado e são explicitados os seus truques: os mesmos usados pelos casinos e que passam por aproveitar os instintos básicos para cativar as pessoas. O medo e a raiva são dois deles, mas os anunciantes são livres para explorar toda a emotividade da audiência. Esta rede social é descrita como um “gangster digital” totalmente impune.

A jornalista Carole Cadwalladr conseguiu reunir muita informação e explica, neste vídeo, como o Parlamento Britânico investigou durante 18 meses as ligações de Mark Zurkerberg à Cambridge Analytica, durante a campanha do Brexit, e como não consegue condená-lo, pois ele encontra-se, providencialmente, fora do alcance da lei britânica.

Ainda no programa “Original é a Cultura”, Dulce Maria Cardoso sugere o documentário “After Truth“.

Este documentário desmascara a dorma como as fake news são usadas, conscientemente, como armas para promover ou destruir um candidato partidário; são denominadas, de forma assustadora, como uma “arma de guerra para reconduzir a História”. Por vezes, as fake news chegam até às grandes cadeias de televisão americanas. É verdade que acabam por ser desmentidas, mas o estrago já está feito. Há episódios tão bizarros que parecem mesmo ficção.

Todas as manobras políticas desmascaradas aproximam-se da série House of Cards, série que eu deixei de seguir porque a considerei, ingenuamente, muito artificial e exagerada.

Estes dois documentários alertaram-me para a manipulação a que estamos sujeitos e renovaram-me a vontade de fechar a minha conta no Facebook.


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Um íntimo deserto

Juan Vicente Piqueras indica-nos o humor nas suas Instruções para atravessar o deserto.

Para além de humor, precisamos de coragem e lucidez para manter o foco. É tão fácil o desvaire…

“Para atravessar este íntimo deserto
é preciso coragem, tempo, vontade
de não perder a vida preparando
uma viagem que jamais faremos,
um camelo leal, um companheiro
igual, um mapa vão,
um turbante, uma bússola,
dez caixas de bombons (souvenir do Ocidente)
e uma jilaba azul… que mais? Um livro
que faça as vezes de Corão, de Bíblia,
de Tora e Tao,
e tenha as páginas em branco ou esteja escrito
numa língua que ninguém compreenda.
Faz falta uma certa confiança na sede,
um olhar límpido e um caderno
de notas que os dias
são compridos, lentos, e as noites tristes,
e não há tenda nem tribo
nem deus que ajudem em tanta solidão.
Para atravessar este íntimo deserto
faz falta querer, ter de, decidir
começar a andar e não olhar para trás,
não recuar, não ter outro remédio.”

astrid-verhoef-inscapes-tree

IGNANT