“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Olho lírico

Sobrevivemos a um ano de teletrabalho e de isolamento.

Um ano inédito a convivermos ininterruptamente connosco, com o stress do trabalho, da vida doméstica, do medo, da saturação e do desânimo.

O teletrabalho, nos moldes excepcionais em que o vivemos, é duro, mas protegeu-nos de doenças e de outros desconfortos diários.

Não conhece, no entanto, a prerrogativa “fim de expediente”: como estamos em casa, os outros pressupõem que permaneceremos 24 horas disponíveis.

Até acredito que há pessoas que se aborrecem e se entretêm a trabalhar.

Não é o meu caso.

Desconfio que, quando desconfinarmos totalmente, as empresas e instituições esquecerão as vantagens do trabalho à distância e vão obrigar os trabalhadores a suportar reuniões enfadonhas e tarefas intermináveis que poderiam ser realizadas no conforto do lar.

Surgirão mudanças, no mundo laboral, depois da pandemia?

Preocupa-me o que tenho visto, embora já tenha lido perspectivas muito optimistas.

Para já, sempre que surgem reivindicações, estas são encaradas como inoportunas.

Que burguesia é esta que tem trabalho e tempo para reivindicar!?

Outra burguesa aqui se apresenta… outra que não sabe que as únicas ambições permitidas, hoje, são saúde e “pão na mesa”.

Como eu desejo que o “desconfinamento a conta-gotas” traga sonhos diluviais e inconvenientes!

Se vierem aí os loucos anos 20, “inebriantes, criativos, tumultuosos”, estou já disponível para viver cada minuto!

Aguardo.

Para já, sou uma telefuncionária, apagada, mortinha por deixar escapar o “olho lírico” para bem longe de casa.

Estou em contagem decrescente, mas ainda numa desoladora sintonia com o funcionário de António Ramos Rosa, na sua “vida às avessas a arder num quarto só”.

O Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa

A fotógrafa Trisha Ward interpretou desta forma os tempos que andamos a viver: “The Art of Waiting” deu o mote ao editorial que eu trouxe daqui.


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A Montanha de Livros mais Alta do Mundo

Com dez anos, a Beatriz lê sozinha, durante a meia-hora que instituí, cá em casa, de leitura diária silenciosa.

No entanto, continuo a trazer livros da biblioteca para uma amorosa leitura a duas, antes de adormecermos.

É a melhor forma de nos despedirmos do dia: abraçadas, no meio das mais belas aventuras.

Entre biografias, livros de aventuras e reflexões, por vezes, voltamos aos livros com ilustrações e histórias simples.

Como este, com a história do Lucas.

Lucas sabia, desde bebé, que tinha um destino: voar.

Passava os dia à janela, com os olhos perdidos nos pássaros.

Tentava, a todo o custo, realizar o seu sonho. Apelou até para divindades, como o Pai Natal. Sem sucesso!

Na frustração em que vivia, nem se entusiasmou quando a mãe lhe explicou que havia outras formas de voar.

Quando lhe ofereceram um livro, foi avançando, hesitante,… até que se entusiasmou.

Tal foi o entusiasmo que a situação se descontrolou.

Insanamente.

Só quem nunca entrou no mundo da ficção e da poesia é que não compreende esta insanidade que, quando temos sorte (e o livro certo), se apodera do nosso espírito.

Felizmente, o Lucas aprendeu a controlar os voos e a desfrutar a viagem.

Da escritora Rocio Bonilla e editado, em Portugal, pela Jacarandá.


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A casa do amanhã

Quem nasceu em Democracia e Liberdade, como eu, nunca pensou que estas conquistas, relativamente recentes no nosso país, poderiam tornar-se tão frágeis e voláteis.

Vivemos em ininterruptos estados de calamidade/emergência e outros estados híbridos há meses.

Sucedem-se regimes de excepção que determinam, sem pudores, a “suspensão parcial do exercício de direitos, liberdades e garantias, prevendo-se, se necessário, o reforço dos poderes das autoridades administrativas civis e o apoio às mesmas por parte das Forças Armadas”, conforme consta do site da Assembleia da República.

Receio que quem realmente nos governa (e não me refiro ao séquito do Primeiro-Ministro) se habitue a esta submissão generalizada, ordeira (e tão conveniente) dos povos.

O pequeno comércio foi arruinado, a restauração familiar faliu, os produtores por conta própria foram cilindrados e os grandes distribuidores monopolizam e engordam. As grandes fortunas nunca estiveram tão prósperas, como em 2020/2021:

“Assim [o enriquecimento] aconteceu com os maiores milionários de todo o mundo, que se “aguentaram bastante bem” neste novo normal e viram as suas fortunas engordar 27,5% entre abril e julho, escreve o jornal “The Guardian“.

Isso é o mesmo que dizer que pouco mais de duas mil pessoas arrecadam atualmente 8,7 biliões de euros nos seus cofres e até enriqueceram em pleno pico da pandemia, de acordo com um relatório do banco suíço UBS.”

Coincidências?!

Concomitantemente, o cidadão comum definha: só em Portugal 100 mil pessoas ficaram desempregados, as doenças mentais aumentaram e as outras, terrivelmente mortíferas (oncológicas e cardíacas), têm sido negligenciadas.

A par disto, os pequenos prazeres quotidianos são proibidos.

Beber um café, conversar com um amigo na rua, ler numa esplanada, dar um passeio pela cidade ao fim-de-semana, comprar um livro na livraria, oferecer um sorriso destapado, abraçar os amigos, beijar os amantes,… são actos subversivos e criminosos.

Pessoalmente, sou afortunada e, por isso, sinto o dever cívico de manifestar a minha preocupação relativamente àquilo que vai para além da sobrevivência básica; como humanos, temos de ansiar, em todas as circunstâncias, por mais do que isso…

Na verdade, nem é o confinamento per si que me perturba.

O clima de proibição e o incentivo à delação, em pleno século XXI, é que me desconcertam e retiram o ânimo.

Também por isso, neste segundo confinamento, precisei de manter-me ativa.

Fui melhorando a minha casa e coloquei em prática alguns projetos adiados.

Entretive as mãos com tinta branca, reactivei a aparelhagem abandonada, coloquei os pensamentos em ordem e fui descobrindo vários poadcasts que não conhecia.

A Beleza das Pequenas Coisas de Bernardo Mendonça é um deles, com convidados tão excepcionais como Maria do Rosário Pedreira, valter hugo mãe, Dulce Maria Cardoso, João Tordo,…

Nos últimos dias, ouvi ainda o podcast “O Poema ensina a cair” de Raquel Marinho, com convidados como Eunice Muñoz, Capicua, Rui Vieira Nery ou Alexandre Quintanilha. Ouvir a Raquel Marinho dizer, com frequência: “A Poesia é a distância mais curta entre duas pessoas” restitui-me a fé nos humanos.

O episódio com Alexandre Quintanilha também foi terapêutico e profundamente comovente, sobretudo no momento em que ele partilhou este poema do libanês Khalil Gibran. Tal como Quintanilha, li muitas vezes Khalil Gibran, quando tinha vinte anos.

O poema “As Crianças” ganhou um novo sentido, agora que sou mãe há precisamente uma década.

Os vossos filhos [são] setas vivas projectadas

As crianças

E uma mulher que trazia

um menino ao colo disse:

-Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:

-Os vossos filhos

não são vossos filhos:

são filhos e filhas da própria Vida.

Vêm por vosso meio

mas não de vós;

e apesar de estarem convosco,

não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor,

mas não os vossos pensamentos

porque eles têm os seus.

Podeis acolher os seus corpos

mas não as suas almas:

porque as suas almas

habitam a casa do amanhã

que não podeis visitar,

nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles,

mas não tenteis fazê-los como vós.

Porque a vida não vai para trás,

nem se detém com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos

as setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,

e retêm-vos com o seu poder para que as setas

possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro

seja de Alegria.

Porque assim como Ele gosta da seta que voa,

também gosta do arco que fica.”

No dia das fotografias, nevou.

Corremos para a rua, esquecemo-nos da máscara em casa, brincámos no Rossio e comemos neve.

Foi o último dia em que me senti livre, dentro da cidade.

(A versão do poema de Khalil Gibran foi retirada dos cadernos de Poesia mais-que perfeita. Há várias décadas circulavam por Coimbra, pelas mãos de alguns estudantes, estas pequenas antologias; são da editora “A Mar Arte”, e a minha edição é de 1994. A coleção chamava-se “O Reino dos Loucos” e eu, sem noção de como era privilegiada, feliz e livre, era uma delas.)


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Ciclopes

Julio Cortázar (1914 – 1984), escritor argentino, é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo. Mestre no conto e na narrativa curta, a sua obra é apenas comparável a nomes como os de Edgar Allan Poe, Tchékhov ou Borges.

Não me lembro de ter lido algum texto de Cortázar.

De quantas vidas precisaríamos para conseguirmos ler todos os livros que desejamos?

Na página digital da livraria Bertrand, entrou-me Cortázar pelos olhos diretamente para o coração.

“Toco a tua boca.

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

in ‘Rayuela’, disponível aqui: bit.ly/rayuela-

Encontrei este excerto AQUI.

Os ciclopes são do fotógrafo espanhol Cayetano González, um adepto da luz natural, neste mundo tão cheio de filtros…


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Sapiens de ficção

A cusquice permite organizar grupos de 150 indivíduos com relativa facilidade.

Resta saber como é que passámos de tribos com uma organização rudimentar para cidades e países modernos?

Yuval Harari, no seu livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, responde a essa intrigante questão:

“Como foi possível ao homo sapiens ultrapassar o limite de 150 indivíduos?

Como é que o homo sapiens conseguiu fundar cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios com centenas de milhões de súbditos?

Graças à ficção!

Nunca tinha pensado nisso, mas faz muito sentido.

O segredo do nosso sucesso gregário reside na mitologia: um grande número de desconhecidos cooperam bem, se acreditarem nos mesmos mitos!

Não usamos a linguagem apenas para descrever o que se passa à nossa volta, mas também para inventar o que se passa à nossa volta. As ficções cercam-nos, nas suas formas mais saudáveis e artísticas.

Infelizmente, também nos perseguem nas suas formas mais perversas.

Quantas narrativas foram criadas por génios para nosso prazer?

Quantas narrativas foram/são inventadas para nos manipular, dominar, oprimir ou aniquilar?

São questões que continuam actuais.

“Toda a cooperação humana de larga escala depende de mitos partilhados que existem só no imaginário colectivo. Vale para uma tribo pré-histórica, uma cidade antiga, uma igreja medieval ou um estado moderno.

As ficções são instrumentos estruturantes nas religiões, nos estados ou até dos sistemas judiciais, mas é conveniente que não percamos a noção de que são meros instrumentos; não poderemos permitir que nos escravizem. Não teremos, no entanto, já passado essa linha vermelha?

Quantas vezes se confunde a realidade com as ficções que criámos?

Nem tudo é ficção, a realidade existe.

Quando alguém morre na guerra, morre realmente, mas muitas vezes em nome de uma ficção que nos venderam: a defesa de um país, de um povo, ou de um valor moral nobre propagandeado para justificar a violência armada ou opressora (democracia, liberdade, justiça, segurança, saúde,…).

“Como saber se o herói de uma história é real ou inventado?

Pergunta a ti mesmo: este herói pode sofrer?

Uma empresa, por exemplo, não sofre nem quando entra em falência: não tem uma mente, não consegue sentir dor, nem tristeza. Também uma nação não sofre, sequer quando perde uma guerra”, mas um ser humano pode morrer em nome de uma ficção que criaram para ele.

Um ser humano ferido na guerra sofre realmente.

Imagens e citações do livro Sapiens, uma Breve História da Humanidade.


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Calhandrice

Quando há mais de vinte anos cheguei ao Alentejo, aprendi muitas palavras novas. Recordo-me da palavra “calhandreira”.

No programa Visita Guiada, de Paula Moura Pinheiro, fiquei a saber que as calhandreiras eram as mulheres que tinham a ingrata função de recolher e despejar os calhandros dos mais ricos. Os calhandros eram os objectos que guardavam os dejectos, antes de haver saneamento básico nas cidades. Estas mulheres passavam o dia com os calhandros à cabeça a circular pelas ruas. Imagino que os momentos de convívio e conversa fossem os únicos momentos de alívio e refrigério. A partir daí, associou-se a palavra calhandeira a quem se entretém a conversar sobre a vida dos outros.

Segundo Yuval Harari, no seu livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, foram os momentos de complexidade comunicativa, sobretudo acerca dos outros, que nos distinguiram definitivamente dos demais primatas.

O homo sapiens é, por excelência, um animal social.

“A troca de informações sobre leões, bisontes e rios foi muito útil, mas a informação mais importante que os humanos trocaram entre si não foi sobre leões ou bisontes – foi sobre eles próprios.”

“A cooperação social é a chave da nossa sobrevivência e reprodução. Para caçar bisontes ou construir bombas, temos de confiar uns nos outros.

É importante as pessoas saberem quem, no seu círculo, odeia quem, quem está com quem, quem é honesto, quem é vigarista.”

“Para seguir o estado das relações de umas poucas dúzias de pessoas é preciso obter e processar uma quantidade avassaladora de informação. Num grupo de 50 indivíduos, há 1225 relações de um para um, além de um sem número de combinações sociais complexas! Os chimpanzés mal conseguem manter unidos grupos de 50 indivíduos.”

Os chimpanzés são curiosos e gostam de saber as novidades do grupo, mas têm de vê-las, não conseguem espalhá-las. Como sabemos, para os sapiens é muito fácil: basta falar nas costas uns dos outros!

Não consigo digerir bem este desprezível hábito humano, mas agora consigo compreendê-lo melhor.

“A cusquice é uma atividade maldosa, mas verdadeiramente essencial à cooperação de massas.

Como a cusquice, regra geral, se centra nas transgressões, ajuda a implementar normas sociais e a manter a coesão.”

Ajudou na evolução, mas esta é, sem dúvida, a razão principal pelo qual a abomino: quem cusca tem quase sempre a pretensão de possuir uma superioridade moral e, por conseguinte, ambiciona forçar os outros a seguirem o seu padrão social!

“Mas até a cusquice tem os seus limites. Cusque-se muito ou pouco, a maioria das pessoas não conhece a vida pessoal de mais de 150 pessoas. É por isso que o limite crítico de capacidade das organizações humanas ronda este número mágico: 150. Abaixo do limite de 150, as comunidades, as empresas, as redes sociais e as unidades militares conseguem funcionar graças ao tráfico de informações e boatos. Não há necessidade de escalões, cargos ou regulamentos para manter a ordem. Ultrapassando o limite de 150 indivíduos, as coisas deixam de funcionar assim.”

“Então como foi possível ao homo sapiens ultrapassar o limite de 150? Como conseguiu fundar cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios com centenas de milhões de súbditos?”.

Graças a algo muito mais poderoso, mas também muito mais perigoso!

Já conto!

Entretanto, nas noites de segunda-feira, na RTP1, começou o documentário Deus Cérebro, de António José de Almeida, sobre este enigmático órgão.

Aprendi que o fogo permitiu que passássemos a cozinhar os alimentos e que tivéssemos, finalmente, o aporte calórico necessário para sustentar o nosso inesgotável cérebro. Concomitantemente, o controlo do fogo permitiu longos serões à volta da fogueira: tínhamos conforto e alimento para contar as nossas façanhas de caça, “tecer alianças, ajustar contas, coscuvilhar, dançar e cantar. A cooperação afirmou-se como um pilar crucial para o desenvolvimento da mente humana.”

Quanto maior o grupo social dos primatas maior é a dimensão da cabeça!

É o conceito de “cérebro social”, que se relaciona com a complexa relação que as pessoas estabelecem umas com as outras.

Neste documentário, os cientistas destacam ainda o sexto sentido.

Não são impressões ou melindres; é a incrível capacidade que o nosso cérebro tem de simular e antever o futuro para assim se preparar e nos proteger. A verdadeira inteligência, segundo vários cientistas, reside na nossa (maior) capacidade de antever o futuro e na nossa capacidade de nos relacionarmos. Mais do que a tão reconhecida inteligência cognitiva, o que nos permite brilhar e elevar-nos é a inteligência emocional. Seríamos todos mais felizes se a valorizássemos desde o berço!

Imagem e citações do livro Sapiens, uma Breve História da Humanidade.


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O pânico é o abutre que se senta no teu peito

Não sei quando voltaremos a sair livremente.

Estamos presos nos concelhos, em casa e, sobretudo, num espaço psicológico de opressão, desconfiança e medo.

Alguns estão pior: ficaram confinados em espaços interiores de moralismo, intolerância, policiamento, agressão, condenação e delação. Sinto profunda piedade por estes últimos, mas tenho por hábito conservar uma distância muito superior a 3 metros de mentes tóxicas .

Não saberemos tão cedo se há motivos reais para “os vários aprisionamentos” a que temos sido sujeitos.

Julgo que só daqui a dez anos vislumbraremos alguma luz. Por agora, cada um tem as suas motivações, teorias e certezas.

Tem sido assim em todos os tumultos históricos: muito mais tarde, descobrimos parte da enorme encenação que nos contaram.

Neste milénio, recordo-me do que aconteceu durante a sanguinária invasão do Afeganistão (mais de 30 mil civis afegãos mortos – BBC) ou da obscena demolição do Iraque (e as armas de destruição maciça que nunca apareceram!?).

Vou vivendo com o cuidado e com a serenidade possível.

Tento não cometer muitos atos de desobediência civil (apesar da minha natureza insurrecta), mesmo quando vejo que muitas das medidas são de natureza política e aleatória.

Faço um esforço enorme para não me envolver demasiado na narrativa atual. Não tenho a pretensão de saber onde está a verdade, nesta altura em que todos são cientistas de bancada, mas já vivi o suficiente para não ser totalmente crédula.

Juan Vicente Piqueras escreveu “Instruções para sair do deserto”.

Os desertos que mais me preocupam são, sem dúvida, os interiores; esses que estão a crescer dentro de nós: os que nos impedem de empatizar e solidarizar; os que nos impelem a atacar e culpar ferozmente “os outros” por uma pandemia mundial.

Desses desertos temos de sair a todo o custo, distinguindo bem as “gaivotas dos abutres”.

De outra forma, perderemos a nossa humanidade, dividir-nos-emos, enfraquecer-nos-emos e só sobreviverão os necrófagos. Esses, impiedosos que são, não nos deixarão os ossos!

Para sair deste íntimo deserto
é preciso saber que não tem saída.

Esperar, caminhar, desesperar,
cultivar a paciência até perdê-la
quando todo tu sejas já pura paciência.

É preciso sentir que o deserto és tu mesmo,
recordar com irónica ternura
aqueles dias só agora felizes
em que tivemos fé nas miragens.

Já não há mais coração do que aquele que ardeu.

Não há maneira nem água nem amanhã
nem oriente nem ocidente. Não há estrelas
que te digam onde, que te indiquem
messias ou saídas que não existem

até que um dia encontres diante de ti

as tuas pegadas de outros anos e

compreendas que chegaste ao teu passado

que já estás onde estavas

que morrerás de sede

Olha na areia as sombras dos abutres que julgavas gaivotas”

A imagem é do blog sempre inspirador IGNANT.

O título do post é uma frase do livro O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, de Ana Margarida Carvalho.


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Reinventar

Depois de ter lido que a indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo e após ter refletido acerca das minhas compras impulsivas, desafiei-me a abster-me de comprar roupa durante dois meses.

A expressão é própria das dependências, mas o facto é que comprar roupa bonita é viciante: definitivamente, não é por necessidade que compramos o nosso sétimo casaco ou o quinto par de botas.

Cumpri o desafio. Espero que sejam apenas os primeiros dois meses, mas não avanço promessas.

Estive muitas vezes prestes a cair em tentação, confesso, mas mantive o foco nas minhas reais necessidades.

Continuo a visitar o Pinterest e a tentar combinar de forma diferente o que já tenho.

Fiz bainhas a algumas das minhas calças e dobrei outras para um ar mais moderninho.

As camisolas de lã de qualidade são sempre uma aposta segura e pode ser que compre uma (só uma!) nos saldos.

Enquanto isso, vou usando as que tenho, inspirada nesta simplicidade que nunca falha.

Este twin-set da Mango provocou-me muitas vezes…

Estes sobretudos fariam furor no meu roupeiro, mas vou passeando todos os outros que esperam a sua vez para se exibirem em Estremoz.

A esta cor de casaco talvez não resistisse…

Gosto da ideia de conjugar saias mais leves de Verão com camisolas de malha. Neste caso, só é preciso procurar no armário das roupas de Verão e seguir…

Os sapatos Oxford também podem voltar. Tenho dois pares no fundo do armário, tristonhos, há uns anos.

Votos de um Inverno muito sorridente!

Comprometo-me, agora, com muito mais seriedade, a manter os meus amigos bem mais perto do que no miserável ano que passou! Preciso muito deles para me manter equilibrada e firme nos meus desafios verdadeiramente importantes!


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Sapiens: tirano ou cuidador

 Yuval Noah Harari, professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu, em 2014, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade.

Em 2020,  surgiu a novela gráfica, como resultado da parceria entre o autor Yuval Harari, o escritor David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casaneve.

O livro narra a evolução do Homem desde a pré-história até à atualidade e explica de que modo este ultrapassou as restantes espécies e os outros membros da família sapiens.

Este salto para o topo do ecossistema foi tão precipitado que nem tivemos tempo para nos ajustar.

Talvez este nosso “novo-riquismo” hierárquico explique os nossos tiques tiranetes em relação às outras espécies.

Sempre me questionei acerca desta nossa sede pungente de domínio sobre a flora, a fauna e, surpreendentemente, até sobre os outros seres humanos. Este livro deu-me uma pista para a sofreguidão humana de esmagar o outro.

“Há pouco tempo, éramos animais insignificantes no meio da cadeia alimentar. Depois, de súbito, saltámos para o topo. Talvez demasiado depressa. Aos leões, às águias e aos tubarões, chegar gradualmente ao topo da pirâmide levou milhões de anos.”

“Este processo gradual permitiu que o ecossistema se autorregulasse, impedindo que os leões e os tubarões lançassem o caos. À medida que os leões se tornaram mais mortíferos, as gazelas tornaram-se mais rápidas, por exemplo.”

Mas a humanidade saltou tão rapidamente para o topo que o ecossistema não teve tempo de se ajustar.

Nem os próprios humanos.

Os outros animais, que estiveram durante milhares de anos no topo do ecossistema, exibem um aspecto físico imponente e cheio de dignidade; vejamos os casos do leão, do lobo, do tubarão ou da águia.

Já o sapiens

“Não há muito tempo, nós éramos os pés rapados da savana. Os nossos primeiros instrumentos foram usados para rapar os restos deixados por leões e hienas. Este facto ajuda-nos a compreender a nossa história e a nossa psicologia.”

Individualmente e enquanto espécie, já é tempo de nos tranquilizarmos com o “posto” conquistado.

Não sei se Yuval Harari estaria de acordo, mas julgo que somos uma espécie que deve a sua sobrevivência ao facto de termos sido (e sermos), mais do que déspotas, diligentes cuidadores.

Se pensarmos bem, nenhum de nós cá estaria se não nos tivessem zelado, nos primeiros tempos de vida.

Ao contrário dos outros animais, não caminhamos, não nos alimentamos sozinhos, nem temos capacidade de defesa, após dias, semanas ou meses de vida. De facto, ficamos em total dependência relativamente aos nossos progenitores (ou outros adultos) pelo menos uma década. Quero acreditar que não é por acaso que essa dependência, no início da vida, sucede entre os humanos…

Surpreendentemente, esquecemos essa dádiva e ignoramos a grandiosa lição de generosidade milenar que experienciámos: todos somos cuidadores ou fomos cuidados. Que paradoxo! Crescemos e tornamo-nos predadores vorazes e soberbos!

O livro de Yuval Noah Harari, de forma divertida, coloca em cima da mesa muitas questões científicas, mas também filosóficas. O autor, muito sabiamente, realça que “as questões éticas e filosóficas têm sempre um lugar central nos seus livros. Não vale a pena escrever História se nos esquecermos da dimensão ética.

Editora: ELSINORE.


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Tu

No último episódio de uma das minhas séries favoritas, Years and Years, a matriarca (interpretada pela fantástica Anne Reid) faz um discurso incrível no dia de Natal, para espanto e desconforto dos membros da família… e dos espectadores da série.

O tom pode ser interpretado como culpabilizante, mas talvez uma nonagenária já tenha o estatuto de nos apontar o indicador.

Eu considero o discurso responsabilizante.

Somos cidadãos e temos de activar o nosso modo interventivo, sob pena de que a nossa demissão alimente um sistema ainda mais corrupto e desumanizado. O nosso poder tem de ser exercido nas nossas decisões, escolhas e exigências diárias, assim como no processo eleitoral.

De outro modo, tudo pode acontecer:

“É tudo culpa vossa! Os bancos, o governo, a recessão, os políticos medíocres!

Vocês têm a culpa de tudo o que correu mal. A culpa é de cada um de nós…

Podemos ficar aqui todo o dia a culpar os outros. Culpamos a economia, culpamos a Europa, a oposição, a metereologia, os grandes acontecimentos da História; dizemos que tudo está fora de controlo e que estamos desprotegidos, pequenos e frágeis, mas nós é que somos os culpados. Porquê?

Vejam o caso da t-shirt que custa uma libra. Nós não lhe resistimos. Nenhum de nós lhe resiste. Achamos uma pechincha e compramos. Sabemos que não tem qualidade, mas serve. O dono da loja ganha 5 míseros pence por ela. O pobre camponês, no campo, ganha 0,01 pence. Nós achamos que esta situação é correta, concordamos com ela, todos nós: damos o nosso dinheiro e participamos neste sistema durante toda a vida.

Tudo começou a correr muito mal, nos supermercados, quando substituiram as pessoas que nos atendiam por caixas automáticas. Não gostámos, mas não protestámos, não escrevemos no livro de reclamações, não mudámos de supermercado; conformámo-nos! Agora todas as pessoas que trabalhavam nas caixas foram despedidas e nós permitimos que isso acontecesse. Hoje, até gostamos, porque pagamos e não temos de olhar ninguém nos olhos, não temos de olhar para a pessoa que ganha menos do que nós.

Temos culpa, sim. Este é o mundo que construímos.

Parabéns!”

A avó alerta-nos ainda para os políticos polémicos, disruptivos e irracionais:

“Tenham cuidado! Livramo-nos de uma aberração política e acorda outra, imediatamente, dentro da caverna.

Cuidado com os políticos engraçadinhos, corruptos e palhaços. Riem-se e levam-nos ao inferno.”

É impossível ouvir estas palavras e não pensar em Trump ou Bolsonaro ou num outro Ventureiro aqui entre portas.

Os votos de Feliz Natal costumam ser ligeiros e delicados, mas este Natal não é como os outros.

Vou aproveitar a pausa e o isolamento profilático que me calhou para reflectir sobre o mundo que quero deixar, como presente, aos mais pequenos.

Temos vários exemplos de seres humanos que fizeram a diferença.

Acabei de ver Snowden, um homem que denunciou o sistema de escutas americano: o mesmo que invadiu tranquilamente os nossos computadores, leu os nossos emails e sms e accionou a câmara do nosso computador pessoal, sem necessidade de qualquer autorização prévia. Snowden está, desde 2013, refugiado na Rússia… mas a lei americana foi alterada, em consequência da sua acção.

Definitivamente, não somos todos feitos da massa dos heróis, mas o meu objectivo de vida é, pelo menos, distanciar-me dos vermes e deixar clara a minha repugnância por quem os segue.

Preciso de biografias inspiradoras, ainda que estas sejam frequentemente silenciadas, em nome de uma ideia de segurança, de saúde e de bem-estar comum que nos pregam.

Se não é essa a inspiração que nos guia, não sei bem por que razão andamos a celebrar todos os anos o nascimento de um homem absolutamente excepcional.

Feliz Natal!