“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Mais

A Lunna escreveu-me, nos votos de Ano Novo:

“Que 2018 seja menos intenso em sua correria (porque 2017 foi insano, nem agosto conseguiu detê-lo um pouco mais) e que seja mais, que sejamos mais.”

Vou tentar canalizar os esforços nesse sentido!

Ser mais: mais Mãe, mais Eu, Melhor!

Estar mais: com aqueles que amo, comigo!

Ver mais!

Respirar mais!

Pausar mais!

Sair por aí ajuda!

sobreiros

Beatriz de patins

Provavelmente, estou sugestionada, mas parece que anda uma luz nova no ar…

Oxalá!

E que traga a todos limpidez e cor!


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Jano

Janeiro provém de Jano, um dos mais antigos deuses do panteão romano.

Jano era o deus de todos os princípios, o que motivou Júlio César a escolhê-lo para designar o primeiro mês do calendário (calendário que ostentava o seu nome, o calendário juliano).

Jano é representado com dois rostos que se opõem: um olhando para a frente, outro olhando para trás.

Atribuem-se ao reinado de Jano as habituais características da Idade do Ouro: completa honestidade dos homens, abundância e paz profunda.

Terá sido Jano o inventor dos barcos.

As mais antigas moedas romanas em bronze tinham, numa das faces, a efígie de Jano e o reverso representava a proa de um barco.

(Estas e outras informações mitológicas constam deste livro maravilhoso.)

A minha proposta para 2018: vamos começar de novo!

O ideal talvez seja aproveitar esta oportunidade de recomeçar e deitar fora o lastro que, às vezes, nos prende.

Recomeçar com as aprendizagens e maturidade do Passado, mas com o olhar num Futuro límpido e venturoso!

 


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O Sentido da Vida

Uma apresentação que se intitula “Há mais na vida do que ser feliz” já é suficientemente provocatória, sobretudo quando vivemos numa época em que proliferam livros de autoajuda, artigos e lista com promessas de felicidade empacotada.

Mas se alcançar a felicidade fosse só seguir uma “to do list”, não seríamos hoje um dos países da União Europeia que mais toma antidepressivos e ansiolíticos.

A falha, a meu ver, começa quando se liga felicidade a sucesso e se traduz sucesso por: ter casa própria, carro novo, namorado boneco e dinheiro para pequenos (ou grandes) luxos.

Todos conhecemos  pessoas que reúnem todos (ou quase todos) estes requisitos e continuam ansiosas, dependentes de Lexotan e com um vazio inexplicável.

Emily Smith propõe-nos uma reflexão sobre o sentido da vida humana, mais do que vivermos como toupeiras à procura de uma felicidade que, inevitavelmente, chega, foge e se esconde.

Como dar sentido à vida?

1- Alimentar o sentimento de pertença:

Estabelecer relações em que se é valorizado/se valoriza pelo que se é e em que se dá, de facto, atenção ao outro: quer seja o senhor que nos vende o café, um familiar, um vizinho, um amigo.

Ultimamente, reparo que é raro alguém focar-se no outro: há o telemóvel, há a vida exterior (e interior) e muitos dos diálogos são estranhos, porque já não se responde à deixa do outro, monologa-se.

2- Estabelecer objectivos de vida:

Ter objectivos de vida que vão para além do “tirar um curso e arranjar um bom emprego “.

Garantir a sobrevivência imediata é importante, mas Emily Smith fala em objectivos que passem por “dar” aos outros.

Numa sociedade tão pouco filantrópica, como aquela em que aterrámos, e tão defensora da esperteza e desenrascanço nacional (ainda que isso prejudique o próximo), fica evidente que temos um longo caminho a percorrer nesta área.

Salvar-nos-á, talvez, o espírito forte de família: amar os filhos é uma forma sublime de “dar-se”.

Emily defende que muitos de nós vêem o trabalho como uma forma de contribuir para algo maior e, por isso mesmo, o desemprego é mais do que um problema económico, é uma questão existencial. Bem visto!

3-Praticar a transcendência:

Encontrar uma forma de abstrair das minudências quotidianas.

Há quem o faça através da Fé, da Arte ou da criação: fazer algo que nos melhore enquanto seres humanos e que nos faça perder a noção de tempo e de espaço.

4- Encontrar a melhor versão da nossa história:

A nossa vida é narrada a nós próprios (e aos outros) centenas de vezes ao longo dos anos.

Devemos construir uma narrativa de redenção, crescimento e amor para nós próprios e não de autocomiseração e amargura.

Há quem precise de psicólogo para encontrar a melhor versão da sua história, há quem o faça sozinho, ao longo do tempo, através de muita introespeção.

Precisei de sintetizar as reflexões da Emily, porque por vezes esqueço-me de que são estes 4 pilares que seguram a minha casa. Na verdade, só uma casa com uma arquiteta bem lúcida e bem ciente do sentido da vida consegue ultrapassar serenamente os momentos felizes e menos felizes que fazem parte da vida humana.

Afinal, como bem disse Emily, a Felicidade joga connosco ao “toca e foge” e nós temos de viver todos os dias!

 

 

 

 


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Explicitar

Verbalizar afectos é difícil.

Requer autoanálise, autoconfiança, hábito e educação.

A geração dos meus pais não verbalizou muito e, quanto à geração anterior, nem se fala…

Foram séculos de dificuldade/impedimento/proibição de explicitação afectiva!

O que não significa que não tenham amado, claro.

Os afectos eram concretizados em gestos:

os meus pais trabalharam muito para nos proporcionar o que não tiveram;

para além do trabalho fora de casa, deram-nos o seu tempo: cozinharam, arrumaram, tricotaram e até costuraram modelitos. Nós, às vezes, nem gostávamos muito (acabara de surgir o pronto a vestir, que era o máximo!), mas em cada ponto ou laçada de lã nós estávamos lá no seu pensamento.

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Hoje, andamos a uma velocidade e vemos tantas imagens, comunicamos tanto (será?), espalhamos likes, lemos publicações, notícias, opiniões que nem paramos junto de quem gostamos. Infelizmente, essa vertigem faz com que elas parem também pouco em nós.

Surge o Natal e pensamos nas pessoas que vivem no nosso coração.

Apercebemo-nos, em Dezembro, que passaram meses e nós mal as olhámos… ou mal as vimos.

A missão deste Natal é transformar os afectos em gestos concretos!

Oferecer algo que demorou tempo a fazer.

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Contrariar a rapidez da vida e oferecer o que foi feito com as mãos.

Enquanto amassamos, tricotamos, embrulhamos, demoradamente, pensamos nas pessoas de quem gostamos, revivemos os motivos pelas quais estão no nosso coração e elas param no nosso pensamento.

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View More: http://maudfontein.pass.us/tlt2

Bem mais tempo do que se fôssemos à loja comprar aquele bibelot engraçadinho!

Todas estas ideias DIY são do blog Babyccino.

 

 


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Sex appeal

Sex appeal:

Poder de sedução ou encanto sensual que alguém apresenta ou transmite.”

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Tenho amigas extremamente atraentes, mas que se consideram com pouco sex appeal.

Dizem que não vêem, no sexo oposto, aquele virar de cabeça involuntário, que a maior parte de nós não procura mas que, uma vez por outra, sabe bem encontrar num homem com pinta (claro! dos outros chega-nos a presença nos pesadelos!) .

Ora eu tenho a certeza de que as minhas amigas têm “poder de sedução e encanto sensual”: são mulheres interessantes, cativantes, seguras, com sentido de humor, bonitas e cheias de estilo.

O que andará a passar-se?

Ou os homens estão míopes e misturam sensualidade com vulgaridade e só reagem a imagens estereotipadas;

ou elas estão míopes e não vêem que a maior parte dos homens está mais subtil nos seus olhares involuntários;

ou a noção de sexy é tão variada como a quantidade de homens e mulheres que existem no mundo.

Quanto a mim, considero estas três imagens com igual sex appeal , apesar da última imagem poder não ser tão consensual;

o sex appeal é, sem dúvida, muito mais mutável e complexo do que aquilo que as capas de revistas nos querem fazer crer.

A verdade é que só um olhar pode ter uma carga erótica de milhares de volts!

 


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Secar

Na literatura portuguesa, o amor é cantado com drama e angústia…

Será uma particularidade nossa, amantes inveterados?

Ou a literatura está repleta de amores trágicos?

“O amor é um tema extraordinariamente obsessivo na literatura portuguesa, desde os primeiros cancioneiros, prosseguindo quase sem descontinuidade até aos nossos dias, passando por Bernardim Ribeiro, Camões, Tomás António Gonzaga, Bocage, Garrett, Camilo, cujo Amor de Perdição, segundo Unamuno, é a novela de paixão amorosa mais intensa e mais profunda que se escreveu na Península.

[O amor] É um dos principais temas da poesia popular.

Poucos países haverá que tenham tanta abundância de poesias amorosas como Portugal.

Trata-se em geral do amor-paixão que se compraz na ausência, na impossibilidade de realização, na autodestruição, amor a fogo brando, sem sentimento trágico, exceptuando Camilo e o Garrett das Folhas Caídas.

Chega a ser um estado de insatisfação sem objeto.

Assim aparece no fado.”

António José Saraiva, A Cultura em Portugal: Teoria e História

 

O poema !”Adeus” de Eugénio de Andrade retrata a constatação do fim do amor.

Um amor que naturalmente termina, que se apaga do coração.

Com um sujeito poético conformado e não desesperado.

E é por causa desta lucidez que, por mais que o leia, não páro de arrepiar-me.

 

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa

 

Há poucos poemas que cantem o desamor do próprio coração…

É mais frequente (e fácil!) desempenhar o papel de vítima do drama amoroso.

 

Ilustrações de Cynthia Tedy.


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Desnorte

Ser anónimo e estar longe dos que nos conhecem desde sempre pode ser libertador mas, a longo prazo, provoca-me um desnorte, que fico extremamente sensível a imagens que me abalam e transportam, como um raio, para esse vazio chamado saudade.

A minha prima apareceu-me assim.

 

Com o cheiro a tabaco, a pastilha elástica e a perfume.

E eu fiquei nesta saudade.

” [A saudade é] caracterizada por uma duplicidade contraditória:

é uma dor da ausência e um comprazimento da presença, pela memória.

É um estar em dois tempos e em dois sítios ao mesmo tempo, que também pode ser interpretado como uma recusa a escolher:

é um não querer assumir plenamente o presente e o não querer reconhecer o passado como pretérito. […]

é um sentimento complexo, mesclado, doce-amargo, pouco propício à acção, e não deve ter contribuído pouco para que a personalidade portuguesa apareça a observadores estrangeiros como desnorteante e paradoxal.

A saudade está ligada ao apego que se criou aos sítios, aos tempos e às pessoas que ficaram distantes.

E é uma característica do amor à portuguesa, que parece comprazer-se na distanciação.”

António José Saraiva, A Cultura em Portugal: Teoria e História