“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Ilhas

Não sei se a pandemia é o resultado de uma conspiração chinesa, se acontece porque a Natureza está saturada dos humanos ou, pelo contrário, se é a consequência dos humanos se terem esquecido que fazem parte da Natureza, ou se foi Deus ou um demónio que decidiram dar-nos uma lição de humildade.

É um vírus poderoso, mas acredito que lhe falta a grande capacidade humana de luta: a inteligência é uma prerrogativa nossa e é ela que conduz à ciência.

A minha esperança na ciência não é uma questão de fé, pois a ciência não é divina nem mágica; no entanto, tem-nos curado de muitas doenças e proporcionado conquistas inimagináveis.

Infelizmente, não lhe demos a oportunidade de nos curar da imbecilidade e de outras tantas ameaças mais ou menos concretas em que andamos mergulhados há séculos.

A maior prova de que a nossa sociedade já estava há muito doente é que o Conhecimento e a Educação têm sido desprezados e o virtuosismo futebolístico e outras alucinações (que nem virtuosas são) foram valorizadas e remuneradas insanamente.

Agora, dependemos de cientistas, investigadores, médicos e enfermeiros que tanto desprezámos e pedimos-lhe, despudoradamente, um milagre e, já agora, que arrisquem a vida, todos os dias, por nós.

E eles fazem-no!

Espero que, depois deste abalo, os valores que nos devem reger encontrem o seu lugar e que quem salva vidas, quer seja com um gesto humilde, quer seja com rigor científico, passe a ser o nosso herói. E justamente divulgado e remunerado.

Estas palavras de Nick Cave, publicadas no Blitz, não são científicas, são poéticas, o que é mais ou menos a mesma coisa. A minha amiga Carmen partilhou comigo a resposta do cantor à grande pergunta do momento:

o que fazemos agora?“.

[…] o músico admitiu que “os tempos mudaram”, e que agora “enfrentamos um inimigo comum – imparcial, insensível e de magnitude incomensurável”, pelo que “não é tempo de nos abstrairmos”, e sim de “sermos cautelosos com as nossas palavras e as nossas opiniões”.

“Teremos de nos recuperar, não só pessoalmente como socialmente”, continuou. “No futuro, ser-nos-á dada a oportunidade de nos refugiarmos numa versão antiga de nós e do nosso mundo – insular, interesseiro e tribalista – ou de perceber as ligações e uniformidades de todos os seres humanos”.

“Em isolamento, vamos ter de decidir entre o que queremos preservar do nosso mundo e de nós próprios e o que desejamos descartar”.

As metáforas dos nossos mundos são da autoria da fotógrafa catalã Andrea Torres Balaguer.


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17 dias

Estamos todos a reaprender a viver.

Tudo indica que ainda vamos ter muito tempo para consolidar as aprendizagens.

Para além do incómodo de não poder sair de casa, eu pessoalmente tenho medo.

Medo de adoecer e de não ser só uma “gripezita” (como diz aquele político lunático), medo de ficar presa a um ventilador (ou de nem haver ventilador), de ficar sozinha num corredor sombrio de hospital e, sobretudo, de afastar-me da minha filha.

Tenho medo pelos meus pais, pela minha avó, pelos meus tios, pelos meus primos, pelo meu irmão, pela minha sobrinha que está na barriga da mãe, pelos meus amigos, pelos meus alunos, pelos meus colegas e pelos meus vizinhos.

São muitos medos que se juntam à panóplia (e paranóia) de cuidados que tenho de ter nas raras vezes que saio de casa.

São tantos medos que por vezes paraliso.

Há quem compre desmesuradamente, há quem se revolte e seja agressivo com os outros, há quem escape para as redes sociais, há quem apenas publique as notícias catastróficas, há quem entre em negação e se coloque em perigo, … Já vimos quase de tudo.

Neste momento, para ser sincera, não conseguiria entrar num supermercado sem um ataque de pânico. Portanto, tenho optado por compras online (embora as entregas demorem), tenho optado por abdicar de alguns luxos e prefiro ir à mercearia da esquina, à padaria do fundo da rua e ao talho.

O pequeno comércio precisa muito de nós e irá precisar ainda mais quando este demónio invisível nos deixar. Espero que estas pequenas mudanças positivas fiquem na minha vida.

Oxalá permaneçam outras mudanças que fui forçada a fazer.

Ainda antes de tudo o que está a acontecer, o meu corpo e a minha mente rejeitaram o ritmo em que vivia e a que me impus… ou que permiti que me impusessem. Tive um quadro de burnout e estou a reaprender a relevar e a enfrentar a minha profissão de outra forma. Ser professora é uma profissão nobre, mas tive de mentalizar-me de que muitos dos problemas e indisponibilidades dos meus alunos têm origem familiar e social e que me ultrapassam. Tive de aprender a deixar partir quem não quer ou não pode seguir-me. Não foi fácil e ainda não concluí o processo.

Foi no contexto desta recuperação individual que surgiu a doença mundial.

Fiquei desorientada e estou agora a gerir outros desafios: o teletrabalho, os trabalhos da Beatriz (e afastá-la o mais possível de telemóveis e computadores), as tarefas domésticas e a minha ansiedade que me deixa, por vezes, instável.

Tenho respirado fundo, bebido muito chá quente de gengibre e limão e exigido momentos de solidão e silêncio.

Tenho-me oferecido momentos de evasão, embora esse seja o desafio que tenho de aperfeiçoar. Há sempre muitas tarefas que eu permito que se sobreponham. Era assim antes do isolamento e continua a ser assim durante o isolamento.

Para além de tentar aprender, com esta terrível experiência, a viver com menos, a reduzir o consumismo e a abrandar o ritmo, estou a tentar reagir e perceber o que posso fazer pela comunidade local.

Como acontece em todas as cidades, a zona antiga de Estremoz está abandonada e restam os mais velhos, as casas abandonadas, pequenos serviços que fecharam… e nós. Ainda não foi preciso intervir, mas esse será o momento seguinte desta crise individual e coletiva: ajudarmo-nos.

Para chegar a essa disponibilidade é preciso serenar, reestruturar, conseguir agradecer o dia presente e partilhar o que temos.

Entretanto, para chegar a esse ponto, uma vez por semana, eu e a Beatriz levamos o isolamento para a Serra d´Ossa. Tem sido a nossa oportunidade de apanhar sol e vento, estabilizar, e carregar baterias.

E eu penso na vida absurda que tenho levado.

Foi preciso vir uma pandemia para eu ter tempo para ver a Primavera surgir no Alentejo. Há mais de dois anos, seguramente, que não passeava por este verde.

A Beatriz tem andado radiante e não perde a ternura, nem o ânimo, nem a alegria e esse facto acalenta-me o coração.

Quero acreditar que, juntos, vamos conseguir enfrentar o que ainda virá!

A caixa de Pandora soltou todos os males, mas manteve sempre bem guardada a Esperança! Este mito contém sabedoria milenar e não podemos esquecê-lo.


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O Poema Ensina a Cair

“A poesia é a distância mais curta entre duas pessoas.” – Laurence Ferlinghetti

Nestes estranhos tempos em que vivemos, quando somos facilmente contaminados pelo vírus do medo, do pânico, da desconfiança, da arrogância, das teorias conspiratórias, das ausências, o que ainda vai fazendo algum sentido na minha vida é o Amor e a Poesia.

Como diz o poeta Ferlinghetti, a Poesia e o Amor (acrescento eu) tornam-nos mais próximos, sobretudo agora que as distâncias são tão concretas e físicas e nós estamos confinados ao difícil interior das nossas paredes.

Interior

Por trás dos muros da nossa casa

Estamos tão juntos que nos tocamos:

O vento é brisa e a brisa é asa.

Por trás dos muros da nossa casa

Todos os frutos ficam nos ramos.

Vivamos, pois, dentro de nós

Deixando aos outros o gesto e a voz.

Este poema de António Manuel Couto Viana foi a escolha de Carlos Vaz Marques para integrar a saudável e salvífica iniciativa do “Poema Ensina a Cair”:

Tenho andado com estes versos a ecoar na cabeça:

“Por trás dos muros da nossa casa

Estamos tão juntos que nos tocamos:

O vento é brisa e a brisa é asa.”

Numa altura em que nos gritam palavras de ordem e em que já domino mais vocabulário epidemiológico do que gostaria, é bom encher os olhos e os ouvidos com os poetas.

Fechar os olhos e sentir o vento que corre no quintal é hoje o meu sublime prazer: “o vento é brisa/ e a brisa é asa”.

São estes raros momentos (e os braços da Beatriz) que ainda me permitem sonhar com asas, tendo em conta as gaiolas onde estamos todos fechados.

Tenho também aprendido muito com o podcast de Raquel Marinho que me transmite as ferramentas possíveis para combater esta que é a verdadeira crise.

Durante tantos anos, enganaram-nos indecorosamente: só agora estamos em crise, pois só agora estão ameaçados os únicos bens que nos interessam verdadeiramente proteger: a nossa saúde e a nossa humanidade.

Acredito que apenas o conhecimento e a bondade poderão ser as armas, as únicas estritamente humanas, que poderão lutar contra esse tal bicho-vírus.

Nunca fizeram tanto sentido os versos do poema de Luiza Neto Jorge:

“O poema ensina a cair

sobre os vários solos […] “

O dia-a-dia da nossa quarentena está aqui.


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The Slow Traveler

O Blog The Slow Traveler da fotógrafa Carolyn foi uma descoberta muito recente e providencial.

Com tempo disponível e com a nossa humanidade em risco (tanto ou mais do que a nossa saúde), há que resgatar o melhor de nós: a capacidade de superarmos o nosso natural (mas primitivo) umbiguismo e de nos abstrairmos da dureza quotidiana através da arte.

Uma das artes que tenho descurado é a fotografia.

O Instagram, o meu queridinho social, invade-me de tal maneira que sinto-me pequena, desajeitada e redundante, a nível fotográfico.

Encaro o blog da Carolyn como um gatilho para eu sair desta letargia. Para além da motivação decorrente do seu discurso positivo e entusiástico, cheio de ideias, a Carolyn acrescenta-lhe dois dos meus ingredientes de vida predilectos: os livros e as viagens.

A autora partilha também muitas dicas que não envolvem tecnologia para tirar boas fotos:

1- Leva a máquina sempre contigo: felizmente, hoje em dia, com telemóveis com óptimas câmaras fotográficas, todos temos a máquina fotográfica, literalmente, sempre à mão.

2- Tira fotografias todos os dias: predispõe-te a melhorar e pratica diariamente. A minha primeira falha: quando andamos com o botão da rotina ligado, não vemos nada para além de tarefas e metas, logo nada nos parece suficientemente interessante para ser registado. Ora esse pressuposto não é verdadeiro: as fotografias que mais me atraem reflectem, muitas vezes, situações do dia-a-dia.

3- Aprecia as fotografias dos outros: fixa os detalhes que te impressionam. Este trabalho de casa faço com muito prazer!

4- Abranda o teu ritmo e observa: sai para a rua, passeia, espera pela luz favorável; são esses os pormenores que distinguem uma fotografia boa de uma fotografia perfeita. Não é agora a altura ideal para passear na cidade, mas os passeios solitários pela serra e mesmo pelo quintal escondem pormenores únicos.

5- Estuda as tuas imagens: sê o teu maior crítico, sê minucioso e honesto.

Preciso de seguir estes conselhos para voltar a tirar fotografias, mas também preciso de seguir estes conselhos para olhar (e ver) em volta e, por conseguinte, viver melhor.

Votos de uma quarentena tranquila e muita perseverança para enfrentarmos o que traiçoeiramente se aproxima de nós: vírus, medo, egoísmo e fraquezas humanas!


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Oliveiras

“Os Portugueses lembram aquelas velhas oliveiras por que passamos no país, vergadas pelas forças maiores, marcadas e sofredoras, mas sobrevivendo robustamente com uma invulgar beleza.”

Os Portugueses, de Barry Hatton

Ouvi esta magnífica descrição acerca de nós, portugueses, no programa mais corajoso da televisão portuguesa: Original é a Cultura.

Um dos episódios abordou a questão da identidade portuguesa e colocou em cima da mesa perguntas como:

será que existem esses traços distintivos que nos diferenciam radicalmente das outras nacionalidades ou tudo não passará de uma obsessão narcisística centrada numa idealizada “portugalidade”?

E que insegurança (ou vaidade) é esta que nos leva a querer saber o que dizem de nós, que nos leva a precisar dessa validação exterior?

Como somos vistos no estrangeiro foi, aliás, outro dos temas do programa.

A hora da transmissão (e da retransmissão) é inexplicável (e nada corajosa), mas uma tertúlia que junta Carlos Fiolhais, Dulce Maria Cardoso e Rui Vieira Nery, com moderação de Cristina Ovídio, vale bem a pena.

Claro que de madrugada eu, pessoalmente, tenho o estranho hábito de dormir, mas a Internet tem a vantagem de nos permitir fazer o nosso próprio horário.

Estes tertulianos de luxo discutem ainda temas como o envelhecimento, a felicidade, a inteligência artificial, a vida na cidade, a leitura, …

Cada convidado apresenta a sua perspectiva e, uma vez que Carlos Fiolhais é físico, Rui Vieira Nery é musicólogo e Dulce Maria Cardoso é escritora, a troca de ideias é muito inspiradora.

Quanto a mim, pendo a concordar mais com Rui Vieira Nery e Dulce Maria Cardoso, embora Carlos Fiolhais me apresente um ponto de vista que, à partida, eu não ponderaria.

Por outro lado, ando muito amuada com Dulce Maria Cardoso, porque estou à espera, desde o ano passado, da parte 2 de Eliete e ainda nada.


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Álbum de Famílias

Crescer numa cidade como Estremoz é um privilégio.

A cidade é pequena e tranquila; a escola da Beatriz fica a 5 minutos de casa; não há trânsito congestionado; o ambiente é familiar em quase todos os sítios que frequentamos e o ritmo de vida é calmo.

O que me vai preocupando é a falta de diversidade, a todos os níveis. Receio que a Beatriz fique com padrões rígidos que lhe limitem os horizontes.

Este livro aborda o conceito de família ou, melhor, de famílias.

A protagonista, justamente chamada de Esperança, tenta descobrir a que corresponde este conceito para cada colega da sua escola e descobre que as respostas são muito diversas.

Há famílias cujos pais não vivem juntos.

Há famílias constituídas por um adulto e uma criança.

Há famílias com duas mães ou dois pais.

Há famílias que fugiram do seu país e são refugiadas.

O álbum prossegue e motiva muitas reflexões acerca dos vários modelos de família. Até que se chega à fórmula final, a única fórmula válida de família: EU+TU NÓS

Livro recomendado por:
– Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos
– Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens
– Grupo Famílias Arco-Íris da Associação ILGA Portugal
– SFRAA/Quinta de S. Miguel – Casa de Acolhimento Temporário


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Planos de Beleza

Ulisses, antes de partir para a Guerra de Tróia, aconselhou-se com Mentor. Pediu-lhe, inclusivamente, para ser o tutor do pequeno Telémaco, durante a ausência do pai.

Não pára de surpreender-me a influência da cultura grega na nossa língua e, por conseguinte, na nossa substância.

valter hugo mãe é o meu mentor.

Fico sempre a reler o que diz nas entrevistas e nas crónicas.

Na revista da livraria Bertrand, dá orientações muito sábias e inspiradoras para a vida.

Revista Bertrand: Com esse superpoder [a poesia], continua a ter a pretensão de salvar o mundo?

valter hugo mãe: Quero, ao menos, não piorar o mundo. […] já entendi que há gente indisponível para ser salva. Aceitar que algumas pessoas optam pelo abismo e votam no abismo é essencial, porque não podemos cultivar o remorso de, nos nossos planos de beleza, não caber toda a gente. Porque não cabe. Então, estou muito interessado em fazer com que o mundo não destrua minha benignidade, minha generosidade, meu compromisso com a verdade e com a esperança. E é desse modo que me apresento perante quem se encontra comigo. Mas sei que outras pessoas vivem a avidez de ver o mundo sangrar, como se sucumbissem a uma vontade de vingança. Não quero permitir que algo me agrida tanto que viva à espera de vingança. Quero estar como útil aos outros, como quem ainda sabe amar, sim […]”

Emma Hardy é inglesa, fotógrafa autodidacta, e segue este lema:

“I photograph with my heart engaged, […]”.

Pronto, é isto:

a frase de Emma, “I live with my heart engaged”, mas com as palavras de vhm na cabeça “no meu plano de beleza, não cabe toda a gente” – duas ideias que não são incompatíveis e que, conciliadas, talvez nos permitam ser mais felizes.


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Para sempre

SILOGISMOS

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.


Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.


A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?


Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.


(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

Vozes, 2011 – Ana Luísa Amaral

Nunca ninguém desvendou o grande mistério que nos espera no final;

é essa ignorância que ofende a sobranceria humana e nos devolve à nossa pequenez.

Mas se houver mais alguma coisa, para além da “vida inteira”, o que sinto por estes pezitos amarelos irá, de certeza, comigo.

“Para sempre!”

Se não houver, não me chegará a “vida inteira” para agradecer por estes nove anos.


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Grandes goles

Fernando Assis Pacheco foi dos primeiros poetas portugueses a tratar o tema da Guerra Colonial na sua obra.

Assumidamente contra a guerra, o poeta acabou por embarcar e ficar marcado pela experiência na frente de batalha (foi, inclusivamente, retirado por motivos psiquiátricos).

Diz o filho que a “guerra nunca saiu dele”.

Ficou-lhe aquela “morrinha”, no viver, como o poeta dizia quando questionado acerca da sua evidente melancolia.

Mas é este homem que, provavelmente por ter conhecido o lado medonho do ser humano, consegue reconhecer o sentimento mais nobre, o Amor.

Esta definição que escreve, no poema “Esta areia fina”, é tão simples e tão plena.

Esta areia fina

Não sei

se o que chamam amor é este apaziguamento.

Não sei se comias fogo. Tuas abelhas

voam agora em círculos tranquilos.

Mães serenam seus filhos no ventre,

não sei se o que enfim chamam

amor é esta areia fina.

.

Agora estamos um dentro do outro,

fazemos longas visitas deslumbradas

porque “o nosso prazer lembra um rio vagaroso

no meio de juncos ao cair da tarde”.

.

As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio

falaríamos melhor de tudo isto.

Não sei se o que chamam amor

é a cama desfeita o sol fugindo,

uma vontade louca de beber

a grandes goles a noite entorpecente.

.

Com o silêncio, o silêncio sem nome:

morrermos a meio do filme

simples, calada, delicadamente.

Eras tu, amor? – Era eu, era eu!

.

Um barco junto à margem. E cegonhas.

***

Imagem: IGNANT (gosto tanto desta fotografia que já a usei…)

O podcast do Expresso, Palavra de Autor, foi uma descoberta recente mas muito feliz. Foi nesta plataforma que ouvi a entrevista ao filho de Fernando Assis Pacheco, João Pacheco.


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Apego

Esta é uma das mais bonitas músicas que ouvi nos últimos tempos: a letra, a melodia, os intérpretes (Tiago Nacarato e Salvador Sobral) e o vídeo (com a participação do pintor Tony Cassanelli).

Uma música que canta a maturidade no querer que eu gostaria de alcançar um dia.

Sentir amor sem posse, numa relação amorosa, talvez seja o ponto mais alto da evolução humana. Sobretudo para nós, latinos, que misturamos tudo com uma intensidade muitas vezes pouco saudável para as duas partes.

A solução não é o desapego: estar apenas pela metade com o outro-

mas é fundamental distinguir apego de posse.

É muito lúcida e madura esta letra de Tiago Nacarato: a ideia de deixar partir quem não que ficar e despedirmo-nos com o voto: se encontrares quem te faça melhor mulher (pessoa), aproveita para ser feliz!

Talvez um dia lá chegue.

Por enquanto ainda estou neste percurso árduo de resolver a cabeça na tentativa de ser melhor mulher, namorada, mãe, filha, irmã, amiga, professora,…

“Mesmo que eu queira mudar

De mim não consigo fugir

Sou feito do vento que sopra devagar

E do tempo que sobrar

Se o segredo for deixar partir

No sereno do areal

Antes que o apego se apegue ainda mais

Deixo ao tempo a solução

E se encontrares por aí

Quem te faça ser melhor mulher

Aproveita para ser feliz”

Letra e música: Tiago Nacarato

Tony Cassanelli