“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Álbum de Famílias

Crescer numa cidade como Estremoz é um privilégio.

A cidade é pequena e tranquila; a escola da Beatriz fica a 5 minutos de casa; não há trânsito congestionado; o ambiente é familiar em quase todos os sítios que frequentamos e o ritmo de vida é calmo.

O que me vai preocupando é a falta de diversidade, a todos os níveis. Receio que a Beatriz fique com padrões rígidos que lhe limitem os horizontes.

Este livro aborda o conceito de família ou, melhor, de famílias.

A protagonista, justamente chamada de Esperança, tenta descobrir a que corresponde este conceito para cada colega da sua escola e descobre que as respostas são muito diversas.

Há famílias cujos pais não vivem juntos.

Há famílias constituídas por um adulto e uma criança.

Há famílias com duas mães ou dois pais.

Há famílias que fugiram do seu país e são refugiadas.

O álbum prossegue e motiva muitas reflexões acerca dos vários modelos de família. Até que se chega à fórmula final, a única fórmula válida de família: EU+TU NÓS

Livro recomendado por:
– Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos
– Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens
– Grupo Famílias Arco-Íris da Associação ILGA Portugal
– SFRAA/Quinta de S. Miguel – Casa de Acolhimento Temporário


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Planos de Beleza

Ulisses, antes de partir para a Guerra de Tróia, aconselhou-se com Mentor. Pediu-lhe, inclusivamente, para ser o tutor do pequeno Telémaco, durante a ausência do pai.

Não pára de surpreender-me a influência da cultura grega na nossa língua e, por conseguinte, na nossa substância.

valter hugo mãe é o meu mentor.

Fico sempre a reler o que diz nas entrevistas e nas crónicas.

Na revista da livraria Bertrand, dá orientações muito sábias e inspiradoras para a vida.

Revista Bertrand: Com esse superpoder [a poesia], continua a ter a pretensão de salvar o mundo?

valter hugo mãe: Quero, ao menos, não piorar o mundo. […] já entendi que há gente indisponível para ser salva. Aceitar que algumas pessoas optam pelo abismo e votam no abismo é essencial, porque não podemos cultivar o remorso de, nos nossos planos de beleza, não caber toda a gente. Porque não cabe. Então, estou muito interessado em fazer com que o mundo não destrua minha benignidade, minha generosidade, meu compromisso com a verdade e com a esperança. E é desse modo que me apresento perante quem se encontra comigo. Mas sei que outras pessoas vivem a avidez de ver o mundo sangrar, como se sucumbissem a uma vontade de vingança. Não quero permitir que algo me agrida tanto que viva à espera de vingança. Quero estar como útil aos outros, como quem ainda sabe amar, sim […]”

Emma Hardy é inglesa, fotógrafa autodidacta, e segue este lema:

“I photograph with my heart engaged, […]”.

Pronto, é isto:

a frase de Emma, “I live with my heart engaged”, mas com as palavras de vhm na cabeça “no meu plano de beleza, não cabe toda a gente” – duas ideias que não são incompatíveis e que, conciliadas, talvez nos permitam ser mais felizes.


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Para sempre

SILOGISMOS

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.


Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.


A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?


Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.


(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

Vozes, 2011 – Ana Luísa Amaral

Nunca ninguém desvendou o grande mistério que nos espera no final;

é essa ignorância que ofende a sobranceria humana e nos devolve à nossa pequenez.

Mas se houver mais alguma coisa, para além da “vida inteira”, o que sinto por estes pezitos amarelos irá, de certeza, comigo.

“Para sempre!”

Se não houver, não me chegará a “vida inteira” para agradecer por estes nove anos.


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Grandes goles

Fernando Assis Pacheco foi dos primeiros poetas portugueses a tratar o tema da Guerra Colonial na sua obra.

Assumidamente contra a guerra, o poeta acabou por embarcar e ficar marcado pela experiência na frente de batalha (foi, inclusivamente, retirado por motivos psiquiátricos).

Diz o filho que a “guerra nunca saiu dele”.

Ficou-lhe aquela “morrinha”, no viver, como o poeta dizia quando questionado acerca da sua evidente melancolia.

Mas é este homem que, provavelmente por ter conhecido o lado medonho do ser humano, consegue reconhecer o sentimento mais nobre, o Amor.

Esta definição que escreve, no poema “Esta areia fina”, é tão simples e tão plena.

Esta areia fina

Não sei

se o que chamam amor é este apaziguamento.

Não sei se comias fogo. Tuas abelhas

voam agora em círculos tranquilos.

Mães serenam seus filhos no ventre,

não sei se o que enfim chamam

amor é esta areia fina.

.

Agora estamos um dentro do outro,

fazemos longas visitas deslumbradas

porque “o nosso prazer lembra um rio vagaroso

no meio de juncos ao cair da tarde”.

.

As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio

falaríamos melhor de tudo isto.

Não sei se o que chamam amor

é a cama desfeita o sol fugindo,

uma vontade louca de beber

a grandes goles a noite entorpecente.

.

Com o silêncio, o silêncio sem nome:

morrermos a meio do filme

simples, calada, delicadamente.

Eras tu, amor? – Era eu, era eu!

.

Um barco junto à margem. E cegonhas.

***

Imagem: IGNANT (gosto tanto desta fotografia que já a usei…)

O podcast do Expresso, Palavra de Autor, foi uma descoberta recente mas muito feliz. Foi nesta plataforma que ouvi a entrevista ao filho de Fernando Assis Pacheco, João Pacheco.


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Apego

Esta é uma das mais bonitas músicas que ouvi nos últimos tempos: a letra, a melodia, os intérpretes (Tiago Nacarato e Salvador Sobral) e o vídeo (com a participação do pintor Tony Cassanelli).

Uma música que canta a maturidade no querer que eu gostaria de alcançar um dia.

Sentir amor sem posse, numa relação amorosa, talvez seja o ponto mais alto da evolução humana. Sobretudo para nós, latinos, que misturamos tudo com uma intensidade muitas vezes pouco saudável para as duas partes.

A solução não é o desapego: estar apenas pela metade com o outro-

mas é fundamental distinguir apego de posse.

É muito lúcida e madura esta letra de Tiago Nacarato: a ideia de deixar partir quem não que ficar e despedirmo-nos com o voto: se encontrares quem te faça melhor mulher (pessoa), aproveita para ser feliz!

Talvez um dia lá chegue.

Por enquanto ainda estou neste percurso árduo de resolver a cabeça na tentativa de ser melhor mulher, namorada, mãe, filha, irmã, amiga, professora,…

“Mesmo que eu queira mudar

De mim não consigo fugir

Sou feito do vento que sopra devagar

E do tempo que sobrar

Se o segredo for deixar partir

No sereno do areal

Antes que o apego se apegue ainda mais

Deixo ao tempo a solução

E se encontrares por aí

Quem te faça ser melhor mulher

Aproveita para ser feliz”

Letra e música: Tiago Nacarato

Tony Cassanelli


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Older, but Better, but Older

Caroline De Maigre é a convidada de Alexa Chung para uma reflexão divertida sobre a a vida, a passagem do tempo e o inevitável envelhecimento.

Sou fã das duas.

Caroline é exactamente da minha idade e um exemplo de elegância.

A palavra “elegante” sugeriu-me sempre frivolidade, esforço e um estilo clássico com odor a alfazema mas, enfim, com a idade até a forma como assimilamos as palavras se altera.

O meu estilo não é clássico, mas pretendo que transmita alguma elegância. De facto, como diz Caroline, com linhas e rugas na cara, convém que haja alguma coisa alinhada na nossa figura: ou o cabelo ou a maquilhagem ou a roupa que escolhemos. Aparecer em público com t-shirt, jeans, cabelo natural e cara lavada é, decididamente, arriscado!

Outra dica da minha musa: cuidar da pele.

Com graça, Caroline refere o primeiro sinal de alarme que nos deve fazer olhar para a pele imediatamente: quando todos começam a dizer-te que tens um ar cansado, mesmo quando tu não estás cansada, deves ligar o sinal de pânico.

Não é cansaço, é a pele que está baça, mais frágil, e a precisar de cuidados específicos.

Alexa Chung tem 37 anos e é aquela pessoa de quem gostaria de ser amiga: revela muito sentido de humor, é humilde, cordial e não se leva muito a sério.

Apetece caminhar com ela na rua e seguir aquele sorriso.

Para já, encomendei o livro da Caroline, para entrar nesta nova fase da vida com mais humor. É preciso uma dose extra de energia positiva para encarar de ânimo leve o metabolismo a abrandar e a pele a ficar flácida.

Raios!


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Como um oceano

Artur Cruzeiro Seixas é o último surrealista português.

Com 99 anos, continua incrivelmente lúcido e consciente da realidade desta nossa história de sermos humanos. No programa Nada será como Dante, diz-nos que, no final, só o Amor e a Poesia poderão salvar-nos. Bem, revela-se muito consciente do real para um surrealista; correcção – revela-se muito consciente do real para um ser humano.

Neste vídeo, tem 96 anos;

neste, entrevistado para o programa de Pedro Lamares e Filipa Leal, Nada será como Dante, tem 99.

Como um oceano

Tu és meu
pássaro do deserto
cinzento com mil portas
silenciosas e translúcidas.

Tu és meu
a todo o comprimento
do sol
e afogas-me como um oceano.

Artur do Cruzeiro Seixas, Perfecto E. Cuadrado, A Única Real Tradição Viva, Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa

Gideon Rubin nasceu em 1973 em Israel. Vive em Londres e é fascinado por fotografias antigas: os seus quadros são recriações dessas fotografias que ele colecciona. Apesar de não desenhar rostos, acho os quadros absolutamente expressivos e sensuais!


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Década

Janeiro é altura de balanços e, por isso, costuma ser um mês duro e frio.

Ainda que seja optimista, fico sempre focada nos vazios inevitáveis da vida.

No início de 2020, o balanço coloca num dos pratos toda uma década.

Que peso!

Foi, contudo, a década mais intensa, feliz e desafiante da minha vida.

Em 2011, fui mãe e podia nem escrever mais: transformei-me, preenchi a década e o coração.

Nada fica como dantes quando nos irrompe a mogli pela vida.

A partir daí, toda a década se conjugou na primeira pessoa do plural.

Em 2013, mudámos de casa e passámos a viver em Estremoz. Foi difícil.

Demorou até adoptarmos a cidade, mas ajudou o facto de uma de nós ser meio alentejana: a mogli, agora mais crescida e grande companheira de viagens.

Tomo consciência, com ela, de que ainda é necessário educar para o feminismo.

Estou alerta e percebo que o quotidiano nos exige, sem pudores, esforços de super-mulher e que, de facto, o somos, mas de outra forma. Somos super-mulheres quando impomos a nossa vontade, quando dizemos “não”, quando fechamos a cara e quebramos expectativas, pressões e convenções. Sei que o caminho de educar para a autenticidade só está a começar.

Este blog nasceu, em 2013, também porque fui mãe e quis, num determinado momento, documentar o nosso lado luminoso. Entretanto, fomos crescendo (eu, a Beatriz e o blog) e este espaço ganhou muitas outras vertentes. Eu também as adquiri, enquanto mãe e mulher.

Estou mais lúcida e contemplativa, embora continue hesitante e sem perceber algumas encruzilhadas da vida.

Antes dos 40, intrigava-me a melancolia dos mais velhos, quando ficavam muito tempo em silêncio a olhar para o vazio ou a observar uma chama ou uma paisagem. Agora já descobri o que fazem: colocam em ordem os pensamentos e tentam orientar-se numa (cada vez maior) teia interior. Nos dias em que não consigo essa pausa, sinto-me impaciente, esgotada e perdida.

Nem tudo correu bem nesta década, houve perdas pelo caminho.

Perdas profundas e que não resultaram da minha vontade.

Aprendi a dar-me tempo para aceitá-las.

Numa época em que tudo tem de ser rápido e intenso mas superficial, não aceitamos de ânimo leve que sarar feridas demora… Enfim, a triste realidade é que se ignorarmos a dor, corremos o risco de nunca a cicatrizarmos.

Aceitar, sofrer, respirar e avançar é o meu lema. Mas proteger-me também, ao contrário do que me acontecia quando tinha vinte ou trinta anos. Agora, permito-me ter alguns medos, selecciono as lutas e cuido-me, afastando-me de quem me faz mal (ainda que involuntariamente).

Se tudo correr bem, o caminho ainda vai ser longo, com subidas íngremes, mas algumas planícies onde conto descansar bem acompanhada.

Boa jornada e boa sorte para a próxima década!


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Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

Feliz Natal!

Uma ceia florida da ilustradora Maori Sakai!


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Maori Sakai

Todos os anos elejo um ilustrador, mas 2019 escapou-me…

Como é que este ano já está terminar?

A japonesa Maori Sakai nasceu em 1988, estudou em Tóquio e é nesta cidade que reside.

Faz estas animações irresistíveis que eu descobri no IGNANT.

Apetece-me levá-las comigo para todo o lado e atirar uma ou duas para cima dos “azedumes” que nos empalidecem o chacra.