Frasco de Memórias

“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Colecções

É mítico o uso que a minha Avó Jesus dava à Língua Portuguesa.

Conheci pouco a minha Avó Jesus, mas havia sempre uma expressão ou uma palavra cheia de graça.

O meu Pai falou várias vezes em fazer uma antologia com estas expressões que em breve iriam perder-se.

E perderam.

Porque achamos sempre que  “agora não tenho tempo!” e que o mundo vai girar devagarinho à nossa espera.

Não é assim.

Lembrei-me da minha Avó quando li este texto do Professor Rui Bebiano.

cigarro Rui Bebiano

Parece uma extravagância e provavelmente é-o, mas comecei há uns anos a coleccionar palavras a caírem em desuso. Não me refiro às de um arcaísmo patente, já só conservadas em livros, jornais e cartas antigas, mas sim àquelas que ainda são utilizadas e das quais se servem apenas algumas pessoas das gerações mais velhas, membros de determinados agrupamentos políticos ou cidadãos socialmente agregados por certas práticas e rituais. Apenas um exemplo: a palavra «larápio», à qual ninguém recorre agora quando quer nomear o ladrão, pouco me interessa, mas «gatuno», que já só aparece nas imprecações dos estádios de futebol – naturalmente dirigidas ao infeliz árbitro da partida e intercaladas com ofensas à sua progenitora – ou no discurso político da direita e da esquerda mais arcaicas, é um must. Talvez este seja um tique profissional, forçado que estou a seguir, se não se quiser tornar-me críptico para quem me ouve em aulas e seminários, a mudança cada vez mais veloz e ziguezagueante dos vocábulos e dos seus sentidos.

Entretanto iniciei outra colecção. Desta vez a dos gestos que estão a evaporar-se ou deixámos de encontrar no dia-a-dia deste lado de cá do hemisfério norte. A primeira peça da colecção retirei-a de um filme dos anos 50, a preto e branco, visionado ao acaso no YouTube. Ela documenta o hábito cada vez mais proscrito de fumar fazendo desse acto uma parte importante do jogo social: aquele modo único, pouco higiénico mas que funcionava como marca de à-vontade, de estilo, por vezes de provocação, de apagar o cigarro, dentro de um café, no hall do cinema ou numa repartição pública, atirando-o ainda incandescente para o chão e esmagando-o sem piedade com o tacão ou a sola do sapato. Uma marca de macho ou de «mulher da vida» que, se repararem, quase desapareceu do nosso horizonte. Tal como engraxar os sapatos em público, cuspir para o lado sem qualquer aviso, usar um pente no bolso posterior das calças e servir-se dele com regularidade, limpar os ouvidos com o mindinho ou tamborilar com os dedos em cima do balcão do bar enquanto se espera pela cerveja gelada. Espera-me pois uma missão na arqueologia do contemporâneo. Pouco urgente, mas uma missão.


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Dívidas

A T é minha amiga, é minha prima e é uma blog hunter.

Tem um talento invulgar para descobrir blogs imperdíveis que eu não conheço e que nunca viria a conhecer na vida.

São muitos os blogs que partilhamos e, numa altura de tirania antitabágica, fui eu que lhe apresentei a Terceira Noite, do Professor Rui Bebiano.

Identificação imediata!

O Professor Rui Bebiano foi meu professor há… vinte anos (!), na Faculdade de Letras e, por isso, refiro-me ao Professor Rui Bebiano como Professor. Para sempre.

Gostei e recordo-me dos professores do Ensino Secundário, mas foi na Faculdade que nasceu, em mim, o verdadeiro deslumbramento pelo Professor.

Provavelmente, porque foi só nessa altura que tive consciência de tudo o que não sabia sei e que verdadeiramente me maravilhei com o Conhecimento.

E foram vários os professores que me mostraram a inteira dimensão do mundo que eu tenho para descobrir.

No blog, o Professor Rui Bebiano analisa os nossos dias, fala-nos de literatura, cinema, filosofia, política,… do Homem.

E eu continuo a sentar-me na mesa da frente do anfiteatro da FLUC e a escutá-lo.

Dois excertos:

blog Rui Bebiano

A leitura e o futuro

«Enquanto houver livros para ler sei que não terei um momento aborrecido na vida. Só isto basta para lhes dever muito.» Com esta frase, com a qual rematou uma crónica recente sobre livros e livrarias, José Pacheco Pereira lembrou uma atitude que, apesar de viver uma fase de recuo, continua a marcar profundamente a experiência coletiva e a de muitos de nós. Refiro-me à prática da leitura como momento de enriquecimento pessoal, enquanto fator de conhecimento e de prazer, mas também ao seu uso como instrumento de liberdade, devido à capacidade que oferece para treinar a imaginação, abrir possibilidades e ajudar a construir uma consciência crítica do mundo. […]

 

O som do silêncio

Numa crónica publicada em 2003, Manuel António Pina recordava aquela que era, para Walt Withman, a estreita relação entre o autor e quem o lê: «O leitor sabe que, quando é de noite, estamos ambos sós.» Depois de lembrar a afirmação do poeta nova-iorquino, Pina continuava com as próprias palavras: «Só nos livros são possíveis ainda a noite e a solidão, em tempos de holofotes por todos os lados. E quanto os homens precisam de solidão, de se escutar a si mesmos na numerosa voz dos livros! E, em tempos como estes, barulhentos e estridentes, de silêncio!» Pouco mais de uma década depois disto ter sido escrito, o ruído não cessou de aumentar e são cada vez menos os que compreendem a necessidade da leitura imersiva e solitária que nos faça pairar por instantes na cápsula do tempo. Permitindo, como no intervalo de uma competição desportiva ou de uma tarefa difícil, que ganhemos força para prosseguir a jornada. Para não perdermos o norte enquanto tudo em redor acelera. Para não nos deixarmos cegar frente ao excesso de luz. Para que a razão não soçobre perante a estridência, deixando à solta o pior de nós.

E agora vou desligar esta luz e vou ler.

Porque não posso perder o norte.

Porque não quero cegar.

Porque não quero deixar à solta o pior de mim.