“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Criaturas das crateras

Em 1998, José Saramago discursou perante os membros da Academia Sueca acerca das incongruências do ser humano.
Afrontava-o o júbilo em que se vivia por se ter colocado uma sonda em Marte, quando em Terra tínhamos o caos e a fome. Não me lembro se citava especificamente o caso de África ou de outro continente.

Houve quem o acusasse de não valorizar a ciência.

Houve quem ficasse incomodado.

Houve quem não o compreendesse.

Quinze anos mais tarde, leio, no Público, que se inscreveram 150000 pessoas, para 24 vagas, num projecto que pretende iniciar a colonização do planeta Marte.
Um projecto de seis biliões de dólares (o que quer que isso seja)…

E voltei às palavras de Saramago. Cada vez mais sábias.

Razões para querer sair da Terra não faltam… mas o que motiva estas 150000 pessoas?

E os financiadores do projecto?

Tal como Vítor Belanciano, do Público, fiquei espantada:
“Estranho mundo onde os audaciosos são os que idealizam paraísos distantes, parecendo acreditar na fundação de sociedades sem conflitos, como nunca existiu, nem existirá. Enquanto quem deseja transformar a realidade mais premente, aqui e agora, com a consciência de que onde há pessoas haverá sempre tensões, mas também a possibilidade de justiça, da equidade e da promoção de novas ideias, é relegado para a posição de desejar o impossível.”

Vítor Belanciano (Público, 1 de Setembro de 2013)

A propósito, as inscrições para habitar Marte terminaram a 31 de Agosto.

Eu prefiro conviver com estas criaturas das crateras.

Não devem ser muito diferentes e estes bichos são muito mais divertidos do que os 24 que partem na nave espacial.

E já foram domesticados pela Beatriz.

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Milagres

Encontrei esta definição de livro, de Carl Sagan, no blog Tempo Contado, de Rentes de Carvalho.

Passei a acreditar em milagres.

O livro

Carl Sagan[1]

”Coisa impressionante, o livro. Um objecto achatado, extraído de uma árvore, com partes flexíveis onde se encontra impressa uma quantidade de curiosos rabiscos negros. Mas uma olhadela que lhe dês basta para que penetres noutra mente, talvez a de alguém que há milhares de anos faleceu. Claramente, silenciosamente, através dos milénios, dentro da tua cabeça um autor dirige-se a ti. A escrita é talvez a maior das invenções humanas, unindo gente que nunca se conheceu, cidadãos de épocas remotas. Os livros quebram as algemas do tempo. Um livro é prova de que os humanos são capazes de fazer milagres”- Carl Sagan

O post está aqui.


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Tempo Contado

A T é minha amiga, é minha prima e é uma blog hunter.

Tem um talento invulgar para descobrir blogs imperdíveis que eu não conheço e que nunca viria a conhecer na vida.

Rentes de Carvalho é um dos seus escritores de eleição.

A senhora da fotografia não é a T, mas há muito tempo eu disse-lhe que era.

Faltava-lhe a Ernestina.

Agora já não.

Rentes de Carvalho vive na Holanda desde 1956 e, como alguns escritores do passado, conseguiu o distanciamento e o engenho necessários para ver-nos como somos.

Também faz parte do blog Tempo Contado esse retrato que preferíamos ignorar.

O blog atracou a 1 de Setembro, mas talvez não seja a despedida.

A hora de mudança

A APC 2[2]

Por ter passado da idade e gostar doutros entreténs, desculpa a todos, mas a televisão que vejo é pouca, em geral ao acaso do almoço no restaurante, onde sabiamente a entronizaram.
Fabriqueta de ilusões e pseudonotícias, trégua para casais desavindos, passatempo dos solitários, deita-se-lhe um olhar e a atenção fugaz regista mais um crime, outro acidente com carros em frangalhos, o assalto ao idoso, o fogo, a inundação.
Repete-se a garfada, mastiga-se, bebe-se um gole. O fogo continua a arder, o idoso a queixar-se, a inundação a subir. Nos minutos de futebol há um recolhimento de fiéis na igreja, que logo diminui à mostra dos políticos a debater no parlamento.
Para mim o momento de adiar a sobremesa. Porque aquilo é teatro, muito mau teatro, com gestos, carantonhas, remoques que num salão de festas poriam a assistência aos urros e às patadas.
Teatro do absurdo, mas por isso mesmo de excepção e valor, pois eles nos representam, neles delegámos. Sem interesse o que gritam, inconsequente o que barafustam, fingidas as raivas, roscofe as concordâncias e oposições, contudo é naquele triste espectáculo que nos deveríamos rever e interrogarmo-nos porque aceitamos ser assim, e porque razão tarda a hora de mudança.

Este post está aqui.

Os  agentes da mudança estão aÍ.

E aqui.

(Um pedido de desculpa à autora da fotografia a quem roubei a identidade: já não consegui localizar a origem nem a protagonista.)