“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


5 comentários

Missiva do Brasil

A Lunna escreveu-me uma missiva!

E eu tinha de partilhá-la!

Caríssima A.,

 

…por vezes atravesso o oceano apenas para me sentar numa dessas mesas bem

merecidas, de frente para as paisagens de teu sítio. Vejo pouco e ouço muito…

sou uma dessas figuras em que vigora a saudade, embora essa palavra, para

mim, tenha um sabor estranho, algo como café frio. Aprendi a dizer “me machi

que quer dizer “sinto sua falta” ou “gostaria de sua presença”.

                                                                                                                                                                                              .

A palavra saudade, no entanto, parece ir na contramão disso… no Brasil,

a maioria dos cemitérios se chamam “saudade”— nada tenho eu contra esses

espaços urbanos reservados para os mortos — mas é como se o sentimento por

trás dessa combinação de consoantes e vogais se reservasse apenas aos mortos

e, não para os vivos.

                                                                                                                                                                                            .

…sinto falta de muitas coisas — e quando leio seus escritos, mergulho no fundo

de minha anatomia: esse baú de perdidas chaves… e reviro tudo! Espalho todas

as minhas coisas por sobre a cama, tocando o passado como se fosse uma caixa

de sapato guardada em baixo da cama.

                                                                                                                                                                                                         .

Eu tive uma infância agridoce… povoada por alegrias e tristezas, creio que seja

assim para a maioria de nós. Eu não me lembro de todos os momentos, mas há

um punhado de coisas que a minha memória mantêm intacta: o primeiro dia

de aula está lá, em segurança… e acena com o desconforto de quem estava

acostumada a existir entre meia dúzia de pessoas: todas iguais e conhecidas.

E ficou emburrada por ter que deixar o ambiente confortável do quarto para

frequentar — diariamente — uma sala de aula, onde vinte e duas crianças

tentavam aprender o alfabeto e depois a combinar as consoantes e vogais.

Foi qualquer coisa aborrecida para uma criança que já sabia escrever um belo

punhado de palavras. Os passeios pelas carrugi nas manhãs de domingo

também tem seu espaço assegurado… eu tinha lindas botas vermelhas para os dias

de chuva e como adorava usá-las… pedia por chuvas a semana inteira.

Com ela nos pés, eu podia pisar poças e fazer minha própria algazarra, imitando

os pássaros em meu quintal. C., achava graça dos olhares assustados das outras

mães que pedia as filhas para se comportarem feitos meninas e não feito

moleques. Ela nunca me repreendeu, nem mesmo quando as botas ficavam

cobertas por lama… também me recordo o dia em que ganhei meu primeiro

livro de poesias. Um belo exemplar artesanal — comprado em um sebo — com

capa verde musgo e páginas amareladas. Emily Dickinson… em inglês, idioma

que eu ainda não dominava e passei a aprender com ela nas noites de terça e quinta…

                                                                                                                                                                                                            .

…mas existem muitas coisas perdidas cá dentro de mim — vez ou outra

uma foge e se precipita, como as famosas chuvas de maio a gritar seus trovões — como se a minha matéria

quisesse valer a afirmação que fiz ainda na infância: “eu sou toda tempestade

com a qual C. assentiu com seu sorriso primaveril.

                                                                                                                                                                                                            .

abraço-te… ritorno a casa e, vou a cozinha combinar ingredientes,

venha mais tarde provar um pão de ervas.

L.

 

roma

Para além do encanto que senti em ser a receptora de uma carta

(como é que é possível que tenhamos permitido que esse hábito se tenha perdido?),

fiquei a reler a carta:

a reflectir sobre a nossa “saudade”,

a ver a Lunna pequenina a saltar com as botinhas vermelhas,

a descobrir a Literatura

e a sentir o seu abraço com cheiro de pão de ervas!

Obrigada, Lunna!

Bacio!

 

Imagem do país que testemunhou a infância de Lunna retirada daqui.

 

 


5 comentários

Estações

A Lunna tinha avisado: o serviço de correio entre os nossos dois continentes é terrível.

Eu pensei que era uma força de expressão…

Até que ganhei o passatempo do projecto Scenarium cujo prémio era um livro da Lunna!

Fiquei à espera.

Duas semanas, três… um mês.

Nada.

Foram precisas seis semanas!

Até chegarem salvos.

encomenda posta Lunna Guedes

Imaginei a viagem tempestuosa pelo Atlântico… até chegarem a este porto alentejano.

2 livros de Lunna Guedes

Valeu a pena a espera:

“O tempo não é um objeto traiçoeiro como muitos gostam de

dizer por aí. O tempo é um maestro e seus acordes são

perfeitos – mesmo sendo circulares e repetitivos.

Eu me lembro que na infância o som do velho carrilhão na

sala da casa do nono me assustava porque quando ele

ressoava pelos cantos, a casa inteira “cantava” com ele. E

nos dias de chuva, eu ficava em frente a ele, olhando-o

atentamente. Acompanhava seus ponteiros – completamente

hipnotizada. […]

E hoje o único tempo que me agrada é o tempo que encontro

nas poesias desses senhores-homens-mulheres-poetas que

leio. É um tempo fatiado feito pão de forma e eu recheio com

o que melhor me apetece.”

in Reticências, Lunna Guedes

 

Obrigada pelas palavras!

E pelas dedicatórias!

Bacio!

 


12 comentários

Coqueiro

Gosto de palavras.

De escutar, de escrever, de ler palavras.

De observar, de conhecer, de estudar, de sentir e de pronunciar palavras.

Palavras de poetas, de escritores, de cantores, de pintores e de músicos das palavras.

Palavras de Portugueses e de Brasileiros.

 

Da Helka, da Lunna .

 

E do “coqueiro vegetal” de Sophia.

 

Gosto de ouvir o português do Brasil

Onde as palavras recuperam sua substância total

Concretas como frutos nítidas como pássaros

Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas

Sem sequer perder um quinto de vogal

 

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal.

 

De palavras dos nortenhos, dos alentejanos, dos beirões e dos ilhéus.

mão da Beatriz bebé

 

Para minha alegria, a Beatriz anda deslumbrada com as letras e com as palavras.

E, tal como me acontece com Mia Couto ou Mário de Carvalho, deixo-me levar por esta mão pequenina e olho pela primeira vez para algumas palavras.

“Pirolito”, “carrapiço”, “finório”, “solipampa”, “perdão” e “parolo” ou os nomes medievais que o Avô sugeriu para a neta: Urraca e Hermengarda.

-Mamã, estas palavras fazem cócegas!