“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Colhi este poema

No meu pátio, há várias roseiras antigas plantadas pela minha Avó Rosa.

Algumas de que gosto muito, outras cujas cores não me fascinam.

Umas e outras passam parte dos seus dias em copos, frascos e jarras cá em casa.

Reconciliei-me com estas rosas pálidas quando li “Arte Poética com citação de Hölderlin“, de Nuno Júdice.

Afinal, estas rosas encerram um poema!

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O poema lírico nasceu de uma roseira. Não

digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos

olham, primeiro que tudo, pensando

em cortá-la para a levarem consigo. É

a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida,

vestida com a substância da terra:

a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por

acaso, e ela agarra, como se tivesse

mãos abstractas por dentro das suas folhas./

Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,

como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio

de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher

que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva

dos lagos, os veios subterrâneos das humidades

ancestrais, e abriu-se como o ventre da

própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,

num barco tão fundo como a sua própria

morte./
Abracei esse poema. Estendi-o na areia

das margens, tapando a sua nudez com os ramos

de arbustos  fluviais. Arranquei os botões

que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor

verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe

que me falasse, como se ele só ainda soubesse

as últimas palavras do amor.
(Metáfora contínua de um único sentimento)

A Fonte da Vida