“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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o apocalipse dos trabalhadores

 

“de noite, a maria da graça sonhava que às portas

do céu se vendiam souvenirs da vida na terra. gente de

palavras garridas que chamava a sua atenção com os bra-

ços no ar, como quem tinha peixe fresco, juntava-se em

redor da sua alma e despachava por bagatelas as coisas mais

passíveis de suprir uma grande falta aos que morriam. […]

por uma compreensível angústia, ansiedade ou frenesi de ali estar tão

pela primeira vez, mantinha a esperança de que talvez são

pedro a esclarecesse e, com um pé lá dentro e outro ainda

fora, lhe fosse possível comprar o requiem de Mozart, a

reprodução dos frescos de goya ou a edição francesa das

raparigas em flor.”

 

Livros vhm afonso cruz mario de carvalho

 

Começa desta forma insólita e surpreendente o livro de valter hugo mãe.

Com o sonho recorrente de Maria da Graça no Purgatório.

Maria da Graça e Quitéria são mulheres-a-dias e eu passei as primeiras páginas num desconforto e num preconceito superior àquele que gostaria de admitir.

Os diálogos que estas personagens travam, enquanto estendem a roupa, apesar de muito humorados, pareceram-me desinteressantes.

Foi preciso o senhor Ferreira (o patrão de Maria da Graça) morrer.

Apareceram-me, então, estas mulheres e as suas dores.

Surgiram-me lições de Humildade e de Humanidade.

Com muito humor, mas com crueza, senti a solidão, a dificuldade da Vida,

a luta do dia-a-dia de todos Nós que partilhamos a maravilha e a tortura de sermos Humanos.

 

E vi o que nos pode salvar:

o Amor, a Arte e as Ideias.

 

“[…] abraçou-se àquela mulher numa convulsão tão grata que lhe sentiu

amor como apenas aos pais sentira. um outro amor, mas

igualmente absoluto e votado à eternidade. dizia-lhe,

obrigado, quitéria, muito obrigado. e ela desfazia-se em

coração e não imaginara nunca que aquele gesto poderia

ser o mais mudador de toda a sua vida. aceitou aquele

abraço pelo lado mais interior do amor, rasgando com

o passado a costumeira ferocidade. naquele instante,

a  quitéria acreditou que descobrira o mais inatingível da

existência. agarrou-se ao andriy e agradeceu-lhe como

pôde pela oportunidade única de se humanizar daquela

maneira e percebeu a inteligência mais secreta de todas.

esta é a inteligência mais secreta de todas, o amor.”

 

Já gostava de ouvir vhm; sinto-me tocada pelas suas palavras – precisas, nuas, verdadeiras.

Senti o mesmo ao ler este livro.

 

“[…] quando bebeu o primeiro gole de vinho julgou

que a  vida, se fosse justa, poderia ser feita daquilo e de

mais nada. ao inventar as coisas, quem inventara, deveria

ter-se ficado por aquilo, um vinho, uma amizade sincera,

o calor magnífico do fim da tarde, a paisagem mais bela

de todas. era tão fácil inventar só aquilo e com aquilo

garantir com segurança que as pessoas do mundo inteiro

seriam felizes.”

 

blog mimithorisson

A última imagem é do blog de Mimi Thorisson.