“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Histórias da Língua

Quando tinha 20 anos tinha a arrogância… dos 20 anos:

muitas certezas e a consequente altivez, inclusivamente em relação à nossa Língua.

Vivia na Figueira da Foz, estudava na Faculdade de Letras de Coimbra, portanto “falar bem” eu sabia…

Aos 22 anos, fui viver para o Alentejo profundo e aprendi que o meu conhecimento da Língua era muito pobre.

A riqueza de uma Língua reside na sua diversidade e eu, desse ponto de vista, era uma ignorante…

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Passei a fixar pronúncias e a encantar-me com a melodia de cada região.

Observei o que tinha estudado na cadeira de História da Língua: eu tenho uma pronúncia que é circunstancialmente valorizada, tendo em conta o contexto social, político e até económico em que vivemos.

Uma pronúncia tão valorizada que é designada como língua padrão, mas sem os juízos valorativos que os falantes (de Coimbra e Lisboa, sobretudo!) lhe pretendem dar.

Aliás, quando a corte estava instalada a Norte, adivinham qual era a norma padrão?

É pelo facto de ser tudo tão circunstancial que me arrepio quando ouço alguém ridicularizar a pronúncia do outro.

É um comportamento que, para além de revelar falta de educação, evidencia um profundo desconhecimento da História da nossa Língua.

Fico ainda mais envergonhada quando estas atitudes vêm de pessoas com formação e que chegam ao Alentejo com a tal sobranceria que eu tinha aos 20!

Para além do contexto histórico que referi, fico muito feliz por não estarmos padronizados.

Gosto especialmente de regionalismos, arcaísmos e neologismos;

todas as variedades que revelem que a nossa língua está viva, dinâmica e cheia de saúde.

v.h.m. diz mesmo que, por vezes, usa nos seus livros neologismos, palavras de outras línguas que ele “aportuguesa” e que, por serem tão expressivas, não impedem a sua compreensão.

E que dizer então de Mia Couto ♥

Imagem de Joana Rosa Bragança.