“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Fome

Durante três décadas vivi convencida de que herdara o metabolismo do meu pai: era magra.

Engravidei, engordei, emagreci… sem esforço.

Até que, num ano de muitas mudanças e adaptações, engordei e não emagreci, ao contrário do que sempre acontecera.

O que me engordou?

Obviamente, as quantidades de comida, superiores ao meu hábito.

E por que razão comia?

Porque tinha fome.

E por que razão tinha mais fome do que o normal?

Porque, à velocidade em que andava, o meu sensor de saciedade encontrava-se desligado.

 

Tive de parar e reflectir: aprendi mais sobre mim e conheci o meu corpo e a minha mente.

Quando estou cansada procuro a comida.

Quando estou insegura procuro a comida.

Quando estou ansiosa procuro a comida.

Quando me sinto em stress procuro a comida.

 

Penso que é uma forma primitiva de compensação:

de mostrar a mim própria que vou sobreviver; ou que estou a ter o gesto primordial para sobreviver: alimentando-me.

Tenho-me observado e tenho observado muitas mulheres com excesso de peso:

mães, profissionais, donas de casa, que andam a grande velocidade, cansadas e sem tempo para olhar para elas.

Porque querem ser perfeitas e, se for preciso, são as últimas da lista.

 

É verdade que não reagimos todos da mesma maneira,

algumas pessoas conseguem deixar o que não interessa e conseguem equilibrar-se bem;

outras refugiam-se num outro vício que não é o açúcar.

No meu caso, o diagnóstico está feito e é um princípio.

Sinto que, a partir de agora, a minha relação com a comida não vai voltar a ser a mesma e será sempre uma luta em busca de equilíbrio.

Perdi quatro quilos, mas o fundamental é que sinto que controlo o que estava descontrolado.

Mais importante do que perder ou ganhar quilos é sentirmo-nos tranquilas.

E eu ganho peso quando não estou em equilíbrio e isso é mesmo o mais grave.

A anatomia do apetite FJS.jpg

Também descobri que caminhar e correr (uns minutinhos) me acalma muito.

Faz com que chegue a casa mais tarde é certo, mas “revitalizada”, dizem os olhos que me vêem entrar.

O que me permite ser uma melhor pessoa e, consequentemente, melhor mãe.

Companheiros para esta caminhada: artigos como este.

A imagem é do mesmo blog.


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Nível II

Habituei-me a fazer balanços em Dezembro e Agosto.

Dezembro, por causa do calendário.

Agosto, porque finalmente tenho tempo para reflectir… e porque o Mar ajuda ao reencontro.

Nos últimos oito meses, engordei 6 quilos.

Não gostei.

lata farinha maisena

Há sempre muitas desculpas:

-Foram as mudanças.

-No Alentejo, é impossível não provar muitos petiscos.

-Já foste mãe.

-Estás com outra idade.

Todos estes motivos contribuíram, mas a verdadeira razão estava em mim.

Obriguei-me a um ritmo que não é razoável.

Deixei de ter tempo para os meus amigos e deixei de ter tempo para quem dele mais precisa: Eu.

Como abafava a frustração de estar a falhar como minha melhor amiga?

Compensava-me, permitindo-me desfrutar de um prazer primordial e imediato: a comida.

 

Tive de parar para chegar a esta conclusão.

Tenho de abrandar para conseguir controlar um gesto da mais pura sobrevivência física: alimentar-me.

E para investir em muitos gestos de sobrevivência metafísica.

 

Não foi fácil escrever este post; mas nem sempre a vida é “leve”:

precisei de me confrontar com o que estava a acontecer e o blog é minha testemunha.

 

(Esta lata Farinha Maisena guardava os chocolates na minha casinha pequena: mudou-se para a casa grande;

qualquer leitura subliminar não é pura coincidência.)