“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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Velha

-Está velha!

Como é que um adjectivo que descreve um estado pode ter esta carga pejorativa?

 

“Velha”  surge como pouco cativante, enrugada e pouco (ou nada!) sedutora.

A culpa é da “sociedade em que vivemos”… que é a resposta mais fácil, mas não a única.

De facto, vivemos rodeados de imagens de perfeição onde foram apagadas rugas, gorduras, manchas e sinais… aliás, para sermos sinceros, foram apagadas as mulheres (e homens) com mais de 50 anos.

Eliminados das séries, filmes, revistas e até da publicidade, a não ser para vender cálcio ou aparelhos auditivos.

Esta estratégia de eliminação dos mais velhos é ainda mais cruel para as mulheres:

querem convencer-nos de que a nossa feminilidade diminui à medida que o corpo perde as formas da juventude.

Como se a idade nos assexualizasse.

Ou como se a sensualidade só estivesse presente em corpos angulosos, estrategicamente intumescidos e esticados.

Se a irreverência e insubmissão acompanharem a idade ainda nos arriscamos ao cognome de “velha gaiteira”… que é, basicamente, o que eu quero ser quando for grande!

Andava nestas reflexões quando li o texto de Ana Alexandra Carvalheira.

“[…] a sexualidade [é encarada pela sociedade] como um privilégio exclusivo da juventude, ou seja,

a sexualidade é para pessoas jovens, atraentes e saudáveis. Somos bombardeados pela comunicação

social com imagens sexuais que sempre representam pessoas jovens, energéticas, atraentes e magras

ou atléticas. E estas representações já não são a realidade a partir de uma idade muito anterior aos

60 anos! Muito antes de se chegar à idade sénior, homens e mulheres começam a sentir que já não são

fisicamente atraentes, o que perturba o interesse e a receptividade para o sexo. Sobretudo as mulheres,

muito mais ameaçadas por tais exigências para manter determinados padrões de beleza física. E é agora

o momento de falar no duplo padrão do envelhecimento. Isto significa que, na mulher, impõe-se a

exigência dum corpo atractivo, e no homem, são valorizados o estatuto e os recursos sociais, intelectuais

e económicos, sobretudo. E assim, há uma assimetria erótica muito injusta para as mulheres e

favorecedora dos homens. As mulheres, tendo mais plasticidade erótica, são menos afectadas no seu

erotismo pelo abdómen proeminente do parceiro, pela cor branca do cabelo ou mesmo pela falta deste.

Pelo contrário, os homens não erotizam o cabelo branco das mulheres nem a gordura abdominal ou a

falta de tonicidade da pele. Uma prova da persistência deste duplo padrão, é a admiração gerada pela

idade da esposa do Presidente Francês, Emmanuel Macron, recentemente eleito. Como pode um homem

tão jovem e atraente estar casado com uma mulher 24 anos mais velha do que ele. Pois é, se fosse ao

contrário, ela muito mais jovem do que ele, ninguém diria nada. É completamente ainda verdade a

afirmação de Susan Sontag em 1975:

“Um homem, inclusive um homem feio, mantém-se sexualmente elegível até ter uma idade avançada.

É um parceiro aceitável para uma mulher jovem e atraente. As mulheres, tornam-se inelegíveis numa

idade muito mais jovem. Assim, para a maior parte das mulheres, o envelhecimento constitui um

humilhante processo de desqualificação sexual.”

Triste esta ser ainda uma ideia generalizada em 2017!