Frasco de Memórias

“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).


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KO

Quem já veio a minha casa sabe que eu não tenho televisão; e que encerrei a televisão da minha Avó Rosa num canto escuro do sótão.

No entanto, às vezes, tenho o azar de ser atingida por uma televisão alheia.

Por momentos, fico hipnotizada por quem julga ser dono da verdade e fala de forma tão convincente que (quase) todos julgam que ele, por poder divino, transmite mesmo a verdade.

Rentes de Carvalho, no blog Tempo Contado, fala deste triste fenómeno:

Adivinhos

microfoon[1]

Em bruxas só os simples acreditam, e as pitonisas vivem escondidas na Mitologia, mas muito se lhes assemelham os comentadores políticos.

Inchados e fátuos, como se tudo soubessem e adivinhassem o resto lendo nos astros, explicam-nos eles o que o presidente tem na ideia, o que os ministros preparavam mas esqueceram, o que presidente Obama devia ter dito à chanceler da Alemanha, o que a Rússia anda a conversar com a China. Entoaram loas ao engrandecimento e enriquecimento do Brasil, dizem agora que há muito sabiam as razões porque nele seriam abaladas a “Ordem e Progresso”.
Aborrecida, cansativa gente, a papaguear horas, convencida de estar no segredo dos deuses. E então as vozes. Umas de tom paternalista, outras em modo de homilia, algumas severas, a avisar que a posse da verdade não admite discordâncias nem oposições.
Por hábito antigo acordo às seis e ligo o rádio. Esta manhã, às seis e meia estava KO e desliguei, enfartado para o resto do dia, moído de crises, revoluções e adivinhos.
O post está aqui.
Os adivinhos calam-se se premirmos o off.


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Milagres

Encontrei esta definição de livro, de Carl Sagan, no blog Tempo Contado, de Rentes de Carvalho.

Passei a acreditar em milagres.

O livro

Carl Sagan[1]

”Coisa impressionante, o livro. Um objecto achatado, extraído de uma árvore, com partes flexíveis onde se encontra impressa uma quantidade de curiosos rabiscos negros. Mas uma olhadela que lhe dês basta para que penetres noutra mente, talvez a de alguém que há milhares de anos faleceu. Claramente, silenciosamente, através dos milénios, dentro da tua cabeça um autor dirige-se a ti. A escrita é talvez a maior das invenções humanas, unindo gente que nunca se conheceu, cidadãos de épocas remotas. Os livros quebram as algemas do tempo. Um livro é prova de que os humanos são capazes de fazer milagres”- Carl Sagan

O post está aqui.


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Tempo Contado

A T é minha amiga, é minha prima e é uma blog hunter.

Tem um talento invulgar para descobrir blogs imperdíveis que eu não conheço e que nunca viria a conhecer na vida.

Rentes de Carvalho é um dos seus escritores de eleição.

A senhora da fotografia não é a T, mas há muito tempo eu disse-lhe que era.

Faltava-lhe a Ernestina.

Agora já não.

Rentes de Carvalho vive na Holanda desde 1956 e, como alguns escritores do passado, conseguiu o distanciamento e o engenho necessários para ver-nos como somos.

Também faz parte do blog Tempo Contado esse retrato que preferíamos ignorar.

O blog atracou a 1 de Setembro, mas talvez não seja a despedida.

A hora de mudança

A APC 2[2]

Por ter passado da idade e gostar doutros entreténs, desculpa a todos, mas a televisão que vejo é pouca, em geral ao acaso do almoço no restaurante, onde sabiamente a entronizaram.
Fabriqueta de ilusões e pseudonotícias, trégua para casais desavindos, passatempo dos solitários, deita-se-lhe um olhar e a atenção fugaz regista mais um crime, outro acidente com carros em frangalhos, o assalto ao idoso, o fogo, a inundação.
Repete-se a garfada, mastiga-se, bebe-se um gole. O fogo continua a arder, o idoso a queixar-se, a inundação a subir. Nos minutos de futebol há um recolhimento de fiéis na igreja, que logo diminui à mostra dos políticos a debater no parlamento.
Para mim o momento de adiar a sobremesa. Porque aquilo é teatro, muito mau teatro, com gestos, carantonhas, remoques que num salão de festas poriam a assistência aos urros e às patadas.
Teatro do absurdo, mas por isso mesmo de excepção e valor, pois eles nos representam, neles delegámos. Sem interesse o que gritam, inconsequente o que barafustam, fingidas as raivas, roscofe as concordâncias e oposições, contudo é naquele triste espectáculo que nos deveríamos rever e interrogarmo-nos porque aceitamos ser assim, e porque razão tarda a hora de mudança.

Este post está aqui.

Os  agentes da mudança estão aÍ.

E aqui.

(Um pedido de desculpa à autora da fotografia a quem roubei a identidade: já não consegui localizar a origem nem a protagonista.)