“Le souvenir est le parfum de l´âme” – (George Sand).

Nuvens em pé

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Finalmente, estamos a recuperar o espaço público.

Que bom que é ver os outros, sentir, cheirar, tocar, concordar, discordar, intervir, ouvir, observar, seguir, calar, e guardar tudo no fim.

Sempre precisei de silêncio e solidão e não tinha consciência de que me fazia falta a sensação de “fazer parte de”.

Basta sair de casa, observar ou ouvir uma conversa para que os outros me acrescentem.

Integro ou rejeito a diferença, mas reflito e cresço.

Talvez o sentido de comunidade também se desenvolva assim e nem precise de intervenções públicas estrepitosas.

Perante a forçada ausência do novo, devo uma parte da minha sanidade mental aos podcasts que fui/vou ouvindo, nomeadamente “O Poema ensina a Cair”, da autoria de Raquel Marinho.

Um dos últimos que ouvi teve como convidado Vicente Alves do Ó. Foram duas horas de conversa que me acompanharam e acenderam vários dias. Para além da obra, o realizador é um excelente contador de histórias e, através dele, conheci a poeta Cláudia R. Sampaio.

As redes sociais são enjoativas, mas gosto da ideia de comunidade virtual: ao longo destes meses, fui reunindo à minha volta vários nomes que me preenchem, de forma sublime, o pensamento.

Este poema da Cláudia R. Sampaio ainda me ilumina os dias.

Tragam-me um homem que me levante

com os olhos

que em mim deposite o fim da tragédia

com a graça de um balão acabado de encher

tragam-me um homem que venha em baldes,

solto e líquido para se misturar em mim

com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se

leve, leve, um principiante de pássaro

tragam-me um homem que me ame em círculos

que me ame em medos, que me ame em risos

que me ame em autocarros de roda no precipício

e me devolva as olheiras em gratidão de

estarmos vivos

um homem homem, um homem criança

um homem mulher

um homem florido de noites nos cabelos

um homem aquático em lume e inteiro

um homem casa, um homem inverno

um homem com boca de crepúsculo inclinado

de coração prefácio à espera de ser escrito

tragam-me um homem que me queira em mim

que eu erga em hemisférios e espalhe e cante

um homem mundo onde me possa perder

e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos

atirando-me à ilusão de sermos duas

novíssimas nuvens em pé.

in Ver no Escuro, Tinta da China.

O fotógrafo Vitorino Coragem tirou estas fotografias à poeta e eu trouxe-as daqui.

Autor: Frasco de Memórias

http://frascodememorias.com

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